quarta-feira, 27 de dezembro de 2000

Padre Cícero na Globo News



Assista aqui ao programa "Almanaque", da Globo News, sobre Padre Cícero, apresentado originalmente neste sábado, 26 de dezembro de 2009. Um bate-papo informal e agradável com a repórter Mônica Sanches. Confira abaixo:


sábado, 9 de dezembro de 2000

Estadão: "Vigorosa obra literária"



"Cícero Romão Batista é objeto de uma vigorosa obra literária. O livro, envolvente e detalhista, já entrou nas listas dos mais vendidos deste final de ano e seu ritmo chamou a atenção do cinema. A produtora brasileira RT/features comprou os direitos para a tela grande, e o diretor será Sérgio Machado (de Cidade Baixa). A obra chega em momento chave do processo de reabilitação histórico-eclesial do padre pelo Vaticano, conforme afirmou ao Estado o bispo italiano Fernando Panico, da Diocese do Crato."

Leia matéria completa clicando aqui.

domingo, 7 de maio de 2000

Uma entrevista com José de Alencar*

*Texto publicado originalmente na revista Aventuras na História, na seção "Entrevista com gente morta".

Ousado na literatura e conservador na política, José de Alencar não gosta de falar sobre si mesmo. Um mês antes de morrer, ele recebeu nosso repórter para uma áspera e breve conversa

Bem que me avisaram que ele era um sujeito de poucos amigos. Mas quando me dirigi ao número 50 da rua Guanabara, no Rio de Janeiro, tinha sinceras esperanças de colher, da boca do próprio José de Alencar, informações inéditas para o livro que estava escrevendo sobre ele. Dona Georgiana, esposa do grande escritor romântico brasileiro, já me advertira que o marido não estava muito à vontade com essa história de ser retratado em uma biografia. Mesmo assim, insisti em bater-lhe à porta, naquela tarde de novembro de 1877. O autor de O Guarani sequer convidou-me a entrar: recebeu-me no jardim de casa, vestindo negro da cabeça aos pés. Durante alguns segundos, hesitei antes de lhe estender a mão, amedrontado pela conhecida tuberculose que o consumia há meses. Alencar encarou toda a entrevista como uma ferrenha contenda. Morreria um mês depois, aos 49 anos, sem ver meu livro publicado – o que certamente me poupou de ser, novamente, vítima de sua virulência.

Aventuras na HistóriaO senhor é filho de um padre. Mesmo depois de violar o voto de castidade, seu pai continuou exercendo o sacerdócio. Esse estigma contribuiu para que o senhor fosse uma criança tímida, que encontrou nos livros o refúgio contra os que zombavam dessa nódoa familiar?
José de Alencar – Meu rapaz, advirto-lhe desde já que a vida privada carece da penumbra e do recato. Posso assegurar, apesar disso, que não receio de modo algum que a devassem. Não encontrarão nela nada que me desonre. Não admito, porém, que se lancem palavras vãs contra um dos mais nobres caráteres que este país já produziu: meu pai, o grande senador Alencar.

AH - Apenas queria saber o quanto essa circunstância familiar contribuiu para a formação de sua personalidade...
JA - Realmente, há na existência dos escritores fatos comuns, do viver cotidiano, que todavia exercem uma influência notável em seu futuro e imprimem em suas obras o cunho individual. Mas não é esse o caso. Deixemos de bisbilhotices biográficas. Passemos logo à próxima pergunta.

AH - O senhor nasceu em uma família de revolucionários. Não considera uma espécie de traição histórica sua militância no Partido Conservador?
JA - De fato, tive como berço o mais puro liberalismo brasileiro. Minha infância política, também é verdade, foi liberal. O sentimento não mudou, mas a razão se esclareceu. Outrora, liberdade para mim era a eletricidade da multidão. Hoje considero a verdadeira liberdade a felicidade calma e tranqüila do povo. Pensando bem, considero-me bem mais liberal do que o senhor, que me recusa o direito de pertencer a um partido porque este não foi o partido de meus antepassados. Ao contrário do que deve ocorrer com o nobre repórter, não admito a herança de convicções.

AH - Na tribuna da Câmara dos Deputados, o senhor sempre se distinguiu por condenar as propostas para a libertação dos escravos. Não acha que os negros merecem ser livres, iguais àqueles que nasceram com a pele branca?
JA - Não posso, de modo algum, apoiar uma política que tende a precipitar uma revolução social. É uma questão de princípios: sou a favor da evolução, nunca da revolução. Não basta dizer à criatura: “Tu és livre, vai, percorre os campos como uma besta fera!” Não, meu caro, é preciso esclarecer a inteligência embotada, elevar a consciência humilhada, para que um dia, no momento de conceder-lhe a liberdade, possamos dizer: “Vós sois homens, sois cidadãos!” As reformas são lentas, não são cogumelos, que nascem nas primeiras águas da chuva.

AH - Muitos acham curioso que, apesar de político conservador, o senhor seja também um escritor inovador para os padrões da sua época. Como o deputado José de Alencar convive, no mesmo corpo, com o autor de folhetins e de comédias teatrais?
JA - Essa suposta contradição é outra bobagem que tem sido usada com freqüência contra minha pessoa. Procuram pôr luz sobre o escritor para desqualificar o deputado. Na Câmara, alguns nobres colegas acusam-me de “conviva das musas”. Não acho que exista um Alencar à parte do outro. Minha literatura é essencialmente nacionalista, assim como meu desempenho parlamentar. Nos dois campos, defendo o Brasil. Aquela contradição que o senhor me atribui é apenas o resultado, não direi de sua ignorância, mas da precipitação com que me faz suas indagações.

AH - O senhor tem fama de colecionar inimigos. Concorda com os que lhe atribuem a pecha de “encrenqueiro”?
JA - A inteligência é uma ave altaneira, que plana nas regiões elevadas do pensamento. Não se abate aos ataques pequeninos que sofro e que são, se o senhor me permite o que talvez considere uma frase de folhetim, bicadas de tico-tico. Já se referiram por aí, de forma pejorativa, a tudo o que me diz respeito: meu nascimento, meus hábitos higiênicos, minhas obras literárias e até meu físico pouco avantajado. Não sou encrenqueiro, como imagina o senhor. Apenas revido, com elegância e com estilo, às pedradas que me são atiradas sem elegância.

AH -
Mas...
JA - Sem mais, meu caro. No certame das idéias, onde combatem as inteligências, assim como nos duelos dos antigos cavalheiros, deve-se manter certa cortesia, certa moderação nas expressões que mutuamente empregam os contendores. Se eu tivesse uma organização robusta, seria um homem de ação. Mas minha organização débil fez-me um homem de idéias. O país precisa de ambos: os primeiros dirigem o presente, os segundos preparam o futuro. Passe bem, meu jovem. Tenho mais o que fazer.

(Todas as respostas da "entrevista" acima se baseiam em escritos e discursos de José de Alencar)

sábado, 1 de abril de 2000

Fotógrafo revolucionou arte do retrato no Brasil

(Texto publicado na Folha de S. Paulo, em 1 de abril de 2010)



Lembro da manhã em que batemos à porta dele, em Fortaleza, para uma entrevista que seria publicada no caderno de cultura do jornal local. Ia acompanhado de um colega, então jovem e inexperiente como eu, que implorara para ir junto, pois assim teria a oportunidade de conhecer o homem que fizera still para Orson Welles, que introduzira a fotografia na publicidade brasileira, ajudara a conceber a identidade visual de quase todas as revistas da Abril e era o mestre de gente como Ed Viggiani e Bob Wolfenson.

Estávamos excitados para falar com "seu Chico" como nós cearenses sempre nos referimos a Chico Albuquerque, este gênio da fotografia, morto em 2000, e que agora, dez anos depois, ganha livro caprichado, com o melhor de suas quase sete décadas de carreira.

Naquela manhã de sol abrasador em Fortaleza, atendeu-nos à porta um velhinho de sorriso aberto e óculos de armação dourada. Os cabelos muito brancos, penteados para trás, deixavam exposta a testa larga, alva, pontilhada por pequenas pintas escuras. Já beirava os 80 anos, mas uma incontida jovialidade lhe irradiava dos olhos claros, que ficavam mais apertados e quase cerrados sob as pálpebras a cada vez que sorria. E como sorria o seu Chico.

Antes de acomodar-se na cadeira de balanço com encosto de palhinha, pediu-nos licença para ir até a vitrola e virar o disco de vinil que estava ouvindo.Meu colega, talvez na intenção de quebrar o gelo, comentou algo assim, com ar saudosista: "Também prefiro o vinil a esses CDs que estão chegando agora ao mercado. Este chiadinho tem um charme danado, não é?". Seu Chico sorriu mais uma vez. "Ah, é? Pois eu não gosto", respondeu. "Detesto ouvir música com chiadinho. Só que, infelizmente, este concerto de Mozart ainda não está disponível em CD."

Foi a primeira lição do dia. Viriam outras, ao longo da entrevista."Vocês, jovens, precisam aproveitar os recursos do tempo no qual tiveram a sorte de nascer", ralhou, com sorriso delicado.

Sempre fora um pioneiro. Décadas antes, quando os fotógrafos brasileiros ainda utilizavam calorentas luzes contínuas, ele importara um então moderníssimo conjunto de flashes eletrônicos para o estúdio na Rebouças, em São Paulo, onde revolucionou a arte do "portrait" (retrato) no Brasil. Com isso, conseguiu efeitos até então inalcançáveis por outros profissionais do ramo no país. É o que revela Rubens Fernandes Júnior, professor e crítico de fotografia, autor do texto de abertura do livro Chico Albuquerque, que chega às livrarias. "O retrato dele era supremo", escreve, por sua vez, o fotógrafo German Lorca.

Orson Welles

Nascido em Fortaleza em 1917, Chico iniciou a carreira aos 15 anos, quando o pai, também fotógrafo, pediu para que o substituísse nas filmagens de um documentário sobre a seca. Em 1942, quando Orson Welles veio ao Brasil filmar "It's All True", Chico, aos 25 anos, foi escalado para fazer o still do filme quase mitológico, nunca terminado.

Depois de idas e vindas ao Rio de Janeiro, a partir de 1947 radicou-se em São Paulo. Dois anos depois, na agência J. W. Thompson, foi de suas lentes que saíram as primeiras campanhas a utilizar fotografias na publicidade brasileira. Os anúncios, antes disso, recorriam ao bico de pena.

Além de suave "gentleman", Chico era, acima de tudo, um eclético. Se seus sofisticados retratos, feitos em estúdio, marcaram época, as imagens que captava ao ar livre eram de embasbacar. Vide a série "Mucuripe", na qual imortalizou a labuta diária de uma aldeia de pescadores em Fortaleza.

Chico, que fotografou como ninguém homens suados e tostados de sol, soube imprimir irresistível glamour em anúncios de cigarros, sabonetes e automóveis. Era igualmente mestre na fotografia de arquitetura e de alimentos. Um esteta das formas, texturas, contrastes.Tinha lá seus truques. Quando queria simular um apetitoso chantilly, não hesitava em usar creme de barba no lugar deste.

De volta ao Ceará em 1975, nos últimos anos de vida estava descobrindo a fotografia digital. "Testemunhamos momentos de sua vibração e alegria com os resultados da nova tecnologia", diz o fotógrafo cearense Gentil Barreira, um de seus assumidos discípulos. Para Chico era assim, não havia lugar para anacronismos, mau humor ou queixas por supostas más locações. "A luz nos salvará", era seu lema preferido.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2000

Padre Cícero escreve aos inquisidores



Em 10 fevereiro de 1898, Padre Cícero embarca para a Europa, com destino a Roma. Vai se defender das acusações de que era um semeador de fanatismos e um desobediente à rígida hierarquia do clero. No Vaticano, a 23 de abril, Cícero protocola na secretaria do Palácio do Santo Ofício uma carta de apresentação, escrita em português: "Como não sei italiano, deixo este papel nas mão de Vossa Eminência", informa na mensagem endereçada ao cardeal Lucido Parocchi, secretário-geral daquela congregação.

"Graças a Deus, tenho consciência de não ter cometido crime algum", defende-se. Como narra o livro "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão", o sacerdote brasileiro será interrogado em cinco sessões seguidas, sempre em caráter secreto.

Nas imagens acima, a carta que Padre Cícero protocolou na secretaria do Santo Ofício. A cópia escaneada do documento encontra-se no arquivo da Diocese do Crato. O original está no Arquivo Secreto do Vaticano. Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2000

Dos arquivos secretos do Vaticano



Este selo, o do arquivo secreto do Vaticano, está presente em parte da documentação que utilizei para escrever "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão", lançado pela Companhia das Letras. Durante a fase de pesquisa e investigação, consultei papéis confidenciais que me foram repassados por fontes privilegiadas e que me ajudaram a contar a história de Cícero Romão Batista com mais riqueza de informações e detalhes.

Um exemplo, entre tantos outros, do material contido no arquivo secreto do Vaticano a respeito de Padre Cícero é o decreto do Santo Ofício - a antiga inquisição - datado de 17 de agosto de 1898. Semanas antes, Cícero fora interrogado pelos próprios cardeais inquisidores, em Roma. "Que o reverendo Cícero não seja mais admitido à pregação da palavra de Deus, a ouvir confissões das almas sem especial licença do Santo Oficio", determinou o texto do decreto, cuja primeira página está reproduzida abaixo. Clicando na imagem, é possível vê-la ampliada.