sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

De fritador de hambúrguer a jornalista


Eu já havia feito de um tudo na vida. Trabalhara como técnico de raio-x numa clínica de abreugrafia na Tristão Gonçalves. Revendera peças de motocicletas no balcão de fórmica encardido de uma pequena oficina da Padre Mororó. Fritara hambúrgueres e salsichas de cachorro-quente em um trailer branco na Bezerra de Menezes. Fabricara bonequinhos feitos de bola de gude e durepóxi, negociados nas barracas da feirinha da Igreja de Fátima. Arriscara ser dono de um boteco no Bom Jardim. Escrevera livretos mimeografados de poesia alternativa, que vendia nos bares frequentados por estudantes universitários no Benfica. Tudo isso além de ter guardado no fundo de alguma gaveta, esquecido para sempre, o diploma de técnico em topografia, profissão que exerci apenas durante dois longos dias.

Para desgosto da família, já havia abandonado duas faculdades - Filosofia e Letras - e defendia então o magro orçamento doméstico como podia, dando aulas de História, Literatura e Redação em colégios suburbanos de Fortaleza.Minha vida profissional, portanto, era tão diversificada e caótica quanto pouco promissora. Foi assim até o dia em que um velho e bom amigo, o endiabrado Vessillo Monte, o homem que havia me apresentado à literatura visceral de Henry Miller e Jean Genet, contou-me que estavam precisando de alguém para bater ponto na sala da revisão do Diário do Nordeste.

O salário era decente e o trabalho parecia interessante. Consistia em ler o jornal antes de ser publicado, encontrar erros de digitação, piolhos ortográficos, gralhas de concordância. Eu não podia imaginar que, ao pegar o Circular 2 para minha primeira tarde no novo emprego, estava prestes a protagonizar uma grande e definitiva guinada em minha vida pessoal e profissional.

Lembro, como se hoje fosse, do comichão que senti ao entrar pela primeira vez no prédio do jornal. Depois de ser apresentado a Socorro Cunha - a chefe da revisão e a partir daquele dia a minha mais generosa fada madrinha -, dei uma escapulida e fui espiar como era uma redação de perto, assim bem no meio da noite, poucas horas antes do fechamento da edição do dia. A visão daquele burburinho infernal, as dezenas de telefones tocando todos ao mesmo tempo, o batalhão de repórteres e editores falando alto e correndo de um lado para o outro, o barulho ensurdecedor das máquinas de escrever, tudo aquilo provocou-me um delicioso choque. Naquele mesmo minuto, veio-me o pensamento que não mais consegui tirar da cabeça: "Que diabos, como não havia descoberto antes que nasci para ser jornalista?"

Dos primeiros tempos de revisor, guardo algumas recordações hilárias. O decano da equipe, o sempre bem-humorado Francisco Segundo, divertia-nos com sua desconcertante coleção com os erros de revisão mais célebres da imprensa cearense. A minha preferida dizia respeito à fotografia de uma então conhecida grã-fina da cidade que havia sido trocada, na coluna social de um determinado jornal que já deixou de circular, pela de uma vaca premiada em uma exposição agropecuária. Vocês podem imaginar o estrago da coisa quando a legenda da ruminante campeã leiteira saiu debaixo da foto da socialite. E vice-versa. Eu mesmo presenciei alguns casos antológicos naquela nossa salinha da revisão, como no dia em que foi publicada uma matéria a respeito de uma homenagem solene que o Sindicato dos Contabilistas de uma certa cidade do interior prestava ao prefeito municipal. Pois bem. Por erro do digitador e cochilo fatal do revisor, em vez de Sindicato dos Contabilistas, saiu grafado Sindicato dos Contrabandistas. Foi um fuzuê sem tamanho.

Poucos meses depois de minha chegada à revisão, decidido a seguir carreira na imprensa, fui fazer vestibular para Comunicação Social. Assim, próximo de completar 30 anos, tornei-me uma espécie de "tiozinho" na turma de jornalismo da UFC daquele semestre, no meio da qual pontificavam moças e rapazes de aparelhinho metálico nos dentes, a maioria ainda por volta de 18 e 19 anos. Foi no Diário do Nordeste que publiquei então meus primeiros textos de imprensa, ainda como estudante de Comunicação. Lembro que este mesmo "Caderno 3", que hoje me recebe generosamente como cronista semanal, estampou à época um artigo meu, um tanto quanto pretensioso e claudicante, sobre a obra do escritor irlandês Samuel Beckett. No "Cultura", logo depois, sairiam também alguns poeminhas fajutos e metidos a besta, outros explicitamente infames, todos com minha desavergonhada assinatura.

Por isso, por acalentar tais lembranças com inevitável afeição, foi que aceitei de imediato o convite feito pela direção do jornal para me tornar, desde agora, colaborador sistemático deste espaço às sextas-feiras. É como uma volta à casa paterna, um reencontro com as origens, com o jornal que me introduziu o jornalismo nas veias. É uma forma, também, de estar mais próximo do Ceará e de Fortaleza. Radicado há quase uma década em São Paulo, neste meu exílio voluntário por força dos novos desafios profissionais que me foram aparecendo, descobri-me mais cearense e nordestino do que nunca. Embora saiba que a ideia de "identidade cultural" não passe de uma construção histórica e ideológica, baseada em estereótipos e idealizações, não deixo de ficar cada vez mais atento, aqui de longe, a certas particularidades da gente cearense. O sotaque carregado, por exemplo, a forma escrachada de vaiar a si própria, a ausência de formalidades e a decantada irreverência que muitas vezes se confunde com a própria falta de polidez.

Prometo, então, a partir de agora, encher o saco dos leitores, a cada semana, com esta crônica de um "filho ausente", para lançar mão da expressão feliz com que José de Alencar tão bem se definiu na abertura de seu clássico Iracema. Será o olhar de um cearense que partiu, mas cujas raízes ainda estão plantadas no chão árido do Ceará e nas esquinas calorentas de Fortaleza. Aviso, desde já: não farei nenhuma espécie de concessão ao mero saudosismo. Por isso, por vezes também, prometo ser incômodo. Falarei, sempre que necessário, de nosso quase atávico orgulho pela precariedade, de nossa nada inocente complacência com o gracejo grotesco e, em especial, da confusão inconsciente - ou proposital - que muitas vezes fazemos entre os conceitos de "hospitalidade" e "subserviência".

Mas isso já é assunto para uma próxima semana.

(Texto publicado originalmnete no Diário do Nordeste em 26 de fevereiro de 2010)