domingo, 7 de maio de 2000

Uma entrevista com José de Alencar*

*Texto publicado originalmente na revista Aventuras na História, na seção "Entrevista com gente morta".

Ousado na literatura e conservador na política, José de Alencar não gosta de falar sobre si mesmo. Um mês antes de morrer, ele recebeu nosso repórter para uma áspera e breve conversa

Bem que me avisaram que ele era um sujeito de poucos amigos. Mas quando me dirigi ao número 50 da rua Guanabara, no Rio de Janeiro, tinha sinceras esperanças de colher, da boca do próprio José de Alencar, informações inéditas para o livro que estava escrevendo sobre ele. Dona Georgiana, esposa do grande escritor romântico brasileiro, já me advertira que o marido não estava muito à vontade com essa história de ser retratado em uma biografia. Mesmo assim, insisti em bater-lhe à porta, naquela tarde de novembro de 1877. O autor de O Guarani sequer convidou-me a entrar: recebeu-me no jardim de casa, vestindo negro da cabeça aos pés. Durante alguns segundos, hesitei antes de lhe estender a mão, amedrontado pela conhecida tuberculose que o consumia há meses. Alencar encarou toda a entrevista como uma ferrenha contenda. Morreria um mês depois, aos 49 anos, sem ver meu livro publicado – o que certamente me poupou de ser, novamente, vítima de sua virulência.

Aventuras na HistóriaO senhor é filho de um padre. Mesmo depois de violar o voto de castidade, seu pai continuou exercendo o sacerdócio. Esse estigma contribuiu para que o senhor fosse uma criança tímida, que encontrou nos livros o refúgio contra os que zombavam dessa nódoa familiar?
José de Alencar – Meu rapaz, advirto-lhe desde já que a vida privada carece da penumbra e do recato. Posso assegurar, apesar disso, que não receio de modo algum que a devassem. Não encontrarão nela nada que me desonre. Não admito, porém, que se lancem palavras vãs contra um dos mais nobres caráteres que este país já produziu: meu pai, o grande senador Alencar.

AH - Apenas queria saber o quanto essa circunstância familiar contribuiu para a formação de sua personalidade...
JA - Realmente, há na existência dos escritores fatos comuns, do viver cotidiano, que todavia exercem uma influência notável em seu futuro e imprimem em suas obras o cunho individual. Mas não é esse o caso. Deixemos de bisbilhotices biográficas. Passemos logo à próxima pergunta.

AH - O senhor nasceu em uma família de revolucionários. Não considera uma espécie de traição histórica sua militância no Partido Conservador?
JA - De fato, tive como berço o mais puro liberalismo brasileiro. Minha infância política, também é verdade, foi liberal. O sentimento não mudou, mas a razão se esclareceu. Outrora, liberdade para mim era a eletricidade da multidão. Hoje considero a verdadeira liberdade a felicidade calma e tranqüila do povo. Pensando bem, considero-me bem mais liberal do que o senhor, que me recusa o direito de pertencer a um partido porque este não foi o partido de meus antepassados. Ao contrário do que deve ocorrer com o nobre repórter, não admito a herança de convicções.

AH - Na tribuna da Câmara dos Deputados, o senhor sempre se distinguiu por condenar as propostas para a libertação dos escravos. Não acha que os negros merecem ser livres, iguais àqueles que nasceram com a pele branca?
JA - Não posso, de modo algum, apoiar uma política que tende a precipitar uma revolução social. É uma questão de princípios: sou a favor da evolução, nunca da revolução. Não basta dizer à criatura: “Tu és livre, vai, percorre os campos como uma besta fera!” Não, meu caro, é preciso esclarecer a inteligência embotada, elevar a consciência humilhada, para que um dia, no momento de conceder-lhe a liberdade, possamos dizer: “Vós sois homens, sois cidadãos!” As reformas são lentas, não são cogumelos, que nascem nas primeiras águas da chuva.

AH - Muitos acham curioso que, apesar de político conservador, o senhor seja também um escritor inovador para os padrões da sua época. Como o deputado José de Alencar convive, no mesmo corpo, com o autor de folhetins e de comédias teatrais?
JA - Essa suposta contradição é outra bobagem que tem sido usada com freqüência contra minha pessoa. Procuram pôr luz sobre o escritor para desqualificar o deputado. Na Câmara, alguns nobres colegas acusam-me de “conviva das musas”. Não acho que exista um Alencar à parte do outro. Minha literatura é essencialmente nacionalista, assim como meu desempenho parlamentar. Nos dois campos, defendo o Brasil. Aquela contradição que o senhor me atribui é apenas o resultado, não direi de sua ignorância, mas da precipitação com que me faz suas indagações.

AH - O senhor tem fama de colecionar inimigos. Concorda com os que lhe atribuem a pecha de “encrenqueiro”?
JA - A inteligência é uma ave altaneira, que plana nas regiões elevadas do pensamento. Não se abate aos ataques pequeninos que sofro e que são, se o senhor me permite o que talvez considere uma frase de folhetim, bicadas de tico-tico. Já se referiram por aí, de forma pejorativa, a tudo o que me diz respeito: meu nascimento, meus hábitos higiênicos, minhas obras literárias e até meu físico pouco avantajado. Não sou encrenqueiro, como imagina o senhor. Apenas revido, com elegância e com estilo, às pedradas que me são atiradas sem elegância.

AH -
Mas...
JA - Sem mais, meu caro. No certame das idéias, onde combatem as inteligências, assim como nos duelos dos antigos cavalheiros, deve-se manter certa cortesia, certa moderação nas expressões que mutuamente empregam os contendores. Se eu tivesse uma organização robusta, seria um homem de ação. Mas minha organização débil fez-me um homem de idéias. O país precisa de ambos: os primeiros dirigem o presente, os segundos preparam o futuro. Passe bem, meu jovem. Tenho mais o que fazer.

(Todas as respostas da "entrevista" acima se baseiam em escritos e discursos de José de Alencar)