sexta-feira, 29 de junho de 2007

Entrevista para o International Magazine



Nunca houve uma mulher como Maysa

MOISÉS SANTANA

Maysa está de volta à cena em biografias e discos tributos. Trinta anos após sua morte, a cantora e compositora que desafinou do coro dos contentes de seu tempo é relembrada por sua voz, suas composições e, principalmente, por sua personalidade. O livro Maysa: Só numa multidão de amores, do jornalista Lira Neto, é um dos responsáveis pelo retorno dessa mulher/mito que teve seus imensos olhos verdes descritos pelo poeta Manoel Bandeira como "dois oceanos não pacíficos".

Que tipo de música você escuta?
Sou um ouvinte inveterado de música brasileira. Meu pai e minha mãe, lá em Fortaleza, ouviam muita música em casa, no rádio, e cresci com as vozes da velha guarda - Orlando Silva, Francisco Alves e Nelson Gonçalves, especialmente - embalando meu berço. Mais tarde, por conta própria, ampliei este horizonte ao mergulhar na bossa-nova e no tropicalismo. Nos primeiros tempos de faculdade, fui apresentado, por colegas mais velhos, ao blues e ao jazz. Desde então, caí de amores, entre outros, por Alberta Hunter, Billie Holiday e Chet Baker. Hoje ouço pouco rádio. Meu ouvido não é penico.

O que mexe com um biógrafo para que ele vá tão fundo na vida de alguém?
Gosto de dizer que sou, essencialmente, um contador de histórias. Um repórter fascinado por histórias de vida. Isso é o que me move como jornalista. Acho que por isso optei pelo gênero biografia. Este é um trabalho que consiste em mergulhar, às vezes por anos a fio, na existência de outra pessoa. Como um arqueólogo, é preciso remover cada camada de pó e de esquecimento que reveste a vida de um indivíduo. Por isso, as melhores biografias serão sempre aquelas que retratam a vida de seres incomuns, de almas radicais, daqueles que ousaram sair da comodidade de uma vida segura e saltaram, sem rede, no escuro.

Quando surgiu esse interesse por Maysa?
Sempre flertei com a vida de Maysa. Nela, estão todos os ingredientes que interessam a qualquer biógrafo: amores extremados, um talento enorme, uma trajetória profissional singular, uma alma atormentada. Quando um amigo jornalista, Fernando Morais, apresentou-me ao filho de Maysa, o cineasta e diretor de tevê Jayme Monjardim, o que era apenas um desejo se transformou em projeto. Jayme foi de uma generosidade extrema. Abriu-me todos os baús de Maysa. Diários, cartas, poemas, letras inéditas.

Maysa foi compreendida em seu tempo?
Hoje, trinta anos depois da morte de Maysa, pouca gente sabe que ela fez um sucesso estrondoso no final dos anos 50 e começo dos anos 60. Para se ter uma idéia, basta dizer que, em 1958, por exemplo, de primeiro de janeiro a 31 de janeiro, não houve um único dia em que Maysa não fosse notícia na imprensa paulistana ou carioca. Eram delas os maiores cachês pagos no país. Tinha programas de televisão em São Paulo e no Rio de Janeiro. Contudo, ao lado de tudo isso, teve a vida devassada pela imprensa sensacionalista. Era uma mulher à frente de seu tempo e, por isso, sofreu com os preconceitos de toda uma época. No Brasil dos anos 50 não podia se admitir que uma mulher se separasse de um marido milionário - como ela fez - para se dedicar à carreira então "moralmente duvidosa" de cantora de rádio. Muito antes de as mulheres queimarem sutiãs em praça pública, muito antes de existir a palavra feminismo, já existia uma mulher chamada Maysa.

Qual a maior dificuldade que encontrou nesse processo?
O acesso aos baús de Maysa - que guardava cada linha publicada sobre ela, inclusive as notas mais maldosas e cabeludas - significou uma grande economia de tempo na fase de garimpo na imprensa da época, trabalho necessário em qualquer biografia que se preze. Mas, por outro lado, o volume enorme de material acabou se tornando um problema, na hora de selecionar o que ia entrar ou não no livro. Cataloguei cerca de 100 mil documentos, tirados diretamente do baú de Maysa. Depois disso, veio a fase de entrevistas - cerca de 200 conversas com gente que conviveu com ela. Era muita informação reunida. Poderia ter escrito um livro com um número de páginas até cinco vezes maior. Mas isso, logicamente, tornaria a vida do leitor uma pedreira. O mais difícil - e, ao mesmo tempo, o mais prazeroso - foi selecionar, editar, escolher. Nenhuma vida cabe em um único livro. principalmente se estamos falando de Maysa.

Existe espaço para uma personalidade como a dela na cena brasileira?
Nesta era em que vivemos a ditadura do bom-mocismo e do politicamente correto, faz falta toda a irreverência e todo o potencial transgressivo de uma pessoa como Maysa. Mas sabe-se lá o destino que estaria reservado a ela no mundo de hoje, no qual a padronização prevaleceu sobre o talento e o comodismo suplantou a ousadia. Atualmente, a própria rebeldia virou produto de butique e se tornou marca registrada da mesmice.

Musicalmente, qual foi a maior qualidade de Maysa?
Costuma-se, com flagrante reducionismo, rotular Maysa de "rainha da fossa". Ela foi bem mais do que isso. Maysa significou uma ponte decisiva entre a música da chamada Velha Guarda e o sopro renovador que arejou o país no final dos anos 50, comecinho dos 60. Foi uma das primeiras cantoras consagradas, por exemplo, a gravar um disco inteirinho de Bossa Nova. A primeira gravação da canção "O Barquinho", um marco da Bossa, é de Maysa. Essa mulher tinha uma capacidade invejável de detectar e valorizar o novo. Outro exemplo, eloqüente: ninguém sabia quem era Egberto Gismonti quando Maysa gravou músicas dele e o chamou para fazer os arranjos de seu disco de 1969. "Rainha da fossa" é conversa pra boi dormir.

Você tem planos de biografar outros músicos?
Estou com novos projetos em vista. Mas, pelo menos por enquanto, não os revelo nem sob tortura.

Você acompanhou o caso da biografia de Roberto Carlos?
A decisão de retirar milhares de exemplares de um livro das prateleiras de uma livraria ou de uma editora para transformá-los em papel picado - ou em cinzas - me dá calafrios. Se Roberto Carlos houvesse se sentido ofendido com alguma inverdade publicada por seu biógrafo, tinha todo o direito de processá-lo. Mas não foi esse o caso. Alegou "invasão de privacidade". Só que ele é uma pessoa pública e, como tal, sua biografia também é. Ela pertence ao povo brasileiro. Numa frase: o rei, definitivamente, perdeu a majestade.