segunda-feira, 6 de julho de 2009

"O realismo é fantástico"



Leia entrevista publicada nesta segunda-feira, 6 de julho, pelo jornal O Povo, de Fortaleza, concedida ao jornalista Henrique Araújo:

O realismo é fantástico

Há muito sobre Padre Cícero a ser dito e escrito, garante o jornalista e escritor Lira Neto, que lança em novembro a biografia Cícero pela Companhia das Letras.

Henrique Araújo


Sobre realismo e fantasia, o jornalista e escritor cearense Lira Neto diz mais ou menos o seguinte: se Garcia Márquez fosse Jack Kerouac e, na pele do escritor beat, ingerisse toneladas de substâncias entorpecentes apenas para surfar um pico cavalar e desse modo engraçado poder escrever um romance que fosse ao mesmo tempo uma mistura de Ulisses, On the road e Grande Sertão: veredas, ainda assim ele não conseguiria elaborar uma narrativa que fosse tão desvairadamente fantástica quanto a história de padre Cícero Romão Batista.


Mas sem querer ser Gabo ou Kerouac e muito menos beat, o autor de Maysa – Só numa multidão de amores vem tentando colocar um ponto final em Cícero, biografia cujo lançamento está previsto para novembro próximo, pela editora Companhia das Letras. Nela, Lira Neto reconta a história do santo homem. Recorre a 900 cartas, imagens, arquivos pessoais e entrevistas. Para não dizer “O livro está encerrado, concluído”, ele adianta em seu blog (http://www.liraneto.com/): escreverá o epílogo no próximo dia 20 de julho, no aniversário de 75 anos de morte de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte.


“Será minha última viagem a Juazeiro antes do lançamento do livro. A ideia é escrever o epílogo e colocar o ponto final na obra ali mesmo, naquele dia exato, bem diante do túmulo do biografado.” Nesta conversa com O POVO, levada adiante entre um lance e outro da vida agitada de Padre Cícero, Lira Neto interrompe-se e, saltando na onda Gay Talese, invoca o nome do autor de Fama e Anonimato, que disse: “Há muito acredito que o realismo é fantástico”. O cearense assina embaixo. Para ele, o que liga Padre Cícero a Maysa, José de Alencar, Castello Branco e Rodolfo Teófilo é nada mais que a radicalidade de suas existências. Eles foram “humanos, demasiadamente humanos”, matuta.






O POVO - Como foi o processo de pesquisa para a biografia do Padre Cícero? Quantas vezes visitou o Cariri, em que período, a que fontes principais recorreu, que pesquisadores entrevistou?


LN
- O trabalho neste livro baseou-se, sobretudo, em fontes primárias. Evidente que tive que me debruçar sobre a bibliografia já existente, lê-la criticamente, fazer uma imersão nos textos que trataram anteriormente de Cícero, fossem eles memorialísticos, acadêmicos, literários ou jornalísticos. Mas a viga-mestre do livro foi mesmo erguida com base em documentos de época, muitos inéditos ou quase nunca visitados pela historiografia tradicional. Tenho frouxos de riso quando leio ou escuto por aí, particularmente entre os círculos acadêmicos, que já se escreveu tudo sobre a história pessoal de Cícero, e que não valeria mais a pena biografá-lo. Não existe biografia definitiva. Isso é de uma bobagem descomunal. Em minha pesquisa, fui ao Ceará e ao Cariri algumas vezes, onde inclusive fiz novos e bons amigos. Tenho que ressaltar a enorme generosidade de um pesquisador infatigável da história do Juazeiro do Norte, meu grande e velho amigo Renato Casimiro, que me abriu as portas de seu extraordinário arquivo particular. No Crato, contei também com a cortesia e o entusiasmo do padre Francisco Roserlândio de Sousa, que dirige o Departamento Histórico Diocesano, onde me foi franqueado o acesso irrestrito a cerca de 900 cartas e telegramas trocadas entre os principais protagonistas da história. Um tesouro para qualquer biógrafo. Não posso adiantar ainda muito sobre o conteúdo da obra em si, mas deixo aqui uma pista para os possíveis interessados e aos futuros leitores: alguns dos principais e mais reveladores documentos a respeito de Cícero não estão no Ceará ou mesmo no Brasil. Estão do outro lado do oceano, em Roma.


OP - Em seu blog, você escreveu que Padre Cícero dava bastante importância à imagem. Que importância teve esse tipo de registro nas suas pesquisas?


LN
- A iconografia é uma fonte documental riquíssima. Porém, como todo documento, a imagem precisa ser “lida” de forma crítica. É preciso tentar compreender suas motivações, suas intenções, seus propósitos. Cícero, de fato, deixou um vasto arsenal de imagens à posteridade. Ele tinha plena consciência do poder delas. Distribuía fotografias entre os que o visitavam, fez-se retratar em várias solenidades públicas, tinha inclusive uma pose característica, ensaiada para as câmaras: a mão posta à altura do peito, os dedos entre os botões da batina. O livro trará um grande número de imagens, boa parte delas cedidas pelo arquivo de Renato Casimiro e Daniel Walker (outro incansável pesquisador das coisas do Juazeiro), mas também garimpada em outras fontes, em vários arquivos públicos e particulares ao redor do país. Serão cerca de 150 fotos, além de fac-símiles de documentos e de jornais de época, inclusive charges em que Cícero é o personagem principal. Uma delas, aliás, publicada por um jornal pernambucano do século 19, os leitores saberão, provocou a justificada ira do padre.


OP - No fim, que Padre Cícero emerge das toneladas de informações coletadas? Há surpresas, fatos curiosos, dados surpreendentes que possam contradizer a imagem já consagrada do sacerdote?


LN
- O que posso dizer, por enquanto, é que fiz uma biografia que procura ser o mais fiel possível ao biografado. Ao contrário do que se costuma dizer e imaginar, os detalhes da história pessoal de Cícero são bem pouco conhecidos do grande público brasileiro, e mesmo entre nós, cearenses. Procurei, sempre que possível, costurar e cotejar a narrativa historiográfica com a tradição oral, com toda a riquíssima mitologia popular que se criou em torno do personagem. Não ponho o mito simplesmente de lado. Ao contrário, busco incorporá-lo à narrativa, sinalizando para o leitor onde fato e lenda começam e acabam, mas também onde eles se misturam, ao ponto de muitas vezes se tornar impossível distinguir um do outro. Sem dúvida, a história de Cícero é fascinante e arrebatadora. Costumo dizer - e repito aqui - que nem se Gabriel Garcia Marquez, o mestre do realismo fantástico, tomasse uma dose cavalar de ácido lisérgico, ele seria capaz de conceber uma narrativa tão mágica, tão delirante, tão imersa no maravilhoso. Aliás, dou completa razão a Gay Talese, o “papa” do chamado jornalismo literário: “Há muito acredito que o realismo é fantástico”. No caso de Cícero, a frase é ainda mais pertinente.


OP – Rodolfo Teófilo, Maysa, Castello Branco, José de Alencar e, agora, Padre Cícero Romão Batista. Há ligação possível entre a trajetória desses personagens?

LN
- Ri-me a valer, dia desses, quando um respeitável acadêmico ralhou comigo ao telefone, criticando-me por, segundo ele, eu ficar “pulando de assunto em assunto” a cada novo livro. Esse tipo de comentário demonstra um desconhecimento absoluto do que seja o trabalho jornalístico e, por extensão, do fazer biográfico. No mínimo, tenho dó daqueles estudiosos que passam a vida inteira absorvidos em um único tema, reescrevendo a mesma obra por anos a fio, para apresentá-la, depois de passá-la a limpo, às sucessivas bancas do mestrado, do doutorado, do pós-doutorado e por aí afora. É aflitivo. Mais que isso: por vezes, em certos casos, pode até ser desonesto intelectualmente. Um exemplo: quando eu era editor aí no Ceará, na Fundação Demócrito Rocha, cheguei a receber o mesmo texto, em duas versões ligeiramente distintas, do mesmo autor, para duas publicações completamente diferentes. Um absurdo, referendado por um pomposo título acadêmico enfeitando o rodapé do texto. Mas respondendo objetivamente à pergunta: o que Rodolfo, Maysa, Castello, Alencar e Cícero têm em comum? A radicalidade de suas existências. Isso é o que sempre me motiva a mergulhar na vida de cada um dos meus biografados: o fato de serem humanos, demasiadamente humanos.

OP - A respeito de José de Alencar, você respondeu a entrevista feita por O Povo no dia 3 de maio deste ano que a sua intenção como biógrafo era “trazê-lo ao nível da vida cotidiana, com suas circunstâncias mais comezinhas. Só assim podemos entender como se deu a construção do mito". Que “circunstâncias mais comezinhas” trazem Padre Cícero ao nível da vida cotidiana?

LN
– Tenho o mais profundo respeito pela figura histórica de Cícero e, mais ainda, pela comovente devoção dos romeiros de Juazeiro do Norte a ele. Quem assiste a uma romaria no Cariri, mesmo não sendo religioso (como, aliás, não sou), desde que não tenha o peito de pedra, ficará impressionado com a carga emocional e a simbologia ali envolvidas. E quem se debruçar sobre os documentos de época vai constatar que Cícero e a beata Maria de Araújo foram condenados pelo Santo Ofício com base em um inquérito eclesiástico falho, etnocêntrico, permeado de preconceitos, cheio de más vontades, de arbítrios. Mas faço questão de ressalvar aqui que em momento algum me dispus a escrever uma hagiografia, ou seja, a biografia de um santo. Cícero, no livro, é um homem de carne e osso, com suas virtudes e defeitos cotidianos, com todas as suas inevitáveis imperfeições e contradições humanas. É isso que faz dele um personagem fascinante, os leitores irão constatar. Aliás, a idéia de que a “santidade” é sinônimo de perfeição é absolutamente equivocada. Os santos, como todos nós, amargaram vitórias e derrotas íntimas, típicas da eterna batalha do indivíduo consigo mesmo. Com Cícero, não podia ser diferente.

OP - Você vem de três biografias bem-sucedidas. Numa delas, o escritor José de Alencar é apresentado como alguém inquieto e briguento, uma figura distante daquela apresentada por cursos de literatura e escolas. O procedimento também será aplicado a Padre Cícero?

LN
– Na verdade, o livro busca responder a uma única e recorrente indagação, que perpassa todas as mais de 500 páginas: “Afinal de contas, quem foi este homem, este enigma chamado Cícero?” Não tenho a vã pretensão de responder a esta pergunta de forma definitiva. Ainda bem. Nem poderia. Mas procurei dar o maior número de elementos possíveis para o leitor fazer o seu próprio juízo, que não necessariamente coincidirá com o meu ou, quem sabe, com o seu...

OP - Vasculhar a vida dos outros, resumi-la em centenas de páginas, fuçá-la, cavar detalhes antes insuspeitos, colocar-se no lugar do outro a ponto de se confundir com ele. Um autor de biografias vive essa rotina. Que marcas essas vidas deixam na sua própria?

LN
– Ao escrever a história dos outros, estamos mesmo, talvez, inconscientemente, escrevendo a nossa própria história pessoal. Sua pergunta faz todo sentido. São as nossas escolhas, o nosso olhar, nossos valores que acabam escorregando para o papel. Em meus livros, em minhas pesquisas, trabalho como um repórter, um jornalista que sai a campo para fazer uma matéria de longo fôlego. Meu método é o da grande reportagem. A diferença é que não estou submetido às limitações de tempo e de espaço tão típicas de uma redação de jornal. E acredito que, em jornalismo, assim como em tudo na vida, a tal "objetividade" não passa de uma balela. Uma coisa é procurar ser isento, ético, rigoroso no trato com as fontes. Outra coisa é apregoar que se é "neutro", "objetivo", coisa que simplesmente não existe. Em todos os casos – Rodolfo, Castello, Alencar, Maysa –, mantive mesmo uma relação de amor e ódio com os personagens. Cada a um a seu modo, eles me mobilizaram, me arrebataram, me provocaram risos e também desencantos. Há um envolvimento natural, inexorável, entre biógrafo e biografado. Com Cícero, um indivíduo tão desconcertante como ele foi, isso é ainda mais patente. Quero crer que este é meu melhor livro. Foi, pelo menos, o mais desafiador, o mais difícil – e ao mesmo tempo o mais prazeroso – de ser escrito.