domingo, 22 de novembro de 2009

Nem Deus nem Diabo na Terra do Sol




"Uma costura narrativa digna de um esteta, de um escritor que sabe que tem diante de si uma grande história e a conta com requinte, oferecendo ao leitor não só uma biografia, mas um romance, sem ficcionalizar".
(Jornal da Paraíba, 22 de novembro de 2009)

Sem Deus ou Diabo na Terra do Sol

ASTIER BASÍLIO

Na Diocese de Fortaleza, não se falava em outra coisa: o suposto milagre do Juazeiro. Enquanto se discutiam teses teológicas, se evocava São Tomás de Aquino, diligências para se constituir uma comissão que deveria acompanhar in loco os fenômenos. O velho sacerdote francês, Pierre-Auguste Chevalier, espécie de conselheiro espiritual do bispo, emblematizava com uma frase a rota de colisão entre as visões de mundo: “Nosso Senhor não iria deixar a Europa para fazer milagres no Brasil”, dissera em tom de deboche.

O ano era o de 1891. De um lado o catolicismo oficial, representado por Chevalier e pelas potentadas hostes religiosas do Ceará, e o catolismo místico e popular, encarnado na figura franzina, de olhos azuis, do Padre Cícero Romão Batista. Seminarista de desempenho medíocre, pároco de um simplório arruado que, encravado nos confins do Cariri, o futuro Padim Ciço ousou acreditar que Jesus se materializava em carne e sangue no ofício da eucaristia.

Com uma quantidade surpreendente de documentos, lançando mão de 900 correspondências trocadas entre os principais protagonistas desta epopeia de cruz e espada, o jornalista e escritor Lira Neto ao lançar semana passada Padre Cícero – Poder, Fé e Guerra no Sertão (Cia. das Letras, R$ 49, 557 págs.), conseguiu uma série de façanhas.

A primeira delas foi a de ser o mais objetivo possível ao biografar um personagem por demais subjetivo e envolto em mistificações em versos de cordel e em prosa, de preferência da tradição oral que multipla os milagres do santo como fizera Jesus com cinco pães e dois peixes.

A segunda, aliar informação, fatos e dados históricos, numa costura narrativa digna de um esteta, de um escritor que sabe que tem diante de si uma grande história e a conta com requinte oferecendo ao leitor não só uma biografia, mas um romance, sem conceder um ficcionalizar ao seu livro; um verdadeiro roteiro de cinema com descrições vivas, personagens complexos.

Não há Deus e nem Há Diabo na Terra do Sol, mas uma história fantástica e um verdadeiro teatro shakesperiano com idas, vindas, disputas de poder, provas de lealdade, amor. Não há simples vítimas e vilões neste tabuleiro.

Em São Paulo, onde mora, Lira Neto atendeu ao telefonema da reportagem do Jornal da Paraíba e conversou sobre a biografia. O escritor revelou que a obra teve os seus direitos vendidos para o cinema. “Antes mesmo do lançamento. Quem vai fazer a direção é o mesmo diretor de Cidade Baixa, Sérgio Machado”.

Durante a conversa, Lira Neto em vários momentos falou sobre o ofício do biógrafo. O escritor acredita que há uma sede pelas grandes narrativas e que o experimentalismo literário tolheu um pouco essa perspectiva. “Eu não descuido, em um minuto sequer, em dar prazer ao leitor. Essa é a minha obsessão”.

Biografia mostra padre Cícero entre dois mundos

Lira Neto divide a biografia Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão em dois livros. “A Cruz” e “A Espada”. É interessante perceber como o Padre Cícero é potencializado em suas faculdades de milagreiro, no primeiro momento, e de político de amplas costuras, no segundo, a partir de personagens coadjuvantes que, de certa forma, o complementam.

É por meio dos êxtases e da transformação da hóstia em sangue por meio da beata Maria de Araújo que o Padre Cícero deixa de ser o mero sacerdote, um anônimo de 40 anos, para dar início ao seu processo de transformação em mito. Os supostos milagres atraem a atenção do mundo para o pequeno Juazeiro.

Por outro lado, o padre vencido pela mão pesada da diocese que o humilhou cercando-lhe de uma série de proibições, condenado pelo Santo Ofício, já sexagenário, ressurge do ostracismo em aliança com Floro Bartolomeu, tornando-se o mais hábil político da região do Cariri e personagem fundamental nas transformações políticas do Estado.

Sobre os dois personagens, Lira Neto observa: “Se cabe a Maria de Araújo esse papel de protagonista adjutória nessa primeira parte, na segunda você tem o Floro Bartolomeu. Ou seja, a primeira parte do livro é marcada pela relação Cícero-Maria de Araújo, na segunda você tem Cícero-Floro, que é decisiva para o rumo que a vida do padre vai tomar”.

Os anos passados no colégio do Padre Rolim, em Cajazeiras, não foram esquecidos pelo biógrafo que ainda estabeleceu uma forte vinculação do Padre Cícero com outro conhecido religioso da Paraíba, o Padre Ibiapina, de quem o cearense aprendeu muito de sua pastoral centrada em mutirões.

A Igreja não viu com bons olhos o que acontecia no Juazeiro. Mas, ao contrário do que muitos pensam, Padre Cícero, mesmo convicto de que presenciara milagres, não agiu com rebeldia, indo em confronto à Igreja: antes procurava encontrar em suas hostes absolvição e alinhamento. Tanto é que o Padre Cícero, ele próprio, esteve no Vaticano apresentando sua defesa em um processo do qual seria condenado e cujo reestabelecimento tem se dado gradualmente sob o papado de Bento XVI.

“Acho que o Padre Cícero encarna em si esse confronto entre dois mundos. De um lado, o mundo da liturgia oficial, do rito da disciplina clerical. Ele tem essa perspectiva com a qual ele foi adestrado no seminário, sob a obediência ao rito aos superiores. Por outro lado, ele encarta também esse pensamento muito próximo do Sertão. Na verdade, o Cícero, sem querer reduzi-lo a um rótulo, nunca deixou de ser essencialmente um sertanejo. Convivia no mesmo homem essa fé ritualizada, institucionalizada, e esse pensamento mágico, muito próximo do maravilhoso, de uma visão de mundo em que os sinais de Deus e do demônio estavam presentes nas coisas mais cotidianas e mais comezinhas”, acredita.

Para Lira Neto, o Padre Cícero “é a fusão desses dois mundos. Ele é o sincretismo em pessoa. E toda a incompreensão e desinteligência entre ele e a cúpula da Igreja é porque naquele momento específico e histórico a Igreja não estava disposta a dialogar com outro tipo de fé, um tanto quanto anárquica, insubmissa - eu diria até transgressora”.

Ao contrário do que muita gente pensa, o processo e as punições da Igreja não tiveram nada a ver com as aspirações políticas do padre. Quando entrou na política, um então sexagenário sacerdote lutava pela emancipação política do Juazeiro. “Está tudo muito interligado. Sua entrada na política é muito decorrente do seu desejo de se reconciliar com a Igreja, de fazer com que Juazeiro fizesse sede de um bispado”.

O encontro célebre entre Lampião e Padre Cícero é narrado sabendo da contingência mítica de que foi revestido, mas nada de sensacionalismos. Outro momento importante da biografia narra a costura do célebre Pacto dos Coronéis, articulado pelo Padre Cícero. “Ao mesmo tempo em que é uma ação conservadora, de manutenção do status quo, é uma perspectiva de instituir um processo civilizatório. Era uma modernização convervadora. Ou seja, ele tinha consciência que o pacto dos coronéis representava era um avanço em nome do progresso”.

Para o biógrafo, “ao contrário da imagem pública que se procura impingir nele, de rebelde, na verdade, Cícero era um homem muito a favor da legalidade. Até no momento em que ele autoriza - ou se não autoriza pelo menos compactua com - aquela revolução armada, você percebe que a todo instante a perspectiva que o Juazeiro tinha é de que eles estavam ao lado da legalidade”.

Contrariando o faroeste, Lira Neto faz com que o fato seja tão sedutor quanto a lenda.