quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Livro ajuda ou atrapalha reabilitação?

Leia a opinião de dom Fernando Panico, bispo do Crato, a respeito da repercussão da biografia Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão para o processo de reabilitação canônica de Cícero Romão Batista:


Ajudará? Atrapalhará?

DOM FERNANDO PANICO
Bispo do Crato

Mais um novo livro sobre Padre Cícero estava sendo escrito. Que surpresas ele nos reservaria?

O advento de algo novo sobre Padre Cícero, pela experiência já vivida por este povo do Nordeste do Brasil, a quem me compete cuidar como Pastor, confesso, me deixava apreensivo.

Ainda mais quando foi o próprio Departamento Histórico da Diocese que disponibilizou todos os documentos ao escritor. Ainda mais quando sabemos que estes mesmos documentos já foram causa de muita polêmica, de muita leitura e escritura manipulada, de muito jogo de poder, de muita disputa pelo monopólio da verdade... como se a verdade pudesse ser monopolizada por alguém ou por um grupo.

O nosso desejo era, a nossa ansiedade era para que, em mais uma nova obra, pudéssemos descortinar mais um pedacinho da verdade... desvelar, mais um pouco, o que estava escondido... iluminar mais ainda esta nossa realidade de uma riqueza sem fim, mas muito complexa, intrincada, cujo emaranhado poderia levar para caminhos assustadores; uma realidade arrebatadora, mas delicada pois, em última análise estamos tecendo a fina renda do que foi a história de fé de um povo que lutou, e luta ainda hoje para, com a liberdade de filhos de Deus, visitar a Mãe das Dores e o Padrinho Cícero, no lugar sagrado: Juazeiro do Norte. No lugar que Jesus mesmo disse a Maria de Araújo, que queria que fosse um lugar de salvação para as almas. E é.

Que história este escritor escreveria? Como ele utilizaria os documentos? Um jornalista agnóstico.... que compromisso ele poderia ter com um assunto eminentemente religioso? Com um padre? Com os romeiros?

Essas perguntas afligiam meu coração de Bispo. Também porque este livro, publicado por uma grande editora, poderia ter repercussão na Santa Sé onde se processa o pedido de reabilitação do Padre Cícero? Ajudaria? Atrapalharia?

As entrevistas dadas pelo jornalista antes do lançamento do livro não eram muito animadoras para meu coração. Dizia ele que sua intenção era escrever um retrato de um homem, nem santo, nem impostor... tanto que, originalmente, o livro deveria se chamar apenas “Cícero”. Que outros muitos conflitos, dentro e fora da Igreja, este livro causaria?

Já comecei a ler o livro e com muito interesse. A leitura é mesmo envolvente: a linguagem agradável, clara e me parece que faz bom uso da documentação. O meu tempo é que não é amigo e não me deixa ficar em companhia do livro o quanto eu gostaria.

Efetivamente estou tranquilo, pelo que li até agora, que o compromisso e a responsabilidade do autor são confiáveis. Mais do que isso, como jornalista sério, me parece que procura mostrar os dois lados da moeda. Não esconde o que (mesmo com o perigo de sermos anacrônicos) aos nossos olhos hoje poderia ser avaliado como um comportamento desabonador e, na mesma pessoa, mesmo que seja ou Padre Cícero ou Dom Joaquim, o lado bom do personagem.

Como eu dizia, numa história complexa com é a nossa em Juazeiro, é muito importante a preocupação de não fazer uma leitura unidimensional dos fatos, mas tridimensional ou até mesmo, holográfica. Isso se pode perceber.

Alguém me dizia: “quando eu lia o livro, parece que ouvi, em alguns momentos, o grito enraivecido de Dom Joaquim.” O fato de o autor ser agnóstico não o impede de relatar os fatos religiosos com acuidade e verdade. Não percebi, até agora, interpretações tendenciosas ou ideológicas. É mesmo um contador de história. Um bom contador de uma boa história.

* Texto originalmente lido por dom Fernando Panico durante o lançamento da biografia Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão em Juazeiro do Norte, em 2 de dezembro, no auditório do Centro Cultural Banco do Nordeste.