segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Zero Hora: "Getúlio continua sendo uma esfinge"




(Por Antônio Luiz Araújo) - Zero Hora (RS).

Biógrafo consagrado de vultos históricos, o escritor e jornalista Lira Neto se dedica há cerca de um ano a um livro sobre a vida de Getúlio Vargas. A obra terá a forma de uma trilogia, com cerca de 500 páginas, em média, por volume. Nascido no Ceará e radicado em São Paulo, Lira diz: "Na Presidência, ninguém foi mais enigmático, contraditório, ambivalente". O escritor se esquiva de revelar a data prevista para o lançamento da obra. Aceitou, no entanto, um pedido de Zero Hora para responder, por e-mail, a perguntas sobre seu trabalho. A seguir, um resumo:

Zero HoraPor que o senhor decidiu biografar Getúlio Vargas?
Lira Neto
– Sempre me surpreendeu o fato de Getúlio ainda não ter sido alvo de uma biografia jornalística, moderna, exaustiva. Vinha flertando com o tema há vários anos. Em 2009, depois de entregar os originais de meu livro mais recente, Padre Cícero – Poder, Fé e Guerra no Sertão, resolvi que era chegada a hora de encarar o desafio. Tem sido fundamental a estrutura, a atenção e o apoio estratégico fornecido pela editora que publicará a obra, a Companhia das Letras.

ZH – Como o senhor define Vargas?
Lira – O melhor biografado é aquele que não pode ser definido com uma única palavra, numa única frase, em um único parágrafo, um único capítulo e, às vezes, nem mesmo em um único livro. No caso de padre Cícero, a pergunta que perpassa as quase 600 páginas da obra é exatamente esta: afinal, quem foi Cícero Romão Batista? Ao final da leitura, se tiver provocado no leitor mais dúvidas do que certezas absolutas, terei cumprido meu papel de biógrafo. Em se tratando de Getúlio, acredito em algo parecido.

ZH – A Era Vargas acabou?
Lira –
Bem ao contrário disso. Para o bem e para o mal, ela parece mais viva do que nunca. Ao longo das décadas, muitas vezes decretou-se o fim da chamada “Era Vargas”: em 1954, às vésperas da morte de Getúlio; em 1964, quando do golpe militar; em 1994, com a posse de Fernando Henrique Cardoso, que inclusive pregou em discurso a necessidade de virar tal “página da história”. Nos últimos anos, e particularmente na eleiçãos presidencial que está sendo travadas, o legado de Getúlio está mais uma vez em questão. Mais vivo e mais polêmico do que nunca.

ZH – Quem, na sua opinião, compreendeu melhor a figura de Vargas entre os historiadores?
Lira
Há inúmeros trabalhos acadêmicos sobre ele. No conjunto, há obras de interpretação interessantes e bem relevantes. Mas ele continua sendo essencialmente uma esfinge.

ZH – Qual é o método para não submergir nas fontes que constituem, hoje, a existência real de seu biografado?
Lira –
O maior erro, e sem dúvida o mais comum, é tentar dividir a vida de Getúlio em vários “Getúlios”: o revolucionário de 30, o ditador do Estado Novo, o populista do segundo governo, e por aí afora. Pode ser mais didático, mas também é mais mecânico, estanque e, portanto, simplista. O mais difícil e o mais excitante é tentar compreender como Getúlio foi capaz de redirecionar os rumos da história brasileira e, ao mesmo tempo, como também se permitiu direcionar e se reinventar a partir das transformações que ele mesmo foi produzindo. Maria Celina D’Araújo, por exemplo, em seus estudos, mostra isso de modo brilhante.

ZH – O senhor biografou o escritor José de Alencar, o padre Cícero e o general e presidente Humberto Castello Branco – cearenses, como o senhor. Como o fato de Vargas ser gaúcho repercute em seu trabalho?
Lira – O fato de ter biografado cearenses não foi, obviamente, uma coincidência. Isso tem relação imediata com o fato de serem personagens que, de um modo ou de outro, fazem parte de meu universo de interesse pessoal desde muito cedo. Mas biografei também a cantora Maysa, que era carioca, criada em São Paulo. Por meio de Maysa, biografei o fim da Era do Rádio e o início do mercado fonográfico, assim como o surgimento da TV e a pré-história da imprensa de celebridades. Getúlio, por sua vez, obviamente, não pertence apenas ao Rio Grande do Sul. Mas também é óbvio que precisei mergulhar fundo na gênese do biografado, procedendo a intensa pesquisa na história gaúcha, tarefa que foi facilitada pela excelência de trabalhos como os de Gunter Axt, Luciano Arrone Abreu, Joseph Love, Sandra Jatahy Pesavento, Maria Antonieta Antonacci, Ricardo Vélez Rodrigues, Eliane Colussi, Mario Maestri, Hélgio Trindade e tantos outros que, independentemente de pontos de vistas e conclusões antagônicas que possam ter, fornecem um painel rico e polifônico do Rio Grande da época. Ao evocar tais nomes assim, de memória, devo ter pecado pela omissão de alguns.

(Zero Hora, 16.10.2010)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Diário do Nordeste: "Decifrando Getúlio"



(Por Natercia Rocha) - Diário do Nordeste (CE).

Depois de cinco biografias - O Poder e a Peste: A Vida de Rodolfo Teófilo (1999), Castello-A Marcha para a Ditadura (2004), O Inimigo do Rei: uma biografia de José de Alencar (2006), Maysa - Só Numa Multidão de Amores (2007) e Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão (2009), o jornalista cearense Lira Neto está preparando seu novo trabalho. Dando continuidade à parceria com a editora Companhia das Letras, o escritor está trabalhando a biografia de um dos mais polêmicos, enigmáticos e controvertidos personagens da história brasileira: Getúlio Vargas.

"Dei início aos trabalhos na semana seguinte depois que entreguei os originais de Padre Cícero para a editora. Naquela ocasião, conversamos a respeito de novos projetos e disse que meu 'sonho de consumo' como escritor era biografar Getúlio Vargas", revela Lira. "Eles toparam na hora. Desde agosto de 2009, ou seja, há pouco mais de um ano, estou mergulhado nesse assunto".

Ainda sem previsão de título para o livro, o autor adianta que a trajetória de vida pessoal e pública de Getúlio Vargas será esquadrinhada em três volumes, cada um com cerca de 500 páginas, a serem lançados com espaçamento de, aproximadamente, um ano entre um e outro. "Não posso adiantar muita coisa, nem de conteúdo, nem de prazos, até porque o cronograma ainda está sendo acertado com a editora. Mas posso dizer que os três volumes darão conta de toda a trajetória de Getúlio Vargas".

Neste primeiro ano de trabalho, a pesquisa que Lira Neto vem desenvolvendo está concentrada na gênese da história do "pai dos pobres". Desde o nascimento, infância e juventude e formação política em São Borja, no Rio Grande do Sul, até sua chegada à presidência da República.

"A longa história de Getúlio Vargas estará condensada em três volumes, mas meu primeiro campo de interesse está focado no momento em que ele entra para a política como deputado estadual, depois deputado federal, governador e ministro do governo Washington Luís", ressalta o escritor.

Documentos inéditos

Apenas na etapa inicial da pesquisa, cinco estados brasileiros já foram percorridos pelo biógrafo em busca de arquivos públicos e privados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. Mas o autor adianta que serão vasculhados, também, arquivos internacionais.

"Esse livro, como todos os outros que escrevi, pretende ser apoiado, essencialmente, em fontes primárias. Não é uma simples pesquisa bibliográfica. Queremos trazer à luz uma série de documentos pouco visitados pela historiografia ou, em grande parte, absolutamente inéditos", destaca.

"Em Minas Gerais, estive em Ouro Preto, local de passagem de Getúlio na pré-adolescência, quando estudou lá. Mas é no Rio Grande do Sul, tanto em São Borja, quanto em Porto Alegre, onde está o grosso da primeira fase da pesquisa, a maior parte dos documentos consultados. No Rio de Janeiro, no Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas, estão os arquivos pessoais dele. E em São Paulo as hemerotecas são muito ricas", enfatiza. "Mas não vou me restringir a arquivos somente brasileiros. Pretendo contemplar, e já comecei a fazer isso, arquivos no exterior, especificamente nos Estados Unidos, Itália e Alemanha".

Enquanto avança na pesquisa, o autor se prepara para receber a estatueta do 52º Prêmio Jabuti, por Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão, que ficou em segundo lugar (em empate com Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory. O primeiro lugar foi para Nem Vem que Não Tem - Vida e Veneno de Wilson Simonal, de Ricardo Alexandre). Outra novidade é que, este ano, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) está com votação aberta para o "Júri Popular", em que internautas elegerão, entre os vencedores de ficção e não-ficção, o "Livro do Ano".

Diário do Nordeste, 15/10/2010

É eleição para presidente ou para sacristão?



"Pretendemos, nesta hora grave para a família brasileira, inscrever a sua defesa em nosso programa político”. Responda rápido: quem disse essa frase? José Serra? Dilma Rousseff? Pois é. Poderia muito bem ter sido um ou outro. Mas foi o autoritário Plínio Salgado, mentor da Ação Integralista Brasileira, movimento inspirado no fascismo italiano de Benito Mussolini.

No histórico manifesto de outubro de 1932, considerado a certidão de nascimento do Integralismo, Plínio dedicou um capítulo inteiro à defesa do binômio “Família e Nação”. Agora, quase 80 anos depois, em pleno século 21, Dilma e Serra fazem uma campanha presidencial rasteira e envelhecida, baseada na mesma ladainha dos caricatos galinhas verdes.

“Dilma vai apoiar a família brasileira", diz o programa do PT, no horário eleitoral da televisão. "Quero defender a família brasileira", exclama por sua vez José Serra. O regozijo por finalmente termos dois candidatos modernos, disputando uma eleição presidencial no Brasil, esfarelou-se. Ambos preferiram enxovalhar as próprias biografias ao reduzirem a contenda a uma futrica moralista.

Tão constrangedor quanto assistir a Dilma Rousseff atrapalhando-se na hora de fazer o sinal da cruz na missa em Aparecida do Norte é ver José Serra beijando crucifixos em público. Convertidos a um cristianismo de ocasião, Dilma e Serra, orientados por seus respectivos marqueteiros, apequenam-se diante de si mesmos e aos olhos do eleitorado. Nem parece que são candidatos à presidência da República. Dão a impressão que estão concorrendo para saber quem vai cuidar da sacristia.

Ao ressuscitar a face mais conservadora do catolicismo em pleno horário eleitoral, Dilma e Serra realmente fazem a política retroagir decênios. Há temas urgentes, que precisariam ser discutidos por aqueles que se propõem a governar o país. Chega a ser vexatória a constatação de que a figura moralmente mais conservadora entre os principais candidatos do primeiro turno, Marina Silva – em quem não votei –, foi quem pautou as discussões mais contemporâneas e relevantes da campanha até aqui.

Agora, no segundo turno, ao mirarem o eleitorado da evangélica Marina, o senhor José Serra e a senhora Dilma Rousseff apropriaram-se exatamente do que havia de mais retrógrado nele, ignorando os aspectos de renovação política que a candidata pelo Partido Verde, bem ou mal, pôs em debate. Para usar a metáfora bíblica, como inclusive parece convir ao maniqueísmo que ora assola o país, postos entre a Luz e a Treva, Serra e Dilma estão apostando, de caso pensado, na Treva.

Pelo twitter, o coordenador de comunicação do PT, deputado André Vargas, expeliu recentemente a seguinte boutade, referindo-se ao adversário José Serra: “O Brasil verdadeiramente cristão não votará em quem introduziu a pílula do dia seguinte, que na pratica estimula milhões de abortos”.

A frase do senhor André Vargas é tão obscurantista quanto o despropósito da campanha tucana, que colou em Dilma Rousseff a pecha de ser a favor da descriminalização do aborto – coisa que deveria estar sendo discutida com maturidade, e de forma desassombrada, por qualquer cidadão preocupado com os índices de mortalidade de mulheres brasileiras que recorrem ao Citotec para interromper uma gravidez indesejada.

Não me espantarei se, dentro de alguns dias, algum marqueteiro a serviço do PT ou do PSDB sugerir à cúpula partidária a organização de manifestações públicas nos mesmos moldes das antigas marchas da família com Deus pela liberdade. Além de exumarem Plínio Salgado, os marqueteiros e coordenadores de comunicação de Dilma e Serra estão evocando os fantasmas de Carlos Lacerda e da velha UDN para nos assombrar.

A diferença é que ninguém precisa mais sair às ruas para levantar bandeiras contra ou a favor do que quer que seja. O mais desconcertante é exatamente isso. A internet, símbolo dos novos tempos de comunicação global e instantânea, é o instrumento escolhido pelos arautos do anacronismo para deflagrar a mais carola de todas as cruzadas eleitorais das últimas décadas.

Saímos do século 20. Mas o século 20, infelizmente, ainda não saiu de dentro de nós.

Texto publicado originalmente no caderno Outlook do Brasil Econômico, em 15 de outubro de 2010.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"Padre Cícero" ganha Prêmio Jabuti de Literatura




Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, publicado pela Companhia das Letras, ficou com o segundo lugar, na categoria biografia, do Prêmio Jabuti de Literatura. A lista dos vencedores foi divulgada hoje, 1 de outubro, pela Câmara Brasileira do Livro. A relação completa, segundo o blog do caderno "Prosa e Verso", do O Globo, é a seguinte:


"Se eu fechar os olhos", "Leite derramado" e "Os espiões" são os vencedores da categoria "Romance".

Os vencedores da categoria "Contos e crônicas" são: "Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras histórias de amor)", "A máquina de revelar destinos não cumpridos", "Paulicéia dilacerada". "Crônicas inéditas" (Manuel Bandeira), terceiro lugar da categoria "Contos e crônicas", vai concorrer na categoria póstuma

Venceram a categoria "Poesia": "Passageira em trânsito", "Sangradas escrituras" e "Lar".

Venceram a categoria "Biografia", na ordem: "Nem vem que não tem: vida e veneno de Wilson Simonal", "Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão" e "Euclides da Cunha: uma odisséia nos trópicos" empataram em segundo e, em terceiro ficou "Bendito, maldito: uma biografia de Plínio Marcos".

A categoria "Reportagem" tem como vencedores "O leitor apaixonado, prazeres a luz do abajur", "Olho por olho: livros secretos da ditadura" e "Conversas de cafetinas".

Os vencedores da categoria "Infantil" são: "Os herdeiros do lobo", "Carvoeirinhos" e "A visita dos dez monstrinhos".

Os vencedores da categoria "Juvenil" são: "Avó dezanove e o segredo soviético", "Marginal: à esquerda" e "Sofia e outros contos".

Os vencedores da categoria "Capa" são: "O resto é ruído: escutando o século XX", "Salas e abismos" e "Os espiões".

Em "Teoria e crítica literária" os vencedores na ordem foram: "A clave do poético","O controle do imaginário e a afirmação do romance" e "Cinzas do espólio".

Venceram na categoria "Tradução": em primeiro lugar "O leão e o chacal mergulhador", em segundo, "Canção do venrável" e em terceiro, "Trabalhar cansa".

A segunda categoria apurada foi "Arquitetura e urbanismo, fotografia, comunicação e artes". Os vencedores, na ordem, foram "Athos Bulcão", a coleção "Brasiliana Itaú", e "Ética, jornalismo e nova mídia".

Os vencedores em "Projeto gráfico" são, na ordem: "Igreja e convento de São Francisco da Bahia", a edição de colecionador de "Alice no país das maravilhas" e "Rino Lins, uma gráfica de fonteira".

O primeiro lugar da categoria "Ilustração" é "Já já: a história de uma árvore apressada". Em segundo lugar, estão empatados "O lobo" e "Marginal : esquerda". Também empatados em terceiro: "O tamanho da gente" e "O passarinho que não queria só cantar".

Na categoria "Ciências exatas, tecnologia e informática" venceram: "Obra científica de Mario Schomberg", "Linguagens formais, teoria, modelagem e implementação" e "Química verde".

Os vencedores de "Educação, psicologia e psicanálise" são: "O tempo e o cão", "Caderno sobre o mal" e "Brasil arcaico, escola nova: ciência, técnica e utopia nos anos".

Vencedores da categoria "Didático e paradidático": "Uma história da cultura afrobrasileira", "Coleção gira mundo" e "Almanaque de sentidos".

Venmceram na categoria "Economia, administração e negócios": "Trabalho flexível empregos precários?", "Os anos de chumbo" e "Biocombustíveis, energia da controvérsia".

Venceram a categoria "Direito": "A constituição na vida dos povos", "Direito das companhias", "Curso de direito tributário: constituição e código tributário nacional".

Venceram a categoria "Ciências humanas": "Viver em risco", "A luta pela anistia" e "Um enigma chamado Brasil".

Venceram a categoria "Ciências naturais e da saúde": "Clínica médica", "Manual de diagnóstico e tratamento para residentes de cirurgia" e "Medicina laboratorial para o clínico".

Venceram a categoria "Tradução de obra literária do espanhol para o português": "Purgatório", "Três tristes tigres", "Cem anos de solidão".


(Fonte: Prosa Online)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Vá em paz, Paulinho



O Brasil estava dividido. Metade do país torcia por Nara Leão, que defendia “A banda”, de Chico Buarque. A outra metade preferia “Disparada”, de Geraldo Vandré, na voz de Jair Rodrigues. Naquele 10 de outubro de 1966, o dia da grande final do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, milhões de pessoas grudaram os narizes na tela da tevê, excitadas para saber quem ganharia a peleja. Faziam-se apostas, lançavam-se desafios, trocavam-se desaforos entre os respectivos fã-clubes.

Nos bastidores, um homem coçava a careca, apreensivo. Qualquer que fosse o resultado, ele temia que os partidários da música que terminasse em segundo lugar iniciassem um ensaio de guerra civil no auditório do Teatro Record. Não era exagero. Os ânimos estavam exaltados. Lá fora, a polícia estava pronta para agir, em caso de necessidade. Os festivais de música popular, à época, despertavam maior rivalidade do que uma final de Corinthians x Palmeiras no Pacaembu.

Quando o júri anunciou o veredicto, o placar foi de sete votos para “A banda” e cinco para “Disparada”. “Pelo clima do teatro, não achei muito bom”, diria o homem carequinha, em suas memórias. Mas o pior ainda estava por vir. Das coxias, chegou a notícia: Chico Buarque se recusava a receber o prêmio. O próprio autor de “A Banda” achava que “Disparada” era uma música melhor do que a sua. Chico ameaçava recusar o troféu ao vivo, diante da platéia e das câmeras de tevê. Seria um estrupício.

O carequinha teve uma idéia luminosa e salomônica: os votos do júri seriam matreiramente ignorados e declarar-se-ia o empate. Assim foi feito. Naquela noite, ninguém iria para casa chateado. Chuvas de papel picado e pétalas de rosas foram despejados igualmente sobre Nara, Jair e Chico. Vandré, que não estava na cidade, soube do ocorrido por meio de um telegrama, enviado pelo tal carequinha, que na verdade atendia pelo nome de Paulo Machado de Carvalho Filho, o Paulinho, como era conhecido por meio mundo da música e da televisão brasileira.

Paulinho adorava contar, pela milionésima vez, histórias saborosas como essa, sempre sublinhando cada frase com seu peculiar sorriso, revelando novos detalhes a cada ocasião em que, coçando a careca com a ponta dos dedos, revirava os baús de sua prodigiosa memória. No meio desta semana, ao abrir o jornal à mesa do café da manhã, soube que Paulinho morreu, aos 86 anos, na última terça-feira. O pão com manteiga entalou-me na garganta.

Estive com Paulinho poucas vezes. Talvez não mais do que cinco oportunidades ao vivo, além de trocarmos algumas dezenas de telefonemas. O suficiente para que passasse a nutrir por aquele senhor sorridente e elegante uma afeição particular.

Devo a ele alguns dos melhores parágrafos de Maysa: Só numa multidão de amores. Quando estava escrevendo a biografia da cantora, Paulinho recebeu-me gentilmente em sua casa. Narrou-me uma série de episódios e forneceu-me documentos que ajudaram a reconstituir o início da carreira da autora de “Ouça”. “Ah, só mais uma coisa: não precisa me chamar de Dr. Paulo, pode me chamar de Paulinho mesmo”, disse, quando nos despedimos, após eu encher umas três ou quatro fitas cassetes com nossa conversa para o livro.

Paulinho estava lá, naquele 13 de março de 1957, quando Maysa apareceu pela primeira vez na tevê, em um programa semanal na Record, com o patrocínio da Bombril. Maysa adorou quando o câmera Salvador Tredicci fechou o ângulo e enquadrou, em um big-close, apenas seus decantados olhos verdes, felinos e sedutores. “Faça isso mais vezes. Como estou um tanto quanto gordinha, ninguém precisa ver o resto do corpo”, brincou Maysa, sem suspeitar que, já na primeira noite de programa, aquela imagem viraria sua marca registrada.

Os arranca-rabos de Maysa com Elis Regina, as dificuldades da família Matarazzo em aceitar a carreira artística da moça, os sopapos públicos trocados entre ela e o marido, os pormenores dos contratos de patrocínio, nada escapou às narrativas indiscretas de Paulinho. Quando o livro foi publicado, ele não pôde comparecer ao lançamento, por motivos de saúde. Mas me ligou e me fez prometer que eu iria ao lançamento do livro de memórias dele, Histórias que a história não contou. Garanti que iria, porém, uma viagem de trabalho me impediu de honrar a promessa.

Telefonei-lhe no dia seguinte, dizendo que mesmo assim fazia questão de um autógrafo no exemplar que comprara no aeroporto. Ele convidou-me para um café, que foi sempre sendo adiado, por mim ou por ele, por esse ou aquele motivo. Agora, enquanto escrevo este texto, tomo solitariamente uma xícara de café amargo e quente. O café que não tomamos. Entre um parágrafo e outro, levanto e vou à estante. Na prateleira de música e tevê, pego seu livro. Na folha de rosto, sinto falta do autógrafo que nunca fui buscar.

Texto publicado originalmente no caderno Outlook, do jornal Brasil Econômico, em 20 de setembro de 2010.

Eles é que ficam tontos?



Se dependesse dos comerciais de cerveja, já teria me tornado um abstêmio. Os publicitários parecem imaginar que todo mundo que gosta de cerveja tem uma bexiga no lugar do cérebro. Chega a ser constrangedor o infantilismo com que nos brindam as propagandas do produto na tevê. Como entoaria a Turma do Funil, nós é que bebemos e eles é que ficam tontos?                      

Puxando assim pela memória, se não me trai a amnésia alcoólica, foi lá pelos meados dos anos 70 do século passado que começou essa mania de tratar os apreciadores da cerveja como idiotas. "Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?" - dizia o bordão eternizado no filmete protagonizado por Adoniran Barbosa. O verbo estava conjugado errado - tudo bem, era o Adoniran - e a questão embutia um falso dilema.

A cerveja é uma bebida tribal, para ser sorvida em meio a uma roda de amigos, de preferência com alguma calabresa apimentada servindo de complemento e muita conversa fiada à mesa. O cúmulo da solidão é beber uma cerveja desacompanhado num bar. De modo idêntico e inversamente proporcional, o paroxismo da tristeza é uma turma que bebe em silêncio, por absoluta falta de assunto.

Adoniran que me perdoe. Mas beber cerveja e conversar são atos tão inseparáveis como essencialmente devem ser o lúpulo e a cevada. Mas desde aquele antigo comercial até aqui, as agências de publicidade têm se esmerado em bater o próprio recorde em mau gosto, machismo e insensatez. Quem foi o idiota, por exemplo, que bolou a velha expressão "estupidamente gelada"?

Como diria um amigo meu, uma cerveja estupidamente gelada, na verdade, não passa de uma cerveja estúpida: sem gosto, aguada, desprovida de sentido, pois neutralizada em seu característico e necessário amargor. E, antes que me esqueça, uma cerveja "subzero", duplamente filtrada, é, para qualquer bom entendedor, uma subcerveja.

Nos comerciais, o estereótipo do bebedor de cerveja é o do garotão com cara de pateta, que baba por uma loura gostosa enquanto solta piadinhas infantilóides, maliciosas na intenção, mas toscas na forma e no conteúdo. A associação entre cerveja, verão e juventude já proporcionou os clássicos mais infames do gênero, mas nada que chegue perto do comercial no qual alguns bocós se gabam de beber, segundo eles próprios relincham, um "cervejão". Ora, ora, que besteirão.

Desconfio que os publicitários miram de propósito no público adolescente, como se considerassem que beber cerveja, no final das contas, fosse apenas coisa de garotos. Ou, pior ainda, suspeito que os senhores gênios do marketing querem passar a ideia irresponsável de que puberdade e pileque foram feitas assim uma para o outro, a exemplo da tulipa de chope e o pratinho de tremoços.

Lembram do comercial de cerveja que mostrava ratinhos de laboratório que recebiam choques ao abocanhar o pedaço de queijo, mas teimavam em repetir sempre o mesmo gesto? "Como a recompensa é boa, eles voltam ao local de origem, esquecendo a experiência ruim", dizia o locutor. "Ratinhos estúpidos, não?", comentava a mocinha bonita no comercial, pois afinal se convencionou que todo comercial de cerveja tem que ter uma mulher linda no meio.

Seguia-se então a cena de um grupo de rapazes tomando choques recorrentes ao abrirem seguidamente a porta da geladeira para pegar latinhas de cerveja. Moral da história: nós, os bebedores de cerveja, somos tão inteligentes quanto ratinhos de laboratório. Mais cretino, impossível.

Por essas e por outras, conheço gente que se sente incomodada em pedir uma cerveja durante um jantar mais bacana. Como se um destilado ou uma boa taça de vinho fossem as únicas bebidas permitidas ao bom tom e à elegância numa hora e numa ocasião dessas.

Cervejeiro assumido que sou, já vi gente torcendo o nariz ao me ver pedir uma prosaica long neck enquanto todos vão de merlot ou cabernet sauvignon - mesmo que seja aí em Fortaleza, numa noite quente de tirar o juízo de qualquer cidadão.

Creio que isso ocorre porque as propagandas de cerveja nunca ressaltam a qualidade do produto em si, jamais dão ênfase à honestidade do malte, ao exato nível de amargor do lúpulo, à correta fermentação da levedura. Mas, pensando bem, talvez seja até melhor assim.

Afinal, nada pode ser mais insuportável do que uma nova categoria de frequentador de botequim que apareceu nos últimos tempos aqui em São Paulo: a do "especialista" em cerveja.

Ele é o equivalente ao enófilo, esse chato que pode ser visto por aí com o nariz enfiado dentro de uma taça, adivinhando aromas etéreos, bochechando taninos redondos, deliciando-se com notas de couro e toques herbáceos, decifrando retrogostos amadeirados onde nós, meros mortais, só identificamos o gosto do vinho mesmo.

Noite dessas, um "cervejólogo" na mesa ao lado, levando ao focinho e aos lábios uma taça de cerveja irlandesa, daquelas deliciosamente encorpadas, descobriu nela um "buquê de frutas escuras", "um pronunciado sabor de cerejas ao marrasquino", "um final herbal, levemente apimentado e terroso".

Fico imaginando que aromas colossais e que sabores incomensuráveis o dono de faro e paladar tão poderosos seja capaz de captar - valhei-me Santo Agostinho, padroeiro dos cervejeiros - à hora do sagrado ofício do sexo.

Infelizmente, a natureza não me proporcionou à língua e ao nariz um par de sentidos tão sofisticados assim. Pobre de mim, que como já dizia um ex-presidente maluquete, bebo apenas porque é líquido, pois se fosse sólido eu comia. Hic!


Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 17 de setembro de 2010.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O último dos cangaceiros




Leio no jornal: aos 100 anos, morreu Moreno, um dos últimos cangaceiros do bando de Lampião. Não sou de desejar a morte a ninguém, mas devo admitir que, nesse caso, sinto-me tentado a dizer: já vai tarde.

Quem dera tivesse ido embora com ele a ignorância cavalar de todos os sociólogos, historiadores, cineastas, jornalistas e escritores que, ainda hoje, por estupidez ideológica, ranço acadêmico ou ingenuidade histórica, insistem em glamourizar o cangaço.

O pernambucano Moreno - José Antônio Souto, no registro civil - era um facínora. Mas morreu paparicado, recebido com festa e como herói na cidade cearense de Brejo Santo, onde passou parte da adolescência até enveredar para a vida do crime e se escafeder para os cafundós da Paraíba.

Moreno matou 21 homens, segundo suas próprias contas. Há pouco, quando estava prestes a esticar as canelas, deu entrevistas nas rádios locais como uma celebridade, foi saudado por cantadores populares e abraçou a família sorridente, que não escondeu o orgulho pela notoriedade e pela fama de valentão do parente ilustre.

Uma miopia conceitual é responsável, em grande parte, pela mitificação desses bandidos que roubavam, seqüestravam, matavam, estupravam e viviam à sombra do coronelismo e do latifúndio.

Na década de 60 e 70 do século passado, tornou-se moeda corrente nas universidades a interpretação canhestra de que a violência imposta aos nordestinos por gente sanguinária como Lampião, Corisco, Azulão e outros celerados menos famosos como Moreno fosse uma resposta natural - e positiva - à violência social endêmica do sertão.

Os cangaceiros seriam, conforme tal viés, os Robin Hoods da caatinga. Ou, melhor dizendo, seriam "bandidos sociais" - para usar o termo então tomado emprestado ao historiador norte-americano Eric Hobsbawm, que conferiu certo verniz intelectual ao que, no fundo, nunca passou de um atestado de miséria teórica.

Lastreados em um marxismo mal lido e mal digerido, cientistas sociais brasileiros passaram a querer atribuir ao cangaço até mesmo certa nobreza de princípios e alguma justiça nas ações. Lampião passou a ser o rebelde primitivo, o justiceiro romanesco, o paladino dos fracos e oprimidos.

Bem antes disso, em 1935, a Aliança Nacional Libertadora já citava Lampião como um de seus inspiradores políticos. Trinta anos depois, Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas, iria pelo mesmo caminho e, num surto de desvario histórico, chegaria a dizer que Virgulino Ferreira da Silva foi "o primeiro homem do Nordeste a batalhar contra o latifúndio e arbitrariedade".

Ora, como se o mesmo Virgulino não dispusesse de coiteiros poderosos, os coronéis sertanejos que lhe ofereciam armas, guarida e munição, em troca do serviço de milícia proporcionado pelo bando, o que garantia a inviolabilidade de seus domínios feudais.

Também data dos anos 60 do século passado um livreto de poucas páginas e de ideias ainda mais ralas. Superestimado durante muito tempo, Cangaceiros e Fanáticos, de Rui Facó, tornou-se uma espécie de bíblia engajada para os "estudiosos" do tema, ao pregar que o cangaço era "um exemplo de insubmissão" e "um passo à frente para a emancipação dos pobres do campo".

Felizmente, uma bibliografia mais contemporânea devolve os cangaceiros a seu devido papel na história: o de carniceiros. É o caso de Guerreiros do Sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil, de Frederico Pernambucano de Mello, arguto pesquisador de história social da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. A obra serve de providencial colírio desembaçador aos que ainda insistem, mesmo hoje, em enxergar Lampião através de lentes românticas.

Em um dos capítulos mais instigantes do livro, o autor expõe a tese do "escudo ético", ao desvendar a necessidade que os cangaceiros tinham de justificar aos próprios olhos - e aos olhos de terceiros - suas ações criminosas, sob o pretexto da lavagem da honra ofendida e do desejo de vingança.

Com efeito, no caso de Moreno, o cangaceiro centenário que acaba de morrer, o "escudo ético" seria proveniente da surra que ele levou da polícia na juventude em Brejo Santo, ao ser acusado - injustamente - do roubo de um carneiro. É o que nos conta a reportagem do jornalista Antônio Vicelmo, publicada neste mesmo Diário, na última quarta-feira.

Tão logo se viu livre da cadeia, Moreno teria matado o homem que o denunciou e que seria o verdadeiro ladrão do bicho. Pronto. Estava justificada, sob o abrigo de um providencial escudo ético, a entrada de Moreno para o cangaço. O que a partir daí passou a ser um meio de vida ilegal, violento e desonesto, estaria plenamente abonado.

Não há dúvidas de que o cangaço, com sua crônica interminável de atrocidades, truculências e selvajerias - que, de fato, só encontrava equivalente na ferocidade das volantes -, ainda seja capaz de fornecer material copioso para historiadores, jornalistas, escritores, cineastas e ficcionistas.

Afinal, paralelo ao regime de terror que infundiam, os cangaceiros também irradiavam fascínio com sua indumentária ostensiva, sua aura de implacáveis combatentes, seu cotidiano repleto de aventuras e perigos. Em uma terra em que a valentia, a macheza e a falta de polidez são considerados atributos positivos - e onde a "honra manchada" ainda desculpa o uso da violência - os cangaceiros tornaram-se, entre nós, os ícones máximos da audácia.

Quando estive recentemente na cidade potiguar de Mossoró, embasbaquei-me com o realmente impressionante Memorial do Cangaço, um dos orgulhos dos moradores do lugar, que fazem questão de mostrá-lo aos visitantes, com incontida vaidade. Segundo consta, Mossoró foi a única cidade nordestina a colocar o bando de Lampião para correr.

Contudo, no lugar de se exaltar a decantada resistência dos mossoroenses, tema de um painel fotográfico apenas secundário, a grande estrela do Memorial do Cangaço potiguar é o próprio Virgulino e sua companheira, Maria Bonita, cujas imagens aparecem em painéis gigantescos, de vários metros de altura.

Fico imaginando, daqui a algumas décadas, no Rio de Janeiro, quando alguém pensar em erguer um memorial à guerra contra o narcotráfico, se os painéis principais exibirão a imagem dos bandidos em tamanho gigante - e não das vítimas que eles fizeram com seu negócio sujo.


Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 10 de setembro de 2010.


Foto de Moreno por Leonardo Lara

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Estão pensando que somos abestados?



“Vote no abestado”. Lá está ele, meu conterrâneo, no horário eleitoral gratuito, fazendo graça e barulho, anunciando que é candidato a deputado federal. “Vote no Tiririca, pior do que está, não fica”, diz o slogan, pérola do cinismo e da despolitização absoluta.

“Você sabe o que faz um deputado federal? Não? Eu também não. Mas vote em mim que depois eu te conto” – essa é a principal promessa da campanha. Até tem outra, um pouco mais ambiciosa e ainda mais irreverente: “Quero trabalhar pelos mais necessitados. Principalmente os de minha família”.

Pode ser que a plataforma política do palhaço Tiririca seja mais ampla do que isso, como garantiu em entrevista recente. “De cabeça, assim, não dá pra falar. Mas como tem uma equipe trabalhando por trás, a gente tem os projetos que tão elaborados, tá tudo beleza”, jura, com a prosódia característica e a peculiar cara de pau que lhe fez a fama.

Mas é difícil saber. No site oficial da campanha, encontram-se informações sobre sua biografia de fato singular, é possível conhecer a família e os amigos do palhaço cearense e, uau, fazer download de santinhos, jingle e fotos. Tudo bonitinho e colorido. Contudo, o link para as “propostas” remete a uma página em branco. Sintomático. Até quando não quer fazer rir, o sujeito é engraçado.

Meses atrás, imaginava-se que outro cearense polêmico, Ciro Gomes, é que iria dar o que falar na eleição em São Paulo. Ciro chegou a transferir o domicílio eleitoral para a capital paulista e, por algumas semanas, acreditou-se que sua candidatura ao Palácio do Bandeirantes era pra valer. Jogado para escanteio, Ciro ficou sem saída imediata e só lhe restou mergulhar no silêncio – e no rancor? – dos traídos.

Em lugar dele, aí está o Tiririca, provocando gargalhadas de uns e arrancando protestos furibundos de outros. “Tiririca faz deboche com a democracia”, acusa o ministro da Cultura, Juca Ferreira. Para Juca, a piada chamada Tiririca não tem graça nenhuma.

Peço vênia ao senhor ministro. Eu acho que tem. Jamais votaria em Tiririca, mas confesso que, a cada aparição dele na tevê, não contenho a gargalhada. Não porque ache que um voto de protesto desse naipe faça mais algum sentido ou contribua em algo para o aprimoramento eleitoral no país. Não porque aprove a estratégia de se reduzir toda a classe política a um único balaio de gatos e gatunos, sintetizada na crença de que “pior que está não fica”. Nisso, concordo com o ministro Juca.

Contudo, acho que a candidatura de Tiririca tem graça, sim, porque sua avacalhação explícita representa uma dissonância à assepsia marqueteira, tornando ainda mais evidente o artificialismo dos candidatos que tentam vender uma imagem fabricada em laboratório. É como se eles considerassem que nós, e não o Tiririca, é que somos os verdadeiros abestados.

Além do mais, admito a vocês que sempre me espantou o poder de comunicação desse cearense de Itapipoca aparvalhado, que não demonstra nenhuma sofisticação em sua verve e conta piadas na tevê como se estivesse no picadeiro de um circo de lona furada. Sempre achei o humor de Tiririca comovente em sua suprema ingenuidade e em sua absurda pobreza cênica e vernacular. É isso, nele, que sempre me faz rir, de rolar no chão.

É um humor tipicamente cearense, autodepreciativo, capaz de fazer graça com suas próprias misérias e tragédias íntimas. No Ceará, posso garantir, tropeça-se em tiriricas a cada esquina. Minha surpresa é que este humor tão cabeça-chata, que eu supunha quase cifrado para um ouvido carioca ou paulistano, tenha conseguido transformar Tiririca, desde que ele surgiu, anos atrás, em um fenômeno de massas no país inteiro.

Tenho amigos aqui em São Paulo, paulistanos de pai e mãe, que já flagrei rindo de uma piada boba dita pela boca mole do Tiririca. Mas agora, quando o vêem no programa eleitoral gratuito, fazem cara séria. Preocupam-se com o achincalhe da democracia que ela supostamente representa.

Cá no meu canto, continuo rindo com as presepadas de Tiririca, pois ele segue me comovendo com sua ingenuidade sem limites. Mal percebe que está sendo usado pelo partido que o aliciou apenas para puxar votos à legenda e, assim, presume-se, irá ajudar a eleger alguns espertinhos do insípido PR. Os cardeais do partido até reservaram para ele um número fácil de decorar, 2222, coisa disputada a tapa na hora da inscrição das candidaturas. “Ô numerozinho lindo!”, comemora Tiririca, no programa eleitoral.

Tiririca tem toda razão. Ele é mesmo um abestado.

Texto publicado originalmente no caderno Outlook, do jornal Brasil Econômico, em 3 de setembro de 2010.

Profissão: escritor



Encontro no elevador o novo funcionário do prédio onde moro. Depois do protocolar bom-dia, ele me interroga à queima-roupa: "Seu Lira, em que é mesmo que o senhor trabalha?". Sou jornalista, respondo. "É mesmo, em qual jornal?". Não trabalho mais em jornal ou revista, informo. Há alguns anos, dei adeus às redações. Vivo basicamente de escrever livros, comento, com algum orgulho.

Mas a frase não produziu o efeito esperado. Ao contrário, o rapaz me olhou com cara de quem estava sentindo lá no fundo do coração uma baita pena de mim. "Pois é, seu Lira. É isso mesmo. Cada um se vira como pode", disse, abanando a cabeça, a meio caminho entre o solidário e o decepcionado.

Achei curiosa a reação do moço. Para ele, a vida de escritor deve ser assim um suplício, quase um demérito, uma penúria lascada. Desde aquele dia, ele deve ter concluído que, como não tinha nada de mais útil ou promissor a fazer na vida, decidi ser escritor. "O senhor escreve livros de auto-ajuda?", ainda me perguntou, bem na hora em que a porta do elevador se abriu à nossa frente, para ele descer.

"Não. Não escrevo auto-ajuda", tive tempo de responder, dessa vez já um tanto quanto encabulado. "Sei, entendo", devolveu o rapaz, lacônico, antes de deixar o elevador e me desejar de novo um bom-dia, agora seguido de um voto sincero de boa sorte. A porta de aço escovado então se fechou entre nós, separando o seu desapontamento de meu visível embaraço.

Já passei por aflições maiores. Como no dia em que tive de preencher o cadastro em uma imobiliária e o corretor, sorridente, perguntou-me a profissão. "Escritor", eu disse, automaticamente. O corretor fechou o sorriso e parou alguns segundos a caneta no ar, durante os quais, suponho, ficou intrigado para saber se por acaso um escritor teria como pagar o aluguel no fim do mês.

Em palestras que faço pelo país afora, a pergunta recorrente vem sempre à baila: "É possível viver de escrever livros no Brasil?". Sinto, no cantinho da boca de quem pergunta tal coisa, um certo esgar de sadismo, como se esse alguém esperasse que, na resposta, eu passasse a expelir uma pletora de queixas e rancores.

Para surpresa e certa incredulidade das plateias, sempre digo que sim, é possível ser escritor profissional, sem com isso precisar pedir esmolas na esquina ou vender laranja no semáforo para completar a renda familiar.

É claro que, em especial no começo de carreira, não é tarefa fácil. Mas não precisa ser nenhum Paulo Coelho ou um Jorge Amado (que Ogum o tenha) para poder honrar as contas escrevendo livros. Desde que não se pretenda ficar milionário e não se queira comprar um iate com o cheque trimestral dos direitos autorais, a boa notícia é que é perfeitamente plausível viver, com alguma dignidade, nesse tipo de ofício.

A notícia ruim é que, para isso, você terá que trabalhar feito um condenado. A exemplo do ditado bíblico, é preciso comer o pão com o suor do próprio rosto. Ou, como preferiria afirmar numa hora dessa minha avó Isaura, é aí que a porca torce o rabo. Não basta encastelar-se em um minarete e contar com o beneplácito das musas. É preciso, obviamente, em primeiro lugar, escrever algo que preste - e que, ao mesmo tempo, desperte em um número suficientemente considerável de pessoas a vontade de lê-lo. Essa, talvez, seja a parte mais difícil.

Mas também não basta escrever e publicar o livro, mesmo que ele seja, digamos, genial. Organizar uma boa agenda de palestras, escrever artigos de jornal, fazer um bom "frila" (o trabalho free-lance, no jargão das redações), aqui e ali, também é parte do segredo. Se calhar de negociar os direitos do livro para alguma adaptação de tevê ou cinema, bingo, melhor ainda. Mas todo o esforço despendido será em vão sem a parceria de um bom editor, alguém com excelente faro de mercado e extrema capacidade de avaliar as possibilidades de um texto.

Aviso aos interessados: o mercado brasileiro de livros está se profissionalizando cada vez mais. A chegada de grandes grupos editoriais estrangeiros tem provocado um rebuliço ainda maior no setor. Em tal cenário, para os autores que já têm alguma estrada percorrida e algum serviço demonstrado no caminho, tornou-se possível sentar à mesa de um editor competente e, entre um cafezinho e outro, negociar contratos razoáveis.

O problema é que o resquício de certo ranço beletrista ainda está à solta. Para muitos, escrever livros deveria ser uma atividade preferencialmente diletante. Afloram brotoejas pelo corpo de muita gente à simples menção de que o ato de escrever pode ser encarado como um trabalho como outro qualquer. Acredita-se, em geral, que a única opção possível para um autor escapar da miséria seja uma sinecura em alguma repartição pública.

Em oposição a esses burocratas das letras, mas igualmente puritanos, estão os que sacralizam o ofício de escrever, tratando-o como uma espécie de sacerdócio, um ato imaculado, baseado na lógica da "fracassomania": se um livro vende bem, calculam, é porque não presta. Para ser bom, teria que vender pouco, ser hermético, indecifrável, talvez ganhar alguns prêmios literários, mas arrancar indispensáveis bocejos de tédio por parte dos leitores.

Isso se torna mais eloquente em um país no qual a leitura ainda é encarada como um símbolo de distinção - e não como uma prazerosa necessidade. Qualquer coisa que seja consumida em escala um pouco mais generosa é vista como, forçosamente, de qualidade inferior. "Fazer sucesso no Brasil é pecado", dizia Tom Jobim.

Viver - ou apenas sobreviver, como é o meu caso - de escrever livros nesse país, ainda que aos trancos e barrancos, não é visto como algo natural. Mas sim como um milagre ou, pior ainda, como um verdadeiro sacrilégio.

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 3 de setembro de 2010.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Um universo chamado Benfica



Se eu ainda morasse em Fortaleza, ou se pelo menos estivesse por aí neste final de semana, já teria um programa certo para a tarde de amanhã, sábado. Caminharia pela Floriano Peixoto até chegar em frente ao edifício Raul Barbosa, ali onde está a sede do Centro Cultural Banco do Nordeste. Lá, pontualmente às quatro da tarde, subiria no ônibus com a tabuleta "Percursos Urbanos" instalada no parabrisas. Seria mais um dos passageiros desta que é uma das ideias mais geniais - e mais simples - de que já ouvi falar em relação ao mapeamento afetivo de uma cidade.

A cada novo sábado o ônibus do "Percursos Urbanos" faz um itinerário diferente. São viagens temáticas, que percorrem a essência, a memória e os aspectos menos evidentes de uma Fortaleza que não está retratada em previsíveis cartões postais. Porém, uma Fortaleza que pode ser tão bela - e muito mais verdadeira - quanto aquela que consta dos slogans políticos e do catálogo tão pouco criativo dos guias turísticos.

Um mediador, sempre íntimo ao tema, conduz o percurso, sugerindo olhares menos óbvios e menos apressados sobre a paisagem da cidade. No trajeto, revelam-se matizes, desvendam-se segredos, descobrem-se novidades que na verdade sempre estiveram ali, bem diante de nós, mas que o imperativo do cotidiano impede-nos de parar, compreender, contemplar. É mesmo como se um novo mapa simbólico, uma cartografia irresistivelmente inusitada, se desenhasse sobre o traçado de pedra e asfalto que compõem as já tão conhecidas ruas e avenidas da cidade.

De 2008 para cá, os passageiros do Percursos Urbanos, entre tantas outras viagens, já excursionaram, por exemplo, pelo universo das lendas urbanas de Fortaleza, à espreita dos indícios do célebre Cão da Itaoca e da terrível Perna Cabeluda. Já percorreram o roteiro das manifestações arquitetônicas de uma Fortaleza despudoradamente cafona, com direito a paradas obrigatórias em frente à catedral de pretensão gótica construída debaixo de um sol de rachar, à inacreditável Casa do Português e seu desenho bizarro e, é claro, à estátua gigantesca e estrábica de Nossa Senhora de Fátima plantada à margem da avenida 13 de Maio.

O ônibus do Percursos Urbanos já trafegou também pela geografia sentimental de escritores como Moreira Campos, Ciro Colares, Gustavo Barroso. Já revisitou o espírito de uma Fortaleza insubmissa, conferindo os cenários de revoltas populares e sublevações históricas. Já flanou pela Fortaleza boêmia, pela Fortaleza dos maçons, pela Fortaleza de Fausto Nilo, e por tantas outras Fortalezas mais ou menos conhecidas - e desconhecidas.

Como a Fortaleza dos dançarinos de salão, a Fortaleza do bumba-meu-boi, a Fortaleza das lagoas aterradas, a Fortaleza de mangues estrangulados. Mas também a Fortaleza da imprensa alternativa dos anos 70, a Fortaleza da "belle epòque" cabocla, a Fortaleza dos trabalhadores do mar e, quando se imagina que até para a criatividade há algum limite, a Fortaleza dos caçadores de ETs.

Amanhã, monitorado por um bom amigo, o professor Kelsen Bravos, o ônibus do Percursos Urbanos parte do centro da cidade em direção ao Benfica. Por isso mesmo, gostaria de estar aí, para escolher uma cadeira próxima a uma das janelas, um lugar qualquer que me permitisse uma visão privilegiada do trajeto.

Afinal, aquele bairro faz parte indissolúvel de minha vida. Foi nele que passei alguns dos melhores anos de juventude, orbitando entre o prédio da antiga Escola Técnica Federal, o Centro de Humanidades da Uece, a constelação de equipamentos culturais em torno da torrinha cor de rosa da reitoria da UFC e, é claro, a buliçosa feirinha da Gentilândia. Um perímetro universitário que alguns amigos tratavam, com carinho e certa ironia de inspiração ideológica, como PCdoB: Pólo Cultural do Benfica.

Foi ali que estudei, perambulei, namorei, deixei a barba e o cabelo crescer, descobri-me poeta marginal e anarquista juvenil. Foi ali que participei de passeatas pueris, bebi numa miríade de botecos sujos, conheci gente bacana e um pessoal nem tanto assim. Ali, escrevi para revistas literárias efêmeras e fiz amigos perenes. Desafiei professores obtusos e aprendi com alguns - poucos, é verdade - mestres geniais. O verdadeiro aprendizado estava nas ruas, na atmosfera utópica com que conduzíamos nossas existências tão ingênuas e, ao mesmo tempo, tão idealistas.

Éramos jovens. Fazíamos mil revoluções por minuto nas mesas do Esquina Azul, do Bar das Letras, do Jazz Blues Bar e, mais tarde, do Pertinho do Céu. Embriagávamo-nos de vinho barato e boa literatura no Bosque da Letras, fazíamos xixi no pedestal da estátua da praça e, quase todo dia, víamos Moreira Campos de paletó e gravata dirigindo o seu fusquinha. Como gostávamos do velhinho. Gostávamos mais ainda de seus contos cheios de silêncios, interditos e sofisticadas sacanagens.

Hoje, tantos anos depois, o melhor de tudo é saber que a história de amor entre o bairro e várias gerações de fortalezenses não se esgota nesse tipo de reminiscência, na simples nostalgia. Soube que, agora mesmo, tramita na Câmara Municipal de Fortaleza um projeto que oficializa a criação do "Pólo Cultural do Benfica". Vão institucionalizar, portanto, o epíteto brincalhão de PCdoB. Ótimo. Mas torço para que isso não signifique um simples batismo solene com base em um trocadilho que, um dia, soava genial, mas que hoje perdeu em frescor e sentido.

Seja como for, amanhã, caros leitores, se estiverem a bordo do ônibus do Percursos Urbanos em direção ao Benfica, bem na hora em que passarem diante do Centro de Humanidades da Uece, perguntem ao Kelsen Bravos a respeito da nossa grande frustração daquele tempo de estudantes. Nunca conseguimos sequestrar, de verdade, a estátua de São Tomás de Aquino instalada à entrada do prédio, como tanto idealizávamos. O plano era rocambolesco. Alta madrugada, eu, Kelsen e o gigante Vessillo Monte roubaríamos a imagem do expoente da filosofia escolástica para colocar outra em seu lugar: a de Exu, que pretendíamos comprar em uma loja de artigos de macumba.

Que pena. Jamais cometemos tão sonhada heresia.

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 27 de agosto de 2010.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Herodes está à solta na Bienal do Livro



Minha filha, do alto de seus seis anos de idade, insistiu. Bateu o pé. Quis, por todas as forças, visitar o espaço “Exploração Discovery Kids”, anunciado no site oficial da 21ª Bienal do Livro Internacional de São Paulo como um dos destaques da programação infantil do evento. Tentei convencê-la de que talvez fosse bem mais divertido explorar outros estandes abarrotados de livros. Ela disse não, taxativa. O poder de atração que a programação daquela emissora exerce sobre os pimpolhos é realmente inquestionável, constatei.

É preciso dizer que Emília, minha filha, adora visitar livrarias. Em casa, temos um quartinho especial, onde ela guarda seus brinquedos e, também, conserva com carinho a pequena estante branca atulhada de livros coloridos. Sempre adorou folheá-los, desde que ainda era uma bebezinha e levava, então, os livrinhos de plástico para a banheira. Agora, que aprendeu a ler e escrever, diverte-se mais ainda, ao saber que pode, finalmente, decifrar o universo mágico das palavras.

Mas, naquela tarde friorenta do último domingo, com o Anhembi apinhado de gente e de livros, Emília preferiu conferir primeiro quais surpresas a esperavam no tal estande organizado pelo canal infantil de televisão – conhecido, é verdade, por não transmitir programas de cunho violento, mas também por bombardear a meninada com uma carga maciça de comerciais que incentivam o consumismo infantil.

Deixei que Emília me puxasse pelas mãos e lá fomos nós enfrentar a gigantesca fila, que serpenteava por algumas boas dezenas de metros à frente do local. Garantimos o nosso lugar no rabo daquela centopéia humana e aguardamos, pacientemente, que chegasse a nossa vez. Fiz questão de marcar o tempo no relógio. Foram duas horas e dez minutos de espera. Em pé.

Depois da primeira meia hora, mães com bebês ao colo já demonstravam inevitáveis sinais de cansaço. Uma hora depois, mesmo as crianças maiores, obviamente, já estavam depauperadas. Algumas choravam, atiravam-se ao chão de tão exaustas. Enquanto isso, a fila caminhava devagar, à medida que um grupo de crianças entrava no estande lá na frente, uma dúzia a cada vez, na companhia dos respectivos pais.

“Não é melhor procurarmos coisa mais divertida para fazer na Bienal?”, perguntei. Emília, olhos marejados, tentando disfarçar o beicinho de choro, sugeriu que esperássemos até o fim. “Eu queria tanto ver o Doki”, justificou, referindo-se ao cachorrinho branco com mancha preta no olho, símbolo da emissora. “Só espero que o que tenha aí dentro seja mesmo sensacional”, suspirou um pai atrás de mim na fila, cuja filhota pequenininha pedia, por favor, mãozinhas postas, para que ele também não desistisse do suplício.

Quando, enfim, conseguimos entrar, veio o malogro. Um jovem monitor, que nos disse ter 19 anos e que quase podia ser confundido com mais uma daquelas crianças ali dentro, era o único responsável por controlar o grupo no interior do estande, composto por dois pequenos e apertados ambientes. No primeiro, via-se um livro gigante, no qual o jovem monitor, extenuado como nós, esforçava-se para contar uma historinha boba, pouco criativa, que arrancou bocejos da meninada. “Estou aqui desde as 10 da manhã, ficarei até as 10 da noite”, o rapaz cochichou-me depois, também bocejando, como a justificar a evidente falta de ânimo.

No segundo ambiente, deu-se o desastre. O monitor atirou algumas chaves de madeira sobre um pula-pula de plástico em forma de labirinto e depois pediu para que as crianças as procurassem, para provarem que eram “verdadeiros exploradores”. Como não houve separação por faixa etária na entrada, assistiu-se a uma hecatombe. Garotos de oito, nove, dez anos passaram a atropelar os mais novos, alguns destes com apenas três ou quatro anos de idade. Os bebês gritavam assustados, ao serem pisoteados pelos maiores.

Fiquei me perguntando o que um absurdo daqueles agrega à programação de uma Bienal do Livro. E quem são os consultores pedagógicos daquele infanticídio em potencial. “Um Explorador Discovery Kids é uma criança que explora a vida à medida que vai crescendo, de forma alegre e divertida”, explica o texto oficial dos organizadores. Ah, bom. Nem mesmo Herodes teria bolado plano tão perfeito – e desculpa tão esfarrapada – para atentar contra pobres criancinhas indefesas.

Texto publicado originalmente no Brasil Econômico, caderno "Outlook", em 20 de agosto de 2010.

Viva o pai dos burros!




Sempre fui fascinado por dicionários. Quando menino, deitava a barriga no chão de cimento do alpendre de casa, com o livrão de capa dura, de mais de mil páginas, aberto à minha frente. Um dia, decidi começar pela letra A. Durante semanas, prossegui, letra a letra, até que, muitos meses depois, acreditem, cheguei ao Z. De vez em quanto, também abria uma página de modo aleatório e percorria os caracteres miúdos a esmo, até o dedo indicador se demorar em alguma palavra que me parecia mais sonora. Meus irmãos mais velhos, provavelmente, achavam que eu havia ficado doido.

É claro que eu não conseguia reter todo o conteúdo daquilo que ia descobrindo, com sofreguidão, a cada uma de minhas jornadas de leitor infantil de dicionários. Esquecia, obviamente, a maioria dos significados que me eram oferecidos pelas centenas de milhares de verbetes ali dispostos, um logo abaixo do outro. Mas me deliciava quando uma palavra nova fazia cócegas na minha imaginação. Lembro do prazer que algumas delas me provocavam. "Chusma", por exemplo, que significa grande quantidade de pessoas e coisas, era uma das minhas favoritas. "Estabanado", também, sempre esteve na lista de minhas predileções, talvez pelo fato de, desde criança, me identificar perfeitamente com o significado dela.

Outra palavra que me dava satisfação era "rusga", que tem o sentido de arranca-rabo, confusão. Nesse caso, talvez pelo evidente contraste com minha compleição franzina e meu temperamento tímido, que fizeram de mim um menino ruim de briga, de natureza pacífica. O caso é que "rusga" ficou de tal forma tatuada em minha memória que, ao escrever um texto qualquer, às vezes não controlo a tentação de empregá-la no meio de uma frase ou outra. Há algum tempo, minha mulher me advertiu que eu andava usando "rusga" demais. Desde então, expurguei tal palavrinha do meu repertório e, a cada nova edição de meus livros, fico atento para saber se ainda me escapou alguma. Saio catando-as como piolhos e, caso encontre uma "rusga" perdida em algum período, esmago-a na unha.

Em minha mesa de trabalho, ao lado do computador, mantenho alguns dicionários à mão. Um grandalhão, atualizado de acordo com a nova reforma ortográfica e, logo ao lado dele, um mais sintético, o indispensável dicionário de sinônimos e antônimos. Apesar de ter um Aurélio eletrônico instalado no PC e de consultar o Houaiss diretamente na internet, não dispenso as versões em papel, que me possibilitam a sensação de percorrer a página com o dedo estendido sobre as palavras. Talvez haja algo de libidinoso nessa necessidade táctil, corporal, quase lasciva mesmo, em minha relação com o mundo essencialmente abstrato dos significantes e significados.

Quando soube que haviam relançado, setenta anos depois da primeira publicação, o extraordinário Dicionário analógico da língua portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, tratei imediatamente de comprá-lo. A edição que chegou há poucas semanas às livrarias traz um prefacinho charmoso, no qual Chico Buarque nos revela que a obra era uma dos livros de consulta obrigatória do pai, Sérgio Buarque de Hollanda. O mesmo Chico confessa que algumas letras de suas melhores canções foram elaboradas com o devido auxílio do Dicionário analógico, presente deixado ao filho pelo pai, pouco antes de morrer. "Isso pode te servir", profetizou o velho.

Conforme esclarecem os editores na apresentação, o segredo de um "dicionário analógico", ou "dicionário de ideias afins", consiste em oferecer ao usuário uma ferramenta que funciona de modo exatamente oposto aos dicionários comuns. Em vez de partirmos de uma palavra conhecida para buscar os significados possíveis, ele permite que, a partir da noção de um determinado significado, encontremos uma palavra adequada para o contexto e a situação que nos ocorre. Para quem vive de escrever - ou mesmo para quem apenas se propõe a escrever de modo preciso e eficiente - é uma mão na roda.

A propósito de dicionários, os leitores que me desculpem esse "mão na roda" do parágrafo anterior. A expressão é mesmo batida e, digamos assim, do "arco da velha", esse também outro clichê condenado pelo delicioso O pai dos burros: dicionário de lugares comuns e frases feitas, do jornalista e escritor Humberto Werneck, com quem tive o prazer de dividir uma mesa sobre biografias no começo desta semana, na Casa do Saber, em São Paulo. Todo aspirante a jornalista, todo candidato a escritor, todo cidadão minimamente alfabetizado devia ter um exemplar do livrinho azul de Humberto Werneck ao alcance das mãos (Opa! "Ao alcance das mãos" é outro clichê abominável, listado por Werneck).

Desde "abraçar uma causa" até o "zero à esquerda", o dicionário de lugares comuns de Humberto Werneck sai colecionando e denunciando chavões: "vista privilegiada", "soltar o verbo", "sonora vaia", "dura travessia", "dar o tom", "cair por terra", "fechar o tempo", "sucesso retumbante", "sol escaldante", "pura e simplesmente", "seios arfantes", "resta saber", "retrato fiel", "de cair o queixo", "prova cabal", "presa fácil", "a qualquer preço", "sacudir a poeira", "pisar na bola", "passar a perna"...

Confessemos, acabrunhados: quantas vezes nos deparamos com o impulso de utilizarmos sentenças que parecem conferir uma sedução adicional ao texto, mas que na verdade, segundo as palavras do próprio Humberto Werneck, não passam de "detritos verbais", "repetidos até a exaustão semântica", a ponto de terem se transformado em "fórmulas prontas"?

Aliás, até mesmo a expressão "fórmula pronta", meu caro Werneck, não seria outro flagrante lugar comum? E o próprio "lugar comum" não é, por sua vez, uma frase feita? E a tal "frase feita" não é outra expressão, assim, já manjadíssima? Socorrei-nos, ó Pai dos Burros.


Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 20 de agosto de 2010.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O homem mais famoso do mundo



Semana passada, quando o carro passou em frente à tabuleta verde na estrada que indicava a cidade potiguar de Lajes, o motorista do táxi, que se chamava Daniel, me cutucou, como quem deseja encontrar assunto para a conversa: "O senhor sabia que aqui, neste lugar, nasceu um homem muito famoso?", indagou-me, com uma das mãos apontando para os lados da cidadezinha, enquanto mantinha a outra, firme, sobre o volante.

Havíamos saído de Natal, a capital do Rio Grande do Norte, e estávamos rodando a caminho de Mossoró, onde à noite eu falaria na Feira do Livro local, para uma plateia atenta e participativa. "Ah, é? Aqui nasceu um homem muito famoso? Quem?", indaguei, confesso que sem maiores interesses no rumo daquela prosa. Eu estava bem mais preocupado em repassar mentalmente o roteiro de minha palestra, marcada para dali a poucas horas.

"Aqui, em Lajes, nasceu o Zé", respondeu o motorista. "O Zé? Mas que Zé?", prossegui, quase automaticamente, ainda desinteressado, os olhos postos na fileira de casinhas tristes e mal caiadas à beira da BR-304. "Ora, o Zé de Lajes", continuou, entusiasmado, meu condutor.

A isso se seguiram alguns minutos de silêncio, preenchidos apenas pelo ruído do motor e pela sanfona do forró de raiz que resfolegava, baixinho, nos alto-falantes do carro. "O senhor, que parece tão sabido, já ouviu falar do Zé de Lajes, é claro", voltou à carga o motorista. "Não, nunca ouvi falar desse tal Zé de Lajes. Quem é mesmo ele?", bocejei.

"Ah, pois então o senhor deve ser a única pessoa nesse mundo-de-meu-deus inteirinho, no planeta Terra todinho, que não conhece o famoso Zé de Lajes", comentou Daniel, com cara de espanto, mas sem tirar a atenção da estrada. "Esse tal Zé é mesmo assim tão célebre?", brinquei, já um pouco mais disponível ao persistente interlocutor.

Afinal de contas, quem diabos seria o tal Zé de Lajes? - interpelei os meus botões. Só então lembrei que, naquele instante, eu não tinha botões. Estava de camiseta, devido ao enorme calor lá fora. Por isso, talvez, não me veio nenhuma resposta plausível. "Esse Zé de Lajes pode ser famoso, mas talvez só aqui pela região", objetei, pensando alto, a ponto se ser ouvido pelo motorista.

"Pois um vizinho do Zé achava a mesma coisa que o senhor. Até fez uma aposta com ele. Apostou que havia gente por aí afora que nunca havia ouvido falar nele", contou-me Daniel, agora contente por ter conseguido, enfim, engatar o diálogo. "Logicamente, o Zé perdeu tal aposta", concluí. "Não! É claro que não! O vizinho é que perdeu!", exaltou-se o taxista, como se eu houvesse dito uma heresia.

Pronto. A história me fisgara. Queria saber mais sobre ela. Animado, enquanto Daniel ligava a seta para sinalizar a ultrapassagem por um caminhão, pedi detalhes. O taxista atendeu prontamente: "Deu-se que o tal vizinho, aquele da aposta, pegou o Zé e foi com ele até a cidade de Natal. Lá, os dois bateram na porta do palácio do governo. Mas, é claro, os guardas não quiseram deixar que eles entrassem, pois não haviam marcado audiência. De repente, veja o senhor, apareceu no saguão do palácio o próprio governador, em carne e osso, que reconheceu o Zé de Lajes na hora. O senhor acredita?", narrou o motorista. "O governador até perguntou ao Zé como é que estava a família, se todos estavam bem em casa", sublinhou.

Soltei um muxoxo. "Ora, todo político é assim mesmo. Fazem de conta que são amigos de todo mundo, principalmente se for em época de eleição", desdenhei. "Pois então pronto. O vizinho do Zé pensou igualzinho ao senhor. Por isso mesmo, desafiou o amigo a ir até o Rio de Janeiro, que naquela época era a capital do Brasil. O Zé topou. Os dois foram lá no Rio e fizeram a mesma coisa, só que dessa vez num tal Palácio do Catete, onde morava o Getúlio Vargas", atalhou-me o taxista.

Só então percebi que havia caído em uma presepada. Aquilo, logicamente, era uma pilhéria e eu entrara direitinho no jogo, sem me dar conta. "Tá bom. Pois agora, Daniel, eu quero saber o final da história. Mas acho que já sei. O Getúlio também conhecia o Zé", palpitei, com ar triunfante, por supostamente ter tirado o gostinho de vitória do meu companheiro de viagem.

Daniel, porém, nem se abalou: "É, o senhor acertou. O doutor Getúlio abraçou o Zé, todo emocionado. ´Como vai a comadre Filomena, meu querido Zé?´, chegou a perguntar o presidente, com aquele charutão na boca. Mas isso não foi nada. O mais incrível mesmo, veja bem o senhor, veio depois".

Então Daniel me contou o final do "causo", que me arrancaria gargalhadas horas a fio. Acho que só parei de rir muito tempo depois, já quando desci do carro, ao final da viagem, na porta do hotel em Mossoró. Resumo da ópera: Zé de Lajes e o vizinho aproveitaram a viagem ao Rio de Janeiro, pegaram por lá um navio e foram dar com os costados em Roma. Andaram pela chamada "Cidade Eterna" e, pergunta daqui, pergunta dali, chegaram ao Vaticano.

Na Praça de São Pedro, os homens da guarda suíça - "aqueles soldadinhos de roupa colorida e engraçada, parecendo uns palhaços de circo", na definição do taxista - só permitiram a entrada do Zé, pois, é claro, já o conheciam de longas datas. O vizinho, contrariado, desta vez teve que se contentar em ficar do lado de fora, chupando o dedo.

Daniel prosseguiu: "Horas mais tarde, o Papa, que naquele tempo era o Pio XII, apareceu na janela para acenar para a multidão que estava na praça lá embaixo. Pois assim bem pertinho, ao lado do Papa, lá em cima, na janelinha, estava adivinha o senhor sabe quem? Isso mesmo. Adivinhou. O Zé".

Ri a valer. Aquele era boa. Iria repetir para os amigos. Talvez, quem sabe, até transformasse a historieta em crônica de jornal. Contudo, quando achei que o motorista já havia acabado, veio o grande desfecho.

"O vizinho do Zé ficou desconfiado de que aquilo tudo fosse uma armação do amigo. Então chegou para uma peregrina ali na praça, uma senhora italiana bem velhinha, que estava agarrada assim com o terço na mão, toda vestida de preto, e perguntou a ela se, por acaso, aquele homem de batina colorida lá em cima era mesmo o Papa Pio XII. Sabe o que ela respondeu?"

Olhei para Daniel, curioso. Não, eu não sabia o que a mulher havia respondido. O que ela havia dito, afinal? "Pois meu senhor, juro por Deus, a mulher disse assim, ó: ´Meu filho, eu não sei se aquele homem lá é o Papa, mas aquele senhor bem do lado dele eu conheço bem. É o Zé de Lajes´".

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 13 de agosto de 2010.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Alguém aí topa o desafio?




Ele foi o figurão mais poderoso e influente de sua época. Os caricaturistas do período costumavam retratá-lo tanto como um galo de crista levantada – afinal, ele era o dono do terreiro – quanto como uma ladina raposa, pois ele era também o terror dos galinheiros políticos do país. Com o porte atlético e a vasta cabeleira sempre em desalinho, o empertigado senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado reinou absoluto na chamada República Velha. Por trás de seu colossal bigode, eram tramadas todas as alianças, negociatas e conchavos que davam sustentação e estofo ao Palácio do Catete, então sede do governo federal. Segundo o jornal satírico O Gato, ao passar a faixa ao sucessor, o então presidente Hermes da Fonseca teria comentado: “Olha, Venceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a governar pela gente”.

Na verdade, ele possuía uma capacidade inesgotável de fazer inimigos. Pinheiro Machado chegou a duelar com um famoso jornalista, Edmundo Bittencourt, porque este tinha por passatempo predileto fustigá-lo pelas páginas do Correio da Manhã. Encrespado, Pinheiro desafiou Bittencourt para um acerto de contas nos moldes medievais. Os duelos estavam proibidos no país, mas mesmo assim lá se foram os dois se encontrar frente a frente, na então remota praia de Ipanema, pistolas em punho. O entrevero terminou com Pinheiro ileso e com o jornalista – cuja pistola falhara no momento decisivo – baixando no hospital com uma bala na região glútea.

A trajetória de Pinheiro Machado sempre pediu um biógrafo à altura. É incompreensível como não exista, até hoje, uma bela biografia do sujeito. Sua vida tem lances tão rocambolescos que um bom livro sobre ele beiraria, em certos trechos, a ação e o suspense típicos de um romance de capa e espada. Aos 14 anos de idade, Pinheiro fugiu de casa para se alistar na Guerra do Paraguai. O pai quase arrancou os cabelos quando soube que o filho mentiu a idade, rasurou a certidão de nascimento, fez-se soldado e foi para os campos de batalha.

Pinheiro adoeceu gravemente em combate, precisou de dois anos para recuperar a saúde e, quando pôde se colocar finalmente de pé, viajou para São Paulo conduzindo uma tropa de mulas chucras. Quando retornou ao Rio Grande do Sul, anos depois, levava na bagagem de volta o diploma de advogado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Começou então uma carreira política meteórica.

Tornou-se vereador na gaúcha São Luiz Gonzaga e, tão logo veio a proclamação da República, fez-se senador aos 40 anos de idade. Como não dispensava uma boa briga, ausentou-se do senado para quebrar lanças na chamada Revolução Federalista, a mais sangrenta de todas as guerras civis brasileiras. Organizou e comandou pessoalmente uma divisão armada e, ao fim do conflito, já transformado em uma espécie de lenda viva, sentou-se novamente em sua cadeira senatorial. Ninguém o arredaria mais dali.

A influência de José Gomes Pinheiro Machado no Senado era tão dilatada que, quando escrevi as biografias de personagens aparentemente tão díspares entre si e tão distanciados no tempo como Castello Branco e Padre Cícero, o mesmo Pinheiro Machado intrometeu-se inevitavelmente nas duas narrativas, como personagem dos bastidores de ambas as tramas. Aliás, essa era uma das características fundamentais de sua prática política. Atuava sempre por trás do palco, manobrando com singular competência e astúcia os cordéis da cena principal. Quando agora escrevo um novo livro, uma nova biografia – cujo biografado, desculpem, ainda é segredo de estado – novamente Pinheiro Machado aparece dando as cartas do jogo. Definitivamente, o homem era mesmo onipresente na vida brasileira.

Como todo aventureiro que se preze, teve um fim trágico. Pinheiro Machado morreu em 8 de setembro de 1915, assassinado, no Rio de Janeiro, com duas punhaladas nas costas. Daqui a cinco anos, portanto, completa-se o centenário de sua morte. Tempo suficiente para que alguém tome para si a hercúlea tarefa de biografar um dos personagens mais polêmicos e fascinantes da história nacional. Fico de dedos cruzados para que algum colega que leia este texto aceite minha provocação. E então? Alguém aí se habilita?

Texto publicado originalmente no jornal Brasil Econômico, caderno Outlook, em 6 de agosto de 2010.

Caricatura: Pinheiro Machado por J. Carlos (1914)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A última vez em que vi Bob Lira



Inevitável. Sempre por esta época do ano, quando a tevê e os jornais nos bombardeiam com propagandas apelativas sobre o Dia dos Pais, me pego a pensar no velho Bob Lira. Mais especificamente, fico a recordar a última vez em que o vi e, não por coincidência, a última vez em que estive em Massapê, a cidade na qual meu pai tinha o umbigo enterrado e onde hoje, também, descansam os seus ossos.

Ele já estava bem doente, o organismo depauperado pelo câncer de pâncreas que o levaria deste mundo. A moléstia, ele próprio reconhecia, era o resultado de uma vida de poucos cuidados. Os hectolitros de aguardente que havia ingerido desde muito moço terminaram por cobrar-lhe o preço. Admiro-me agora que ele também não tenha sofrido com alguma complicação pulmonar, a despeito das toneladas de nicotina que devia acumular no peito.

Quando soube que ele estava bem mal, fui visitá-lo, já desconfiado. Pelo que minhas tias haviam narrado ao telefone, aquela seria uma viagem de despedida. Durante as quatro horas do percurso entre Fortaleza e Massapê, fui juntando os cacos da memória, tentando costurar os fiapos das lembranças, buscando reconstituir a imagem de meu pai, sempre tão ausente, tão distante, tão largado de tudo e de todos - principalmente de si mesmo.

Lembrei das moedas escondidas por ele no fundo da mala, para que os filhos, depois da festa por sua chegada de mais uma longa viagem, pudessem brincar de procurá-las em uma espécie de caça ao tesouro. Lembrei também das muitas vezes em que o vi embriagar-se sozinho no sofá vermelho da sala, entornando goles generosos de cachaça, ao som de tangos, sambas-canções e boleros rasgados. Lembrei ainda dos versos que declamava, das doces mentiras que contava, do seu alucinado medo de alma penada.

Enfim em Massapê, quando de longe avistei o casarão de meus avós paternos, vislumbrei também a figura de alguém em pé na varanda, bem próximo à porta principal, logo acima dos degraus que levavam ao portãozinho de ferro pintado de branco. Imaginei que era meu pai que já me aguardava, ansioso, pois eu havia ligado no dia anterior para dizer que chegaria no primeiro ônibus da tarde. Porém, logo uma dúvida me assomou. Aquela pessoa plantada na fachada da casa parecia bem menor e ainda mais frágil do que a imagem que eu havia guardado de meu pai desde o nosso último encontro em Massapê.

Depois de caminhar algumas dezenas de metros, fui percebendo que, sim, realmente era ele. Estava bem mais magro, constatei, depois de percorrer alguns passos em direção à casa. Ele estava com os ombros mais curvados, reparei, após distância menor. O rosto parecia ainda mais enrugado, verifiquei, ao me aproximar do portão. Meu pai não desceu os seis ou sete degraus que nos separavam para vir ao meu encontro. Compreendi que aquilo exigiria dele um esforço que o velho Bob Lira não podia mais se dar ao luxo de me oferecer.

Lá estava eu diante de meu pai ou, pelo menos, do que a vida fizera dele. Procurei não abraçá-lo com muita força, com medo de que suas clavículas, cujos contornos aparentes se desenhavam por baixo da camiseta encardida, se quebrassem em minhas mãos. A barriga dele parecia inflada, um par de olheiras adornava-lhe a face. Naquela tarde, conversaríamos amenidades, trocaríamos novidades a respeito da família, evitaríamos assuntos que despertassem emoções demasiadamente fortes.

No começo da noite, enquanto ainda palestrávamos abobrinhas embalados em confortáveis cadeiras de balanço, um velho amigo de meu pai passou por lá para visitá-lo. Depois das apresentações de praxe, o recém-chegado olhou para mim com ar condoído e, em seguida, soltando um suspiro, alvejou meu pai com um olhar de censura. "Seu pai está assim porque quis", disse-me o visitante, enquanto abanava a cabeça de um lado para outro, em sinal de reprovação. "O Bob bebeu muito, fumou demais, raparigou feito um demônio", comentou, com o sotaque tipicamente sertanejo.

Quando em seguida o homem me informou que era quase vinte anos mais velho de que meu pai - apesar de na verdade aparentar ter apenas a metade da idade dele -, tomei um susto. Postos lado a lado, aqueles dois indivíduos protagonizavam um doloroso contraste. Um, mais idoso, falante, lépido e fagueiro; o outro, bem mais jovem, alquebrado, a voz rouca, mal conseguia sustentar o peso do próprio corpo. Durante os vários minutos em que o homem continuava a tagarelar e a desfiar toda a sua catilinária, meu pai permaneceu calado, a cabeça pendida sobre o peito, a boca fechada, a comissura dos lábios voltada para baixo.

De súbito, alguns instantes depois, vi Bob Lira aprumar-se na cadeira, endireitar o pescoço, estufar o peito, pôr o dedo em riste e encarar o amigo com impressionante firmeza. Percebi que ele procurara encontrar, sabe-se lá como, sabe-se lá onde, alguma força misteriosa dentro de si mesmo, uma última centelha de vida que fosse, para responder às recriminações que lhe eram atiradas assim ao rosto.

"E você, heim, seu filho de papa com freira? Está assim todo pimpãozinho também porque quis", esbravejou meu pai para o sujeito. "Você nunca provou um cigarro, nunca bebeu um gole de bebida, nunca fez uma mulher gemer de verdade na cama. Sempre viveu acuado na barra da saia de sua mãe, aquela pobre velhota que talvez tenha morrido de desgosto por ter criado um cabra frouxo como você", desabafou.

O homem arregalou os olhos, deu boa noite e saiu de fininho, sem querer mais conversa. Fiquei então olhando para meu pai, atônito. Eu estava ainda um tanto quanto abismado com aquela inesperada virada de mesa. Porém, não demorou muito e ele logo tornou a debruçar o queixo sobre o peito, respirou fundo, pôs as mãos sobre as pernas e voltou a mergulhar no silêncio. Pelos cantos da boca, enquanto ressonava, parecia sorrir. Aquele rompante e aquele meio sorriso foram as últimas lembranças que guardei de meu pai. Semanas depois, já em casa, recebi a notícia de que ele havia morrido.

Combinei com meu irmão que iríamos ao enterro em Massapê. Mas confesso que fiquei feliz quando o carro pifou bem na hora de pegarmos a estrada. Não lembro o motivo pelo qual o automóvel não quis mais ligar o motor. Só sei que, por causa disso, não cheguei a ver meu pai morto. Nunca mais voltei a Massapê. Jamais botei os olhos no túmulo de meu pai. Preferi guardar aquela derradeira imagem dele para sempre: um homem que se orgulhava de ter vivido todos os dias que lhe foram possíveis viver. É este o Bob Lira que ficou vivo, idealizado, em minhas retinas, em minha saudade e em minha dolorida memória.

Feliz Dia dos Pais, Bob Lira

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 6 de agosto de 2010.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Um tapinha não dói?



Doeu muito mais nela do que em mim. Naquele dia, minha mãe havia perdido o controle e partido para cima de meu lombo com o fio do ferro de passar roupa. Ela nunca fizera aquilo antes. Nem lembro qual foi a terrível traquinagem que aprontei para que dona Darcy perdesse a ternura habitual e resolvesse me dar uma boa surra, a primeira e única de toda a minha vida. Deve ter sido algo grave, mas a memória é seletiva e gosta de nos pregar peças. Apaguei para sempre de minha lembrança o motivo daquela sova histórica.

Ficou apenas a imagem de minha mãe empunhando o fio encapado com tecido branco e preto. Ela desceu-me o sarrafo uma, duas, três vezes seguidas. A cada bordoada, eu engolia o gemido e soltava uma gargalhada histérica. "Não doeu, não doeu, não doeu", eu repetia, esforçando-me para manter o ar de desafio e zombaria.

Talvez minha mãe não tenha realmente conferido, de propósito, muita força aos golpes. Talvez eu estivesse anestesiado pelo medo. O fato é que não derramei uma só lágrima. Eu chorava por dentro, em silêncio, não propriamente pela dor, mas porque percebia que os olhos de dona Darcy, estes sim, é que estavam encharcados. Ela mostrava-se visivelmente condoída pelo próprio gesto de bater no filho que sempre amou tanto.

Essa reminiscência me veio assim, de repente, nos últimos dias, quando li as notícias sobre a tal nova lei que proíbe os pais de darem palmadas nos filhos. Em minha infância, afora aquela cena do fio estalando no meu pobre e descarnado traseiro, meus pais nunca precisaram recorrer a tal expediente para nos manter na linha e nos impor limites. Para mim, aquela velha canção que éramos obrigados a cantar no colégio a cada ano, nos Dias das Mães - "...eu me lembro chinelo na mão, avental todo sujo de ovo..." - nunca fez nenhum sentido.

Jamais vi minha mãe de avental, muito menos todo sujo de ovo. Ela trabalhava fora, dando duro em uma repartição pública federal a fim de alimentar as cinco bocas que deixava em casa todas as manhãs bem cedo, antes de pegar o ônibus em Caucaia para ir até o emprego em Fortaleza. A imagem de minha mãe não correspondia em nada à da canção masoquista que sugeria a idéia de uma matrona saindo da cozinha com o avental melecado e o chinelo na mão para escorraçar os filhos.

Creio que a ausência de palmadas e chineladas em nossa casa não produziu nenhum grande estrago na minha formação. Não sou propriamente um santo, admito, mas não acredito que se tivesse levado mais algumas pancadas na tenra infância pudesse ter me tornado hoje um adulto melhor. O que nos educou não foi o solado colorido de borracha de uma havaianas, mas a força do exemplo que partia de nossa mãe.

Nunca faltaram livros e revistas, por exemplo, em nossa casa. Na volta do trabalho, à noite, minha mãe sempre trazia algum fascículo de uma enciclopédia ilustrada, um gibi, uma revistinha qualquer. Os vendedores que negociavam livros de porta em porta em Caucaia também sabiam que o número 366 da rua XV de Novembro era garantia de bom negócio.

Lembro das horas e mais horas que passei, tardes a fio, debruçado sobre as páginas em couchê fosco da enorme Delta Larrouse, devorando os textos do instigante Tesouro da Juventude, aprendendo os primeiros mistérios da ciência, da geografia e da história na divertidíssima Enciclopédia Disney. Sem falar na coleção de Monteiro Lobato, desde sempre a minha preferida entre todos os volumes de nossa modesta biblioteca familiar, na verdade uma estante de madeira em que íamos empilhando as novas aquisições. Sem dúvida, minha mãe nunca precisou tirar os chinelos dos pés para zelar por nossa educação.

Do mesmo modo, para cuidar de meus próprios filhos, nunca me permiti recorrer à pedagogia da pancada. Dois deles, Ícaro e Nara, já são adultos e estão relativamente encaminhados na vida. É evidente que, como toda criança, protagonizaram birras homéricas no passado. Nesses casos, a melhor tática sempre foi a de simplesmente ignorar tais ataques de capricho infantil até que eles se convencessem de que não é com choro e esperneio que se resolvem as coisas nessa vida. Enquanto se estrebuchavam, abriam o berreiro e davam gritos para chamar a atenção, o melhor era virar o rosto, afastar-se um pouco do local e fazer de conta que não estava dando a mínima para tamanho escarcéu. Sempre funcionou.

Agora, quando novamente sou pai de duas crianças, meu chinelo continua no pé. Mais uma vez, tem dado certo. Dia desses, Emília, 6 anos, foi com uma amiguinha a uma exposição sobre Antoine de Saint-Exupery no Parque do Ibirapuera. Ela trouxe de lá um livreto azul, no formato de um passaporte, no qual teve que preencher alguns dados pessoais. "Eu tenho uma irmã mais nova", escreveu, no local em que precisava dizer quem era. Ou seja: para Emília, a existência de Alice, de 1 ano, é a coisa mais importante a relatar sobre si mesma. Em outra página, quando o livrinho indagava o que ela jamais gostaria de esquecer, mesmo depois de se tornar uma adulta, ela escreveu, com sua letrinha garranchuda: "Falar a verdade e dizer coisas bonitas".

Como imaginar que é possível dar uma palmada em uma criaturinha assim?

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 30 de julho de 2010.
Imagem: Hieronymus Bosch

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A classe C vai ao paraíso



Escrevo este texto enquanto bebo uma água de coco gelada, contemplando o mar verde de Fortaleza emoldurado na janela do hotel. Como o quarto fica acima do décimo andar e o prédio está situado quase à beira da praia, a impressão que se tem é a de estar levitando sobre o próprio oceano. Todos os anos, venho pelo menos duas vezes para cá. Dou um tempo na correria da paulicéia e, quando o trabalho atinge um incontornável nível de estresse, tiro uma única semana de férias como esta, para reabastecer as baterias, limpar a vista, respirar a maresia.

Mas, na verdade, Fortaleza é uma daquelas cidades para onde nunca se é possível voltar exatamente para o mesmo lugar de antes. A capital cearense se autodestrói e se autoconstrói a todo instante, numa velocidade avassaladora e numa autofagia alucinada. Por isso, difícil encontrar na cartografia urbana local um marco histórico mais significativo. Há, por aqui, um visível desapego à memória, uma incorrigível instabilidade de cenários, uma volúpia em implodir referências e paisagens.

Fortaleza é a mais perfeita tradução cabocla de modernidade, onde se torna impossível determinar a fronteira entre construção e ruína. O esqueleto de concreto das obras do que deveria ser o moderno metrô da cidade – hoje com trechos aparentemente em total abandono, com suas fundações açoitadas pela chuva e pelo sol abrasador – é um dos símbolos mais eloquentes do fenômeno.

Mas, verdade seja dita. Desta vez, desde que desembarquei no aeroporto, venho notando na ensolarada cidade em que nasci certos traços de familiaridade que eu julgava para sempre perdidos. A histórica diáspora nordestina, aquela que tratou de espalhar centenas de milhares de cearenses ao léu por todo o país, está vivendo um momento singular, até então insuspeitado para mim.

Os cearenses que um dia migraram, vejam vocês, estão de retorno à própria terra. Não para ficar de vez, não para fazer o definitivo caminho de volta, mas também para simplesmente tomar água de coco, comer queijo de coalho, bronzear a pele e matar as saudades do lugar onde estão enterrados seus respectivos umbigos.

Isso mesmo. Os cearenses estão vindo para o Ceará na condição de turistas, na carona da propalada ascensão das classes C e D no país. Se algum especialista deseja compreender como se dá a inclusão de novos contingentes da população às seduções do consumo, basta olhar em torno.

O aeroporto Pinto Martins está repleto. Os hotéis de Fortaleza estão lotados; os restaurantes,
idem. Lotados de cearenses, ressalve-se. Impossível dar um único passo pelos corredores do hotel sem também dar de cara com famílias inteiras de cearenses um dia desterrados, agora de visita à cidade. No café da manhã, a demanda por tapioca deve estar batendo todos os recordes históricos.

O sotaque inconfundível (ao mesmo tempo áspero e dengoso), um certo desprendimento que às vezes pode ser confundido com a grosseria ou com a falta de modos, essa sem-cerimônia notória, tudo lhes denuncia a origem e o orgulho de estarem de volta, muitos talvez pagando passagens e hospedagens de alto padrão em módicas prestações a perder de vista.

Já no avião, ficava nítida a superioridade numérica dos cearenses em relação aos turistas de outras procedências. Além de quase todos terem as cabeças-chatas iguais à minha, muitos demonstravam a peculiar impaciência cearense que, confesso a vocês, conheço muito bem.

Quando a porta da aeronave demorou alguns poucos segundos a mais para abrir, uma senhora que estava atrás de mim passou me atropelando com malas e bagagens de mão, gritando para o atônito comissário que aguardava a devida autorização para realizar os procedimentos de praxe: “Hômi, abre isso!”, esbravejava a senhora, na mais legítima prosódia cearense. “Vixe, muié, o que foi? Deixou o feijão queimando no fogão?”, interrogou o senhor mais à frente, pondo em evidência o espontâneo humor local.

Olhei para minha mulher e trocamos sorrisos cúmplices. “Estamos em casa”, cochichei-lhe. Pois é. Eles também estão.

Texto publicado originalmente no jornal Brasil Econômico, caderno Outlook, em 23 de julho de 2010.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Vida longa à ousadia



Existe algo de novo sob o sol escaldante da capital cearense - e não é aquele esdrúxulo jardim japonês à beira-mar. De férias em Fortaleza por uma semana, fiz questão de ir na última terça-feira à simpática livraria Lua Nova, no bairro universitário do Benfica, para conhecer os misteriosos autores de uma publicação apócrifa, que tem dado o que falar por estas bandas.

Eu estava curiosíssimo para saber, afinal de contas, quem responde pela linha editorial anárquica e pelos textos escrachados da tal "Aerolândia", uma revista virtual que tem feito rir a muitos e tirado outros tantos do sério na cidade. Tenho amigos diletos que amam a revista; outros que a odeiam com todas as forças de seus sinceros e ofendidos corações.

A aventura de enfrentar o inferno do engarrafamento da 13 de Maio e de aturar os grunhidos de protesto do taxista valeram a pena. Finalmente deparei-me, no café literário da livraria, com os culpados pelo tão malcriado e bissexto "semanário". Diante da platéia lotada, um grupo de jovens estudantes de jornalismo, com uma expressão facial que às vezes variava entre o espanto e o cinismo, assumiu a autoria do flagrante delito.

Na maior parte do tempo em que durou o evento, era visível, eles próprios pareciam surpresos com o fuzuê que têm conseguido provocar até aqui. Pudera. O que começou como mera brincadeira iconoclasta terminou por ganhar corpo, tomou proporções imprevistas e se transformou em um caso indiscutível de sucesso editorial. "Nós, simplesmente, não nos levamos a sério", avisaram, numa frase que sintetiza o espírito do grupo e, ao mesmo tempo, explica as razões tanto do entusiasmo quanto do incômodo que provocam.

Sem pedir licença, os responsáveis por "Aerolândia" chegaram com sua revista atrevida metendo o dedo no olho do jornalismo burocrático e dando uma voadora radical sobre o comodismo. São desregrados, desbocados, desavergonhadamente impudicos. Têm uma irreverência selvagem, um sarcasmo impiedoso, um escárnio demolidor. Sua molecagem não respeita nada e ninguém. Sua maior diversão é desferir pontapés no traseiro da moral e dos bons costumes. Por isso mesmo são bem-vindos, necessários, imprescindíveis.

Em um dos momentos de maior mordacidade e insolência da revista, eles tiraram um sarro antológico até mesmo da estátua de Nossa Senhora de Fátima, um dos símbolos mais representativos da vocação carola e kitsch da classe média fortalezense. Eu próprio fui vítima da revista, quando me tornei alvo de uma fotomontagem em que a redação da "Aerolândia" me flagrava em um instante de manifesta ressaca moral. Tive ganas de mandá-los vocês sabem exatamente para onde. Mas compreendi que rir de mim mesmo era, sem dúvida, o único remédio que me restava. Em vez de amaldiçoá-los, tornei-me fã ainda mais confesso.

É evidente que a revista "Aerolândia" nasceu como uma paródia gonza de sua prima rica e bem-nascida, a revista "Aldeota" (publicação que já chegou a mais de duas dezenas de edições semanais impressas, um feito e tanto em um mercado editorial rarefeito como o cearense). E me arrisco a supor que a irreverência e a força avassaladora do recado desferido pela moçada da "Aerolândia" são responsáveis, em alguma medida, por certas correções de rota na própria redação da "Aldeota" que, depois de um início claudicante e de alguns aldeotismos, vem acertando a mão em sucessivas edições de excelente qualidade gráfica e textual, de tirar o chapéu.

Contudo, o fundamental é que ambas, "Aerolândia" e "Aldeota", estão fazendo vir à tona uma promissora geração de talentos em terras alencarinas. A pasmaceira que dominou e engessou parte da vida intelectual de Fortaleza nas últimas duas ou três décadas tem tudo para ser sacudida, de uma vez por todas, por estes jovens jornalistas e escritores que têm encontrado, nas duas revistas, uma no papel, outra na virtualidade, o canal oportuno para experimentar e exercitar toda a sua verve, sensibilidade e argúcia. Que eles tomem então conta do cenário e ponham um ponto final no pacto de mediocridade que vigorou nesta cidade durante tanto tempo.

O frufru dos lançamentos semanais de livros toscos em clubes sociais pretensamente chiques de Fortaleza, por exemplo, precisa ter fim. A empáfia beletrista de certas patotas, também. A condescendência com as eternas confrarias do elogio mútuo, de há muito, já esgotou o prazo de validade. Sorte de Fortaleza que pode contar, simultaneamente, com uma audaciosa "Aldeota" e uma esculhambada "Aerolândia". Que venham outras. De longe, ficarei torcendo para que apareçam uma "Papicu", uma "Quintino Cunha", uma "Varjota", uma "Parque Araxá", uma "Montese". Os leitores, ávidos, agradecem. E nós, da chamada grande imprensa, teremos muito o que aprender com elas.

Vida longa à "Aldeota". Vida longa à "Aerolândia". Vida longa à ousadia.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 23 de julho de 2010)