segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Adorado e odiado, Padre Cícero continua em busca da reabilitação



(Por Fábio Piperno, da Band News)

Inserir o controverso Padre Cícero nos limites de um rótulo seria um milagre ainda mais improvável do que a concretização da profecia de que o sertão vai virar mar. Santo e demônio, sertanejo e coronel, religioso proscrito e político influente. Cícero Romão Batista foi um personagem multifacetado, produto de uma época turbulenta, em que uma ainda jovem República tentatava se consolidar.

A fé em Deus e a obediência ao Padre Cícero se confundiam em um sertão desamparado, até então submetido às leis dos coronéis e às regras da Igreja Católica. Homem da fé e mais tarde da política, o religioso foi santificado em vida pelas populações mais humildes com a mesma intensidade com que foi demonizado pelas lideranças constituídas da Igreja.

"Padre Cícero foi astuto e sagaz o suficiente para sentar à mesa das elites agrárias e se tornar parte dela", explica o jornalista e escritor Lira Neto autor de Padre Cícero, Poder, Fé e Guerra no Sertão (Cia. Das Letras), obra que relata a vida e as diversas facetas de um dos mais controvertidos religiosos da história do país.

Para os cardeais com quem conviveu e permaneceu em atrito até o leito de morte, foi um falso milagreiro, messiânico e incentivador do fanatismo. Mas a Igreja que imolou Cícero em vida foi a mesma que não hesitou em reivindicar parte de seu espólio. Dono de uma considerável fortuna construída à base de doações condenadas por autoridades eclesiásticas, Padim Ciço foi pressionado perto do dia do juízo final a refazer seu testamento e nomear a Igreja Católica como grande beneficiária.

Pragmática, a Igreja soube separar a condenação canônica da questão material. O padre desceu à sepultura sem o desejado perdão que restituísse suas ordens sacerdotais, ao mesmo tempo em que enriqueceu o patrimônio de uma Igreja que tanto censurou suas práticas. Quase 76 anos após a morte e eternizado pela devoção popular, Padre Cícero continua um tabu para a Igreja Católica que agora discute sua reabilitação.

Ainda proscrito, se mantém como um obstáculo ao avanço de outras religiões no sertão do nordeste, universo em que propagou milagres, patrocinou acordos de paz e de guerra, em que sobreviveu ao combate a Antonio Conselheiro, em que adotou o bando de Lampião para um combate jamais ocorrido à Coluna Prestes e onde morreu como mito. "Padre Cícero não foi santo, nem demônio. Talvez, como qualquer um de nós, encarne as duas facetas", afirmou Lira Neto em entrevista para o bandnewstv.com.br (Fábio Piperno).

Para ouvir o áudio da entrevista, clique aqui.