sexta-feira, 26 de março de 2010

Sou bisbilhoteiro profissional



Quase tive uma síncope de tanto rir. Em meu site, um anônimo deixou mensagem furibunda, grafada em maiúsculas, acusando-me de ser um mentiroso pago pela Igreja Católica para escrever um livro torpe, descaradamente a favor de Padre Cícero e em prol da reabilitação do sacerdote pela Santa Sé. Semanas antes, eu já rolara no chão em meio a boas gargalhadas quando me chegara, por e-mail, um texto no qual sou descrito como um covarde caluniador, pois teria publicado um livro injurioso apenas para tentar conspurcar a imagem histórica de Cícero Romão Batista.

Pois é. Um diz que fui subornado e aluguei minha pena para a "milionária indústria do embuste padrecicerólatra". Outro afirma que sou um maledicente oportunista, que se deu à traiçoeira tarefa de atirar lama e aleivosias contra a memória do biografado. Ora, vá entender.

Não perdi tempo em tentar responder a um ou outro. Os sinais contrários das verrinas, que se anulam mutuamente, pouparam-me de tão enfadonho trabalho. Do episódio, além das gargalhadas, restaram-me apenas algumas reflexões e duas firmes certezas: a biografia é mesmo um gênero fascinante. E ninguém é dono daquilo que escreve e publica.

Um colega jornalista, profissional dos bons, diz-me por exemplo que escrevi uma obra demolidora, que mostraria a dissimulação como o traço de personalidade mais definido de Cícero. Já uma dileta amiga, profunda estudiosa da psicologia das religiões, assevera que consegui, com meu olhar de jornalista agnóstico, demonstrar os nítidos traços de uma suposta santidade do patriarca de Juazeiro. Que livro, afinal de contas, escrevi? Qual desses meus dois caros e abalizados interlocutores tem realmente razão? Talvez nenhum deles. Talvez ambos.

Se é de fato fascinante, a biografia também é um gênero escorregadio. Ao não calibrar a mão, o candidato a biógrafo corre o sério risco de, por um lado, oferecer ao leitor apenas uma tediosa hagiografia, a trajetória de um indivíduo presumidamente imaculado e sem pecados, alguém que, convenhamos, ainda está para nascer neste mundo. Por outro, no sentido diretamente oposto, o biógrafo pode cair na tentativa igualmente ingênua de querer desconstruir determinado personagem histórico, negando-lhe toda e qualquer virtude e mérito. Bobagem. Não há feio sem sua graça, nem bonito sem seu senão, há muito nos ensina a sabedoria cabocla.

Entre um e outro extremo, longe da alça de mira dos apologistas e dos detratores, está o biografado, o ser humano mergulhado em ambivalências e contradições. Buscar revelá-lo em suas várias dimensões, trazê-lo à luz em sua intrigante complexidade, este é o verdadeiro desafio de todo biógrafo que se preze. Afinal, ninguém, nenhum de nós, quando observado em perspectiva, é apenas vilão ou apenas mocinho. Não somos personagens de folhetim televisivo ou de desenho animado. Não somos seres unidimensionais, preto no branco, pão-pão, queijo-queijo. O bem e o mal convivem em nós, roçam-se, interpenetram-se, canibalizam-se. Somos luz e sombra, claro e escuro, vício e virtude. É isso que nos faz naturalmente belos e imperfeitos.

Seja como for, o fato é que se assiste hoje, em relação às biografias, a um duplo fenômeno. No mercado editorial, os livros de natureza histórica em geral, especialmente aqueles escritos por jornalistas - e os biográficos em particular -, aparecem com cada vez mais constância na lista dos preferidos do público. Ao mesmo passo, até bem pouco tempo vista com narizes torcidos por parte da comunidade acadêmica, a biografia começa a ser valorizada e a ganhar prestígio como fonte legítima de informação e reflexão histórica.

É claro que, em se tratando de biografias, há muita contrafação nas prateleiras das livrarias, muita pesquisa frouxa, muitos textos escritos de afogadilho, muito impressionismo e pouco rigor no trato com as fontes. Mas isso não é privilégio dos biógrafos ou dos jornalistas. Há bastante impostura intelectual, uma quantidade significativa de palavrório oco e um flagrante anacronismo nos departamentos universitários.

Recentemente, o historiador Boris Fausto, de reconhecida competência entre os pares, escreveu um artigo insuspeito, publicado na Folha de S. Paulo, no qual reconhecia que as biografias escritas por jornalistas fazem avançar o conhecimento histórico do grande público. Para Boris, as biografias encerrariam uma lição aos historiadores ao oferecer "uma narrativa em estilo límpido, sem os cacoetes do jargão disciplinar". E completou: "Essa virtude não é pequena, se a gente se lembrar que, sem conter uma narrativa atraente, a biografia fracassa".

Creio que, nesse ponto, Boris acertou na mosca, ao referir-se à fluência como uma das qualidades mais necessárias e evidentes das boas biografias. O leitor comum, não iniciado, que já tentou encarar um livro escrito por um historiador, sabe exatamente do que estamos falando. Na maioria das vezes, aquilo é pedregulho em estado bruto. Minha parceira deste espaço aos sábados, a historiadora Isabel Lustosa, é uma das raríssimas exceções à regra. Vocês sabem. Ela escreve como o capeta.

Ao concentrar-se na análise das grandes estruturas, os historiadores durante muito tempo viraram as costas para a narrativa, coisa que a partir de então passaram a considerar como algo de somenos importância ou até ilícito do ponto de vista intelectual. Mesmo quando os historiadores se dispuseram a se debruçar sobre o cotidiano e a vida privada, a biografia continuou a ser encarada como um gênero bastardo.

Tudo isso se deu no mesmo instante em que os romancistas, implodindo a narrativa tradicional, passaram a radicalizar os experimentos em prosa. Resultado: nós, pobres leitores, ficamos órfãos da narrativa lúdica, da boa e velha contação de histórias, essa criação humana ancestral, que nos acompanha desde as cavernas e rodas noturnas em volta do fogo. É isso, talvez, que as biografias ofereçam de volta ao leitor. A possibilidade de se deixar seduzir por uma boa história. Talvez, por isso, façam tanto sucesso, tenham tanto apelo de público.

Mas é bom avisar aos que adoram comer cru e provar o doce ainda quente: escrever uma biografia não é se restringir ao meramente episódico e ao anedótico de uma existência, brincar com as peças de um joguinho automático de armar e sobrepor causas e efeitos. Não é, portanto, enfileirar uma coleção de historinhas uma atrás da outra, buscando uma ordem artificial e pacificadora no fluxo caótico da existência. É justamente o contrário. É desnudar, a partir da dimensão doméstica e cotidiana, como se dá a construção histórica dos chamados "fatos" e, por que não dizer, da própria História.

Portanto, nunca se biografa apenas um indivíduo, mas sim toda uma época, numa tentativa de compreender os cenários e as circunstâncias que envolvem a memória coletiva construída em torno do biografado. Subjacentes ao texto narrativo, mas à vista de um leitor mais atento, estão os argumentos, as teses, todo o instrumental teórico e o repertório documental posto em ação pelo autor de uma biografia. Porém, reconheçamos, além de envolver um beneditino exercício intelectual, o ofício não dispensa considerável dose de voyeurismo e transgressão, sem o qual não se faz um bom biógrafo.

É preciso, sim, ser um bisbilhoteiro profissional, daqueles que adoram olhar pelo buraco da fechadura para flagrar esta desavergonhada e velha senhora, a História, em trajes sumários. Se nos é impossível vê-la inteiramente nua, é excitante descobrir que, pelos contornos que a silhueta nos revela, ela continua sedutora como foi desde sempre - e que está, camaleônica, em permanente reconstrução.

O resto, que ninguém nos ouça, é conversa para banca acadêmica dormir.

(Texto originalmente publicado no Diário do Nordeste, em 26 de março de 2010)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Quem inventou o twitter foi um cearense?



Não é o twitter que está nos deixando mais idiotas. É nossa idiotia que ficou mais explícita com o twitter. Alguém, que não lembro agora ao certo quem foi, disse-me que ouviu esta ajuizada sentença da boca de outra pessoa, mas que também ele não se lembrava exatamente de quem. É sintomático: eu não recordo quem me falou aquilo. E quem me falou, se é que de fato estou me lembrando bem, não tinha a mais remota idéia de quem era o verdadeiro autor desse certeiro aforismo. O caso é grave.

Estamos empanturrados de informação fragmentada, descartável – e de terceira mão. Com isso, nosso disco rígido, instalado em algum lugar do córtex cerebral, está ficando perigosamente cheio. O meu, pelo menos, está dando tilt. É hora de fazer faxina urgente em meus arquivos mentais. Vou puxar o computador da tomada, desconectar minha ansiedade, deletar as camadas de lixo eletrônico que acumulei nos últimos tempos. Para começar, prometo que passarei longas 24 horas sem me deixar seduzir por essa contagiosa maldição chamada twitter.

Antes que algum tuiteiro mais afoito me atire o HD externo na cabeça, esclareço: ao contrário do que às vezes possa aparentar, não sou um brucutu que esbraveja esta crônica semanal numa pré-histórica olivetti. Até hoje só digito com dois dedos, é verdade, como se catasse milho no teclado. Porém, sou fascinado por novas tecnologias. Não entendo bulhufas da linguagem cifrada do informatês, mas fico enlevado quando sou apresentado a um gadget qualquer, a uma maravilhosa geringonça de última geração. Corro léguas, portanto, dos neoluditas, essa versão pós-moderna dos velhos luditas, aqueles revoltados senhores que destruíam máquinas a marretadas na época da Revolução Industrial.

Tenho uma velha remington preta de estimação no escritório, mas apenas por puro charme, como objeto de decoração, um fetiche pessoal que faz companhia aqui às gravuras de saborosas pin-ups de perna de fora expostas na estante, junto à fotografia de Gay Talese – ao lado de uma xilogravura de Padre Cícero – espetada no painel de cortiça. Pois é, logo ele, Talese, autodeclarado inimigo número 1 do Google e da rede mundial de computadores.

No meu ofício de jornalista e escritor, há muito utilizo a internet, é óbvio, como ferramenta elementar de trabalho. Por isso, a cada manhã, sinceramente agradecido, acendo uma vela virtual aos abençoados inventores desses surpreendentes oráculos eletrônicos que são as ferramentas de buscas. Com o auxílio de alguns poucos cliques, tenho acesso a fantásticas bibliotecas digitais, escarafuncho preciosos documentos disponíveis na rede, visito sebos do mundo inteiro. Para quem, como eu, trabalha com pesquisa histórica, é mais do que uma simples mão na roda. Gay Talese que me perdoe, mas isso se tornou fundamental.

Na rua, entre um café e outro, leio e-mails no smartphone. No computador do escritório, assino e leio dezenas de feeds. Para divulgar meus próprios livros e manter contatos imediatos com amigos e leitores, tenho perfil no facebook, alimento um misto de blog e site, tenho conta no youtube, recorro ao twitter, uso o msn, apelo ao skype. Não viajo sem o notebook. Como se não bastasse, muito em breve, o editor me avisa, a biografia Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão estará disponível para kindles, i-pads e afins. Mas, verdade seja dita: toda essa parafernália eletrônica que nos invadiu o cotidiano, ao invés de ajudar, por vezes só serve para nos desconcentrar do foco principal e, mais que isso, para nos infernizar o juízo.

Tenho uma amiga, por exemplo, que não desgruda um só minuto do twitter. A qualquer hora do dia ou da noite que eu porventura entre naquilo, lá está ela, a dona de avatar sorridente, com a avidez típica de uma viciada, distribuindo tuitadas a torto e à direita. Dia desses, ela até reclamou que, por causa do “trabalho puxado”, não estava encontrando tempo para terminar um livro que, meses antes, começara a ler. Sugeri-lhe que saísse do twitter por algumas horas e, nos poucos momentos de folga que um chefe tão carrasco lhe facultava, ela pusesse então a leitura em dia. Resultado: ficou furiosa comigo.

Isso sem falar nos carentes empedernidos, que ficam indignados se você, por descuido ou mesmo por opção, deixou de “interagir” ou de prestar atenção a eles. Cuidado: esses passarão a se considerar seus inimigos mortais. Recebo dezenas de mensagens, por dia, via twitter. Impossível responder a tantas tuitadas e, ainda assim, encontrar tempo suficiente para trabalhar. Procuro ser cortês, mando recados para a maioria, estabeleço comunicação sistemática com muitos, especialmente com leitores.

Quase sempre é um contato estimulante e enriquecedor, que introduz um grau de imprevista familiaridade na jornada tão solitária do escritor. Quase sempre, como aconteceu em relação à crônica da semana passada, o twitter funciona como uma fenomenal multiplicador de ideias. Quase sempre, eu disse. Quase sempre.

Aqui e ali, sou surpreendido com a patada de um troglodita que, por esse ou aquele motivo, deixei sem retorno. Impressionante como alguns conseguem mostrar toda a sua desmedida estupidez e seu colossal ressentimento em até 140 caracteres. Por essas e por outras, recentemente cometi orkuticídio, desde que passei a ser assediado por uma horda de adolescentes malucos que, depois da minissérie global, passaram a fazer de Maysa uma espécie de vestal de uma insólita religião juvenil. Tenho medo, muito medo deles.

Houve um tempo em que os profetas da ciência acenavam para um futuro supostamente dourado, no qual converteríamos o tempo livre proporcionado pela tecnologia em atividades de lazer e de elevação do espírito. As máquinas e as maravilhas eletrônicas fariam o serviço sujo, chato e pesado. Nesse porvir utópico, nosso corpo não seria mais uma ferramenta a serviço da exploração do trabalho. Leríamos mais livros, divertiríamo-nos muito mais, faríamos mais sexo, cuidaríamos mais de nós mesmos, dedicaríamo-nos ao dolce far niente e ao ócio criativo. Pois sim. Ao contrário disso, deixamos que nosso preciosíssimo tempo livre seja barbaramente vampirizado, ao cairmos na tentação de consumir e produzir informação às escâncaras e de qualidade duvidosa.

Fico me perguntando, por exemplo, se alguém realmente imagina que temos interesse em saber de certas intimidades, quase onanistas, jogadas assim ao léu e em público: a que horas fulano sai de casa para o trabalho, o que beltrano está almoçando, com que roupa sicrano vai à festa e, pior ainda, como todos eles, fulano, beltrano e sicrano, descobriram um site fantástico capaz de acelerar em progressão geométrica, como em um passe de mágica, suas alucinadas buscas por novos followers.

Todo mundo quer ser seguido, vigiado, exposto, devassado ao máximo em sua privacidade, como em um enorme e insano Big Brother. O desejo à celebridade instantânea virou pandemia. Ou será tudo isso, quando menos, apenas falta do mais elementar senso de ridículo?

Tinha toda razão o amigo Ruy Vasconcelos (que para os iniciados também atende no twitter pelo codinome de @ruyvasconcelos), quando certo dia se deparou com três mocinhas numa barraca da Praia do Futuro, segundo ele, “conversando em um tom de voz tão cearense, sobre coisas tão íntimas”. Ruy teve então, naquele instante, um momento de sublime iluminação: “O twitter deve ser uma invenção cearense”, conjecturou.

Creio que o velho e bom Ruy, perspicaz como sempre, matou a charada primeiro de que todos nós. Vai ver, antes de conquistar o mundo, esse tal de Jack Dorsey, o homem que inventou o twitter, morava mesmo era lá no Papicu. Ninguém como ele compreendeu essa nossa eterna mania de falar, aos gritos, sobre particularidades que ninguém jamais pediu para ouvir. Ocorreu-me agora: não será, talvez, pelo mesmíssimo motivo que os truculentos “paredões” de som de carros ainda encontram tantos adeptos e defensores aí em Fortaleza? Faz sentido.

(Texto publicado no Diário do Nordeste em 19 de março de 2010)

segunda-feira, 15 de março de 2010

"Padim Ciço" made in China



Matéria na "IstoÉ Dinheiro" conta o caso de sucesso de Jony Wang Kai, o chinês que começa a fazer fortuna em Juazeiro do Norte comercializando milhares de estatuetas de Padre Cícero. Detalhe: todas têm chip eletrônico e cantam benditos.

"O curioso da história toda é que as 160 mil estatuetas vendidas por Wang Kai não são fabricadas aqui e sim na China, importadas em grandes contêineres pelo porto de Pecém, a cerca de 60 quilômetros de Fortaleza", diz o texto assinado pelo jornalista Tom Cardoso.

Para ler a matéria da "IstoÉ Dinheiro" na íntegra, clique aqui.

De novo na lista dos mais vendidos



A biografia "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão" (Companhia das Letras), volta a figurar na lista estendida dos mais vendidos, segundo a revista "Veja". O livro, desta vez, ocupa o 16º lugar. É a quinta semana que "Padre Cícero" aparece na lista.

No início do mês, chegou às livrarias a segunda reimpressão da obra. A edição original, de 20 mil exemplares, foi lançada em novembro e, em dezembro, foi feita a primeira reimpressão.

Ecos de uma crônica indignada



Um coletivo de artistas de Fortaleza realizou ontem, domingo, 14 de março, uma grafitagem em protesto contra a violência na capital cearense. Segundo os organizadores do movimento, eles se sentiram provocados a interferir na paisagem da cidade após a leitura da crônica "A bala que matou Marcela", publicada pelo Diário do Nordeste na sexta-feira passada.

O mesmo Diário publica hoje, segunda-feira, 15, uma matéria a respeito do evento. Para ler, clique aqui.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A bala que matou Marcela



Eu não conhecia a empresária Marcela Montenegro. Mas sei muito bem quem é o autor do disparo que a atingiu: a nossa indiferença cotidiana. Isso mesmo. É exatamente isso o que você leu: quem atirou em Marcela foi nossa estupidez e nossa omissão. Todos nós somos os seus algozes.

As coisas sempre estiveram aí, debaixo de nosso focinho, e sempre teimamos em não querer olhar para elas. Porém, quando a tragédia se instala de forma tão violenta e em um cenário tão próximo a nós, ficamos estarrecidos, quedamos desesperados, exercitamos uma tardia mistura de medo, desconsolo e indignação. Tudo porque se esgarçou o ilusório cordão de isolamento que parecia separar nosso paraíso refrigerado do abrasador inferno das ruas. Agora sabemos. Ninguém está imune. A peste está solta.

Até então, era como se o barril de pólvora no qual vivemos sentados não fosse de nossa conta. Mas quando a bala perversa atinge a cabeça de um de nós - ou alguém que bem poderia ter sido um de nós -, só assim despertamos de nosso sono letárgico de classe média deslumbrada e clamamos por providências contra a barbárie. É claro que as autoridades do setor de segurança precisam ser chamadas, com todo o rigor, à razão. Cabe a elas reprimir o faroeste caboclo, explicar como uma zona da cidade reconhecidamente dominada por assaltantes sempre permaneceu assim, entregue ao império da pedrada, do tijolaço e da bala.

Mas também é mais do que oportuno, e se torna dolorosamente necessário, refletir sobre a parcela de responsabilidade que nos cabe, pacatos cidadãos, a respeito de um episódio tão hediondo. Aprendemos a rir, de modo confortável e sem culpas, do programa policialesco de televisão que faz piada da violência que grassa em nossas periferias. Fechamos os olhos para as ocupações irregulares de terrenos que, por falta de um ordenamento urbano mais consistente, pululam na cidade e se tornam semeadouros de conflitos. Deixamos placidamente que nossas meninas se prostituam, de modo sórdido, por alguns míseros trocados ou pelo sonho de desposar um príncipe louro, nos inferninhos da Praia de Iracema.

Permitimos, sem dar um único pio, que se instale o vale-tudo, que valha a lei do mais tosco, que a falta de urbanidade seja a regra geral em nossa anestesiada coexistência. Diante de tudo aquilo que fere e incomoda a coletividade, tapamos o nariz, silenciamos a voz, levantamos o vidro fumê do carro, fazemos ouvidos moucos. Como os macaquinhos que se acham muito sábios mas que apenas permanecem sentados sobre os próprios rabos, não ouvimos, não vemos, não falamos. Na verdade, compactuamos com o descalabro. Somos os cúmplices da iniquidade.

Uma querida amiga jornalista, por e-mail, ao comentar o crime contra Marcela Montenegro, lamenta que, enquanto isso, ao passo em que a brutal violência coleciona mais uma vítima na cidade, o governador e a prefeita continuem a brigar pela supostamente bizantina questão de um estaleiro. Pois daqui respondo, cara amiga, caros leitores: é bom que prefeita e governador discutam mesmo. E é imprescindível que entremos e coloquemos cada vez mais o dedo e ainda mais lenha nessa briga. Não apenas para produzir aquele tipo de fogo que gera fagulha e calor, mas também para produzir a chama que traz a luz. O debate em torno do tal estaleiro, querida amiga, caros leitores, nada tem de bizantino.

É exatamente por nos esquivarmos de discutir coisas assim, como a proposição de um gigantesco estaleiro na orla urbana da cidade, que chegamos ao ponto onde estamos. Aqui, fique-se claro, não vai nenhuma puxada de sardinha para a brasa de qualquer um dos lados partidários ora em contenda. Não falo - e nunca falarei - de política no varejo. Desde a juventude, sou alérgico a partidos políticos. Falo, isso sim, de uma noção maior de política, falo a respeito de qual projeto de cidade afinal de contas desejamos e estamos erigindo para nós mesmos e para nossos filhos.

Tão esdrúxula quanto a ideia de um empreendimento industrial gigantesco fincado no litoral urbano é a instalação de um jardim japonês encravado na Beira-Mar. O segundo pode até aparentar ser menos polêmico ou menos nocivo do ponto de vista social, econômico, ecológico, paisagístico, urbanístico ou, sei lá, estético do que o primeiro. Mas creio que, ambos, estaleiro e jardim japonês, em maior ou menor escala, são igualmente reveladores de nossos tantos equívocos. Não há, pelo menos ao que eu saiba, uma colônia japonesa constituída em Fortaleza. Qual então o significado daquele monstrengo pretensamente zen plantado em um dos últimos espaços de convivência da cidade? Aquilo não passa de mais uma das tais belas ideias fora do lugar, outra aberração urbana, outro alienígena que pousou na cidade e por ali foi ficando, debaixo da complacência bovina de todos nós.

O que, afinal de contas, isso tem a ver com o tiro que acertou Marcela? - indagará por certo o leitor que teima em buscar compreender os efeitos sem descer ao desvão das causas. Tem tudo a ver, insisto. Não estamos apenas entregando a cidade aos malfeitores, aos turistas sexuais, aos arautos da bagunça, aos políticos talvez bem intencionados que, por serem incompetentes, provavelmente lotarão a ante-sala do inferno.

Nós, também, somos perigosamente belicosos. Cada vez que estacionamos o carro sobre a calçada, tornamo-nos mais selvagens. Cada vez que mudamos de faixa no trânsito sem ligar a sinaleira, contribuímos com a desordem geral. Cada vez que paramos em fila dupla na frente da escola à hora de pegar o pimpolho na saída da aula, reproduzimos a lógica de uma terra sem delicadeza e sem lei. Gentileza gera gentileza, pregava o profeta carioca das ruas. Ao contrário dele, somos habituais fomentadores da grosseria, da falta de educação, da omissão, do oportunismo calhorda.

Se não puxamos pessoalmente o gatilho na direção da cabeça de uma inocente, por vezes nos pegamos fazendo coisa tão nefasta quanto. Estamos matando, pouco a pouco, por sufocamento, uma cidade inteira. Acordemos enquanto é tempo. Fortaleza pede socorro. Barbárie gera barbárie.

PS: Sei que corro o risco de algum parlamentar indecente brandir este texto no plenário da Câmara ou da Assembléia como panfleto político contra fulana ou beltrano. De antemão, repudio-lhe o gesto, Excelência. O senhor sabe bem o tamanho da carapuça que lhe cabe.

(Texto publicado em 12 de março de 2010, no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Estou batendo na porta pra te aperrear



Um amigo, de viagem marcada para o Ceará, indaga-me aqui em São Paulo se quero alguma coisa daí de Fortaleza. Não resisto à blague, embora flagrantemente insincera: "Do Ceará? Quero sim. Quero distância".

Atônito, depois de alguns segundos de hesitação, o tal amigo enfim consegue decifrar o tom de piada na minha voz e, ainda com certo ar constrangido, solta a aliviada gargalhada. "Você não tem jeito. Uma vez cearense, sempre cearense", ele comenta, balançando a cabeça de um lado para o outro, atordoado com minha frase de escracho politicamente incorreto. Só então é chegada a minha vez de rir à solta. Peguei mais um besta, zombo de cá para comigo.

Sim, ainda estão bem vivos em mim os traços tão marcados deste humor tipicamente cearense, por vezes agressivo, por vezes auto-depreciativo. Nem sempre venço a tentação do chiste desconcertante, da frase que deixa o interlocutor de calças na mão, da pilhéria que levanta as saias do mais insuportável bom-mocismo.

Em algumas rodinhas de amigos paulistanos, à hora sagrada do chope, não é difícil que alguém se sinta incomodado com meus gracejos um tanto quanto corrosivos e, reconheço, inoportunos em algumas situações. Mas também há os que simplesmente não entendem - ou pelo menos fingem não entender - o sentido das anedotas que me arrisco a contar na mesa do boteco de estimação na Vila Madalena. Diante de uma irresistível piada, daquelas assumidamente sórdidas e malcomportadas, alguns fecham a cara, outros fazem cara de paisagem, como se apenas assobiassem e olhassem para o lado.

Faltaria a eles, paulistanos, talvez o repertório necessário para identificar e reconhecer os códigos característicos daquilo que alguns por aí gostam de chamar de "cearensidade"? Ou talvez, por outro lado, hesitariam os paulistanos em rir de algo que desarma e arranha por completo a noção e o verniz de uma pretensa fineza e civilidade?

Afinal, eles devem se perguntar: como alguém é capaz de rir de modo escancarado da desgraça alheia - ou, não raro, da própria desgraça? Como é possível a um sujeito fazer troça até mesmo da mais terrível das tragédias? Como um indivíduo consegue de tal modo transformar tudo que é cotidiano em motivo de insubordinada facécia?

Dou de ombros. Quem não tem senso de humor não deve ser levado a sério, já gostava de me dizer, entre uma e outra baforada do cigarro barato, o bom e velho amigo Vessillo Monte, uma espécie de síntese cabeça-chata de Lima Barreto e Joe Gould em pleno coração do Benfica. Meu caro Vessillo, você bem sabe, para encarar aqueles que se levam a sério demais, só mesmo amparando-se em uma dose cavalar do mais iconoclasta bom humor.

Essas e outras ideias ficam me batucando a cabeça enquanto recebo, por entrega expressa diretamente de Fortaleza, os primeiros números da revista Aldeota, capitaneada pelo publicitário Fernando Costa - o Fernandinho, para o pessoal aqui de casa. Fernandinho não é só um dos mais geniais profissionais brasileiros do ramo da propaganda que conheço, como também um dos papos mais inteligentes e divertidos de Fortaleza. Irrequieto intelectualmente, frasista insuperável, é capaz de arrancar uma gargalhada do mais compenetrado dos interlocutores em pleno velório familiar.

Fernandinho também tem um coração mole e generoso por trás de toda aquela fama de mau que sempre fez questão de alimentar publicamente. É um cara ponta firme, como dizem por aqui os paulistas. Mas, para fazer jus ao figurino de babalorixá da crueldade que construiu para si, Fernandinho tratou de cultivar a língua mais deliciosamente ferina da cidade. Tenho a sorte, portanto, de tê-lo na diminuta e seleta lista de verdadeiros amigos - e não naquela outra, talvez mais extensa, a de inevitáveis desafetos (uns mais, outros menos assumidos).

Aldeota, a revista, a partir da ironia embutida no próprio nome de batismo da publicação, promete fazer uma leitura criativa e insubmissa da cidade. Anuncia, assim sendo, uma boa lufada de oxigênio no ar rarefeito da vida cultural da capital cearense. Evoé, Fernandinho. Textos como o de Natércia Pontes sobre o pai Augusto - o guru de uma geração inteira de publicitários locais - cumprem à risca o propósito e fazem valer a visita. O de Leonardo Pinto sobre os "aldeotismos" de Fortaleza, idem. Mas há uma dose imprevista de humor involuntário e - sou forçado a apontar - de provincianismo explícito em certo espírito que anima algumas esquinas desta bem-nascida Aldeota, assim na revista como no bairro.

Nem falo das capitulares que entrecortam palavras ou às vezes decepam frases inteiras, para desespero e suplício do leitor. Quando será, deus-do-céu, que os designers, de um modo geral tão criativos e vanguardeiros, vão perceber que o desenho de uma publicação tem que trabalhar sempre a favor da legibilidade do texto e nunca contra ela? O que falo, na verdade, é de um incômodo aldeotismo ora em vigor em Fortaleza - da mesmíssima natureza daqueles outros aldeotismos que tão bem denuncia Leonardo Pinto. O de querer fazer, da Dom Luiz, uma versão matuta da Quinta Avenida. Depois de ser tachada de Miami postiça e cabocla, por causa da arquitetura horrorosa dos prédios da Beira-Mar, uma certa Fortaleza agora pretende se reinventar e eleger Nova York como referência de moda, de gastronomia e de cultura?

Nada mais jeca e anacrônico do que querer aparentar, por fina força, que se é cosmopolita e modernete no quintal da aldeia. São Paulo já faz muito bem - melhor seria dizer muito mal - o papel constrangedor de macaquear as bossas e as "tendências" nova-iorquinas. Aqui, na paulicéia cada vez mais provinciana e desvairada, diz-se "tchau, tchau" como quem diz "bye, bye". Começam-se frases com um inexpressivo "então", talvez para simular o "so", em inglês. "A cidade que nunca dorme" - até tal mote marqueteiro São Paulo surrupiou à prima rica, assim, na maior cara limpa.

Esta é a outra face - a mais atroz - do provincianismo. Ser provinciano não é apenas lançar livro de (maus) poemas em clube social da cidade, não é só ligar o som do carro nas alturas na porta do bar, não consiste apenas em assistir ao Fantástico na televisão gigante de plasma da churrascaria. Ser provinciano não é apenas buzinar para o carro da frente assim que o sinal abre, não é só jogar lixo pela janela do automóvel, não é unicamente falar alto, comer de boca aberta, palitar os dentes e chamar a mulher de "Dona Encrenca".

Ser provinciano é também fazer pose de sofisticado e de entendedor de vinho enquanto a camisa de grife empapa de suor, é vestir-se conforme manda a Vogue no calor de quase 30 graus, é usar cachecol de lã em Guaramiranga, é escrever "New York City" em um texto em português para se referir a Nova York, é achar que a Praça Portugal é a Times Square. É, por fim, tentar ser a cópia fiel, mas nunca conseguir passar da mais cruel caricatura, aquela que expõe o retratado ao pior de todos os ridículos.

Por essas e por outras, vida longa à Aldeota. Vida breve aos aldeotismos.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 5 de março de 2010)