sexta-feira, 5 de março de 2010

Estou batendo na porta pra te aperrear



Um amigo, de viagem marcada para o Ceará, indaga-me aqui em São Paulo se quero alguma coisa daí de Fortaleza. Não resisto à blague, embora flagrantemente insincera: "Do Ceará? Quero sim. Quero distância".

Atônito, depois de alguns segundos de hesitação, o tal amigo enfim consegue decifrar o tom de piada na minha voz e, ainda com certo ar constrangido, solta a aliviada gargalhada. "Você não tem jeito. Uma vez cearense, sempre cearense", ele comenta, balançando a cabeça de um lado para o outro, atordoado com minha frase de escracho politicamente incorreto. Só então é chegada a minha vez de rir à solta. Peguei mais um besta, zombo de cá para comigo.

Sim, ainda estão bem vivos em mim os traços tão marcados deste humor tipicamente cearense, por vezes agressivo, por vezes auto-depreciativo. Nem sempre venço a tentação do chiste desconcertante, da frase que deixa o interlocutor de calças na mão, da pilhéria que levanta as saias do mais insuportável bom-mocismo.

Em algumas rodinhas de amigos paulistanos, à hora sagrada do chope, não é difícil que alguém se sinta incomodado com meus gracejos um tanto quanto corrosivos e, reconheço, inoportunos em algumas situações. Mas também há os que simplesmente não entendem - ou pelo menos fingem não entender - o sentido das anedotas que me arrisco a contar na mesa do boteco de estimação na Vila Madalena. Diante de uma irresistível piada, daquelas assumidamente sórdidas e malcomportadas, alguns fecham a cara, outros fazem cara de paisagem, como se apenas assobiassem e olhassem para o lado.

Faltaria a eles, paulistanos, talvez o repertório necessário para identificar e reconhecer os códigos característicos daquilo que alguns por aí gostam de chamar de "cearensidade"? Ou talvez, por outro lado, hesitariam os paulistanos em rir de algo que desarma e arranha por completo a noção e o verniz de uma pretensa fineza e civilidade?

Afinal, eles devem se perguntar: como alguém é capaz de rir de modo escancarado da desgraça alheia - ou, não raro, da própria desgraça? Como é possível a um sujeito fazer troça até mesmo da mais terrível das tragédias? Como um indivíduo consegue de tal modo transformar tudo que é cotidiano em motivo de insubordinada facécia?

Dou de ombros. Quem não tem senso de humor não deve ser levado a sério, já gostava de me dizer, entre uma e outra baforada do cigarro barato, o bom e velho amigo Vessillo Monte, uma espécie de síntese cabeça-chata de Lima Barreto e Joe Gould em pleno coração do Benfica. Meu caro Vessillo, você bem sabe, para encarar aqueles que se levam a sério demais, só mesmo amparando-se em uma dose cavalar do mais iconoclasta bom humor.

Essas e outras ideias ficam me batucando a cabeça enquanto recebo, por entrega expressa diretamente de Fortaleza, os primeiros números da revista Aldeota, capitaneada pelo publicitário Fernando Costa - o Fernandinho, para o pessoal aqui de casa. Fernandinho não é só um dos mais geniais profissionais brasileiros do ramo da propaganda que conheço, como também um dos papos mais inteligentes e divertidos de Fortaleza. Irrequieto intelectualmente, frasista insuperável, é capaz de arrancar uma gargalhada do mais compenetrado dos interlocutores em pleno velório familiar.

Fernandinho também tem um coração mole e generoso por trás de toda aquela fama de mau que sempre fez questão de alimentar publicamente. É um cara ponta firme, como dizem por aqui os paulistas. Mas, para fazer jus ao figurino de babalorixá da crueldade que construiu para si, Fernandinho tratou de cultivar a língua mais deliciosamente ferina da cidade. Tenho a sorte, portanto, de tê-lo na diminuta e seleta lista de verdadeiros amigos - e não naquela outra, talvez mais extensa, a de inevitáveis desafetos (uns mais, outros menos assumidos).

Aldeota, a revista, a partir da ironia embutida no próprio nome de batismo da publicação, promete fazer uma leitura criativa e insubmissa da cidade. Anuncia, assim sendo, uma boa lufada de oxigênio no ar rarefeito da vida cultural da capital cearense. Evoé, Fernandinho. Textos como o de Natércia Pontes sobre o pai Augusto - o guru de uma geração inteira de publicitários locais - cumprem à risca o propósito e fazem valer a visita. O de Leonardo Pinto sobre os "aldeotismos" de Fortaleza, idem. Mas há uma dose imprevista de humor involuntário e - sou forçado a apontar - de provincianismo explícito em certo espírito que anima algumas esquinas desta bem-nascida Aldeota, assim na revista como no bairro.

Nem falo das capitulares que entrecortam palavras ou às vezes decepam frases inteiras, para desespero e suplício do leitor. Quando será, deus-do-céu, que os designers, de um modo geral tão criativos e vanguardeiros, vão perceber que o desenho de uma publicação tem que trabalhar sempre a favor da legibilidade do texto e nunca contra ela? O que falo, na verdade, é de um incômodo aldeotismo ora em vigor em Fortaleza - da mesmíssima natureza daqueles outros aldeotismos que tão bem denuncia Leonardo Pinto. O de querer fazer, da Dom Luiz, uma versão matuta da Quinta Avenida. Depois de ser tachada de Miami postiça e cabocla, por causa da arquitetura horrorosa dos prédios da Beira-Mar, uma certa Fortaleza agora pretende se reinventar e eleger Nova York como referência de moda, de gastronomia e de cultura?

Nada mais jeca e anacrônico do que querer aparentar, por fina força, que se é cosmopolita e modernete no quintal da aldeia. São Paulo já faz muito bem - melhor seria dizer muito mal - o papel constrangedor de macaquear as bossas e as "tendências" nova-iorquinas. Aqui, na paulicéia cada vez mais provinciana e desvairada, diz-se "tchau, tchau" como quem diz "bye, bye". Começam-se frases com um inexpressivo "então", talvez para simular o "so", em inglês. "A cidade que nunca dorme" - até tal mote marqueteiro São Paulo surrupiou à prima rica, assim, na maior cara limpa.

Esta é a outra face - a mais atroz - do provincianismo. Ser provinciano não é apenas lançar livro de (maus) poemas em clube social da cidade, não é só ligar o som do carro nas alturas na porta do bar, não consiste apenas em assistir ao Fantástico na televisão gigante de plasma da churrascaria. Ser provinciano não é apenas buzinar para o carro da frente assim que o sinal abre, não é só jogar lixo pela janela do automóvel, não é unicamente falar alto, comer de boca aberta, palitar os dentes e chamar a mulher de "Dona Encrenca".

Ser provinciano é também fazer pose de sofisticado e de entendedor de vinho enquanto a camisa de grife empapa de suor, é vestir-se conforme manda a Vogue no calor de quase 30 graus, é usar cachecol de lã em Guaramiranga, é escrever "New York City" em um texto em português para se referir a Nova York, é achar que a Praça Portugal é a Times Square. É, por fim, tentar ser a cópia fiel, mas nunca conseguir passar da mais cruel caricatura, aquela que expõe o retratado ao pior de todos os ridículos.

Por essas e por outras, vida longa à Aldeota. Vida breve aos aldeotismos.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 5 de março de 2010)