segunda-feira, 22 de março de 2010

Quem inventou o twitter foi um cearense?



Não é o twitter que está nos deixando mais idiotas. É nossa idiotia que ficou mais explícita com o twitter. Alguém, que não lembro agora ao certo quem foi, disse-me que ouviu esta ajuizada sentença da boca de outra pessoa, mas que também ele não se lembrava exatamente de quem. É sintomático: eu não recordo quem me falou aquilo. E quem me falou, se é que de fato estou me lembrando bem, não tinha a mais remota idéia de quem era o verdadeiro autor desse certeiro aforismo. O caso é grave.

Estamos empanturrados de informação fragmentada, descartável – e de terceira mão. Com isso, nosso disco rígido, instalado em algum lugar do córtex cerebral, está ficando perigosamente cheio. O meu, pelo menos, está dando tilt. É hora de fazer faxina urgente em meus arquivos mentais. Vou puxar o computador da tomada, desconectar minha ansiedade, deletar as camadas de lixo eletrônico que acumulei nos últimos tempos. Para começar, prometo que passarei longas 24 horas sem me deixar seduzir por essa contagiosa maldição chamada twitter.

Antes que algum tuiteiro mais afoito me atire o HD externo na cabeça, esclareço: ao contrário do que às vezes possa aparentar, não sou um brucutu que esbraveja esta crônica semanal numa pré-histórica olivetti. Até hoje só digito com dois dedos, é verdade, como se catasse milho no teclado. Porém, sou fascinado por novas tecnologias. Não entendo bulhufas da linguagem cifrada do informatês, mas fico enlevado quando sou apresentado a um gadget qualquer, a uma maravilhosa geringonça de última geração. Corro léguas, portanto, dos neoluditas, essa versão pós-moderna dos velhos luditas, aqueles revoltados senhores que destruíam máquinas a marretadas na época da Revolução Industrial.

Tenho uma velha remington preta de estimação no escritório, mas apenas por puro charme, como objeto de decoração, um fetiche pessoal que faz companhia aqui às gravuras de saborosas pin-ups de perna de fora expostas na estante, junto à fotografia de Gay Talese – ao lado de uma xilogravura de Padre Cícero – espetada no painel de cortiça. Pois é, logo ele, Talese, autodeclarado inimigo número 1 do Google e da rede mundial de computadores.

No meu ofício de jornalista e escritor, há muito utilizo a internet, é óbvio, como ferramenta elementar de trabalho. Por isso, a cada manhã, sinceramente agradecido, acendo uma vela virtual aos abençoados inventores desses surpreendentes oráculos eletrônicos que são as ferramentas de buscas. Com o auxílio de alguns poucos cliques, tenho acesso a fantásticas bibliotecas digitais, escarafuncho preciosos documentos disponíveis na rede, visito sebos do mundo inteiro. Para quem, como eu, trabalha com pesquisa histórica, é mais do que uma simples mão na roda. Gay Talese que me perdoe, mas isso se tornou fundamental.

Na rua, entre um café e outro, leio e-mails no smartphone. No computador do escritório, assino e leio dezenas de feeds. Para divulgar meus próprios livros e manter contatos imediatos com amigos e leitores, tenho perfil no facebook, alimento um misto de blog e site, tenho conta no youtube, recorro ao twitter, uso o msn, apelo ao skype. Não viajo sem o notebook. Como se não bastasse, muito em breve, o editor me avisa, a biografia Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão estará disponível para kindles, i-pads e afins. Mas, verdade seja dita: toda essa parafernália eletrônica que nos invadiu o cotidiano, ao invés de ajudar, por vezes só serve para nos desconcentrar do foco principal e, mais que isso, para nos infernizar o juízo.

Tenho uma amiga, por exemplo, que não desgruda um só minuto do twitter. A qualquer hora do dia ou da noite que eu porventura entre naquilo, lá está ela, a dona de avatar sorridente, com a avidez típica de uma viciada, distribuindo tuitadas a torto e à direita. Dia desses, ela até reclamou que, por causa do “trabalho puxado”, não estava encontrando tempo para terminar um livro que, meses antes, começara a ler. Sugeri-lhe que saísse do twitter por algumas horas e, nos poucos momentos de folga que um chefe tão carrasco lhe facultava, ela pusesse então a leitura em dia. Resultado: ficou furiosa comigo.

Isso sem falar nos carentes empedernidos, que ficam indignados se você, por descuido ou mesmo por opção, deixou de “interagir” ou de prestar atenção a eles. Cuidado: esses passarão a se considerar seus inimigos mortais. Recebo dezenas de mensagens, por dia, via twitter. Impossível responder a tantas tuitadas e, ainda assim, encontrar tempo suficiente para trabalhar. Procuro ser cortês, mando recados para a maioria, estabeleço comunicação sistemática com muitos, especialmente com leitores.

Quase sempre é um contato estimulante e enriquecedor, que introduz um grau de imprevista familiaridade na jornada tão solitária do escritor. Quase sempre, como aconteceu em relação à crônica da semana passada, o twitter funciona como uma fenomenal multiplicador de ideias. Quase sempre, eu disse. Quase sempre.

Aqui e ali, sou surpreendido com a patada de um troglodita que, por esse ou aquele motivo, deixei sem retorno. Impressionante como alguns conseguem mostrar toda a sua desmedida estupidez e seu colossal ressentimento em até 140 caracteres. Por essas e por outras, recentemente cometi orkuticídio, desde que passei a ser assediado por uma horda de adolescentes malucos que, depois da minissérie global, passaram a fazer de Maysa uma espécie de vestal de uma insólita religião juvenil. Tenho medo, muito medo deles.

Houve um tempo em que os profetas da ciência acenavam para um futuro supostamente dourado, no qual converteríamos o tempo livre proporcionado pela tecnologia em atividades de lazer e de elevação do espírito. As máquinas e as maravilhas eletrônicas fariam o serviço sujo, chato e pesado. Nesse porvir utópico, nosso corpo não seria mais uma ferramenta a serviço da exploração do trabalho. Leríamos mais livros, divertiríamo-nos muito mais, faríamos mais sexo, cuidaríamos mais de nós mesmos, dedicaríamo-nos ao dolce far niente e ao ócio criativo. Pois sim. Ao contrário disso, deixamos que nosso preciosíssimo tempo livre seja barbaramente vampirizado, ao cairmos na tentação de consumir e produzir informação às escâncaras e de qualidade duvidosa.

Fico me perguntando, por exemplo, se alguém realmente imagina que temos interesse em saber de certas intimidades, quase onanistas, jogadas assim ao léu e em público: a que horas fulano sai de casa para o trabalho, o que beltrano está almoçando, com que roupa sicrano vai à festa e, pior ainda, como todos eles, fulano, beltrano e sicrano, descobriram um site fantástico capaz de acelerar em progressão geométrica, como em um passe de mágica, suas alucinadas buscas por novos followers.

Todo mundo quer ser seguido, vigiado, exposto, devassado ao máximo em sua privacidade, como em um enorme e insano Big Brother. O desejo à celebridade instantânea virou pandemia. Ou será tudo isso, quando menos, apenas falta do mais elementar senso de ridículo?

Tinha toda razão o amigo Ruy Vasconcelos (que para os iniciados também atende no twitter pelo codinome de @ruyvasconcelos), quando certo dia se deparou com três mocinhas numa barraca da Praia do Futuro, segundo ele, “conversando em um tom de voz tão cearense, sobre coisas tão íntimas”. Ruy teve então, naquele instante, um momento de sublime iluminação: “O twitter deve ser uma invenção cearense”, conjecturou.

Creio que o velho e bom Ruy, perspicaz como sempre, matou a charada primeiro de que todos nós. Vai ver, antes de conquistar o mundo, esse tal de Jack Dorsey, o homem que inventou o twitter, morava mesmo era lá no Papicu. Ninguém como ele compreendeu essa nossa eterna mania de falar, aos gritos, sobre particularidades que ninguém jamais pediu para ouvir. Ocorreu-me agora: não será, talvez, pelo mesmíssimo motivo que os truculentos “paredões” de som de carros ainda encontram tantos adeptos e defensores aí em Fortaleza? Faz sentido.

(Texto publicado no Diário do Nordeste em 19 de março de 2010)