sexta-feira, 26 de março de 2010

Sou bisbilhoteiro profissional



Quase tive uma síncope de tanto rir. Em meu site, um anônimo deixou mensagem furibunda, grafada em maiúsculas, acusando-me de ser um mentiroso pago pela Igreja Católica para escrever um livro torpe, descaradamente a favor de Padre Cícero e em prol da reabilitação do sacerdote pela Santa Sé. Semanas antes, eu já rolara no chão em meio a boas gargalhadas quando me chegara, por e-mail, um texto no qual sou descrito como um covarde caluniador, pois teria publicado um livro injurioso apenas para tentar conspurcar a imagem histórica de Cícero Romão Batista.

Pois é. Um diz que fui subornado e aluguei minha pena para a "milionária indústria do embuste padrecicerólatra". Outro afirma que sou um maledicente oportunista, que se deu à traiçoeira tarefa de atirar lama e aleivosias contra a memória do biografado. Ora, vá entender.

Não perdi tempo em tentar responder a um ou outro. Os sinais contrários das verrinas, que se anulam mutuamente, pouparam-me de tão enfadonho trabalho. Do episódio, além das gargalhadas, restaram-me apenas algumas reflexões e duas firmes certezas: a biografia é mesmo um gênero fascinante. E ninguém é dono daquilo que escreve e publica.

Um colega jornalista, profissional dos bons, diz-me por exemplo que escrevi uma obra demolidora, que mostraria a dissimulação como o traço de personalidade mais definido de Cícero. Já uma dileta amiga, profunda estudiosa da psicologia das religiões, assevera que consegui, com meu olhar de jornalista agnóstico, demonstrar os nítidos traços de uma suposta santidade do patriarca de Juazeiro. Que livro, afinal de contas, escrevi? Qual desses meus dois caros e abalizados interlocutores tem realmente razão? Talvez nenhum deles. Talvez ambos.

Se é de fato fascinante, a biografia também é um gênero escorregadio. Ao não calibrar a mão, o candidato a biógrafo corre o sério risco de, por um lado, oferecer ao leitor apenas uma tediosa hagiografia, a trajetória de um indivíduo presumidamente imaculado e sem pecados, alguém que, convenhamos, ainda está para nascer neste mundo. Por outro, no sentido diretamente oposto, o biógrafo pode cair na tentativa igualmente ingênua de querer desconstruir determinado personagem histórico, negando-lhe toda e qualquer virtude e mérito. Bobagem. Não há feio sem sua graça, nem bonito sem seu senão, há muito nos ensina a sabedoria cabocla.

Entre um e outro extremo, longe da alça de mira dos apologistas e dos detratores, está o biografado, o ser humano mergulhado em ambivalências e contradições. Buscar revelá-lo em suas várias dimensões, trazê-lo à luz em sua intrigante complexidade, este é o verdadeiro desafio de todo biógrafo que se preze. Afinal, ninguém, nenhum de nós, quando observado em perspectiva, é apenas vilão ou apenas mocinho. Não somos personagens de folhetim televisivo ou de desenho animado. Não somos seres unidimensionais, preto no branco, pão-pão, queijo-queijo. O bem e o mal convivem em nós, roçam-se, interpenetram-se, canibalizam-se. Somos luz e sombra, claro e escuro, vício e virtude. É isso que nos faz naturalmente belos e imperfeitos.

Seja como for, o fato é que se assiste hoje, em relação às biografias, a um duplo fenômeno. No mercado editorial, os livros de natureza histórica em geral, especialmente aqueles escritos por jornalistas - e os biográficos em particular -, aparecem com cada vez mais constância na lista dos preferidos do público. Ao mesmo passo, até bem pouco tempo vista com narizes torcidos por parte da comunidade acadêmica, a biografia começa a ser valorizada e a ganhar prestígio como fonte legítima de informação e reflexão histórica.

É claro que, em se tratando de biografias, há muita contrafação nas prateleiras das livrarias, muita pesquisa frouxa, muitos textos escritos de afogadilho, muito impressionismo e pouco rigor no trato com as fontes. Mas isso não é privilégio dos biógrafos ou dos jornalistas. Há bastante impostura intelectual, uma quantidade significativa de palavrório oco e um flagrante anacronismo nos departamentos universitários.

Recentemente, o historiador Boris Fausto, de reconhecida competência entre os pares, escreveu um artigo insuspeito, publicado na Folha de S. Paulo, no qual reconhecia que as biografias escritas por jornalistas fazem avançar o conhecimento histórico do grande público. Para Boris, as biografias encerrariam uma lição aos historiadores ao oferecer "uma narrativa em estilo límpido, sem os cacoetes do jargão disciplinar". E completou: "Essa virtude não é pequena, se a gente se lembrar que, sem conter uma narrativa atraente, a biografia fracassa".

Creio que, nesse ponto, Boris acertou na mosca, ao referir-se à fluência como uma das qualidades mais necessárias e evidentes das boas biografias. O leitor comum, não iniciado, que já tentou encarar um livro escrito por um historiador, sabe exatamente do que estamos falando. Na maioria das vezes, aquilo é pedregulho em estado bruto. Minha parceira deste espaço aos sábados, a historiadora Isabel Lustosa, é uma das raríssimas exceções à regra. Vocês sabem. Ela escreve como o capeta.

Ao concentrar-se na análise das grandes estruturas, os historiadores durante muito tempo viraram as costas para a narrativa, coisa que a partir de então passaram a considerar como algo de somenos importância ou até ilícito do ponto de vista intelectual. Mesmo quando os historiadores se dispuseram a se debruçar sobre o cotidiano e a vida privada, a biografia continuou a ser encarada como um gênero bastardo.

Tudo isso se deu no mesmo instante em que os romancistas, implodindo a narrativa tradicional, passaram a radicalizar os experimentos em prosa. Resultado: nós, pobres leitores, ficamos órfãos da narrativa lúdica, da boa e velha contação de histórias, essa criação humana ancestral, que nos acompanha desde as cavernas e rodas noturnas em volta do fogo. É isso, talvez, que as biografias ofereçam de volta ao leitor. A possibilidade de se deixar seduzir por uma boa história. Talvez, por isso, façam tanto sucesso, tenham tanto apelo de público.

Mas é bom avisar aos que adoram comer cru e provar o doce ainda quente: escrever uma biografia não é se restringir ao meramente episódico e ao anedótico de uma existência, brincar com as peças de um joguinho automático de armar e sobrepor causas e efeitos. Não é, portanto, enfileirar uma coleção de historinhas uma atrás da outra, buscando uma ordem artificial e pacificadora no fluxo caótico da existência. É justamente o contrário. É desnudar, a partir da dimensão doméstica e cotidiana, como se dá a construção histórica dos chamados "fatos" e, por que não dizer, da própria História.

Portanto, nunca se biografa apenas um indivíduo, mas sim toda uma época, numa tentativa de compreender os cenários e as circunstâncias que envolvem a memória coletiva construída em torno do biografado. Subjacentes ao texto narrativo, mas à vista de um leitor mais atento, estão os argumentos, as teses, todo o instrumental teórico e o repertório documental posto em ação pelo autor de uma biografia. Porém, reconheçamos, além de envolver um beneditino exercício intelectual, o ofício não dispensa considerável dose de voyeurismo e transgressão, sem o qual não se faz um bom biógrafo.

É preciso, sim, ser um bisbilhoteiro profissional, daqueles que adoram olhar pelo buraco da fechadura para flagrar esta desavergonhada e velha senhora, a História, em trajes sumários. Se nos é impossível vê-la inteiramente nua, é excitante descobrir que, pelos contornos que a silhueta nos revela, ela continua sedutora como foi desde sempre - e que está, camaleônica, em permanente reconstrução.

O resto, que ninguém nos ouça, é conversa para banca acadêmica dormir.

(Texto originalmente publicado no Diário do Nordeste, em 26 de março de 2010)