sexta-feira, 30 de abril de 2010

O homem do pijama azul



Penso tê-lo visto uma única vez, talvez no final de 1971, quando o peso dos quase 80 anos de idade já lhe prenunciavam o triste desfecho. Eu tinha apenas sete anos - e esta é uma das minhas mais remotas lembranças de infância. Sentado na cama, completamente cego, vestido com o pijama azul, o velho João de Lira Cavalcante pôs-me a mão na cabeça, passou os dedos nos meus então vastos cabelos infantis e depois sorriu, mirando o nada. Não lembro se falou algo, se me perguntou alguma coisa, se fez algum comentário específico. Só guardei daquele momento alguns rápidos lampejos, uma memória enevoada, uma reminiscência cheia de brumas, bem típica daquela amnésia natural que caracteriza as recordações adultas a respeito dos primeiros anos de vida.

O pijama de meu avô era realmente azul ou o tingi depois mentalmente, reconstruindo a imagem de acordo com os tons suaves de minha cor favorita? Seus dedos se demoraram de fato nos meus cabelos ou apenas desejei que isso houvesse acontecido assim, forjando inconscientemente uma lembrança física posterior que confortasse o sentimento de ausência? Ao tentar reproduzir o passado vivido, terei recuperado aquele momento com as tintas involuntárias da idealização? Não tenho respostas precisas para tal. Essas armadilhas são próprias das reminiscências pessoais - sempre seletivas e construídas -, o que faz da narrativa do passado necessariamente um jogo de esconde-esconde entre a memória, o esquecimento e os mistérios da subjetividade de quem a viveu.

O fato concreto é que naquele dia lá estava eu, diante de meu avô massapeense, o homem de quem eu havia herdado o nome - e a respeito de quem sempre ouvira contar tantas histórias fantásticas. Hoje me pergunto quantas daquelas histórias mirabolantes não eram também recriações familiares, fábulas germinadas pela criatividade prodigiosa de meu pai, homem de espírito livre e inventivo, com notório pendor para dramatizar a mais prosaica das cenas domésticas.

A ideia, aliás, deve ter sido obviamente dele, meu pai: quando nasci em Fortaleza, no Natal de 1963, decidiu-se que eu seria batizado com o nome de João de Lira Cavalcante Neto. Ao que me consta, eu não era o primeiro dos netos. Nem meu pai, uma espécie de outsider do clã, era exatamente o membro mais próximo à família. Por esse motivo, ignoro até hoje as razões que fizeram recair sobre mim o direito e o peso de envergar, nas letras datilografadas da certidão de nascimento, o nome do velho patriarca. Seja como for, o caso é que se era eu, desde a pia batismal, o Lira Neto, cresci então querendo saber tudo a respeito do "Lira Avô", comerciante de Massapê cuja ascendência ia dar nos costados do velho capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa.

A cegueira de vovô sempre atormentou-me a imaginação de menino. Conjeturava como devia ser terrível a ideia de viver no escuro absoluto, tateando móveis e paredes, necessitando, como ele, da ajuda alheia para as mais elementares atividades cotidianas. Quando, em casa, cometíamos alguma travessura, como a de saltar do alto do guarda-roupa para a cama, vinha sempre a advertência: cuidado, não faça isso de novo, Vovô ficou cego assim. Sabíamos que não era verdade, mas tínhamos medo do mesmo modo.

Depois que cresci, o que passou a me despertar maior atenção na história pessoal de meu avô - e até hoje isso ainda me atiça a imaginação - é o fato de o velho João de Lira Cavalcante ter cultivado um método todo peculiar de dar nome aos filhos. Vovô era um homem fascinado pelas narrativas da epopeia cívica que foi a Coluna Prestes. Contemporâneo aos fatos, era tão entusiasmado pelo tema que quis homenagear os principais líderes do movimento na hora de nomear os meninos que nasceriam de seu casamento com vovó Luiza Pereira. O detalhe é que Vovô não se contentava em pedir emprestado apenas os prenomes dos revolucionários. Punha também nos pimpolhos os sobrenomes dos rebeldes, ignorando a tradição e transgredindo a lógica familiar. Um dos filhos, por exemplo, ele batizou como Juarez Prestes Cabanas - referência simultânea aos insurgentes Juarez Távora, Luiz Carlos Prestes e João Cabanas.

Outro filho do velho João de Lira Cavalcante foi registrado no cartório como João Alberto Siqueira Campos, justaposição dos nomes de dois ícones revolucionários, o pernambucano João Alberto e o paulista Siqueira Campos. Mais tarde, meus tios Juarez e João Alberto decidiram levar a história adiante e repassaram os sobrenomes postiços aos próprios filhos. Foi assim que a "família" Prestes e a "família" Siqueira Campos foram artificialmente transplantadas para Massapê, no interior do Ceará, bem vizinho a Sobral, onde o chamado Cavaleiro da Esperança e o destemido filho de Rio Claro jamais puseram os pés.

O que Vovô talvez nunca esperasse é que um de seus rebentos providenciasse, décadas depois, um inesperado antídoto para o legado revolucionário que o velho João de Lira Cavalcante deixara aos seus. Quando nasceu um dos filhos de meu tio João Alberto Siqueira Campos (para nós, tio Beto), o mundo inteiro estava comovido com o violento assassinato do presidente norte-americano John Kennedy. Tio Beto não pensou duas vezes. Batizou o recém-nascido como Kennedy Siqueira Campos - o que sempre me pareceu uma curiosa vingança ideológica.

Decorridos quase 40 anos daquele único encontro pessoal que tive com meu avô, deparei-me com fragmentos de sua história novamente há pouco tempo, quando estava finalizando a pesquisa para a biografia "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão", lançada no final do ano passado. Ao consultar as páginas do livro "Os Partidos Políticos do Ceará", de Abelardo Montenegro, surpreendi-me com uma referência ao nome do velho João de Lira Cavalcante, exatamente no capítulo relativo à Revolução de 30 no estado. Lá estava ele, o incorrigível Vovô, como fundador, em 1929, em pleno sertão cearense, de um tal Centro Cívico Luís Carlos Prestes.

O tempo foi traiçoeiro. Roubou-me a oportunidade de conhecer o irrequieto velhinho a fundo. Gostaria de ter-lhe lançado uma montanha de perguntas que, para mim, permanecerão talvez indefinidamente sem resposta. Nascido na pequena Massapê de 1894, como ele fazia para acompanhar, à distância, no interior do Ceará, os lances nacionais da derrocada da República Velha, incluindo o episódio quase mítico dos Dezoito do Forte, que sacralizou a figura histórica de Siqueira Campos? Vovô lia quais jornais, devorava que livros? Acompanhou a vitória da Revolução de 30 e a controvertida chegada dos tenentistas que ele tanto idolatrava ao poder? Aceitou a conversão de Prestes ao comunismo? Apoiou ou repudiou o Estado Novo? Como encarou o golpe de 1964 e o advento dos primeiros governos militares? Por fim, faria a ele a pergunta que mais me aflige: Vovô deixou registros escritos, perdidos por acaso em algum lugar incerto, mas que um dia pudessem vir a ser descobertos por algum neto jornalista e bisbilhoteiro? Não sei. Infelizmente, não sei. Para mim, o homem do pijama azul continua sendo um enigma.

Da última vez que estive na pequena Massapê, lá se vão mais de 20 anos, um busto do velho João de Lira Cavalcante ornava o canteiro central de uma avenida que leva o nome dele na cidade. A estátua foi erguida quase em frente onde ficava a farmácia de outro dos filhos de meu avô, que foi batizado de Benedito Carpenter mas depois mudou o nome por conta própria, ainda na juventude, por dois declarados motivos: o primeiro, para restaurar na carteira de identidade o legítimo sobrenome familiar. O segundo, para homenagear aquele que era seu grande ídolo musical, um cantor brega-folk da época, caubói fajuto, o inconcebível Bob Nelson.

Na ocasião, o revolucionário Vovô deve ter ficado fulo da vida. Com toda razão, não é mesmo, seu Bob Lira?

PS: A respeito do Bob Lira, farmacêutico e caixeiro viajante, haveria muito o que escrever. Fica para uma próxima. Dele, basta dizer que o conheci relativamente bem. Era meu pai. O mais irresponsável e delicioso de todos os boêmios que a gloriosa Massapê já produziu.
(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 30 de abril de 2010).
Ilustração: Homem velho, de Leonardo da Vinci

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Pequeno elogio ao baião-de-dois



Após nos esbaldarmos à mesa, enquanto tomávamos o sagrado cafezinho e nos preparávamos para pedir a conta, o atencioso garçom, meio encabulado, cheio de dedos, nos confessou o segredo. Naquele restaurante nordestino da Vila Madalena, aqui em São Paulo, a gerência precisou nos últimos tempos mandar a cozinha aumentar consideravelmente o tamanho das porções e dos pratos principais. A clientela - especialmente a composta por alagoanos, cearenses, paraibanos, pernambucanos, piauienses, potiguares e sergipanos autênticos - estava reclamando a valer. Afinal de contas, para nós, nordestinos de verdade, comer bem sempre significou a mesma coisa do que comer muito.

Vá lá que a proposta daquela casa nunca foi a de ser propriamente um restaurante típico, mas sim a de fazer uma releitura "contemporânea" da culinária cabocla. Assim, o baião-de-dois, a carne-seca e até mesmo a velha e boa farofa chegam à mesa em versões estilizadas, sem a abundância de gordura tão própria da mesa sertaneja. O tal restaurante fez fama na Vila Madalena justamente por conseguir o que até então parecia impossível: dar um toque de leveza, e até mesmo uma certa delicadeza, na irresistível e rústica gastronomia rural nordestina. A comida que vem fumegando sempre foi deliciosa, de dar água na boca. Mas, por causa da proposta de oferecer uma variante moderna da cozinha cabocla, os pratos e as porções eram, até então, escandalosamente diminutos. Tão pequenos que se tornavam quase ofensivos aos olhos de um legítimo nordestino como eu, acostumado a rimar gostosura com fartura.

Quando o garçom nos confidenciou a nova orientação ditada pela gerência aos cozinheiros - dobrar o tamanho de todas as porções, o que inclusive obrigou a casa a rever o conceito gastronômico de contemporaneidade e comprar travessas maiores do que as habituais - lembrei imediatamente do velho Luiz Gonzaga. Na canção "Respeita Januário", no momento em que Gonzagão entremeia a melodia com hilários trechos falados, ele sapeca a observação, a respeito de si mesmo: "Tá gordo que parece um major". É tão engraçado quando definidor de um traço de cultura ancestral e genuinamente nordestino: no sertão, a prosperidade do sujeito é avaliada pela circunferência da pança.

Talvez venha daí o estereótipo do coronel sertanejo como um indivíduo balofo, a barriga proeminente de latifundiário saltando por baixo do paletó de casimira branca. Talvez, também, o conceito que associa a riqueza à gordura - e a magreza à miséria - emane de certas cenas brutais que nos acostumamos a ver e que até hoje, infelizmente, permanecem atuais: a cada estiagem na região, levas de retirantes esquálidos vagando ao léu, sem terra, sem tostão e sem chuva. Gente reduzida a pele e ao osso. Por isso, quem sabe, para o bom nordestino, contrariando o que dizem os especialistas preocupados com a verdadeira epidemia de obesidade que ora assola o país, gente é igual a boi: quando mais gordo, mais bonito.

Dia desses, na tevê, vi o badalado chef Alex Atala ensinar uma receita de moqueca baiana que me pareceu deliciosa. Eu, que me derreto por um bom peixe, quase lambi a tela. Uma pena que ainda não tenham inventado a transmissão com cheiro e sabor, pois fiquei com a mais absoluta certeza de que aquela moqueca preparada com maestria, em uma legítima panela de barro, devia estar uma loucura de tirar o juízo de qualquer cristão atazanado pelo pecado da gula - o que não é o meu caso, advirto. Não tenho a mais leve sombra de remorsos diante de uma mesa generosa e farta. Ademais, sou pecador assumido.

O problema foi quando chegou o grand finale, a hora de Atala servir a apresentadora com a iguaria que, confesso, me fez babar copiosamente no sofá. Em um prato branco enorme, ele pôs uma postinha de peixe que não deveria chegar a uns 50 gramas, em cima do qual equilibrou caprichosamente alguns minúsculas fatias de pimentão e cebola, arrematando tudo com um arabesco desenhado ao lado do peixe com a ajuda de meia colher de sopa - isso mesmo que você leu, meia colher de sopa - de pirão. Pronto. O prato era isso. Só isso.

A apresentadora fez cara de quem estava provando o manjar dos deuses. Acredito. Quem já experimentou a cozinha de Alex Atala sabe que o cara é mesmo um mago dos sabores. Mas, peraí, mesmo em se tratando de uma caudalosa moqueca baiana, a sádica criatura só serviu um tiquinho daqueles e pronto, assunto encerrado? Se ele ousasse cometer tal heresia em Salvador, diante de um soteropolitano, iriam amarrá-lo na praça principal do Pelourinho e, com certa razão, açoitá-lo até a morte. Não sei se vocês concordam comigo, mas, para mim, uma boa moqueca, assim como um bom baião-de-dois com carne-do-sol, uma boa panelada com pirão, tudo isso só serve se for para comer até o bucho dizer chega. Ou até a gata miar, como se fala por aí em Fortaleza.

Certa vez levei à capital cearense um amigo irlandês, colega de ofício, que até hoje comenta a respeito da carne-de-sol com baião-de-dois que lhe apresentei em um restaurante especializado, na periferia da cidade. Entre uma garfada abarrotada e outra, ele se divertia enquanto eu falava que, no Ceará, quando uma pessoa passa muito tempo sem ver outra, no reencontro, para ser agradável e fazer um elogio sincero a respeito do semblante saudável do amigo, costuma comentar: "Fulano, como você está bem, como está forte!". Quando expliquei ao magérrimo amigo irlandês que "forte" é sinônimo cearense de "gordo", ele quase se engasga de rir, o pedação de queijo coalho derretendo na boca. "Entendo perfeitamente", respondeu com seu sotaque de gringo, o que levei na conta de uma aprovação irrestrita à "sustança" do cardápio.

Contudo, quem melhor sintetizou toda essa relação quase devocional do sertanejo com a mesa farta foi mesmo dona Gilda Correia Nunes, uma senhora sexagenária moradora das margens do São Francisco, que meu amigo Xico Sá (colega deste mesmo espaço semanal aqui no Diário, aos sábados) entrevistou quando estava escrevendo seu livro "Nova Geografia da Fome". Dona Gilda, enquanto preparava um inusitado doce de cacto para Xico, filosofou: "Comer pouco é uma desfeita. Gosto de quem come como se o mundo fosse acabar logo um tempinho depois".

Dona Gilda, sempre muito sábia, ainda comentou, à guisa de sobremesa: "Hoje em dia, na capital, tem essa moda de graveto, coisa sequinha, só o osso, as moças parecem aquelas vaquinhas da seca, andam tudo desconjuntadas, pernas destrambelhadas, um fiapinho de gente. E olha que é moça rica, com condição de comer direito". Xico, com sua verve e argúcia de costume, concluiu, com cristalina razão: "Gisele Bündchen não acharia marido fácil por aqui"...

O resto, bem, meus caros e glutões leitores, o resto é cozinha contemporânea.

PS: Esta crônica despretensiosa e faminta foi escrita enquanto uma carne de panela com rodelas de caju aguardava pelo cronista, apetitosa, à mesa do almoço.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 23 de abril de 2010)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Memorial Padre Cícero pede socorro



Acaba de ocorrer um atentado contra a memória e o patrimônio histórico nacional. O testamento do Padre Cícero, um documento tombado, em posse do memorial que leva o nome do polêmico sacerdote em Juazeiro do Norte, tomou um banho de chuva. Uma goteira em um prédio que apresenta escandalosos sinais de sucateamento há vários anos foi a responsável pela catástrofe.

Não se trata de mera fatalidade. A crônica da tragédia vinha sendo anunciada havia um bom tempo. Como sempre ocorre nesses casos, uma vez pressionadas pela opinião pública, as autoridades fizeram promessas, puseram panos mornos, tentaram minimizar o tamanho da encrenca. Mas as chuvas que caíram nas últimas semanas no Cariri cearense se encarregaram de revelar, de uma vez por todas, a real dimensão do descalabro.

Primeiro foi parte do forro do teto que ruiu, alagando várias alas do Memorial. Carpetes, poltronas, móveis e paredes ficaram em petição de miséria. Foi improvisado então um grosseiro remendo, de gesso, que permaneceu sem acabamento, como um atestado inequívoco do descaso. Em seguida, num gesto grotesco, que beirou o humor involuntário, ainda se tentou tapar os buracos do teto com cola Araldite.

Com as chuvas mais recentes, às avarias materiais, que já eram enormes, juntou-se o prejuízo histórico. O testamento de Cícero Romão Batista, que foi atingido pela água, é um dos itens mais significativos do acervo do Memorial. O documento, aliás, foi alvo de uma acirrada disputa por sua guarda. Depois de ser incorporada ao museu do Tribunal de Justiça do Ceará, em Fortaleza, a relíquia documental retornou ao Cariri, atendendo ao justificado clamor dos juazeirenses. A partir de então, foi conservado no Memorial Padre Cícero. Lá, ficou exposto não só à chuva, mas também aos abismos da burocracia e da negligência administrativa.

Desde que assumiu a direção da Fundação Memorial, em novembro do ano passado, o professor Renato Casimiro, um dos mais dedicados pesquisadores da história e da memória do Cariri, tem experimentado uma verdadeira via crucis, na intenção de chamar a atenção das autoridades municipais para a bomba-relógio que lhe caiu no colo. Logo ao tomar posse, o professor Casimiro constatou o cenário de terra arrasada: falta de pessoal qualificado, janelas quebradas, ausência de segurança, telefones bloqueados. Tudo isso além de problemas crônicos de climatização e iluminação. Um conjunto de fatores, enfim, que colocam em risco não só o nome da instituição, mas também o precioso acervo ali contido.

Talvez pelo fato de o professor Casimiro ser um reconhecido devoto de Padre Cícero, as autoridades competentes imaginam que ele próprio seja capaz de fazer milagres. Afundado em débitos, o Memorial conta com recursos insignificantes, que são utilizados pela direção para cobrir despesas básicas como a folha de pessoal e os respectivos encargos. Com alguma ginástica financeira, também se tem conseguido honrar as contas de água, luz e telefone. Até mesmo a ninharia de R$ 1,5 mil reais mensais, estipulada a título de suprimento de fundo e utilizada para material de consumo e para o pagamento de pequenas compras e consertos, é sistematicamente postergada. Tornou-se tarefa hercúlea obter a simples e necessária assinatura dos responsáveis pela liberação da migalha.

Quando passou a implorar a merecida atenção, quando passou a pedir o mínimo para poder manter abertas as portas do Memorial, o professor Renato Casimiro ouviu a seguinte recomendação de um secretário municipal: ele deveria ir a prefeitura diariamente e, lá, gritar mais alto dos que os demais colegas, para só assim ser ouvido e conseguir levar algum dinheiro para o equipamento público que dirige. Nos desvãos da burocracia, portanto, bom cabrito também é o que mais berra.

Mas o professor Casimiro não é homem de falar alto, de gritar, de berrar, de bater o pé. É um notório gentleman, que tem como principal traço de personalidade a cordialidade e a tola mania de acreditar no bom-senso e na sensibilidade alheia. Por isso, preferiu gastar sola de sapato e bater de porta em porta, na esperança de fazer cumprir o que está previsto e aprovado no orçamento municipal: a liberação de cerca de 240 mil reais para a reforma e reestruturação do memorial. Até agora, tem encontrado a maior parte das portas fechadas.

Enquanto espera pela verba, numa tarefa de Sísifo, o professor Casimiro cuida de tapar os buracos que encontrou no teto e nas finanças do Memorial. Mas é como tirar a água de um bote furado à base de conta-gotas. A construtora encarregada de providenciar os serviços de emergência recusou-se a pôr uma única telha nova no local, alegando colecionar dívidas anteriores, ainda não honradas pelo poder público.

Enquanto isso, o piso da biblioteca do Memorial Padre Cícero afunda, as pias e descargas dos camarins do auditório estão quebradas, as dobradiças e fechaduras da portas rangem corroídas pela ferrugem. Na cantina, falta refrigerador, fogão e até mesmo um simples gelágua. Na área do museu propriamente dito, lâmpadas queimadas pedem reposição, o ar-condicionado clama por urgente manutenção, o teto virou peneira. Resultado: o professor Casimiro, que como todo bom cearense olha para o céu e sempre pede chuvas abundantes a São José, vê-se agora na constrangedora e absurda contingência de rezar a favor da estiagem.

Podemos amar ou odiar Padre Cícero. Podemos considerá-lo santo ou demônio. Podemos tê-lo na conta de um milagreiro ou de um embusteiro. O que não se pode é negar sua importância histórica e a pertinência do patrimônio contido no acervo do memorial em Juazeiro do Norte.

O professor Casimiro, ao que consta, tinha planos ousados para aquela casa. Em seu discurso de posse, no ano passado, falou em atualização dos estatutos e do regimento interno, para dotar o Memorial Padre Cícero de uma estrutura administrativa moderna e articulada com protagonistas do fomento, do mecenato e do financiamento cultural no país. Falou da necessidade da atualização do perfil museológico do local, de tornar aquele lugar um espaço cultural ativo, de romper com a passividade de ser simples abrigo de antiguidades e se tornar um órgão pulsante, a serviço da cidadania e da memória coletiva. O discurso, perfeito na forma, no conteúdo e na intenção, está agora literalmente dando com os burros nágua.

Pois bem. Enquanto os senhores vereadores juazeirenses discutem bisonhamente a possível mudança do nome do município - de Juazeiro do Norte para Juazeiro do Padre Cícero - o testamento histórico do patriarca foi atingido por uma goteira e seu memorial está caindo aos pedaços.

Já houve muito tráfico de influência política, muita exploração econômica e muita mercantilização religiosa em torno do nome e do legado de Cícero Romão Batista. O tal plebiscito para alterar a denominação da cidade, apesar de engajar gente bem-intencionada e sincera, abre a temporada para novas explorações do gênero. E corre o risco de ser apenas uma forma de atribuir um nome novo para encobrir problemas que, na verdade, são do arco da velha.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, na edição de 16 de abril de 2010)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Emília aprendeu a ler



Ela acabou de descobrir os segredos que guardam letrinhas enfileiradas numa folha de papel. Emília, minha filha, aos cinco anos de idade, aprendeu a ler. Já vence, sem ajuda de ninguém e com enorme prazer, o desafio dos dígrafos, dos hiatos, dos encontros consonantais. A partir do reconhecimento da grafia do próprio nome e o dos coleguinhas de classe, colados numa cartolina colorida, compreendeu o mecanismo da linguagem escrita e passou a decifrar o mundo.

Ainda tropeça aqui e ali em vocábulos maiores, é verdade, mas decodifica integralmente o significado de pequenos textos ou mesmo de livrinhos inteiros. Contudo, sua maior descoberta é outra. É a de que, se existem milhares de livros bem bacanas pedindo para serem lidos nas livrarias e bibliotecas, existe também uma montanha de livrinhos bem chatos por aí. Sorridente, Emília devora os primeiros num piscar de olhos. Impiedosa, faz cara feia e deixa os demais de lado. Autores de literatura infantil, portanto, tremei. Existe uma nova crítica literária na praça.

Emília já era seletiva antes de aprender a ler por conta própria. Mesmo quando pedia que lêssemos para ela, nunca gostou de livrinhos pretensamente edificantes, cheios de lições de moral, ainda que estas venham embaladas em uma linguagem moderna, supostamente lúdica. Boa parte da literatura infantil, convenhamos, padece do mesmo pecado. Muito do que se vende como leitura para crianças não passa de idealizações do mundo infantil saídas da cabeça de um adulto cretino em estado de pedagogice crônica. O proselitismo de certa literatura infantil, em especial aquela que se quer "poética" e politicamente correta, sempre me deu engulhos. Emília, ao que parece, sente o mesmo efeito. Nisso, pelo visto, puxou ao pai.

Aos poucos, Emília começa a substituir os volumes cheios de dobraduras e pop-ups, que sempre lhe ganharam tanta atenção, por livros que privilegiam o texto e a imagem bidimensional em detrimento das firulas da chamada engenharia de papel. Mas continua não resistindo àqueles que trazem encartes com chamativos adesivos coloridos, que ela anseia sair pregando pela casa toda, especialmente nas paredes do quarto e nas cabeceiras da cama. Também já calhou de colar um deles até mesmo na barriga da irmãzinha mais nova, Alice, que, a exemplo dela, não à toa, também tem nome de personagem de história infantil.

Mas porque aprendeu a ler, Emília ganhou de presente um abajur e um par de mesinhas de cabeceira, em cuja gaveta guarda os livrinhos favoritos. Antes de dormir, abraçada a Miau, o gatinho de estimação e de pano, abre a gaveta, escolhe um livro no meio dos outros e lê até fazer cócegas no sono.

Há algo que chama atenção na relação de Emília com a leitura. Ela lê por prazer. Não sacraliza o livro como sugerem e ordenam alguns educadores de galocha. Ora, ora, se der vontade e ela achar que o ilustrador não coloriu as imagens o suficiente, não irá se acanhar de usar o lápis de cor para tentar melhorar o serviço que julgou malfeito. Pois é. Emília aprendeu que livro pode ser rabiscado, manuseado, profanado e - por que não? - dobrado, amarrotado, arregaçado à vontade e à exaustão. Sem nenhum pudor.

A propósito, sempre desconfiei de leitores que dedicam aos livros uma asséptica veneração. Em um país de iletrados, muitos consideram que ler é sinal de status, atributo de classe ou qualquer outra coisa igualmente pedante do gênero. Tais leitores tratam os livros como fetiches raros, delicadíssimos, feitos para, se possível, serem colocados em um pedestal ou numa redoma de cristal. Se tratam o livro assim, quase com luvas de pelica, imagino como devem tratar a cara-metade na hora da cama. "O sexo é sujo? Sim, mas só quando é feito do jeito certo", já tripudiou Woody Allen. Concordo com ele E, para mim, vale o mesmo na relação entre leitores e livros.

Se termino a leitura de um livro e ele permanece burocraticamente imaculado, sem nenhuma anotação garranchuda conspurcando o branco das margens, sem páginas agredidas e dobradas, sem trechos sublinhados a caneta ou centenas de sinalizações particulares que às vezes só eu entendo, é porque não consegui extrair absolutamente nada daquela leitura. Foi tempo perdido. Livro bom é aquele que se machuca a lombada ao ser dobrado, que recebe gotas de café na página sem reclamar, que sobrevive ao leitor em estado de frangalhos.

Certa vez, no metrô paulistano, uma mocinha sentada no banco do lado fez cara de horror quando me viu puxando a caneta e desenhando em um livro uma seta de página a outra, interligando parágrafos, acrescentando uma anotação que terminava com três escandalosos pontos de exclamação. Pelo olhar da mocinha, parecia que eu havia assassinado alguém. Ela balançava a cabeça de um lado para o outro e, nauseada, escancarava a boca em sinal de visível reprovação. Só para enervá-la mais ainda, dobrei a lombada no sentido contrário, fazendo a capa assentar-se sobre a quarta capa, e prossegui na leitura, segurando o livro com apenas uma das mãos, enquanto com a outra esgrimia a ponta da caneta contra o papel, sublinhando mais trechos e deitando mais uma série de garatujas nervosas ao pé da página.

É claro que minha filha Emília sabe que é preciso conferir tratamento diverso para os livros que sempre traz da biblioteca da escola. Estes são cuidados com responsabilidade e desvelo, pois serão devolvidos no prazo combinado e reemprestados aos demais coleguinhas. Semanalmente, a professora convida a turma inteira para uma excursão à sala apinhada de estantes, onde as prateleiras estão atulhadas, de cima a baixo, de livros para todos os gostos e vontades. Emília sempre descreve tais momentos com viva alegria. Mas em minha época de primário, a biblioteca da escola era apenas o lugar para onde se mandavam os alunos malcomportados, uma espécie de sala do castigo à disposição dos recorrentes pegos em flagrante delito.

Só passei a considerar a biblioteca da escola um lugar civilizado e libertário bem depois, ao pegar um sarampo que me deixou vários dias de cama. Minha irmã Rosane, para que eu me distraísse no período de convalescença, levou-me um livro de Monteiro Lobato, cuja leitura teve em mim o efeito de uma verdadeira epifania: "A Chave do Tamanho". Foi o primeiro livro que li com prazer e devoção. Os delírios provocados pela febre foram invadidos pela história fantástica imaginada por Lobato, na qual o mundo fica de ponta cabeça depois que os seres humanos, por acidente, são reduzidos a criaturinhas de menos de meio palmo de altura. Até então o animal mais terrível era o leão. Depois de a humanidade ter encolhido, o maior perigo passara a ser um simples pinto. Genial esse Lobato.

Quando sarei e voltei à escola, tomei emprestado e li todos os demais livros do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Digo aqui e repito sem sustos de cometer uma heresia: um personagem como a boneca Emília vale por todo o resto da literatura infantil que já se produziu até hoje no Brasil. Digo mais: ela é, junto com Capitu, Policarpo Quaresma, Diadorim e Macabéia, a personagem mais importante de toda a literatura brasileira.

Politicamente incorretíssima, insubordinada intelectualmente, uma boneca de pano me serviu de paradigma desde a mais longínqua infância. Quando crescesse, imaginava, imerso na concha de minha timidez infantil, queria ter a coragem de ser insubmisso e anárquico como a boneca Emília. Não sei se consegui chegar sequer aos pés dela. Mas torço para que outra Emília, uma certa menininha que aprendeu a ler por esses dias, vá no mesmo caminho. Que nunca almeje a sabedoria embolorada de um Visconde de Sabugosa, mas sim as estripulias de sua buliçosa xará de olhinhos de retrós.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 9 de abril de 2010)

Aconteceu numa Sexta-Feira da Paixão



Na minha infância, lá em Caucaia, em um dia como hoje, Sexta-Feira Santa, ninguém lia jornal. Não se podia folhear revistinhas do Tio Patinhas, do Batman, da Luluzinha. Também não se podia ligar o rádio para ouvir música ou a tevê para assistir ao Mister Magoo. A molecada não saía de casa para jogar bola na rua, ninguém podia levantar a voz, falar alto, rir à solta. As mocinhas mais velhas, neste dia, não passavam batom, não ficavam à janela, não vestiam roupa colorida. Namorar, nem pensar. Ir à praia, impossível. Tudo era pecado. E dos bem grandes, imperdoáveis, daqueles de ir diretinho para o inferno.

Jesus Cristo estava morrendo, pregado no alto de uma cruz de madeira, para salvar as nossas almas desgraçadas, dizia-nos a professora de catecismo, que mais parecia a figura de uma bruxa, com seu cabelo de palha, boca torta, sobrancelhas eriçadas, dedos finos e enrugados. Era preciso manter, durante todo o dia, a mais absoluta contrição, ela recomendava, com semblante e voz ameaçadores. Nós, que sequer imaginávamos o significado da palavra contrição, pelávamo-nos de medo, caíamos no mais soturno dos remorsos, na mais torturante das culpas.

A Sexta-Feira Santa era assim o paroxismo da crueldade contra nossas pequenas inocências. Neste dia, concentravam-se de uma só vez todas as proibições, todos os interditos, todos os impedimentos que os adultos nos impingiam, em maior ou menor escala, sempre a título de castigo, nas demais datas do calendário. Durante os feriados da Paixão, não podíamos fazer nada. Nada mesmo. Tínhamos que ficar amuados, no canto, pensando nos nossos próprios pecados (!) e nas sete chagas do Cristo. Não era uma questão de respeito, crença, deferência, comiseração. Era pura obrigação.

Minha mãe, dona Darcy, nunca foi propriamente uma católica fervorosa, dessas de ir à missa todo domingo e exigir orações à mesa do almoço. Meu pai, menos ainda, embora tivesse pavor de alma penada, nunca foi homem de frequentar igreja. Gostava mesmo, bem ao contrário, era de falar mal dos padres e dos carolas em geral. Quando queria referir-se a alguém de modo negativo, o velho Bob Lira tascava a sua ofensa predileta e fulminante: "É um filho de papa com freira".

Mesmo assim, na Sexta-Feira Santa, a casa inteira fazia silêncio. Era como se o número 366 da Rua XV de Novembro estivesse de luto, a exemplo de todos os demais vizinhos. Mantinha-se um impositivo sossego de vozes, uma tranquilidade de passos, uma economia de gestos. Aquele lar, de comum tão barulhento por causa das brincadeiras e das confusões provocadas pela montoeira de irmãos, ficava irreconhecível em meio a tanta calmaria. Minha mãe e meu pai jamais precisaram explicar, mas cresci compreendendo que, para eles, cada um a seu modo, o sentido da morte de Jesus Cristo - e o próprio Cristo - estava muito acima das convenções das igrejas e das regras ditadas pelos homens de batina.

Lá pelos meus onze anos de idade, um meninote amigo meu, vizinho de quintal, começou a bater bola bem debaixo de uma frondosa mangueira que havia na casa dele, justamente numa Sexta-Feira Santa. Uma heresia, alarmei-me, atacado por uma série incontrolável de tremores. Havia um terrível agravante: já era por volta das três da tarde, a hora fatídica, como nos dissera um dia a professora do catecismo (exatamente a hora em que Cristo soltara o último suspiro, ela garantira). Mas o som daquela bola de borracha quicando no chão de terra batida despertou-me uma vontade louca de ir correndo para lá, para também dar uns bons chutes e ensaiar uns dribles meio desajeitados, como era próprio de um perna-de-pau assumido como eu.

Sempre fui uma criança caladona, ensimesmada, de poucas palavras. O que nunca impediu dona Darcy, sabe-se lá por meio de quais mistérios maternos, de decifrar cada um de meus pensamentos, mesmo os mais íntimos, secretos, inconfessáveis. Como sempre fazia, ela pareceu entender sem dificuldades o dilema que se apoderara de mim, o remorso que me corroía por dentro, a tentação de ir jogar bola debaixo daquela mangueira, ao mesmo tempo em que o terror me paralisava os músculos e me impedia de ousar dar um único passo que fosse em tal sentido.

Nem era pelo futebol em si, minha mãe devia saber, pois nunca fui mesmo habilidoso com uma bola nos pés. Era antes a irresistível vontade de me libertar de um peso que se acumulara sobre meus pequeninos e magrelos ombros, um temor cruel semeado nas velhas aulas de catecismo, um assombro alimentado pela visão aterradora das imagens de santos cobertos com capas roxas no altar da Matriz. Em resposta à minha visível aflição, dona Darcy apenas sorriu. E, ali, pronunciou a frase que me libertaria para sempre: "Faça sempre o que seu coração diz que é certo". Desde então, aquela frase se tornou minha única religião.

Um minuto depois, lá eu estava saltitando sobre folhas secas da mangueira e chutando a bola para que meu amigo, que sonhava em ser goleiro, testasse suas habilidades na pequena trave improvisada com duas bandas de tijolo vermelho. A cada novo chute, eu exorcizava os fantasmas internos, afastava-me mais das lições de catecismo, aproximava-me ainda mais de minha mãe, que havia ficado em casa, com o mesmo sorriso de compreensão no rosto.

Horas depois, quando voltei da jornada peladeira no quintal do vizinho, suado, extenuado, coberto de pó da cabeça aos pés, eu estava infinitamente mais leve. Soube então que minha mãe havia feito um bolo, que comemos todos em volta da mesa de fórmica, entre sorrisos e conversas amenas.

Foi o bolo mais gostoso que já comi em toda a minha vida.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 2 de abril de 2010)