sexta-feira, 9 de abril de 2010

Aconteceu numa Sexta-Feira da Paixão



Na minha infância, lá em Caucaia, em um dia como hoje, Sexta-Feira Santa, ninguém lia jornal. Não se podia folhear revistinhas do Tio Patinhas, do Batman, da Luluzinha. Também não se podia ligar o rádio para ouvir música ou a tevê para assistir ao Mister Magoo. A molecada não saía de casa para jogar bola na rua, ninguém podia levantar a voz, falar alto, rir à solta. As mocinhas mais velhas, neste dia, não passavam batom, não ficavam à janela, não vestiam roupa colorida. Namorar, nem pensar. Ir à praia, impossível. Tudo era pecado. E dos bem grandes, imperdoáveis, daqueles de ir diretinho para o inferno.

Jesus Cristo estava morrendo, pregado no alto de uma cruz de madeira, para salvar as nossas almas desgraçadas, dizia-nos a professora de catecismo, que mais parecia a figura de uma bruxa, com seu cabelo de palha, boca torta, sobrancelhas eriçadas, dedos finos e enrugados. Era preciso manter, durante todo o dia, a mais absoluta contrição, ela recomendava, com semblante e voz ameaçadores. Nós, que sequer imaginávamos o significado da palavra contrição, pelávamo-nos de medo, caíamos no mais soturno dos remorsos, na mais torturante das culpas.

A Sexta-Feira Santa era assim o paroxismo da crueldade contra nossas pequenas inocências. Neste dia, concentravam-se de uma só vez todas as proibições, todos os interditos, todos os impedimentos que os adultos nos impingiam, em maior ou menor escala, sempre a título de castigo, nas demais datas do calendário. Durante os feriados da Paixão, não podíamos fazer nada. Nada mesmo. Tínhamos que ficar amuados, no canto, pensando nos nossos próprios pecados (!) e nas sete chagas do Cristo. Não era uma questão de respeito, crença, deferência, comiseração. Era pura obrigação.

Minha mãe, dona Darcy, nunca foi propriamente uma católica fervorosa, dessas de ir à missa todo domingo e exigir orações à mesa do almoço. Meu pai, menos ainda, embora tivesse pavor de alma penada, nunca foi homem de frequentar igreja. Gostava mesmo, bem ao contrário, era de falar mal dos padres e dos carolas em geral. Quando queria referir-se a alguém de modo negativo, o velho Bob Lira tascava a sua ofensa predileta e fulminante: "É um filho de papa com freira".

Mesmo assim, na Sexta-Feira Santa, a casa inteira fazia silêncio. Era como se o número 366 da Rua XV de Novembro estivesse de luto, a exemplo de todos os demais vizinhos. Mantinha-se um impositivo sossego de vozes, uma tranquilidade de passos, uma economia de gestos. Aquele lar, de comum tão barulhento por causa das brincadeiras e das confusões provocadas pela montoeira de irmãos, ficava irreconhecível em meio a tanta calmaria. Minha mãe e meu pai jamais precisaram explicar, mas cresci compreendendo que, para eles, cada um a seu modo, o sentido da morte de Jesus Cristo - e o próprio Cristo - estava muito acima das convenções das igrejas e das regras ditadas pelos homens de batina.

Lá pelos meus onze anos de idade, um meninote amigo meu, vizinho de quintal, começou a bater bola bem debaixo de uma frondosa mangueira que havia na casa dele, justamente numa Sexta-Feira Santa. Uma heresia, alarmei-me, atacado por uma série incontrolável de tremores. Havia um terrível agravante: já era por volta das três da tarde, a hora fatídica, como nos dissera um dia a professora do catecismo (exatamente a hora em que Cristo soltara o último suspiro, ela garantira). Mas o som daquela bola de borracha quicando no chão de terra batida despertou-me uma vontade louca de ir correndo para lá, para também dar uns bons chutes e ensaiar uns dribles meio desajeitados, como era próprio de um perna-de-pau assumido como eu.

Sempre fui uma criança caladona, ensimesmada, de poucas palavras. O que nunca impediu dona Darcy, sabe-se lá por meio de quais mistérios maternos, de decifrar cada um de meus pensamentos, mesmo os mais íntimos, secretos, inconfessáveis. Como sempre fazia, ela pareceu entender sem dificuldades o dilema que se apoderara de mim, o remorso que me corroía por dentro, a tentação de ir jogar bola debaixo daquela mangueira, ao mesmo tempo em que o terror me paralisava os músculos e me impedia de ousar dar um único passo que fosse em tal sentido.

Nem era pelo futebol em si, minha mãe devia saber, pois nunca fui mesmo habilidoso com uma bola nos pés. Era antes a irresistível vontade de me libertar de um peso que se acumulara sobre meus pequeninos e magrelos ombros, um temor cruel semeado nas velhas aulas de catecismo, um assombro alimentado pela visão aterradora das imagens de santos cobertos com capas roxas no altar da Matriz. Em resposta à minha visível aflição, dona Darcy apenas sorriu. E, ali, pronunciou a frase que me libertaria para sempre: "Faça sempre o que seu coração diz que é certo". Desde então, aquela frase se tornou minha única religião.

Um minuto depois, lá eu estava saltitando sobre folhas secas da mangueira e chutando a bola para que meu amigo, que sonhava em ser goleiro, testasse suas habilidades na pequena trave improvisada com duas bandas de tijolo vermelho. A cada novo chute, eu exorcizava os fantasmas internos, afastava-me mais das lições de catecismo, aproximava-me ainda mais de minha mãe, que havia ficado em casa, com o mesmo sorriso de compreensão no rosto.

Horas depois, quando voltei da jornada peladeira no quintal do vizinho, suado, extenuado, coberto de pó da cabeça aos pés, eu estava infinitamente mais leve. Soube então que minha mãe havia feito um bolo, que comemos todos em volta da mesa de fórmica, entre sorrisos e conversas amenas.

Foi o bolo mais gostoso que já comi em toda a minha vida.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 2 de abril de 2010)