sexta-feira, 9 de abril de 2010

Emília aprendeu a ler



Ela acabou de descobrir os segredos que guardam letrinhas enfileiradas numa folha de papel. Emília, minha filha, aos cinco anos de idade, aprendeu a ler. Já vence, sem ajuda de ninguém e com enorme prazer, o desafio dos dígrafos, dos hiatos, dos encontros consonantais. A partir do reconhecimento da grafia do próprio nome e o dos coleguinhas de classe, colados numa cartolina colorida, compreendeu o mecanismo da linguagem escrita e passou a decifrar o mundo.

Ainda tropeça aqui e ali em vocábulos maiores, é verdade, mas decodifica integralmente o significado de pequenos textos ou mesmo de livrinhos inteiros. Contudo, sua maior descoberta é outra. É a de que, se existem milhares de livros bem bacanas pedindo para serem lidos nas livrarias e bibliotecas, existe também uma montanha de livrinhos bem chatos por aí. Sorridente, Emília devora os primeiros num piscar de olhos. Impiedosa, faz cara feia e deixa os demais de lado. Autores de literatura infantil, portanto, tremei. Existe uma nova crítica literária na praça.

Emília já era seletiva antes de aprender a ler por conta própria. Mesmo quando pedia que lêssemos para ela, nunca gostou de livrinhos pretensamente edificantes, cheios de lições de moral, ainda que estas venham embaladas em uma linguagem moderna, supostamente lúdica. Boa parte da literatura infantil, convenhamos, padece do mesmo pecado. Muito do que se vende como leitura para crianças não passa de idealizações do mundo infantil saídas da cabeça de um adulto cretino em estado de pedagogice crônica. O proselitismo de certa literatura infantil, em especial aquela que se quer "poética" e politicamente correta, sempre me deu engulhos. Emília, ao que parece, sente o mesmo efeito. Nisso, pelo visto, puxou ao pai.

Aos poucos, Emília começa a substituir os volumes cheios de dobraduras e pop-ups, que sempre lhe ganharam tanta atenção, por livros que privilegiam o texto e a imagem bidimensional em detrimento das firulas da chamada engenharia de papel. Mas continua não resistindo àqueles que trazem encartes com chamativos adesivos coloridos, que ela anseia sair pregando pela casa toda, especialmente nas paredes do quarto e nas cabeceiras da cama. Também já calhou de colar um deles até mesmo na barriga da irmãzinha mais nova, Alice, que, a exemplo dela, não à toa, também tem nome de personagem de história infantil.

Mas porque aprendeu a ler, Emília ganhou de presente um abajur e um par de mesinhas de cabeceira, em cuja gaveta guarda os livrinhos favoritos. Antes de dormir, abraçada a Miau, o gatinho de estimação e de pano, abre a gaveta, escolhe um livro no meio dos outros e lê até fazer cócegas no sono.

Há algo que chama atenção na relação de Emília com a leitura. Ela lê por prazer. Não sacraliza o livro como sugerem e ordenam alguns educadores de galocha. Ora, ora, se der vontade e ela achar que o ilustrador não coloriu as imagens o suficiente, não irá se acanhar de usar o lápis de cor para tentar melhorar o serviço que julgou malfeito. Pois é. Emília aprendeu que livro pode ser rabiscado, manuseado, profanado e - por que não? - dobrado, amarrotado, arregaçado à vontade e à exaustão. Sem nenhum pudor.

A propósito, sempre desconfiei de leitores que dedicam aos livros uma asséptica veneração. Em um país de iletrados, muitos consideram que ler é sinal de status, atributo de classe ou qualquer outra coisa igualmente pedante do gênero. Tais leitores tratam os livros como fetiches raros, delicadíssimos, feitos para, se possível, serem colocados em um pedestal ou numa redoma de cristal. Se tratam o livro assim, quase com luvas de pelica, imagino como devem tratar a cara-metade na hora da cama. "O sexo é sujo? Sim, mas só quando é feito do jeito certo", já tripudiou Woody Allen. Concordo com ele E, para mim, vale o mesmo na relação entre leitores e livros.

Se termino a leitura de um livro e ele permanece burocraticamente imaculado, sem nenhuma anotação garranchuda conspurcando o branco das margens, sem páginas agredidas e dobradas, sem trechos sublinhados a caneta ou centenas de sinalizações particulares que às vezes só eu entendo, é porque não consegui extrair absolutamente nada daquela leitura. Foi tempo perdido. Livro bom é aquele que se machuca a lombada ao ser dobrado, que recebe gotas de café na página sem reclamar, que sobrevive ao leitor em estado de frangalhos.

Certa vez, no metrô paulistano, uma mocinha sentada no banco do lado fez cara de horror quando me viu puxando a caneta e desenhando em um livro uma seta de página a outra, interligando parágrafos, acrescentando uma anotação que terminava com três escandalosos pontos de exclamação. Pelo olhar da mocinha, parecia que eu havia assassinado alguém. Ela balançava a cabeça de um lado para o outro e, nauseada, escancarava a boca em sinal de visível reprovação. Só para enervá-la mais ainda, dobrei a lombada no sentido contrário, fazendo a capa assentar-se sobre a quarta capa, e prossegui na leitura, segurando o livro com apenas uma das mãos, enquanto com a outra esgrimia a ponta da caneta contra o papel, sublinhando mais trechos e deitando mais uma série de garatujas nervosas ao pé da página.

É claro que minha filha Emília sabe que é preciso conferir tratamento diverso para os livros que sempre traz da biblioteca da escola. Estes são cuidados com responsabilidade e desvelo, pois serão devolvidos no prazo combinado e reemprestados aos demais coleguinhas. Semanalmente, a professora convida a turma inteira para uma excursão à sala apinhada de estantes, onde as prateleiras estão atulhadas, de cima a baixo, de livros para todos os gostos e vontades. Emília sempre descreve tais momentos com viva alegria. Mas em minha época de primário, a biblioteca da escola era apenas o lugar para onde se mandavam os alunos malcomportados, uma espécie de sala do castigo à disposição dos recorrentes pegos em flagrante delito.

Só passei a considerar a biblioteca da escola um lugar civilizado e libertário bem depois, ao pegar um sarampo que me deixou vários dias de cama. Minha irmã Rosane, para que eu me distraísse no período de convalescença, levou-me um livro de Monteiro Lobato, cuja leitura teve em mim o efeito de uma verdadeira epifania: "A Chave do Tamanho". Foi o primeiro livro que li com prazer e devoção. Os delírios provocados pela febre foram invadidos pela história fantástica imaginada por Lobato, na qual o mundo fica de ponta cabeça depois que os seres humanos, por acidente, são reduzidos a criaturinhas de menos de meio palmo de altura. Até então o animal mais terrível era o leão. Depois de a humanidade ter encolhido, o maior perigo passara a ser um simples pinto. Genial esse Lobato.

Quando sarei e voltei à escola, tomei emprestado e li todos os demais livros do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Digo aqui e repito sem sustos de cometer uma heresia: um personagem como a boneca Emília vale por todo o resto da literatura infantil que já se produziu até hoje no Brasil. Digo mais: ela é, junto com Capitu, Policarpo Quaresma, Diadorim e Macabéia, a personagem mais importante de toda a literatura brasileira.

Politicamente incorretíssima, insubordinada intelectualmente, uma boneca de pano me serviu de paradigma desde a mais longínqua infância. Quando crescesse, imaginava, imerso na concha de minha timidez infantil, queria ter a coragem de ser insubmisso e anárquico como a boneca Emília. Não sei se consegui chegar sequer aos pés dela. Mas torço para que outra Emília, uma certa menininha que aprendeu a ler por esses dias, vá no mesmo caminho. Que nunca almeje a sabedoria embolorada de um Visconde de Sabugosa, mas sim as estripulias de sua buliçosa xará de olhinhos de retrós.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 9 de abril de 2010)