sexta-feira, 16 de abril de 2010

Memorial Padre Cícero pede socorro



Acaba de ocorrer um atentado contra a memória e o patrimônio histórico nacional. O testamento do Padre Cícero, um documento tombado, em posse do memorial que leva o nome do polêmico sacerdote em Juazeiro do Norte, tomou um banho de chuva. Uma goteira em um prédio que apresenta escandalosos sinais de sucateamento há vários anos foi a responsável pela catástrofe.

Não se trata de mera fatalidade. A crônica da tragédia vinha sendo anunciada havia um bom tempo. Como sempre ocorre nesses casos, uma vez pressionadas pela opinião pública, as autoridades fizeram promessas, puseram panos mornos, tentaram minimizar o tamanho da encrenca. Mas as chuvas que caíram nas últimas semanas no Cariri cearense se encarregaram de revelar, de uma vez por todas, a real dimensão do descalabro.

Primeiro foi parte do forro do teto que ruiu, alagando várias alas do Memorial. Carpetes, poltronas, móveis e paredes ficaram em petição de miséria. Foi improvisado então um grosseiro remendo, de gesso, que permaneceu sem acabamento, como um atestado inequívoco do descaso. Em seguida, num gesto grotesco, que beirou o humor involuntário, ainda se tentou tapar os buracos do teto com cola Araldite.

Com as chuvas mais recentes, às avarias materiais, que já eram enormes, juntou-se o prejuízo histórico. O testamento de Cícero Romão Batista, que foi atingido pela água, é um dos itens mais significativos do acervo do Memorial. O documento, aliás, foi alvo de uma acirrada disputa por sua guarda. Depois de ser incorporada ao museu do Tribunal de Justiça do Ceará, em Fortaleza, a relíquia documental retornou ao Cariri, atendendo ao justificado clamor dos juazeirenses. A partir de então, foi conservado no Memorial Padre Cícero. Lá, ficou exposto não só à chuva, mas também aos abismos da burocracia e da negligência administrativa.

Desde que assumiu a direção da Fundação Memorial, em novembro do ano passado, o professor Renato Casimiro, um dos mais dedicados pesquisadores da história e da memória do Cariri, tem experimentado uma verdadeira via crucis, na intenção de chamar a atenção das autoridades municipais para a bomba-relógio que lhe caiu no colo. Logo ao tomar posse, o professor Casimiro constatou o cenário de terra arrasada: falta de pessoal qualificado, janelas quebradas, ausência de segurança, telefones bloqueados. Tudo isso além de problemas crônicos de climatização e iluminação. Um conjunto de fatores, enfim, que colocam em risco não só o nome da instituição, mas também o precioso acervo ali contido.

Talvez pelo fato de o professor Casimiro ser um reconhecido devoto de Padre Cícero, as autoridades competentes imaginam que ele próprio seja capaz de fazer milagres. Afundado em débitos, o Memorial conta com recursos insignificantes, que são utilizados pela direção para cobrir despesas básicas como a folha de pessoal e os respectivos encargos. Com alguma ginástica financeira, também se tem conseguido honrar as contas de água, luz e telefone. Até mesmo a ninharia de R$ 1,5 mil reais mensais, estipulada a título de suprimento de fundo e utilizada para material de consumo e para o pagamento de pequenas compras e consertos, é sistematicamente postergada. Tornou-se tarefa hercúlea obter a simples e necessária assinatura dos responsáveis pela liberação da migalha.

Quando passou a implorar a merecida atenção, quando passou a pedir o mínimo para poder manter abertas as portas do Memorial, o professor Renato Casimiro ouviu a seguinte recomendação de um secretário municipal: ele deveria ir a prefeitura diariamente e, lá, gritar mais alto dos que os demais colegas, para só assim ser ouvido e conseguir levar algum dinheiro para o equipamento público que dirige. Nos desvãos da burocracia, portanto, bom cabrito também é o que mais berra.

Mas o professor Casimiro não é homem de falar alto, de gritar, de berrar, de bater o pé. É um notório gentleman, que tem como principal traço de personalidade a cordialidade e a tola mania de acreditar no bom-senso e na sensibilidade alheia. Por isso, preferiu gastar sola de sapato e bater de porta em porta, na esperança de fazer cumprir o que está previsto e aprovado no orçamento municipal: a liberação de cerca de 240 mil reais para a reforma e reestruturação do memorial. Até agora, tem encontrado a maior parte das portas fechadas.

Enquanto espera pela verba, numa tarefa de Sísifo, o professor Casimiro cuida de tapar os buracos que encontrou no teto e nas finanças do Memorial. Mas é como tirar a água de um bote furado à base de conta-gotas. A construtora encarregada de providenciar os serviços de emergência recusou-se a pôr uma única telha nova no local, alegando colecionar dívidas anteriores, ainda não honradas pelo poder público.

Enquanto isso, o piso da biblioteca do Memorial Padre Cícero afunda, as pias e descargas dos camarins do auditório estão quebradas, as dobradiças e fechaduras da portas rangem corroídas pela ferrugem. Na cantina, falta refrigerador, fogão e até mesmo um simples gelágua. Na área do museu propriamente dito, lâmpadas queimadas pedem reposição, o ar-condicionado clama por urgente manutenção, o teto virou peneira. Resultado: o professor Casimiro, que como todo bom cearense olha para o céu e sempre pede chuvas abundantes a São José, vê-se agora na constrangedora e absurda contingência de rezar a favor da estiagem.

Podemos amar ou odiar Padre Cícero. Podemos considerá-lo santo ou demônio. Podemos tê-lo na conta de um milagreiro ou de um embusteiro. O que não se pode é negar sua importância histórica e a pertinência do patrimônio contido no acervo do memorial em Juazeiro do Norte.

O professor Casimiro, ao que consta, tinha planos ousados para aquela casa. Em seu discurso de posse, no ano passado, falou em atualização dos estatutos e do regimento interno, para dotar o Memorial Padre Cícero de uma estrutura administrativa moderna e articulada com protagonistas do fomento, do mecenato e do financiamento cultural no país. Falou da necessidade da atualização do perfil museológico do local, de tornar aquele lugar um espaço cultural ativo, de romper com a passividade de ser simples abrigo de antiguidades e se tornar um órgão pulsante, a serviço da cidadania e da memória coletiva. O discurso, perfeito na forma, no conteúdo e na intenção, está agora literalmente dando com os burros nágua.

Pois bem. Enquanto os senhores vereadores juazeirenses discutem bisonhamente a possível mudança do nome do município - de Juazeiro do Norte para Juazeiro do Padre Cícero - o testamento histórico do patriarca foi atingido por uma goteira e seu memorial está caindo aos pedaços.

Já houve muito tráfico de influência política, muita exploração econômica e muita mercantilização religiosa em torno do nome e do legado de Cícero Romão Batista. O tal plebiscito para alterar a denominação da cidade, apesar de engajar gente bem-intencionada e sincera, abre a temporada para novas explorações do gênero. E corre o risco de ser apenas uma forma de atribuir um nome novo para encobrir problemas que, na verdade, são do arco da velha.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, na edição de 16 de abril de 2010)