sexta-feira, 30 de abril de 2010

O homem do pijama azul





Penso tê-lo visto uma única vez, talvez no final de 1971, quando o peso dos quase 80 anos de idade já lhe prenunciavam o triste desfecho. Eu tinha apenas sete anos - e esta é uma das minhas mais remotas lembranças de infância. Sentado na cama, completamente cego, vestido com o pijama azul, o velho João de Lira Cavalcante pôs-me a mão na cabeça, passou os dedos nos meus então vastos cabelos infantis e depois sorriu, mirando o nada. Não lembro se falou algo, se me perguntou alguma coisa, se fez algum comentário específico. Só guardei daquele momento alguns rápidos lampejos, uma memória enevoada, uma reminiscência cheia de brumas, bem típica daquela amnésia natural que caracteriza as recordações adultas a respeito dos primeiros anos de vida.

O pijama de meu avô era realmente azul ou o tingi depois mentalmente, reconstruindo a imagem de acordo com os tons suaves de minha cor favorita? Seus dedos se demoraram de fato nos meus cabelos ou apenas desejei que isso houvesse acontecido assim, forjando inconscientemente uma lembrança física posterior que confortasse o sentimento de ausência? Ao tentar reproduzir o passado vivido, terei recuperado aquele momento com as tintas involuntárias da idealização? Não tenho respostas precisas para tal. Essas armadilhas são próprias das reminiscências pessoais - sempre seletivas e construídas -, o que faz da narrativa do passado necessariamente um jogo de esconde-esconde entre a memória, o esquecimento e os mistérios da subjetividade de quem a viveu.

O fato concreto é que naquele dia lá estava eu, diante de meu avô massapeense, o homem de quem eu havia herdado o nome - e a respeito de quem sempre ouvira contar tantas histórias fantásticas. Hoje me pergunto quantas daquelas histórias mirabolantes não eram também recriações familiares, fábulas germinadas pela criatividade prodigiosa de meu pai, homem de espírito livre e inventivo, com notório pendor para dramatizar a mais prosaica das cenas domésticas.

A ideia, aliás, deve ter sido obviamente dele, meu pai: quando nasci em Fortaleza, no Natal de 1963, decidiu-se que eu seria batizado com o nome de João de Lira Cavalcante Neto. Ao que me consta, eu não era o primeiro dos netos. Nem meu pai, uma espécie de outsider do clã, era exatamente o membro mais próximo à família. Por esse motivo, ignoro até hoje as razões que fizeram recair sobre mim o direito e o peso de envergar, nas letras datilografadas da certidão de nascimento, o nome do velho patriarca. Seja como for, o caso é que se era eu, desde a pia batismal, o Lira Neto, cresci então querendo saber tudo a respeito do "Lira Avô", comerciante de Massapê cuja ascendência ia dar nos costados do velho capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa.

A cegueira de vovô sempre atormentou-me a imaginação de menino. Conjeturava como devia ser terrível a ideia de viver no escuro absoluto, tateando móveis e paredes, necessitando, como ele, da ajuda alheia para as mais elementares atividades cotidianas. Quando, em casa, cometíamos alguma travessura, como a de saltar do alto do guarda-roupa para a cama, vinha sempre a advertência: cuidado, não faça isso de novo, Vovô ficou cego assim. Sabíamos que não era verdade, mas tínhamos medo do mesmo modo.

Depois que cresci, o que passou a me despertar maior atenção na história pessoal de meu avô - e até hoje isso ainda me atiça a imaginação - é o fato de o velho João de Lira Cavalcante ter cultivado um método todo peculiar de dar nome aos filhos. Vovô era um homem fascinado pelas narrativas da epopeia cívica que foi a Coluna Prestes. Contemporâneo aos fatos, era tão entusiasmado pelo tema que quis homenagear os principais líderes do movimento na hora de nomear os meninos que nasceriam de seu casamento com vovó Luiza Pereira. O detalhe é que Vovô não se contentava em pedir emprestado apenas os prenomes dos revolucionários. Punha também nos pimpolhos os sobrenomes dos rebeldes, ignorando a tradição e transgredindo a lógica familiar. Um dos filhos, por exemplo, ele batizou como Juarez Prestes Cabanas - referência simultânea aos insurgentes Juarez Távora, Luiz Carlos Prestes e João Cabanas.

Outro filho do velho João de Lira Cavalcante foi registrado no cartório como João Alberto Siqueira Campos, justaposição dos nomes de dois ícones revolucionários, o pernambucano João Alberto e o paulista Siqueira Campos. Mais tarde, meus tios Juarez e João Alberto decidiram levar a história adiante e repassaram os sobrenomes postiços aos próprios filhos. Foi assim que a "família" Prestes e a "família" Siqueira Campos foram artificialmente transplantadas para Massapê, no interior do Ceará, bem vizinho a Sobral, onde o chamado Cavaleiro da Esperança e o destemido filho de Rio Claro jamais puseram os pés.

O que Vovô talvez nunca esperasse é que um de seus rebentos providenciasse, décadas depois, um inesperado antídoto para o legado revolucionário que o velho João de Lira Cavalcante deixara aos seus. Quando nasceu um dos filhos de meu tio João Alberto Siqueira Campos (para nós, tio Beto), o mundo inteiro estava comovido com o violento assassinato do presidente norte-americano John Kennedy. Tio Beto não pensou duas vezes. Batizou o recém-nascido como Kennedy Siqueira Campos - o que sempre me pareceu uma curiosa vingança ideológica.

Decorridos quase 40 anos daquele único encontro pessoal que tive com meu avô, deparei-me com fragmentos de sua história novamente há pouco tempo, quando estava finalizando a pesquisa para a biografia "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão", lançada no final do ano passado. Ao consultar as páginas do livro "Os Partidos Políticos do Ceará", de Abelardo Montenegro, surpreendi-me com uma referência ao nome do velho João de Lira Cavalcante, exatamente no capítulo relativo à Revolução de 30 no estado. Lá estava ele, o incorrigível Vovô, como fundador, em 1929, em pleno sertão cearense, de um tal Centro Cívico Luís Carlos Prestes.

O tempo foi traiçoeiro. Roubou-me a oportunidade de conhecer o irrequieto velhinho a fundo. Gostaria de ter-lhe lançado uma montanha de perguntas que, para mim, permanecerão talvez indefinidamente sem resposta. Nascido na pequena Massapê de 1894, como ele fazia para acompanhar, à distância, no interior do Ceará, os lances nacionais da derrocada da República Velha, incluindo o episódio quase mítico dos Dezoito do Forte, que sacralizou a figura histórica de Siqueira Campos? Vovô lia quais jornais, devorava que livros? Acompanhou a vitória da Revolução de 30 e a controvertida chegada dos tenentistas que ele tanto idolatrava ao poder? Aceitou a conversão de Prestes ao comunismo? Apoiou ou repudiou o Estado Novo? Como encarou o golpe de 1964 e o advento dos primeiros governos militares? Por fim, faria a ele a pergunta que mais me aflige: Vovô deixou registros escritos, perdidos por acaso em algum lugar incerto, mas que um dia pudessem vir a ser descobertos por algum neto jornalista e bisbilhoteiro? Não sei. Infelizmente, não sei. Para mim, o homem do pijama azul continua sendo um enigma.

Da última vez que estive na pequena Massapê, lá se vão mais de 20 anos, um busto do velho João de Lira Cavalcante ornava o canteiro central de uma avenida que leva o nome dele na cidade. A estátua foi erguida quase em frente onde ficava a farmácia de outro dos filhos de meu avô, que foi batizado de Benedito Carpenter mas depois mudou o nome por conta própria, ainda na juventude, por dois declarados motivos: o primeiro, para restaurar na carteira de identidade o legítimo sobrenome familiar. O segundo, para homenagear aquele que era seu grande ídolo musical, um cantor brega-folk da época, caubói fajuto, o inconcebível Bob Nelson.

Na ocasião, o revolucionário Vovô deve ter ficado fulo da vida. Com toda razão, não é mesmo, seu Bob Lira?

PS: A respeito do Bob Lira, farmacêutico e caixeiro viajante, haveria muito o que escrever. Fica para uma próxima. Dele, basta dizer que o conheci relativamente bem. Era meu pai. O mais irresponsável e delicioso de todos os boêmios que a gloriosa Massapê já produziu.
(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 30 de abril de 2010).
Ilustração: Homem velho, de Leonardo da Vinci