sexta-feira, 28 de maio de 2010

Chega de saudade



Lá estava eu, no Sebo do Messias, no centro de São Paulo, dedicando-me àquela que é uma de minhas diversões prediletas: garimpar curiosidades bibliográficas perdidas em meio a pilhas de livros velhos, sempre nas estantes mais improváveis. Foi quando então, nas prateleiras supostamente de "psicologia e psicanálise", logo bati o olho naquele título gravado em dourado sobre a encadernação de lombada azul: O que as noivas devem saber!, assim mesmo, com ponto de exclamação e tudo.

Peguei o pequeno e antigo volume impresso em formato de bolso e folheei as páginas amareladas pelo tempo. Na folha de rosto, conferi a informação da autoria - Condessa de Til, que depois vim a saber ser o pseudônimo do escritor lusitano Alfredo Gallis. Não me contive e sorri diante do subtítulo: "Livro de philosophia prática". A data de edição era 1922. Na mesma folha de rosto, escrita à mão, em nanquim, li a anotação posta ali com caligrafia caprichada, a letra redondinha, nitidamente feminina, provavelmente escrita pela leitora original daquele exemplar, muito bem conservado apesar dos quase noventa anos passados desde a publicação: "Atenção: este livro é para senhoras casadas e não para as noivas".

Não resisti. Comecei ali mesmo a devorar o tal livrinho, rindo-me a valer já desde a leitura dos títulos de alguns capítulos, aqui citados com a devida adaptação à ortografia atual: "Os caprichos do homem e a arte da mulher para se manter no altar supremo do amor"; "A arte da mulher casada e como deve proceder para seduzir o homem", "Temperamento, sensibilidade, fantasias e exotismos sensuais do homem", "O amor durante a gravidez e a arte de disfarçar o mau aspecto que este estado dá à mulher". Era, supostamente, uma espécie de manual de auto-ajuda da época, escrito com o declarado propósito de preparar as futuras esposas a respeito do que elas iriam encontrar antes, durante e após a lua-de-mel. "A noite nupcial é sempre um ponto de misteriosa interrogação, natural ansiedade e receio na vida de todas as mulheres", constatava logo nas primeiras páginas a Condessa de Til, ou melhor, Alfredo Gallis.

Pouco tempo depois, em viagem a Fortaleza, nas estantes da excelente Taberna Libraria, encontrei outro título similar, que igualmente me despertou a atenção: O que uma jovem esposa deve saber, publicado também em formato de bolso e assinado pela educadora norte-americana Emma Drake, com data de 1932. Os títulos dos capítulos eram também recheados de um irresistível humor involuntário, pelo menos para os nossos olhos de hoje. Entre eles, "O que uma mulher deve ser para o seu marido", "Como eleger o marido" e "Proteção contra o vício secreto".

Movido pelo micróbio da curiosidade, trouxe o livro comigo e, em casa, logo pus um volume bem ao lado do outro, na prateleira de futuras leituras desopilantes, aquelas que me obrigo a fazer no meio de cada imersão na pesquisa para um novo livro. Dia desses, com a cabeça fervendo depois de passar horas na leitura paleográfica de cópias de documentos históricos, resolvi arejar a mente e, para tanto, fui consultar os tais livrinhos mais a fundo. Isso me rendeu algumas das melhores gargalhadas que já dei na vida.

A Condessa de Til, por exemplo, entre outras lições práticas, recomenda às jovens leitoras que não hesitem em usar diariamente o bidê. "Devo esclarecer a todas as meninas donzelas que um irrigador não oferece perigo algum que as faça recear pela perda se sua virgindade", tranquiliza ela. "Não o usando é que podem estar certas de que conservam no corpo as mais variadas e perigosas porcarias", esclarece. A higiene íntima feminina é uma das obsessões do livrinho. "Há as mulheres que lavam as partes secretas apenas aos domingos", recrimina a Condessa, especialmente porque diz ela que basta "a leitura de uma carta apaixonada ou de um romance equívoco" para provocar nas moças e senhoras "um espasmo venéreo acompanhado de uma abundante ejaculação glandular, que nos sonhos lascivos chega a ser prodigiosa". Aquilo, explica, produzirá um "aroma repulsivo".

A Condessa de Til é peremptória. A mulher deve se lavar todos os dias, mas nunca às vistas do marido. "Que ele, o homem, goze e se regozije com os seus resultados, mas se afaste sempre para bem longe dos processos que é mister usar para os adquirir". Em outras palavras, dito de modo mais direto algumas páginas adiante: "Sentadas no bidê a assearmos as partes pudendas, somos simplesmente detestáveis de ridículo às vistas de um homem sensível e de fino gosto estético".

Há, para a Condessa de Til, outra regra sagrada: marido e esposa devem dormir em camas diferentes e, se possível, em quartos separados. Não só por uma questão de higiene, mas também por consideração de um ao outro. "Quem ignora as fraquezas do nosso corpo advindas de uma digestão mal feita?", indaga. "É ao deitar e ao levantar, e até quando se acorda de noite, que a natureza tem exigências inadiáveis", reforça. A essa altura do livro, a mesmíssima leitora que deixou aquela advertência inicial na folha de rosto fez questão de anotar à margem da página sua opinião sobre o assunto: "É verdade", escreveu ela, de novo a nanquim, lacônica, com presumida experiência.

Na hora de cumprir as "obrigações mútuas de marido e mulher", a Condessa de Til explica que é preciso usar de todo cuidado para não desconcentrar o parceiro. "Há mulheres excessivamente nervosas que, chegadas ao paroxismo do prazer, não há nada que as contenha. Muitas necessitam até de gritar, necessidade esta que para os homens é um perigoso excitante, enquanto que para outros é quase um anestésico".

Entre quatro paredes, há de se servir completamente a seu esposo e senhor, sugere o livro. Só haveria, contudo, duas restrições. A primeira delas, a sodomia. "Esses casos passam do domínio dos caprichos sexuais do homem que se podem aceitar sem relutância para os de um estado pervertido e absolutamente doentio". A segunda interdição, determina, é a do sexo durante a gravidez. A partir do quarto mês de gestação, "tudo o que o homem exigir da mulher nessa fase é uma brutalidade e uma falta de gosto estético", sentenciam as páginas de O que as noivas devem saber!.

Pode-se argumentar que, em sendo um escritor reconhecidamente fescenino, Alfredo Gallis tenha produzido um livro satírico, de propósito irônico e chauvinista, o que não seria estranho a um autor que escreveu obras como A amante de Jesus, O marido virgem e Devassidões de Pompéia. Mas a leitura paralela da sisuda doutora Emma Drake, cristã ardorosa, autora do circunspecto O que uma jovem esposa deve saber, publicado dez anos depois, serve para mostrar que as concepções do mordaz Gallis não destoavam muito do que realmente se pensava à época.

No caso do sexo na gravidez, além de também considerá-lo repugnante, a doutora Emma Drake afirma que ele "não exercerá nenhuma boa influência sobre a criança que está para nascer, nem seguramente sobre o amor e o respeito que uma mulher sinta por seu marido". Preocupada, adverte: "Durante a gravidez, a mulher algumas vezes se sente atraída pela paixão com mais violência do que nunca. Isso deve-se considerar uma enfermidade, carecendo-se consultar o médico".

Emma Drake, assim como a Condessa de Til, também recomenda o uso dos quartos separados, menos por ordens de natureza higiênica, e sim por ser um antídoto eficaz contra a devassidão: "Quando o domínio de si mesmo parece difícil, isso não é melhor que uma liberdade que degenera em abuso?", indaga.

A masturbação, para Drake, é abominável. Para combatê-la, ela sugere que devem ser suprimidas da alimentação toda espécie de excitante, como o café, a pimenta e a conserva em vinagre. Um banho de esponja com água salgada e fria também ajudaria a resistir às poderosas tentações do "vício secreto". Do contrário, para o indivíduo entregue sem freios ao ato solitário, algumas das "consequências terríveis" seriam a epilepsia, a idiotia, a catalepsia e a loucura.

Os tempos, felizmente, mudaram. As considerações e conselhos da Condessa de Til e de Emma Drake, no máximo, hoje nos fazem rir. Mas pode-se imaginar os terrores que tais concepções do mundo, tais interditos do corpo, representaram para a vida de nossas pobres avós. Não eram só os corpos, obviamente, que se viam cerceados. O espírito, por consequência, também. Em 1932, a doutora Drake escrevia: "Nestes tempos de clubes literários e círculos de leitura, a ambição de cultura de certas mulheres pode ser perigosa se não dirigida com prudência".

Quando leio coisas assim é que, como jornalista bisbilhoteiro da história, sinto ainda menos vontade de tratar o passado como algo idealizado, como um tempo perdido que não volta mais, como uma época áurea e formosa que deixamos escapar. O saudosismo é imobilista. A pior de todas as moléstias.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O dia em que meu pai me levou para a zona



Quando meu pai saiu de casa, para nunca mais voltar, eu tinha 14 anos de idade. Não posso dizer que aquilo tenha produzido uma mudança muito brusca em nossas vidas. O velho Bob Lira sempre fora um nômade. Tinha a profissão de caixeiro-viajante - ou representante comercial, como ele gostava de dizer, com certa pompa, aos vizinhos e amigos. Vivia na estrada, dirigindo sozinho, dormindo em hotéis de cidadezinhas do interior, o porta-malas do carro lotado de mostruários de confecções, panelas, medicamentos, cosméticos, miudezas, quinquilharias. Passava o mês inteiro longe de casa. Ao retornar, já estava de malas prontas menos de uma semana depois, para mais outra de suas longas viagens de trabalho. Naquela manhã específica, quando pegou sobre a mesa de fórmica as chaves do velho Corcel GT marrom de capota preta, não me avisou que dessa vez era para sempre. Simplesmente se foi, levando consigo sabe-se lá quais sentimentos dentro do peito.

Minha mãe, dona Darcy, funcionária pública do antigo IAPC, desdobrou-se para cuidar, alimentar e educar os cinco filhos, rigorosamente sozinha. Fomos vivendo nossas vidas assim, sem maiores notícias do velho Bob. Para nós, ele desaparecera no mundo, evaporara, sem deixar rastros aparentes. Abrira um buraco no chão e sumira lá dentro dele. Quando, tempos depois, soube que ele voltara a morar em Massapê, cidade do interior cearense onde nasceu, cheguei a enviar-lhe duas ou três cartas sentidas. Nenhuma cobrança, nenhuma ira, nenhum ressentimento. Nas cartas, falava apenas de saudades. Meu pai respondeu a cada uma delas com sua letra torneada e firme. Ele sabia escrever quase tão bem quanto a minha mãe. Só havia feito o curso primário, mas era um leitor voraz. Um autodidata que trazia trechos de Camões e Castro Alves na ponta da língua. Na última carta, em meio a floreios verbais, dizia-se arrependido. Queria voltar para casa - coisa que nossa mãe, eu tinha certeza, jamais admitiria. Adverti-lhe a respeito disso. Nossa mãe preferiria enfrentar o demônio pintado de dourado a vê-lo novamente. Ele então tornou a sumir.

Quanto fiz 25 anos, achei que era a hora de um reencontro entre pai e filho. Sem comunicar-lhe nada, coloquei algumas mudas de roupa na mochila e carreguei pela mão o meu então único filho, Ícaro, de apenas quatro anos de idade. Não saberia dizer exatamente o porquê, mas queria que o menino conhecesse o avô que um dia batera asas e nunca mais voltara. Ele era um canalha. Mas um canalha irresistível, um excelente contador de histórias, um declamador insuperável e, além do mais, a despeito de tudo, não havia a menor sombra de animosidade em meu coração. Nossa mãe, apesar da mágoa íntima, não nos inoculara o sentimento do rancor. Portanto, sem qualquer espécie de aviso prévio, eu e Ícaro tomamos um ônibus na rodoviária de Fortaleza e, quatro horas depois, desembarcamos na pequena e calorenta Massapê, localizada ao pé da serra da Meruoca.

Detalhe: eu não sabia exatamente onde o velho Bob morava. Havia me desfeito das antigas agendas, bem como das cartas que ele me enviara. Desse modo, não possuía seu endereço. Os laços haviam se esgarçado ainda mais radicalmente. Contudo, como eu previra antes de partir, não foi difícil localizar-lhe o paradeiro. A cidade era minúscula e, muito provavelmente, ali todo mundo se conhecia, eu bem imaginara. Dito e feito. A primeira pessoa que parei na rua em Massapê logo me indicou, sem pestanejar, o caminho para a farmácia Santa Luzia, do "Doutor Bob Lira".

Coração aos pulos, sempre puxando Ícaro pela mão, caminhei até lá. Poucas ruas depois, parei diante da porta da pequena farmácia e olhei para dentro. O que vi foi um homem grisalho por trás do balcão, plantado de costas para a entrada, remexendo em algumas gavetas do armário de madeira atulhado de remédios. Entrei, aproximei-me do balcão e senti emanar, daquele homem, um cheiro familiar de loção de barba e brilhantina que, de súbito, remeteu-me à infância. Era ele, sem dúvida. O sujeito, em cuja cabeleira prateada caprichosamente penteada para trás reconheci a figura um pouco mais envelhecida e mais curvada de meu pai, pareceu não ter notado minha chegada. Continuou de costas, remexendo nas gavetas, como se procurasse alguma coisa ali dentro delas.

"O senhor tem Sonrisal?", indaguei, na falta de algo mais ensaiado para dizer em semelhante circunstância. Ele não se mexeu. "Tenho. Quantos você quer?", devolveu-me, ainda sem se virar. "Uns quatro. A ressaca está braba", prossegui. Ele tornou a remexer as gavetas. Então se voltou em minha direção com algumas embalagens douradas na mão e, parecendo um tanto quanto atônito, permaneceu de novo parado, lívido, uma estátua viva, fitando-me em absoluto silêncio, como se estivesse vendo uma assombração.

Não sei precisar quantos segundos demorou aquilo. Lembro apenas dos olhos verdes de meu pai saltados da órbita, a boca entreaberta em meio a um esgar que demonstrava, ao mesmo tempo, surpresa e susto. Era o mesmo rosto amarrotado que eu guardara na memória, ainda um pouco mais maltratado pelo tempo e pela vida de dissipação que por certo seu dono levara. Enquanto ele permanecia ali, imóvel, branco feito cera, eu procurava adivinhar e reconhecer naquela face enrugada os traços de meu próprio rosto. Éramos realmente bem parecidos, constatei. Pouco a pouco, ele começou a se mover. Em gestos que naquela hora me pareceram em câmera lenta, aproximou-se pé ante pé da borda do balcão. Só então ele conseguiu divisar, ali do meu lado, abaixo do seu campo de visão anterior, o pequeno Ícaro, que lhe sorriu sem entender ao certo o que estava acontecendo.

Com um suspiro profundo, meu pai apoiou as duas mãos sobre o tampo do balcão e, inesperadamente, movido por uma agilidade insuspeitada para um homem de sua idade, saltou por cima do móvel, caindo de pé, bem ali ao meu lado. Não falou uma única palavra naquele instante. Abraçou-me, sinceramente comovido. Retribuí, também em silêncio. As falas, de fato, não fariam qualquer sentido em tal momento, especialmente quando ele desatou a chorar ao pôr Ícaro no colo. "Eu sou um estúpido", gaguejou, enfim. A frase saiu entrecortada por soluços.

Era por volta do meio-dia e, olhando para o mostrador grande e verde do relógio de pulseira prateada, meu pai nos convidou para almoçar. Com a ajuda de um comprido gancho de metal, puxou as duas portas de ferro cinza da farmácia para baixo e, com uma tirada de espírito que era bem própria dele, afirmou que iria decretar feriado nacional naquele dia, por conta própria. "Ninguém invente de ficar doente hoje na cidade. A farmácia só abre amanhã", sentenciou. Enquanto almoçávamos numa birosca logo ali ao lado, ele mandou chamar um amigo, o Lau, que dirigia um carro de aluguel em Massapê, creio que o único "táxi" da cidade àquele tempo. "O automóvel vai ficar a nossa disposição o resto do dia. Quero mostrar Massapê para você", comentou.

Choveu forte naquele dia. O vidro dianteiro do lado do passageiro estava quebrado e, com isso, o aguaceiro entrava por ali sem qualquer controle. No banco de trás, ao meu lado, Ícaro olhava o avô ensopado e dava cambalhotas de tanto rir daquela situação inusitada. Meu pai, olhando para trás, a cabeleira brilhantinada toda desmanchada pela chuva, também caía em um riso alucinado. Nunca esqueci aquela cena. Meu pai e meu filho, juntos, como dois loucos, possuídos pelo riso.

Foi logo depois disso que meu pai fez o primeiro e único pedido daquele nosso reencontro. "Posso lhe pedir uma coisa?", indagou, meio constrangido. "Pode, claro", respondi, curioso. "Posso realizar um desejo que sempre me perseguiu e que nunca consegui realizar?", perguntou ele, de novo. "Sim, pode", assenti, já ressabiado com o rumo daquela conversa, principalmente porque meu pai, de repente, ficou vermelho feito um pimentão. "É que eu queria levar você lá na zona", revelou ele, com um sorriso encabulado, os olhos fixos no teto do carro. Não pude evitar a gargalhada. Lá estava eu, homem feito, com meu filho à tiracolo, e meu pai, a quem eu não via há séculos, queria deixar Ícaro na companhia das tias para me arrastar ao baixo meretrício de Massapê. "Você endoidou, velho?", perguntei. Foi a vez dele voltar a gargalhar.

Naquela tarde, conheci as prostitutas mais velhas, feias e gordas de todo o mundo. "Você é mesmo um estúpido", brinquei, quando vi meu pai, ainda todo molhado, tirar a mais velha, a mais feia e a mais gorda de todas elas para dançar. No som da fanhosa radiola de ficha, troava um antigo tango de David Nasser cantado por Nelson Gonçalves. O velho não tinha mesmo um pingo de juízo. Mas dançava bem pra caramba.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 21 de maio de 2010)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Eu vi o fantasma de Maysa em Montevidéu



Enquanto jantávamos, tendo a magnífica vista noturna do Rio de la Plata e do porto de Montevidéu todo iluminado à janela, minha mulher definiu bem a atmosfera que nos envolveu nesta cidade, onde estamos passando alguns poucos dias: "Não parece que Maysa vai entrar por aquela porta do restaurante a qualquer momento, cambalear alguns passos, acender um cigarro e assim, do nada, começar a cantar?", comentou Adriana, saboreando o mais típico lomo uruguaio temperado com chimichurri. Concordei, sorrindo, balançando a cabeça e esvaziando a quinta garrafa de Pilsen.

De fato, em Montevidéu, o mundo parece ter parado no tempo, em um momento qualquer entre o final dos anos 50 e o começo dos anos 70. A busca por uma certa elegância perdida e a visão de uma dolorosa decadência convivem explicitamente a cada esquina, seja na movimentada avenida 18 de Julho - onde verdadeiras latas-velhas ambulantes trafegam de um lado para outro, mas sem tanta pressa -, seja nas simpáticas mesinhas postas à calçada nos cafés da rua Sarandi, nas quais a tranquilidade e a sensação de que o tempo parou se mostram ainda mais acentuadas. Por vezes, acreditem, penso mesmo quase ter visto o fantasma de Maysa, esvoaçante em uma daquelas compridas túnicas florais de que ela tanto gostava, flutuando e flanando pelos calçadões da Ciudad Vieja, o bairro mais charmoso e antigo da capital uruguaia, com seus brechós, livrarias, antiquários, mercados de pulgas e tendas de quinquilharias. Há, realmente, algo de Maysa no ar por aqui. Um certo ar retrô, um desavergonhado clima brega-chique, um passadismo tão assumido que, beirando a cafonice, chega a ser sedutor.

Não sei se foram os efeitos da generosa cerveja uruguaia, se as notas de bossa-nova tiradas toda noite pelo pianista de fraque no lobby do hotel, não sei se a visita ao grande cassino no subsolo do Radisson ou a visão de tanta gente fumando nas ruas e nos restaurantes - coisa cada vez mais difícil de se ver no Brasil e definitivamente banida por lei nos bares de São Paulo. O fato é que esta nossa meia semana em Montevidéu me encheu de inescapável nostalgia. A cantora lírica que ensaiava trechos de árias durante a madrugada no apartamento logo ao lado do nosso ajudou a completar o clima. Os uruguaios parecem ter uma queda incontida pelo sentimento nostálgico. Isso, sei lá, deve ser contagioso. Peguei-me assobiando canções de Maysa no chuveiro do banheiro do hotel, coisa que não fazia desde o dia em que pus o ponto final na biografia da cantora que, vejam vocês, é relativamente bem conhecida por aqui.

É verdade. Os uruguaios têm notícia de uma cantora brasileira chamada Maysa. Ao ponto da biografia dela ter merecido, à época do lançamento aí no Brasil, matéria de página inteira no principal jornal daqui, o El País, ao longo da qual o jornalista que a assinou, Alfredo Fressia, demonstrou notória intimidade com a música popular brasileira. Fato que, até então, sempre havia me deixado com um nó nos miolos. Vá lá que, nos anos 50 e 60, Maysa tenha feito concorridas turnês em Montevidéu e Punta del Leste, mas como um grande jornal uruguaio publicava tão longo texto sobre um livro lançado no Brasil - e, detalhe, não traduzido para o espanhol - a respeito de uma cantora brasileira que morreu em 1977?

No calçadão da Sarandi, ao entramos na belíssima Libreria Puro Verso, no edifício Pablo Ferrando - prédio art nouveau com direito a fachada em ferro e vidro e um majestoso vitral colorido na parede principal à frente da entrada - verifiquei que Maysa não é a única artista brasileira a ser conhecida e ouvida pelos uruguaios. Na área de discos, numa prateleira central, vários CDs de intérpretes da chamada MPB disputam espaço com cantores locais e de outros países da América Latina. Não parece constrangedor constatar que, ao passo que não sabemos praticamente nada do Uruguai, os uruguaios aparentam saber bem, relativamente, muita coisa sobre nós?

Não tem jeito. Algo que sempre chama a atenção quando chegamos a qualquer outro país da América do Sul é nossa vergonhosa e cavalar ignorância a respeito de vizinhos tão próximos. Antes de desembarcar no aeroporto de Montevidéu, no Carrasco, confesso ruborizado que meu conhecimento sobre este belo país se resumia a recitar o nome de alguns pouquíssimos escritores daqui, a exemplo de Juan Carlos Onetti, Mario Benedetti, Horacio Quiroga e, claro, Eduardo Galeano. Com absoluta certeza, meu bom amigo Floriano Martins me puxaria a orelha, coberto de razão, para dizer que existem inúmeros outros. Quantos dos leitores que agora leem esta crônica escapariam do mesmo merecido puxão de orelha e seriam capazes de citar mais algum?

Como em quase tudo aí no Brasil, nossa colossal desinformação sobre os vizinhos próximos só se revela menos desmedida quanto o assunto é futebol. Nenhum brasileiro jamais deixará de citar que foi a brava celeste uruguaia que nos impôs a mais dolorosa de todas as derrotas, na final da Copa do Mundo de 1950, em pleno Maracanã. Até nisso o Uruguai vive mergulhado em nostalgia. A equipe uruguaia de 50 ganhou aqui em Montevidéu ares de mito, reeditado e atualizado geração após geração. "Los brasileños sienten um escalofrío cuando deben enfrentar a los celestes", gaba-se o jornalista uruguaio Luis Prats, autor de La Crónica Celeste, que fiz questão de comprar e pôr na bagagem para ler quando da volta ao Brasil. Porém, como a neutralizar esse patriotismo nostálgico, as propagandas de lojas de departamento prometem aos uruguaios descontos especiais na compra de televisores se a equipe nacional conseguir a proeza de, vejam só, passar pelo menos às quartas-de-finais no mundial que começa daqui a menos de um mês na África do Sul.

Mas, afora o futebol, que mais sabemos deles? Quase nada, reconheçamos. Logo no primeiro dia em Montevidéu, talvez para atestar minha assumida ignorância, minha mulher indagou-me, assim, de supetão: "Quem é o atual presidente do Uruguai?". Gaguejei, demorando, enrolando para responder. Os leitores desta crônica também gaguejariam ou responderiam de bate-pronto? Pois bem. Saibam que, enquanto isso, em todos os quiosques de Montevidéu, uma revista semanal de informações estampa uma foto de Lula. Nos jornais, o Brasil é assunto recorrente.

Portanto, a surrada desculpa de que a barreira linguística foi o que nos infligiu a histórica distância em relação aos demais países do continente sul-americano não se sustenta. Se eles demonstram tanto interesse em nós, que falamos português, porque não retribuímos em idêntica medida a eles, que falam espanhol? Como agravante, existe a constatação de que, na maioria das vezes, torna-se bem mais barato viajar para Buenos Aires, Santiago ou Montevidéu do que para diferentes destinos do próprio Brasil. Se não é tão caro, se não é tão longe, se há tanto a nos unir e tanto para conhecermos, porque permanecemos de costas viradas para a América Latina?

Por que insistimos em ser um país ilhado no próprio continente? Por que não instauramos um espaço de reconhecimento mútuo, aquilo que nas palavras do amigo Floriano Martins constituiria uma saborosa "vertigem da unidade", cujo efeito seria multiplicado pela "chama das diversidades"? Quando o mesmo Floriano, com erros e acertos, tentou promover uma Bienal do Livro que fosse o germe dessa descoberta, quase lhe atiraram pedras aí no Ceará. Uma pena. E uma injustiça só comparada ao tamanho de nossa incomensurável estupidez.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 14 de maio de 2010)

Eu vi o fantasma de Maysa em Montevidéu



Enquanto jantávamos, tendo a magnífica vista noturna do Rio de la Plata e do porto de Montevidéu todo iluminado à janela, minha mulher definiu bem a atmosfera que nos envolveu nesta cidade, onde estamos passando alguns poucos dias: "Não parece que Maysa vai entrar por aquela porta do restaurante a qualquer momento, cambalear alguns passos, acender um cigarro e assim, do nada, começar a cantar?", comentou Adriana, saboreando o mais típico lomo uruguaio temperado com chimichurri. Concordei, sorrindo, balançando a cabeça e esvaziando a quinta garrafa de Pilsen.

De fato, em Montevidéu, o mundo parece ter parado no tempo, em um momento qualquer entre o final dos anos 50 e o começo dos anos 70. A busca por uma certa elegância perdida e a visão de uma dolorosa decadência convivem explicitamente a cada esquina, seja na movimentada avenida 18 de Julho - onde verdadeiras latas-velhas ambulantes trafegam de um lado para outro, mas sem tanta pressa -, seja nas simpáticas mesinhas postas à calçada nos cafés da rua Sarandi, nas quais a tranquilidade e a sensação de que o tempo parou se mostram ainda mais acentuadas. Por vezes, acreditem, penso mesmo quase ter visto o fantasma de Maysa, esvoaçante em uma daquelas compridas túnicas florais de que ela tanto gostava, flutuando e flanando pelos calçadões da Ciudad Vieja, o bairro mais charmoso e antigo da capital uruguaia, com seus brechós, livrarias, antiquários, mercados de pulgas e tendas de quinquilharias. Há, realmente, algo de Maysa no ar por aqui. Um certo ar retrô, um desavergonhado clima brega-chique, um passadismo tão assumido que, beirando a cafonice, chega a ser sedutor.

Não sei se foram os efeitos da generosa cerveja uruguaia, se as notas de bossa-nova tiradas toda noite pelo pianista de fraque no lobby do hotel, não sei se a visita ao grande cassino no subsolo do Radisson ou a visão de tanta gente fumando nas ruas e nos restaurantes - coisa cada vez mais difícil de se ver no Brasil e definitivamente banida por lei nos bares de São Paulo. O fato é que esta nossa meia semana em Montevidéu me encheu de inescapável nostalgia. A cantora lírica que ensaiava trechos de árias durante a madrugada no apartamento logo ao lado do nosso ajudou a completar o clima. Os uruguaios parecem ter uma queda incontida pelo sentimento nostálgico. Isso, sei lá, deve ser contagioso. Peguei-me assobiando canções de Maysa no chuveiro do banheiro do hotel, coisa que não fazia desde o dia em que pus o ponto final na biografia da cantora que, vejam vocês, é relativamente bem conhecida por aqui.

É verdade. Os uruguaios têm notícia de uma cantora brasileira chamada Maysa. Ao ponto da biografia dela ter merecido, à época do lançamento aí no Brasil, matéria de página inteira no principal jornal daqui, o El País, ao longo da qual o jornalista que a assinou, Alfredo Fressia, demonstrou notória intimidade com a música popular brasileira. Fato que, até então, sempre havia me deixado com um nó nos miolos. Vá lá que, nos anos 50 e 60, Maysa tenha feito concorridas turnês em Montevidéu e Punta del Leste, mas como um grande jornal uruguaio publicava tão longo texto sobre um livro lançado no Brasil - e, detalhe, não traduzido para o espanhol - a respeito de uma cantora brasileira que morreu em 1974?

No calçadão da Sarandi, ao entramos na belíssima Libreria Puro Verso, no edifício Pablo Ferrando - prédio art nouveau com direito a fachada em ferro e vidro e um majestoso vitral colorido na parede principal à frente da entrada - verifiquei que Maysa não é a única artista brasileira a ser conhecida e ouvida pelos uruguaios. Na área de discos, numa estante central, vários CDs de intérpretes da chamada MPB disputam espaço com cantores locais e de outros países da América Latina. Não parece constrangedor constatar que, ao passo que não sabemos praticamente nada do Uruguai, os uruguaios aparentam saber bem, relativamente, muita coisa sobre nós?

Não tem jeito. Algo que sempre chama a atenção quando chegamos a qualquer outro país da América do Sul é nossa vergonhosa e cavalar ignorância a respeito de vizinhos tão próximos. Antes de desembarcar no aeroporto de Montevidéu, no Carrasco, confesso ruborizado que meu conhecimento sobre este belo país se resumia a recitar o nome de alguns pouquíssimos escritores daqui, a exemplo de Juan Carlos Onetti, Mario Benedetti, Horacio Quiroga e, claro, Eduardo Galeano. Com absoluta certeza, meu bom amigo Floriano Martins me puxaria a orelha, coberto de razão, para dizer que existem inúmeros outros. Quantos dos leitores que agora leem esta crônica escapariam do mesmo merecido puxão de orelha e seriam capazes de citar mais algum?

Como em quase tudo aí no Brasil, nossa colossal desinformação sobre os vizinhos próximos só se revela menos desmedida quanto o assunto é futebol. Nenhum brasileiro jamais deixará de saber que foi a brava celeste uruguaia que nos impôs a mais dolorosa de todas as derrotas, na final da Copa do Mundo de 1950, em pleno Maracanã. Até nisso o Uruguai vive mergulhado em nostalgia. A equipe uruguaia de 50 ganhou aqui em Montevidéu ares de mito, reeditado e atualizado geração após geração. "Los brasileños sienten um escalofrío cuando deben enfrentar a los celestes", gaba-se o jornalista uruguaio Luis Prats, autor de "La Crónica Celeste", que fiz questão de comprar e pôr na bagagem para ler quando da volta ao Brasil. Porém, como a neutralizar esse patriotismo nostálgico, as propagandas de lojas de departamento prometem aos uruguaios descontos especiais na compra de televisores se a equipe nacional conseguir a proeza de, vejam só, passar pelo menos às quartas-de-finais no mundial que começa daqui a menos de um mês na África do Sul.

Mas, afora o futebol, que mais sabemos deles? Quase nada, reconheçamos. Logo no primeiro dia em Montevidéu, talvez para atestar minha assumida ignorância, minha mulher indagou-me, assim, de supetão: "Quem é atual o presidente do Uruguai?". Gaguejei, demorando, enrolando para responder. Os leitores desta crônica também gaguejariam ou responderiam de bate-pronto? Pois bem. Saibam que, enquanto isso, em todos os quiosques de Montevidéu, uma revista semanal de informações estampa uma foto de Lula. Nos jornais, o Brasil é assunto recorrente.

Portanto, a surrada desculpa de que a barreira linguística foi o que nos infligiu a histórica distância em relação aos demais países do continente sul-americano não se sustenta. Se eles demonstram tanto interesse em nós, que falamos português, porque não retribuímos em idêntica medida a eles, que falam espanhol? Como agravante, existe a constatação de que, na maioria das vezes, torna-se bem mais barato viajar para Buenos Aires, Santiago ou Montevidéu do que para diferentes destinos do próprio Brasil. Se não é tão caro, se não é tão longe, se há tanto a nos unir e tanto para conhecermos, porque permanecemos de costas viradas para a América Latina?

Por que insistimos em ser um país ilhado no próprio continente? Por que não instauramos um espaço de reconhecimento mútuo, aquilo que nas palavras do amigo Floriano Martins constituiria uma saborosa "vertigem da unidade", cujo efeito seria "multiplicado pela chama das diversidades"? Quando o mesmo Floriano, com erros e acertos, tentou promover uma Bienal do Livro que fosse o germe dessa descoberta, quase lhe atiraram pedras aí no Ceará. Uma pena. E uma injustiça só comparada ao tamanho de nossa incomensurável estupidez.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O que Lula e Padre Cícero têm em comum?



De uma hora para outra, leitores desataram a me lançar, por e-mail e pelo twitter, a mesma pergunta: afinal de contas, existe algum sentido na comparação que anda se fazendo por aí entre a figura histórica do padre Cícero Romão Batista e a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva? Os dois teriam mesmo alguma coisa em comum? A interrogação dos leitores decorre do fato de nos últimos tempos ter ganhado força o coro daqueles que passaram a associar, pela mídia, de modo recorrente, o nome de Lula ao de Padre Cícero, seja por esse ou aquele motivo, com essa ou aquela intenção, seja para dourar ou para enxovalhar a imagem pública de um ou de outro - ou a dos dois.

Recentemente, o marqueteiro Duda Mendonça proclamou aos quatro ventos: "Se a popularidade do presidente não é igual à de Padre Cícero, ela passa bem perto". Depois foi a vez do jornalista José Luiz Datena, aquele que apresenta um programa policial nos finais de tarde na tevê, reverberar bordão parecido: "Lula virou um Padre Cícero", proclamou. Outro jornalista, Euler da França Belém, já havia estabelecido semelhante comparação, ao comentar o enorme capital eleitoral e o inegável fascínio exercido por Lula sobre as massas. Muito antes, ainda à época da posse, ao analisar a representação construída pelo então novo presidente no imaginário popular, a psicanalista Maria Rita Kehl se indagava: "Um padre Cícero ressuscitado?". Por fim, dia desses, o jornalista Augusto Nunes tripudiou em sua coluna virtual da Veja: "Padre Lula".

Na pequena amostragem oferecida pelas mensagens que recebi dos leitores, há gente que se descabela com a simples ideia de associar o presidente ao padre. "Uma heresia", bradou, por exemplo, um leitor, devoto assumido de Cícero. Mas, se uns ficam indignados, outros fazem do assunto motivo de chacota. "Quem será o Floro Bartolomeu do Lula?", brincou um segundo. Há aqueles que julgam a comparação pertinente, embora divirjam em relação aos motivos que a sustentam. "Lula e Padre Cícero, manipuladores do povo, realmente se parecem e se merecem", sentenciou o terceiro. "Hoje, Lula repete Padre Cícero, quando olha em direção aos mais fracos e aos mais humildes", argumenta, em sentido oposto, um quarto leitor. Cada cabeça uma sentença, diria numa hora dessas minha avó Isaura, arrumando o coque grisalho.

Como os que me escreveram cobraram-me um juízo em torno do assunto, rascunho então aqui alguns breves pitacos, a título de pequena contribuição ao fuzuê. Vejamos: o padre Cícero Romão Batista era um homem religioso, morreu proscrito pela Igreja Católica e foi canonizado no altar da fé popular. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva era metalúrgico, virou líder sindical e chegou à presidência da República. Dito assim, desse modo, aparentemente não existiria nada a unir as respectivas trajetórias pessoais de um e outro, correto? Erradíssimo, penso eu.

Descontada a certeza de que a história só se repete como farsa, há, de fato, muitas simetrias entre o polêmico cratense Cícero e o não muito menos controvertido garanhuense Luiz Inácio, para além do fato, é óbvio, de ambos terem os respectivos umbigos enterrados em solo nordestino. Pela mídia, aqueles que relacionam o presidente ao padre têm se baseado na enorme popularidade conquistada por ambos, em momentos históricos distintos, em meio à população mais carente, particularmente a do Nordeste. Isso, convenhamos, é fato inegável. Mas não é tudo. Pelo menos não o suficiente para dar conta da discussão. O buraco, como sempre, é mais embaixo. E antes de mergulharmos nele, recordo e advirto: não sou devoto de Cícero e nem sou eleitor cativo de Lula. Aliás, não sou devoto e nem eleitor cativo de ninguém.

Realmente, por força dos programas sociais de largo alcance na região, nunca antes na história desse país, como aliás diria o próprio Lula, um chefe de estado desfrutou, por tão longo período, de tamanho índice de aprovação popular como o atual presidente. Nisso, com um certo exagero, podemos mesmo equipará-lo a Padre Cícero, que não apenas foi um político popularíssimo à época como também o maior cabo-eleitoral de seu tempo. Não havia candidato às urnas que recusasse as bênçãos do então prefeito de Juazeiro. Mas as semelhanças entre ambos, Lula e Cícero, não param por aí. Vão mais longe.

Os dois, Cícero e Lula, moldaram as respectivas trajetórias a partir da rara capacidade de construir interlocutores nos setores mais opostos da sociedade civil. Da mesma forma que seduzia as massas infindáveis de romeiros, Cícero sentava-se à mesa das elites e não tinha pejo de costurar alianças com elas sempre que julgasse necessário. Foi isso que determinou sua longevidade política. Exatamente assim como hoje ocorre com Lula. Nesse aspecto, Cícero desfilou na companhia de aliados aloprados e incômodos, a exemplo do doutor Floro Bartolomeu. Lula, idem.

Em comum, Cícero e Lula teriam ainda o dom de magnetizar multidões com discursos que contrariam as regras mais elementares da retórica tradicional. Padre Cícero nunca foi um grande orador, no sentido clássico do termo, o que inclusive o fez amargar notas baixas nas disciplinas relacionadas à eloqüência quando seminarista. Lula tem sido recriminado, com frequência, por fazer preleções recheadas de metáforas bizarras e impropriedades gramaticais. Mesmo assim, um e outro souberam, como poucos, atingir a alma popular. Mais preocupados com a recepção e menos com a perfeição formal, reinventaram o sentido de carisma e de expressividade que se exige a qualquer bom tribuno.

A decantada espontaneidade de ambos é decorrência direta da formação que receberam - ou que deixaram de receber. A despeito dos anos de estudo no seminário e da biblioteca que mantinha em casa, Padre Cícero não era exatamente o que se pode chamar de um homem erudito. Há devotos sinceros que se deixam impressionar pelo fato de muitos volumes da biblioteca particular de Cícero serem impressos em outros idiomas e de versarem a respeito de várias áreas do conhecimento, tendo o padre feito anotações difusas à margem de alguns deles. Entretanto, um mergulho vertical na extensa correspondência pessoal de Cícero revela que ele tinha notórias dificuldades de se expressar por meio da palavra escrita. Se o estilo é realmente o homem, há de se dizer que seu estilo era pobre, mais para o confuso do que para o despojado, para não falar que por vezes beirava o simplório. Afora as cartas, deixou pouquíssimos escritos conhecidos. Recentemente, localizou-se uma cadernetinha de anotações do padre. Nela, apenas platitudes. Cópias de orações, comentários ingênuos. Isso não impediu Cícero de elaborar uma leitura sofisticada e sensível do universo político e social que o rodeava. Os que o têm na conta de um homem tosco, bisonho e caricato, portanto, também não sabem da missa a metade. Como Lula, Cícero possuía um tipo específico de inteligência, orgânica, que não se obtém e não se cultiva por meio da simples erudição e da densidade letrada. Os dois se equivalem, portanto, no território das sutilezas, das habilidades, das argúcias.

Haveria a separá-los, talvez, a constatação de que a política paternalista de Cícero sempre esteve indissociavelmente ligada à prática religiosa, mesmo sendo ele um padre condenado a viver apartado da Igreja oficial. O mito em que se converteu o nome de Cícero Romão Batista não pode ser entendido sem se levar em conta o binômio fé e política, que ele soube manejar com maestria, à base de orações e assistencialismos. Na verdadeira teocracia cabocla que comandou no interior do Ceará, o poderoso e carismático Padre Cícero chegou a ser considerado, por cordelistas e romeiros, uma pessoa da chamada Santíssima Trindade. Com isso, em torno dele, construiu-se toda uma mitologia pródiga de significados, mas também de inevitáveis aproveitadores desse mesmo capital simbólico.

Como hoje não faltam aqueles oportunistas que querem ver o presidente Lula como um homem imaculado e passível de canonização como o novo “Pai dos Pobres”, não me espanto com o fato de até nisso estarem agora querendo associá-lo a Padre Cícero. Restaria, contudo, lançar ao futuro a pergunta que não quer calar. Um dia Padre Cícero fez do desconhecido Alfeu Aboim o seu sucessor à frente da prefeitura de Juazeiro com um simples estalar de dedos, apenas pedindo para que seus devotos despejassem votos nele. Lula conseguirá repetir a mesmíssima proeza?

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 7 de maio de 2010)

Foto: Ricardo Stuckert/PR