sexta-feira, 28 de maio de 2010

Chega de saudade



Lá estava eu, no Sebo do Messias, no centro de São Paulo, dedicando-me àquela que é uma de minhas diversões prediletas: garimpar curiosidades bibliográficas perdidas em meio a pilhas de livros velhos, sempre nas estantes mais improváveis. Foi quando então, nas prateleiras supostamente de "psicologia e psicanálise", logo bati o olho naquele título gravado em dourado sobre a encadernação de lombada azul: O que as noivas devem saber!, assim mesmo, com ponto de exclamação e tudo.

Peguei o pequeno e antigo volume impresso em formato de bolso e folheei as páginas amareladas pelo tempo. Na folha de rosto, conferi a informação da autoria - Condessa de Til, que depois vim a saber ser o pseudônimo do escritor lusitano Alfredo Gallis. Não me contive e sorri diante do subtítulo: "Livro de philosophia prática". A data de edição era 1922. Na mesma folha de rosto, escrita à mão, em nanquim, li a anotação posta ali com caligrafia caprichada, a letra redondinha, nitidamente feminina, provavelmente escrita pela leitora original daquele exemplar, muito bem conservado apesar dos quase noventa anos passados desde a publicação: "Atenção: este livro é para senhoras casadas e não para as noivas".

Não resisti. Comecei ali mesmo a devorar o tal livrinho, rindo-me a valer já desde a leitura dos títulos de alguns capítulos, aqui citados com a devida adaptação à ortografia atual: "Os caprichos do homem e a arte da mulher para se manter no altar supremo do amor"; "A arte da mulher casada e como deve proceder para seduzir o homem", "Temperamento, sensibilidade, fantasias e exotismos sensuais do homem", "O amor durante a gravidez e a arte de disfarçar o mau aspecto que este estado dá à mulher". Era, supostamente, uma espécie de manual de auto-ajuda da época, escrito com o declarado propósito de preparar as futuras esposas a respeito do que elas iriam encontrar antes, durante e após a lua-de-mel. "A noite nupcial é sempre um ponto de misteriosa interrogação, natural ansiedade e receio na vida de todas as mulheres", constatava logo nas primeiras páginas a Condessa de Til, ou melhor, Alfredo Gallis.

Pouco tempo depois, em viagem a Fortaleza, nas estantes da excelente Taberna Libraria, encontrei outro título similar, que igualmente me despertou a atenção: O que uma jovem esposa deve saber, publicado também em formato de bolso e assinado pela educadora norte-americana Emma Drake, com data de 1932. Os títulos dos capítulos eram também recheados de um irresistível humor involuntário, pelo menos para os nossos olhos de hoje. Entre eles, "O que uma mulher deve ser para o seu marido", "Como eleger o marido" e "Proteção contra o vício secreto".

Movido pelo micróbio da curiosidade, trouxe o livro comigo e, em casa, logo pus um volume bem ao lado do outro, na prateleira de futuras leituras desopilantes, aquelas que me obrigo a fazer no meio de cada imersão na pesquisa para um novo livro. Dia desses, com a cabeça fervendo depois de passar horas na leitura paleográfica de cópias de documentos históricos, resolvi arejar a mente e, para tanto, fui consultar os tais livrinhos mais a fundo. Isso me rendeu algumas das melhores gargalhadas que já dei na vida.

A Condessa de Til, por exemplo, entre outras lições práticas, recomenda às jovens leitoras que não hesitem em usar diariamente o bidê. "Devo esclarecer a todas as meninas donzelas que um irrigador não oferece perigo algum que as faça recear pela perda se sua virgindade", tranquiliza ela. "Não o usando é que podem estar certas de que conservam no corpo as mais variadas e perigosas porcarias", esclarece. A higiene íntima feminina é uma das obsessões do livrinho. "Há as mulheres que lavam as partes secretas apenas aos domingos", recrimina a Condessa, especialmente porque diz ela que basta "a leitura de uma carta apaixonada ou de um romance equívoco" para provocar nas moças e senhoras "um espasmo venéreo acompanhado de uma abundante ejaculação glandular, que nos sonhos lascivos chega a ser prodigiosa". Aquilo, explica, produzirá um "aroma repulsivo".

A Condessa de Til é peremptória. A mulher deve se lavar todos os dias, mas nunca às vistas do marido. "Que ele, o homem, goze e se regozije com os seus resultados, mas se afaste sempre para bem longe dos processos que é mister usar para os adquirir". Em outras palavras, dito de modo mais direto algumas páginas adiante: "Sentadas no bidê a assearmos as partes pudendas, somos simplesmente detestáveis de ridículo às vistas de um homem sensível e de fino gosto estético".

Há, para a Condessa de Til, outra regra sagrada: marido e esposa devem dormir em camas diferentes e, se possível, em quartos separados. Não só por uma questão de higiene, mas também por consideração de um ao outro. "Quem ignora as fraquezas do nosso corpo advindas de uma digestão mal feita?", indaga. "É ao deitar e ao levantar, e até quando se acorda de noite, que a natureza tem exigências inadiáveis", reforça. A essa altura do livro, a mesmíssima leitora que deixou aquela advertência inicial na folha de rosto fez questão de anotar à margem da página sua opinião sobre o assunto: "É verdade", escreveu ela, de novo a nanquim, lacônica, com presumida experiência.

Na hora de cumprir as "obrigações mútuas de marido e mulher", a Condessa de Til explica que é preciso usar de todo cuidado para não desconcentrar o parceiro. "Há mulheres excessivamente nervosas que, chegadas ao paroxismo do prazer, não há nada que as contenha. Muitas necessitam até de gritar, necessidade esta que para os homens é um perigoso excitante, enquanto que para outros é quase um anestésico".

Entre quatro paredes, há de se servir completamente a seu esposo e senhor, sugere o livro. Só haveria, contudo, duas restrições. A primeira delas, a sodomia. "Esses casos passam do domínio dos caprichos sexuais do homem que se podem aceitar sem relutância para os de um estado pervertido e absolutamente doentio". A segunda interdição, determina, é a do sexo durante a gravidez. A partir do quarto mês de gestação, "tudo o que o homem exigir da mulher nessa fase é uma brutalidade e uma falta de gosto estético", sentenciam as páginas de O que as noivas devem saber!.

Pode-se argumentar que, em sendo um escritor reconhecidamente fescenino, Alfredo Gallis tenha produzido um livro satírico, de propósito irônico e chauvinista, o que não seria estranho a um autor que escreveu obras como A amante de Jesus, O marido virgem e Devassidões de Pompéia. Mas a leitura paralela da sisuda doutora Emma Drake, cristã ardorosa, autora do circunspecto O que uma jovem esposa deve saber, publicado dez anos depois, serve para mostrar que as concepções do mordaz Gallis não destoavam muito do que realmente se pensava à época.

No caso do sexo na gravidez, além de também considerá-lo repugnante, a doutora Emma Drake afirma que ele "não exercerá nenhuma boa influência sobre a criança que está para nascer, nem seguramente sobre o amor e o respeito que uma mulher sinta por seu marido". Preocupada, adverte: "Durante a gravidez, a mulher algumas vezes se sente atraída pela paixão com mais violência do que nunca. Isso deve-se considerar uma enfermidade, carecendo-se consultar o médico".

Emma Drake, assim como a Condessa de Til, também recomenda o uso dos quartos separados, menos por ordens de natureza higiênica, e sim por ser um antídoto eficaz contra a devassidão: "Quando o domínio de si mesmo parece difícil, isso não é melhor que uma liberdade que degenera em abuso?", indaga.

A masturbação, para Drake, é abominável. Para combatê-la, ela sugere que devem ser suprimidas da alimentação toda espécie de excitante, como o café, a pimenta e a conserva em vinagre. Um banho de esponja com água salgada e fria também ajudaria a resistir às poderosas tentações do "vício secreto". Do contrário, para o indivíduo entregue sem freios ao ato solitário, algumas das "consequências terríveis" seriam a epilepsia, a idiotia, a catalepsia e a loucura.

Os tempos, felizmente, mudaram. As considerações e conselhos da Condessa de Til e de Emma Drake, no máximo, hoje nos fazem rir. Mas pode-se imaginar os terrores que tais concepções do mundo, tais interditos do corpo, representaram para a vida de nossas pobres avós. Não eram só os corpos, obviamente, que se viam cerceados. O espírito, por consequência, também. Em 1932, a doutora Drake escrevia: "Nestes tempos de clubes literários e círculos de leitura, a ambição de cultura de certas mulheres pode ser perigosa se não dirigida com prudência".

Quando leio coisas assim é que, como jornalista bisbilhoteiro da história, sinto ainda menos vontade de tratar o passado como algo idealizado, como um tempo perdido que não volta mais, como uma época áurea e formosa que deixamos escapar. O saudosismo é imobilista. A pior de todas as moléstias.