sexta-feira, 14 de maio de 2010

Eu vi o fantasma de Maysa em Montevidéu



Enquanto jantávamos, tendo a magnífica vista noturna do Rio de la Plata e do porto de Montevidéu todo iluminado à janela, minha mulher definiu bem a atmosfera que nos envolveu nesta cidade, onde estamos passando alguns poucos dias: "Não parece que Maysa vai entrar por aquela porta do restaurante a qualquer momento, cambalear alguns passos, acender um cigarro e assim, do nada, começar a cantar?", comentou Adriana, saboreando o mais típico lomo uruguaio temperado com chimichurri. Concordei, sorrindo, balançando a cabeça e esvaziando a quinta garrafa de Pilsen.

De fato, em Montevidéu, o mundo parece ter parado no tempo, em um momento qualquer entre o final dos anos 50 e o começo dos anos 70. A busca por uma certa elegância perdida e a visão de uma dolorosa decadência convivem explicitamente a cada esquina, seja na movimentada avenida 18 de Julho - onde verdadeiras latas-velhas ambulantes trafegam de um lado para outro, mas sem tanta pressa -, seja nas simpáticas mesinhas postas à calçada nos cafés da rua Sarandi, nas quais a tranquilidade e a sensação de que o tempo parou se mostram ainda mais acentuadas. Por vezes, acreditem, penso mesmo quase ter visto o fantasma de Maysa, esvoaçante em uma daquelas compridas túnicas florais de que ela tanto gostava, flutuando e flanando pelos calçadões da Ciudad Vieja, o bairro mais charmoso e antigo da capital uruguaia, com seus brechós, livrarias, antiquários, mercados de pulgas e tendas de quinquilharias. Há, realmente, algo de Maysa no ar por aqui. Um certo ar retrô, um desavergonhado clima brega-chique, um passadismo tão assumido que, beirando a cafonice, chega a ser sedutor.

Não sei se foram os efeitos da generosa cerveja uruguaia, se as notas de bossa-nova tiradas toda noite pelo pianista de fraque no lobby do hotel, não sei se a visita ao grande cassino no subsolo do Radisson ou a visão de tanta gente fumando nas ruas e nos restaurantes - coisa cada vez mais difícil de se ver no Brasil e definitivamente banida por lei nos bares de São Paulo. O fato é que esta nossa meia semana em Montevidéu me encheu de inescapável nostalgia. A cantora lírica que ensaiava trechos de árias durante a madrugada no apartamento logo ao lado do nosso ajudou a completar o clima. Os uruguaios parecem ter uma queda incontida pelo sentimento nostálgico. Isso, sei lá, deve ser contagioso. Peguei-me assobiando canções de Maysa no chuveiro do banheiro do hotel, coisa que não fazia desde o dia em que pus o ponto final na biografia da cantora que, vejam vocês, é relativamente bem conhecida por aqui.

É verdade. Os uruguaios têm notícia de uma cantora brasileira chamada Maysa. Ao ponto da biografia dela ter merecido, à época do lançamento aí no Brasil, matéria de página inteira no principal jornal daqui, o El País, ao longo da qual o jornalista que a assinou, Alfredo Fressia, demonstrou notória intimidade com a música popular brasileira. Fato que, até então, sempre havia me deixado com um nó nos miolos. Vá lá que, nos anos 50 e 60, Maysa tenha feito concorridas turnês em Montevidéu e Punta del Leste, mas como um grande jornal uruguaio publicava tão longo texto sobre um livro lançado no Brasil - e, detalhe, não traduzido para o espanhol - a respeito de uma cantora brasileira que morreu em 1974?

No calçadão da Sarandi, ao entramos na belíssima Libreria Puro Verso, no edifício Pablo Ferrando - prédio art nouveau com direito a fachada em ferro e vidro e um majestoso vitral colorido na parede principal à frente da entrada - verifiquei que Maysa não é a única artista brasileira a ser conhecida e ouvida pelos uruguaios. Na área de discos, numa estante central, vários CDs de intérpretes da chamada MPB disputam espaço com cantores locais e de outros países da América Latina. Não parece constrangedor constatar que, ao passo que não sabemos praticamente nada do Uruguai, os uruguaios aparentam saber bem, relativamente, muita coisa sobre nós?

Não tem jeito. Algo que sempre chama a atenção quando chegamos a qualquer outro país da América do Sul é nossa vergonhosa e cavalar ignorância a respeito de vizinhos tão próximos. Antes de desembarcar no aeroporto de Montevidéu, no Carrasco, confesso ruborizado que meu conhecimento sobre este belo país se resumia a recitar o nome de alguns pouquíssimos escritores daqui, a exemplo de Juan Carlos Onetti, Mario Benedetti, Horacio Quiroga e, claro, Eduardo Galeano. Com absoluta certeza, meu bom amigo Floriano Martins me puxaria a orelha, coberto de razão, para dizer que existem inúmeros outros. Quantos dos leitores que agora leem esta crônica escapariam do mesmo merecido puxão de orelha e seriam capazes de citar mais algum?

Como em quase tudo aí no Brasil, nossa colossal desinformação sobre os vizinhos próximos só se revela menos desmedida quanto o assunto é futebol. Nenhum brasileiro jamais deixará de saber que foi a brava celeste uruguaia que nos impôs a mais dolorosa de todas as derrotas, na final da Copa do Mundo de 1950, em pleno Maracanã. Até nisso o Uruguai vive mergulhado em nostalgia. A equipe uruguaia de 50 ganhou aqui em Montevidéu ares de mito, reeditado e atualizado geração após geração. "Los brasileños sienten um escalofrío cuando deben enfrentar a los celestes", gaba-se o jornalista uruguaio Luis Prats, autor de "La Crónica Celeste", que fiz questão de comprar e pôr na bagagem para ler quando da volta ao Brasil. Porém, como a neutralizar esse patriotismo nostálgico, as propagandas de lojas de departamento prometem aos uruguaios descontos especiais na compra de televisores se a equipe nacional conseguir a proeza de, vejam só, passar pelo menos às quartas-de-finais no mundial que começa daqui a menos de um mês na África do Sul.

Mas, afora o futebol, que mais sabemos deles? Quase nada, reconheçamos. Logo no primeiro dia em Montevidéu, talvez para atestar minha assumida ignorância, minha mulher indagou-me, assim, de supetão: "Quem é atual o presidente do Uruguai?". Gaguejei, demorando, enrolando para responder. Os leitores desta crônica também gaguejariam ou responderiam de bate-pronto? Pois bem. Saibam que, enquanto isso, em todos os quiosques de Montevidéu, uma revista semanal de informações estampa uma foto de Lula. Nos jornais, o Brasil é assunto recorrente.

Portanto, a surrada desculpa de que a barreira linguística foi o que nos infligiu a histórica distância em relação aos demais países do continente sul-americano não se sustenta. Se eles demonstram tanto interesse em nós, que falamos português, porque não retribuímos em idêntica medida a eles, que falam espanhol? Como agravante, existe a constatação de que, na maioria das vezes, torna-se bem mais barato viajar para Buenos Aires, Santiago ou Montevidéu do que para diferentes destinos do próprio Brasil. Se não é tão caro, se não é tão longe, se há tanto a nos unir e tanto para conhecermos, porque permanecemos de costas viradas para a América Latina?

Por que insistimos em ser um país ilhado no próprio continente? Por que não instauramos um espaço de reconhecimento mútuo, aquilo que nas palavras do amigo Floriano Martins constituiria uma saborosa "vertigem da unidade", cujo efeito seria "multiplicado pela chama das diversidades"? Quando o mesmo Floriano, com erros e acertos, tentou promover uma Bienal do Livro que fosse o germe dessa descoberta, quase lhe atiraram pedras aí no Ceará. Uma pena. E uma injustiça só comparada ao tamanho de nossa incomensurável estupidez.