sexta-feira, 21 de maio de 2010

O dia em que meu pai me levou para a zona



Quando meu pai saiu de casa, para nunca mais voltar, eu tinha 14 anos de idade. Não posso dizer que aquilo tenha produzido uma mudança muito brusca em nossas vidas. O velho Bob Lira sempre fora um nômade. Tinha a profissão de caixeiro-viajante - ou representante comercial, como ele gostava de dizer, com certa pompa, aos vizinhos e amigos. Vivia na estrada, dirigindo sozinho, dormindo em hotéis de cidadezinhas do interior, o porta-malas do carro lotado de mostruários de confecções, panelas, medicamentos, cosméticos, miudezas, quinquilharias. Passava o mês inteiro longe de casa. Ao retornar, já estava de malas prontas menos de uma semana depois, para mais outra de suas longas viagens de trabalho. Naquela manhã específica, quando pegou sobre a mesa de fórmica as chaves do velho Corcel GT marrom de capota preta, não me avisou que dessa vez era para sempre. Simplesmente se foi, levando consigo sabe-se lá quais sentimentos dentro do peito.

Minha mãe, dona Darcy, funcionária pública do antigo IAPC, desdobrou-se para cuidar, alimentar e educar os cinco filhos, rigorosamente sozinha. Fomos vivendo nossas vidas assim, sem maiores notícias do velho Bob. Para nós, ele desaparecera no mundo, evaporara, sem deixar rastros aparentes. Abrira um buraco no chão e sumira lá dentro dele. Quando, tempos depois, soube que ele voltara a morar em Massapê, cidade do interior cearense onde nasceu, cheguei a enviar-lhe duas ou três cartas sentidas. Nenhuma cobrança, nenhuma ira, nenhum ressentimento. Nas cartas, falava apenas de saudades. Meu pai respondeu a cada uma delas com sua letra torneada e firme. Ele sabia escrever quase tão bem quanto a minha mãe. Só havia feito o curso primário, mas era um leitor voraz. Um autodidata que trazia trechos de Camões e Castro Alves na ponta da língua. Na última carta, em meio a floreios verbais, dizia-se arrependido. Queria voltar para casa - coisa que nossa mãe, eu tinha certeza, jamais admitiria. Adverti-lhe a respeito disso. Nossa mãe preferiria enfrentar o demônio pintado de dourado a vê-lo novamente. Ele então tornou a sumir.

Quanto fiz 25 anos, achei que era a hora de um reencontro entre pai e filho. Sem comunicar-lhe nada, coloquei algumas mudas de roupa na mochila e carreguei pela mão o meu então único filho, Ícaro, de apenas quatro anos de idade. Não saberia dizer exatamente o porquê, mas queria que o menino conhecesse o avô que um dia batera asas e nunca mais voltara. Ele era um canalha. Mas um canalha irresistível, um excelente contador de histórias, um declamador insuperável e, além do mais, a despeito de tudo, não havia a menor sombra de animosidade em meu coração. Nossa mãe, apesar da mágoa íntima, não nos inoculara o sentimento do rancor. Portanto, sem qualquer espécie de aviso prévio, eu e Ícaro tomamos um ônibus na rodoviária de Fortaleza e, quatro horas depois, desembarcamos na pequena e calorenta Massapê, localizada ao pé da serra da Meruoca.

Detalhe: eu não sabia exatamente onde o velho Bob morava. Havia me desfeito das antigas agendas, bem como das cartas que ele me enviara. Desse modo, não possuía seu endereço. Os laços haviam se esgarçado ainda mais radicalmente. Contudo, como eu previra antes de partir, não foi difícil localizar-lhe o paradeiro. A cidade era minúscula e, muito provavelmente, ali todo mundo se conhecia, eu bem imaginara. Dito e feito. A primeira pessoa que parei na rua em Massapê logo me indicou, sem pestanejar, o caminho para a farmácia Santa Luzia, do "Doutor Bob Lira".

Coração aos pulos, sempre puxando Ícaro pela mão, caminhei até lá. Poucas ruas depois, parei diante da porta da pequena farmácia e olhei para dentro. O que vi foi um homem grisalho por trás do balcão, plantado de costas para a entrada, remexendo em algumas gavetas do armário de madeira atulhado de remédios. Entrei, aproximei-me do balcão e senti emanar, daquele homem, um cheiro familiar de loção de barba e brilhantina que, de súbito, remeteu-me à infância. Era ele, sem dúvida. O sujeito, em cuja cabeleira prateada caprichosamente penteada para trás reconheci a figura um pouco mais envelhecida e mais curvada de meu pai, pareceu não ter notado minha chegada. Continuou de costas, remexendo nas gavetas, como se procurasse alguma coisa ali dentro delas.

"O senhor tem Sonrisal?", indaguei, na falta de algo mais ensaiado para dizer em semelhante circunstância. Ele não se mexeu. "Tenho. Quantos você quer?", devolveu-me, ainda sem se virar. "Uns quatro. A ressaca está braba", prossegui. Ele tornou a remexer as gavetas. Então se voltou em minha direção com algumas embalagens douradas na mão e, parecendo um tanto quanto atônito, permaneceu de novo parado, lívido, uma estátua viva, fitando-me em absoluto silêncio, como se estivesse vendo uma assombração.

Não sei precisar quantos segundos demorou aquilo. Lembro apenas dos olhos verdes de meu pai saltados da órbita, a boca entreaberta em meio a um esgar que demonstrava, ao mesmo tempo, surpresa e susto. Era o mesmo rosto amarrotado que eu guardara na memória, ainda um pouco mais maltratado pelo tempo e pela vida de dissipação que por certo seu dono levara. Enquanto ele permanecia ali, imóvel, branco feito cera, eu procurava adivinhar e reconhecer naquela face enrugada os traços de meu próprio rosto. Éramos realmente bem parecidos, constatei. Pouco a pouco, ele começou a se mover. Em gestos que naquela hora me pareceram em câmera lenta, aproximou-se pé ante pé da borda do balcão. Só então ele conseguiu divisar, ali do meu lado, abaixo do seu campo de visão anterior, o pequeno Ícaro, que lhe sorriu sem entender ao certo o que estava acontecendo.

Com um suspiro profundo, meu pai apoiou as duas mãos sobre o tampo do balcão e, inesperadamente, movido por uma agilidade insuspeitada para um homem de sua idade, saltou por cima do móvel, caindo de pé, bem ali ao meu lado. Não falou uma única palavra naquele instante. Abraçou-me, sinceramente comovido. Retribuí, também em silêncio. As falas, de fato, não fariam qualquer sentido em tal momento, especialmente quando ele desatou a chorar ao pôr Ícaro no colo. "Eu sou um estúpido", gaguejou, enfim. A frase saiu entrecortada por soluços.

Era por volta do meio-dia e, olhando para o mostrador grande e verde do relógio de pulseira prateada, meu pai nos convidou para almoçar. Com a ajuda de um comprido gancho de metal, puxou as duas portas de ferro cinza da farmácia para baixo e, com uma tirada de espírito que era bem própria dele, afirmou que iria decretar feriado nacional naquele dia, por conta própria. "Ninguém invente de ficar doente hoje na cidade. A farmácia só abre amanhã", sentenciou. Enquanto almoçávamos numa birosca logo ali ao lado, ele mandou chamar um amigo, o Lau, que dirigia um carro de aluguel em Massapê, creio que o único "táxi" da cidade àquele tempo. "O automóvel vai ficar a nossa disposição o resto do dia. Quero mostrar Massapê para você", comentou.

Choveu forte naquele dia. O vidro dianteiro do lado do passageiro estava quebrado e, com isso, o aguaceiro entrava por ali sem qualquer controle. No banco de trás, ao meu lado, Ícaro olhava o avô ensopado e dava cambalhotas de tanto rir daquela situação inusitada. Meu pai, olhando para trás, a cabeleira brilhantinada toda desmanchada pela chuva, também caía em um riso alucinado. Nunca esqueci aquela cena. Meu pai e meu filho, juntos, como dois loucos, possuídos pelo riso.

Foi logo depois disso que meu pai fez o primeiro e único pedido daquele nosso reencontro. "Posso lhe pedir uma coisa?", indagou, meio constrangido. "Pode, claro", respondi, curioso. "Posso realizar um desejo que sempre me perseguiu e que nunca consegui realizar?", perguntou ele, de novo. "Sim, pode", assenti, já ressabiado com o rumo daquela conversa, principalmente porque meu pai, de repente, ficou vermelho feito um pimentão. "É que eu queria levar você lá na zona", revelou ele, com um sorriso encabulado, os olhos fixos no teto do carro. Não pude evitar a gargalhada. Lá estava eu, homem feito, com meu filho à tiracolo, e meu pai, a quem eu não via há séculos, queria deixar Ícaro na companhia das tias para me arrastar ao baixo meretrício de Massapê. "Você endoidou, velho?", perguntei. Foi a vez dele voltar a gargalhar.

Naquela tarde, conheci as prostitutas mais velhas, feias e gordas de todo o mundo. "Você é mesmo um estúpido", brinquei, quando vi meu pai, ainda todo molhado, tirar a mais velha, a mais feia e a mais gorda de todas elas para dançar. No som da fanhosa radiola de ficha, troava um antigo tango de David Nasser cantado por Nelson Gonçalves. O velho não tinha mesmo um pingo de juízo. Mas dançava bem pra caramba.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 21 de maio de 2010)