sexta-feira, 7 de maio de 2010

O que Lula e Padre Cícero têm em comum?



De uma hora para outra, leitores desataram a me lançar, por e-mail e pelo twitter, a mesma pergunta: afinal de contas, existe algum sentido na comparação que anda se fazendo por aí entre a figura histórica do padre Cícero Romão Batista e a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva? Os dois teriam mesmo alguma coisa em comum? A interrogação dos leitores decorre do fato de nos últimos tempos ter ganhado força o coro daqueles que passaram a associar, pela mídia, de modo recorrente, o nome de Lula ao de Padre Cícero, seja por esse ou aquele motivo, com essa ou aquela intenção, seja para dourar ou para enxovalhar a imagem pública de um ou de outro - ou a dos dois.

Recentemente, o marqueteiro Duda Mendonça proclamou aos quatro ventos: "Se a popularidade do presidente não é igual à de Padre Cícero, ela passa bem perto". Depois foi a vez do jornalista José Luiz Datena, aquele que apresenta um programa policial nos finais de tarde na tevê, reverberar bordão parecido: "Lula virou um Padre Cícero", proclamou. Outro jornalista, Euler da França Belém, já havia estabelecido semelhante comparação, ao comentar o enorme capital eleitoral e o inegável fascínio exercido por Lula sobre as massas. Muito antes, ainda à época da posse, ao analisar a representação construída pelo então novo presidente no imaginário popular, a psicanalista Maria Rita Kehl se indagava: "Um padre Cícero ressuscitado?". Por fim, dia desses, o jornalista Augusto Nunes tripudiou em sua coluna virtual da Veja: "Padre Lula".

Na pequena amostragem oferecida pelas mensagens que recebi dos leitores, há gente que se descabela com a simples ideia de associar o presidente ao padre. "Uma heresia", bradou, por exemplo, um leitor, devoto assumido de Cícero. Mas, se uns ficam indignados, outros fazem do assunto motivo de chacota. "Quem será o Floro Bartolomeu do Lula?", brincou um segundo. Há aqueles que julgam a comparação pertinente, embora divirjam em relação aos motivos que a sustentam. "Lula e Padre Cícero, manipuladores do povo, realmente se parecem e se merecem", sentenciou o terceiro. "Hoje, Lula repete Padre Cícero, quando olha em direção aos mais fracos e aos mais humildes", argumenta, em sentido oposto, um quarto leitor. Cada cabeça uma sentença, diria numa hora dessas minha avó Isaura, arrumando o coque grisalho.

Como os que me escreveram cobraram-me um juízo em torno do assunto, rascunho então aqui alguns breves pitacos, a título de pequena contribuição ao fuzuê. Vejamos: o padre Cícero Romão Batista era um homem religioso, morreu proscrito pela Igreja Católica e foi canonizado no altar da fé popular. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva era metalúrgico, virou líder sindical e chegou à presidência da República. Dito assim, desse modo, aparentemente não existiria nada a unir as respectivas trajetórias pessoais de um e outro, correto? Erradíssimo, penso eu.

Descontada a certeza de que a história só se repete como farsa, há, de fato, muitas simetrias entre o polêmico cratense Cícero e o não muito menos controvertido garanhuense Luiz Inácio, para além do fato, é óbvio, de ambos terem os respectivos umbigos enterrados em solo nordestino. Pela mídia, aqueles que relacionam o presidente ao padre têm se baseado na enorme popularidade conquistada por ambos, em momentos históricos distintos, em meio à população mais carente, particularmente a do Nordeste. Isso, convenhamos, é fato inegável. Mas não é tudo. Pelo menos não o suficiente para dar conta da discussão. O buraco, como sempre, é mais embaixo. E antes de mergulharmos nele, recordo e advirto: não sou devoto de Cícero e nem sou eleitor cativo de Lula. Aliás, não sou devoto e nem eleitor cativo de ninguém.

Realmente, por força dos programas sociais de largo alcance na região, nunca antes na história desse país, como aliás diria o próprio Lula, um chefe de estado desfrutou, por tão longo período, de tamanho índice de aprovação popular como o atual presidente. Nisso, com um certo exagero, podemos mesmo equipará-lo a Padre Cícero, que não apenas foi um político popularíssimo à época como também o maior cabo-eleitoral de seu tempo. Não havia candidato às urnas que recusasse as bênçãos do então prefeito de Juazeiro. Mas as semelhanças entre ambos, Lula e Cícero, não param por aí. Vão mais longe.

Os dois, Cícero e Lula, moldaram as respectivas trajetórias a partir da rara capacidade de construir interlocutores nos setores mais opostos da sociedade civil. Da mesma forma que seduzia as massas infindáveis de romeiros, Cícero sentava-se à mesa das elites e não tinha pejo de costurar alianças com elas sempre que julgasse necessário. Foi isso que determinou sua longevidade política. Exatamente assim como hoje ocorre com Lula. Nesse aspecto, Cícero desfilou na companhia de aliados aloprados e incômodos, a exemplo do doutor Floro Bartolomeu. Lula, idem.

Em comum, Cícero e Lula teriam ainda o dom de magnetizar multidões com discursos que contrariam as regras mais elementares da retórica tradicional. Padre Cícero nunca foi um grande orador, no sentido clássico do termo, o que inclusive o fez amargar notas baixas nas disciplinas relacionadas à eloqüência quando seminarista. Lula tem sido recriminado, com frequência, por fazer preleções recheadas de metáforas bizarras e impropriedades gramaticais. Mesmo assim, um e outro souberam, como poucos, atingir a alma popular. Mais preocupados com a recepção e menos com a perfeição formal, reinventaram o sentido de carisma e de expressividade que se exige a qualquer bom tribuno.

A decantada espontaneidade de ambos é decorrência direta da formação que receberam - ou que deixaram de receber. A despeito dos anos de estudo no seminário e da biblioteca que mantinha em casa, Padre Cícero não era exatamente o que se pode chamar de um homem erudito. Há devotos sinceros que se deixam impressionar pelo fato de muitos volumes da biblioteca particular de Cícero serem impressos em outros idiomas e de versarem a respeito de várias áreas do conhecimento, tendo o padre feito anotações difusas à margem de alguns deles. Entretanto, um mergulho vertical na extensa correspondência pessoal de Cícero revela que ele tinha notórias dificuldades de se expressar por meio da palavra escrita. Se o estilo é realmente o homem, há de se dizer que seu estilo era pobre, mais para o confuso do que para o despojado, para não falar que por vezes beirava o simplório. Afora as cartas, deixou pouquíssimos escritos conhecidos. Recentemente, localizou-se uma cadernetinha de anotações do padre. Nela, apenas platitudes. Cópias de orações, comentários ingênuos. Isso não impediu Cícero de elaborar uma leitura sofisticada e sensível do universo político e social que o rodeava. Os que o têm na conta de um homem tosco, bisonho e caricato, portanto, também não sabem da missa a metade. Como Lula, Cícero possuía um tipo específico de inteligência, orgânica, que não se obtém e não se cultiva por meio da simples erudição e da densidade letrada. Os dois se equivalem, portanto, no território das sutilezas, das habilidades, das argúcias.

Haveria a separá-los, talvez, a constatação de que a política paternalista de Cícero sempre esteve indissociavelmente ligada à prática religiosa, mesmo sendo ele um padre condenado a viver apartado da Igreja oficial. O mito em que se converteu o nome de Cícero Romão Batista não pode ser entendido sem se levar em conta o binômio fé e política, que ele soube manejar com maestria, à base de orações e assistencialismos. Na verdadeira teocracia cabocla que comandou no interior do Ceará, o poderoso e carismático Padre Cícero chegou a ser considerado, por cordelistas e romeiros, uma pessoa da chamada Santíssima Trindade. Com isso, em torno dele, construiu-se toda uma mitologia pródiga de significados, mas também de inevitáveis aproveitadores desse mesmo capital simbólico.

Como hoje não faltam aqueles oportunistas que querem ver o presidente Lula como um homem imaculado e passível de canonização como o novo “Pai dos Pobres”, não me espanto com o fato de até nisso estarem agora querendo associá-lo a Padre Cícero. Restaria, contudo, lançar ao futuro a pergunta que não quer calar. Um dia Padre Cícero fez do desconhecido Alfeu Aboim o seu sucessor à frente da prefeitura de Juazeiro com um simples estalar de dedos, apenas pedindo para que seus devotos despejassem votos nele. Lula conseguirá repetir a mesmíssima proeza?

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 7 de maio de 2010)

Foto: Ricardo Stuckert/PR