sexta-feira, 25 de junho de 2010

Emília reinventa as palavras




Todas os dias, bem cedinho, Emília, seis anos, faz a mesmíssima coisa. Levanta da cama ainda sonolenta, senta do meu lado no sofá e acompanha atentamente minha sagrada leitura matinal dos jornais. Lê por cima de meu ombro, conferindo as manchetes de página, interrompendo-me sempre que uma palavra nova lhe chama a atenção. “Pai, o que é corrupção?”. Tento explicar-lhe da forma mais simples possível, com imagens acessíveis a seu repertório infantil: “É quando alguém mete a mão no dinheiro dos outros”, comento, antes de tentar voltar à leitura das páginas de política.

Meio minuto depois, Emília volta à carga. “E o que é eleição, papai?”. Solto um suspiro. “Filha, é quando todo mundo se reúne para escolher quem vai comandar a cidade, o estado, o país”, esclareço, dando-me conta do quanto essas duas palavras estão, de modo insistente, sempre tão pertinho uma da outra nas páginas do jornal. “Rimou, né, pai? Corrupção, eleição”, comenta alegremente a menina, que como toda criança adora brincar com o som das palavras. “Rimou sim, filha. E como rimou”, confirmo, com inevitável sorriso.

“Essas duas palavras aqui também rimam, olha, pai: Congresso e processo”, aponta Emília, com o dedinho indicador sobre a página do jornal. “Mas, papai, o que é Congresso? E o que é processo?”. Desisto então da leitura da notícia sobre o projeto ficha-limpa, abandono as páginas de política e, com novo suspiro, abro o caderno de variedades. “Pai, o que é per-nós-ti-co?”. Esta vai ser difícil de explicar, imagino. Quase não resisto à tentação de dizer que pernóstico é o colega que escrevera aquele texto no jornal. Mas me contive. “É a pessoa que pensa que é mais inteligente do que realmente é”, defino. Emília fica pensativa, olha para algum ponto indefinível no ar e decreta: “Na minha escola tem pernóstico, pai”.

A coisa segue por aí até Emília cansar daquela brincadeira e começar a fazer um baita barulho para, de propósito, acordar a irmãzinha mais nova. Finalizo então a leitura do jornal, sigo para a mesa e, entre um gole e outro de café com leite, ainda confiro as páginas de esportes, aquelas que deixei para ler no fim, como uma espécie de sobremesa antes de sair para o escritório. Dia desses, quase engasguei com um pedaço de torrada. “Pai, o que é secho”, interrogou-me Emília, assim de supetão. “Secho?”, perguntei, intrigado. “Sim, papai, secho, s-e-x-o”, soletrou.

“Ah, sexo. Onde você leu isso, filha?”, perguntei a ela, sem conseguir disfarçar um certo constrangimento. “Não foi aí no jornal que li essa palavra, pai”, ela explica, balançando a cabeça por trás do copão de leite morno com chocolate. “Então foi onde?”, indaguei, um tanto quanto ruborizado. “Foi no álbum da Copa do Mundo, pai, naquele cupom que tem lá para pedir pelo correio as figurinhas dos jogadores que estão faltando. É para a gente escrever o nosso nome, o endereço, a idade e o secho, papai ”, esclareceu Emília, para meu supremo alívio.

“Ah, entendi, entendi. Mas se lê sexo, filhinha. É que eles querem saber se quem mandou o cupom é menino ou menina. Se for menino, é do sexo masculino; se for, menina, é do sexo feminino”, ensino, didaticamente. “Ah, então eu sou do secho feminino?”, ela quer saber. “Isso mesmo, filha, seu sexo é o feminino”. Emília ainda não se dá por satisfeita. “Ora, papai, mas feminino rima é com menino”, observa, com ar desconfiado. “Papai, isso tá muito errado. Devia ser secho feminina, para poder então rimar com menina”, conclui, taxativa.

Desisto. Quando Emília põe algo na cabeça, difícil convencê-la do contrário. Quando era menorzinha, entendeu de chamar um de seus bonequinhos de plástico preferidos, um porco-espinho, de corpo-espinho. Não houve quem conseguisse dissuadi-la de que o correto era o primeiro. No final das contas, olhei para o bonequinho, vi aquele monte de espinhos espalhados pelo corpo do coitado, constatei que ele não parecia com um porco coisíssima nenhuma e achei que a lógica emiliana fazia muito mais sentido. Daquele dia em diante ficou sendo, para todos os efeitos, corpo-espinho mesmo.

De outra feita, ao pedir a opinião de Emília sobre a qual altura deveríamos colocar o quadro branco de avisos na cozinha, ela protestou: “Não pode ser em qual altura, pai. Se é para eu poder alcançar, tem que me perguntar em qual baixura”. Dias depois, quando viu um pombo no meio da rua atravessando a esquina sobre a faixa de segurança, Emília me puxou pela mão e, num raciocínio rigorosamente perfeito, saiu-se com essa: “Pai, pombo também é pedestre?”

Mas isso não é nada. Pior foi quando, uma vez, assim do nada, ela olhou para mim e sapecou a pergunta: “Pai, você gosta mesmo de comer o Gugu Melo?”. Tomei um baita susto. “Comer quem, minha filha?!? Como assim?!? Do que você está falando?!?” Emília não se abalou: “Você sabe, pai, o Gugu Melo. E você gosta, sim. Eu já vi você comendo ele”.

De onde a menina tirara semelhante história? “Emília, olha aqui, eu não conheço nenhum Gugu Melo”, falei, a sério. “Mas, pai, você bota o Gugu Melo no molho do macarrão”, ela devolveu, sentida, quase choramingando. “No molho do macarrão?”, perguntei, com cara de besta, até finalmente deduzir, com algum esforço, que ela se referia ao inocente champignon, ao prosaico cogumelo. Ufa.

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 25 de junho de 2010.