sexta-feira, 11 de junho de 2010

Escritores, essa raça insuportável



Leitores deveriam fazer de tudo para jamais chegarem a conhecer seus autores prediletos pessoalmente. Creio ter sido Mário Quintana quem proclamou essa inescapável verdade. Pois, digo e confirmo, o poeta sabia muito bem do que estava falando. A maioria dos escritores, posso garantir, quando vista de perto, é mesmo composta por uma raça insuportável. Depois de conviver com essa espécie abjeta nos últimos anos, por força dos generosos convites que tenho recebido para participar de feiras literárias e bienais do livro pelo país, cheguei à conclusão de que não existe ofício no mundo mais propício ao cabotinismo, à vaidade balofa, à presunção injustificada. Poucos são os imunes a isso. Pode até parecer impossível, mas afianço que certos escritores conseguem ter o ego ainda mais artificialmente inflado de que outras duas abomináveis categorias de pavões humanos: a dos jornalistas e a dos publicitários. No convívio junto a colegas escritores em mesas-redondas, palestras, conferências e afins, comecei a catalogar a espécie em algumas subespécies específicas. No meu pequeno tratado de taxidermia literária, estabeleci uma galeria de dez tipos básicos. São eles:

1. Teórico de galochas: É um cara chato como um texto de Deleuze. A sua genial tese de pós-doutorado na Universidade de Istambul - publicada em míseros 500 exemplares, por uma obscura editora universitária -, versa sobre "a deficiência hermenêutica do discurso biográfico". Em pleno café da manhã, no hotel do evento, é capaz de pentelhar o vizinho de mesa, que ainda está sonolento, com uma análise a respeito da influência dos anões de Velásquez na prosa pós-barroca de Roberto Bolaño. Para fugir de tipinhos indigestos assim, reservo meu melhor bocejo. É tiro e queda. O sujeito fica indignado com a ofensa. Levanta e vai se juntar, em outra mesa, à colega feiosa que acabou de vender o carro para pagar a edição de sua dissertação de mestrado intitulada "O desejo e o corpo de Cristiano Ronaldo à luz da ética de Spinoza".

2. Medalhão de nariz adunco: É um dos tipos mais intragáveis. Mal pisa no chão de tanta empáfia. Repele com cara de nojo todos os jovens escritores deslumbrados que o procuram para fazer uma foto a seu lado. Trata a imprensa com resmungos e frases monossilábicas, que depois virão a ser candidamente estampadas nos melhores cadernos de cultura do país como verdades transcendentes. Em público, cultiva a imagem de bacana e de eterno vanguardista. Costuma ser recebido pelas plateias com aplausos calorosos, o que sempre lhe serve de compensação para a vida sexual cada vez mais bissexta. Aliás, é gay, embora infelizmente nunca tenha tido a coragem de sair do armário. Vive semeando à boca miúda o falso boato de que a academia sueca o tem na conta de candidatíssimo ao próximo Nobel de Literatura. Mas, na verdade, se contenta, em êxtase, quando aparece no rol dos finalistas do Prêmio São Paulo.

3. Comunista da Daslu: Gosta de incendiar a platéia universitária com chavões dinossáuricos, dissertando a respeito de como a literatura deve manter o compromisso com a transformação social. Passa por autor engajado, mas adora uma vida boa. Fuma bons charutos, bebe bons vinhos, só viaja se for na primeira classe. É oriundo do corpo docente de uma grande universidade federal, porém se aposentou tão logo chegou a professor titular. Montou a própria editora, pela qual publica todos os livros de sua autoria. Escreveu o cartapácio "História da gentileza no Brasil", livro de inegável consistência documental. Entretanto, na privacidade de seu negócio editorial, conduz os funcionários debaixo do grito e do chicote.

4. Dionísio decrépito: Foi um poeta até razoável na juventude e maturidade. Escrevia poemas transgressivos, que à época tiveram bom acolhimento por parte do público e da crítica. Na velhice, contudo, transformou-se apenas em um velhinho tarado. É o terror das mocinhas que fazem o receptivo aos autores nas feiras literárias. Na van do evento, no caminho do aeroporto até o hotel, não se acanha em cantar escancaradamente as jovens belas e indefesas encarregadas de ciceroneá-lo. Quando é repelido por elas, faz cara de espanto. "Mas eu sou o poeta fulano de tal", diz, batendo no peito, a dentadura sambando de modo asqueroso na boca murcha.

5. Arroz de festa: Este parece ter o dom da onipresença. Está em todas as programações de feiras literárias e bienais do livro do pais, do Oiapoque ao Chuí. Do Festival das Letras de Sapopemba à Semana de Artes de Maracanaú, sua presença é garantida. Como os organizadores de feiras literárias Brasil afora já sabem que ele não tem nada de mais importante a fazer na vida, sempre o convidam para dar o ar de sua graça. Há vinte anos não faz outra coisa. Por isso, não publica mais uma única linha, mas ganhou a fama de palestrante profissional. Para fazer charme, usa boina de feltro. Não pode ver uma máquina fotográfica que vai logo pondo a mão no queixo, na pose clássica que os escritores gostam de fazer para fingir que têm vida interior.

6. Maldito de geração espontânea: É uma espécie desidratada de Charles Bukowsky dos trópicos, mas se acha o próprio Henry Miller do Leblon. Em seus livros, alterna um palavrão e uma escatologia a cada parágrafo que ousa cometer. Em entrevistas, orgulha-se de nunca ter frequentado a lista dos mais vendidos, cita Pedro Juan Gutierrez, Jean Genet e Baudelaire como referências, embora seu desejo secreto seja vender mais do que Paulo Coelho. Frequenta botecos pés-sujos, deixou o cabelo crescer e vive com a barba - e a vida - desgrenhada. Seu maior trunfo é conhecer um ou dois gatos pingados na redação de um grande jornal carioca, amigos que sempre arranjam um jeito de enfiar nas páginas do segundo caderno uma resenha positiva a respeito do último atentado literário de sua lavra.

7. Quindim de Iaiá: Provoca suspiros e gritinhos histéricos da ala feminina nas platéias dos festivais literários. Adora quando o chamam de "o Rodrigo Santoro das letras". Metido a galã, lota auditórios e já fez até participação especial na telenovela das oito, interpretando a si mesmo. Aliás, começou como apresentador de tevê, mas desde que contratou um ghost writer, pagando uma merreca, decidiu que seria escritor. Publica livros bisonhos sobre suas desinteressantes viagens ao redor do mundo e diz que recebe influência do jornalismo literário de Gay Talese, Truman Capote e Tom Wolfe, embora sua prosa esteja mais para a de repórter de polícia do jornal Expresso, de Fortaleza.

8. Eremita de Joinville: Cultiva a imagem de escritor recluso e inacessível. Para completar o conceito fabricado de artista enigmático e avesso à exposição pública, as orelhas de seus livros não trazem a tradicional foto do autor e os dados biográficos ali contidos se resumem a um ponto de interrogação. Ninguém sabe o número de seu telefone, a não ser o editor e um sobrinho que de vez em quando o visita. Não aceita convite para eventos, mas recentemente foi visto na Feira do Livro de Foz do Iguaçu, disfarçado de Lady Gaga.

9. Miss Paulicéia Desvairada: É considerada pela crítica especializada o mais novo talento literário nacional, embora escreva ruim pra caramba. Mas ela é assim meio bonitinha, usa óculos modernoso grandão, tem ares de fashionista e, além de má escritora, também é artista conceitual, tendo arrancado elogios da imprensa paulistana por causa de suas últimas "instalações" - entre as quais se destaca aquela em que ateou fogo em um pênis flácido de borracha e uma boneca inflável em plena passarela da São Paulo Fashion Week.

10. Neófito baba-ovo: Deste, não há muito o que falar. Pode ser encontrado facilmente babando como um cachorrinho diante do "Medalhão de nariz adunco", mendigando um prefácio. Se você não resistir à tentação de dar um chute nas partes pudendas do segundo, com certeza vai acertar em cheio a boca do primeiro.

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 11 de junho de 2010