sexta-feira, 30 de julho de 2010

Um tapinha não dói?



Doeu muito mais nela do que em mim. Naquele dia, minha mãe havia perdido o controle e partido para cima de meu lombo com o fio do ferro de passar roupa. Ela nunca fizera aquilo antes. Nem lembro qual foi a terrível traquinagem que aprontei para que dona Darcy perdesse a ternura habitual e resolvesse me dar uma boa surra, a primeira e única de toda a minha vida. Deve ter sido algo grave, mas a memória é seletiva e gosta de nos pregar peças. Apaguei para sempre de minha lembrança o motivo daquela sova histórica.

Ficou apenas a imagem de minha mãe empunhando o fio encapado com tecido branco e preto. Ela desceu-me o sarrafo uma, duas, três vezes seguidas. A cada bordoada, eu engolia o gemido e soltava uma gargalhada histérica. "Não doeu, não doeu, não doeu", eu repetia, esforçando-me para manter o ar de desafio e zombaria.

Talvez minha mãe não tenha realmente conferido, de propósito, muita força aos golpes. Talvez eu estivesse anestesiado pelo medo. O fato é que não derramei uma só lágrima. Eu chorava por dentro, em silêncio, não propriamente pela dor, mas porque percebia que os olhos de dona Darcy, estes sim, é que estavam encharcados. Ela mostrava-se visivelmente condoída pelo próprio gesto de bater no filho que sempre amou tanto.

Essa reminiscência me veio assim, de repente, nos últimos dias, quando li as notícias sobre a tal nova lei que proíbe os pais de darem palmadas nos filhos. Em minha infância, afora aquela cena do fio estalando no meu pobre e descarnado traseiro, meus pais nunca precisaram recorrer a tal expediente para nos manter na linha e nos impor limites. Para mim, aquela velha canção que éramos obrigados a cantar no colégio a cada ano, nos Dias das Mães - "...eu me lembro chinelo na mão, avental todo sujo de ovo..." - nunca fez nenhum sentido.

Jamais vi minha mãe de avental, muito menos todo sujo de ovo. Ela trabalhava fora, dando duro em uma repartição pública federal a fim de alimentar as cinco bocas que deixava em casa todas as manhãs bem cedo, antes de pegar o ônibus em Caucaia para ir até o emprego em Fortaleza. A imagem de minha mãe não correspondia em nada à da canção masoquista que sugeria a idéia de uma matrona saindo da cozinha com o avental melecado e o chinelo na mão para escorraçar os filhos.

Creio que a ausência de palmadas e chineladas em nossa casa não produziu nenhum grande estrago na minha formação. Não sou propriamente um santo, admito, mas não acredito que se tivesse levado mais algumas pancadas na tenra infância pudesse ter me tornado hoje um adulto melhor. O que nos educou não foi o solado colorido de borracha de uma havaianas, mas a força do exemplo que partia de nossa mãe.

Nunca faltaram livros e revistas, por exemplo, em nossa casa. Na volta do trabalho, à noite, minha mãe sempre trazia algum fascículo de uma enciclopédia ilustrada, um gibi, uma revistinha qualquer. Os vendedores que negociavam livros de porta em porta em Caucaia também sabiam que o número 366 da rua XV de Novembro era garantia de bom negócio.

Lembro das horas e mais horas que passei, tardes a fio, debruçado sobre as páginas em couchê fosco da enorme Delta Larrouse, devorando os textos do instigante Tesouro da Juventude, aprendendo os primeiros mistérios da ciência, da geografia e da história na divertidíssima Enciclopédia Disney. Sem falar na coleção de Monteiro Lobato, desde sempre a minha preferida entre todos os volumes de nossa modesta biblioteca familiar, na verdade uma estante de madeira em que íamos empilhando as novas aquisições. Sem dúvida, minha mãe nunca precisou tirar os chinelos dos pés para zelar por nossa educação.

Do mesmo modo, para cuidar de meus próprios filhos, nunca me permiti recorrer à pedagogia da pancada. Dois deles, Ícaro e Nara, já são adultos e estão relativamente encaminhados na vida. É evidente que, como toda criança, protagonizaram birras homéricas no passado. Nesses casos, a melhor tática sempre foi a de simplesmente ignorar tais ataques de capricho infantil até que eles se convencessem de que não é com choro e esperneio que se resolvem as coisas nessa vida. Enquanto se estrebuchavam, abriam o berreiro e davam gritos para chamar a atenção, o melhor era virar o rosto, afastar-se um pouco do local e fazer de conta que não estava dando a mínima para tamanho escarcéu. Sempre funcionou.

Agora, quando novamente sou pai de duas crianças, meu chinelo continua no pé. Mais uma vez, tem dado certo. Dia desses, Emília, 6 anos, foi com uma amiguinha a uma exposição sobre Antoine de Saint-Exupery no Parque do Ibirapuera. Ela trouxe de lá um livreto azul, no formato de um passaporte, no qual teve que preencher alguns dados pessoais. "Eu tenho uma irmã mais nova", escreveu, no local em que precisava dizer quem era. Ou seja: para Emília, a existência de Alice, de 1 ano, é a coisa mais importante a relatar sobre si mesma. Em outra página, quando o livrinho indagava o que ela jamais gostaria de esquecer, mesmo depois de se tornar uma adulta, ela escreveu, com sua letrinha garranchuda: "Falar a verdade e dizer coisas bonitas".

Como imaginar que é possível dar uma palmada em uma criaturinha assim?

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 30 de julho de 2010.
Imagem: Hieronymus Bosch

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A classe C vai ao paraíso



Escrevo este texto enquanto bebo uma água de coco gelada, contemplando o mar verde de Fortaleza emoldurado na janela do hotel. Como o quarto fica acima do décimo andar e o prédio está situado quase à beira da praia, a impressão que se tem é a de estar levitando sobre o próprio oceano. Todos os anos, venho pelo menos duas vezes para cá. Dou um tempo na correria da paulicéia e, quando o trabalho atinge um incontornável nível de estresse, tiro uma única semana de férias como esta, para reabastecer as baterias, limpar a vista, respirar a maresia.

Mas, na verdade, Fortaleza é uma daquelas cidades para onde nunca se é possível voltar exatamente para o mesmo lugar de antes. A capital cearense se autodestrói e se autoconstrói a todo instante, numa velocidade avassaladora e numa autofagia alucinada. Por isso, difícil encontrar na cartografia urbana local um marco histórico mais significativo. Há, por aqui, um visível desapego à memória, uma incorrigível instabilidade de cenários, uma volúpia em implodir referências e paisagens.

Fortaleza é a mais perfeita tradução cabocla de modernidade, onde se torna impossível determinar a fronteira entre construção e ruína. O esqueleto de concreto das obras do que deveria ser o moderno metrô da cidade – hoje com trechos aparentemente em total abandono, com suas fundações açoitadas pela chuva e pelo sol abrasador – é um dos símbolos mais eloquentes do fenômeno.

Mas, verdade seja dita. Desta vez, desde que desembarquei no aeroporto, venho notando na ensolarada cidade em que nasci certos traços de familiaridade que eu julgava para sempre perdidos. A histórica diáspora nordestina, aquela que tratou de espalhar centenas de milhares de cearenses ao léu por todo o país, está vivendo um momento singular, até então insuspeitado para mim.

Os cearenses que um dia migraram, vejam vocês, estão de retorno à própria terra. Não para ficar de vez, não para fazer o definitivo caminho de volta, mas também para simplesmente tomar água de coco, comer queijo de coalho, bronzear a pele e matar as saudades do lugar onde estão enterrados seus respectivos umbigos.

Isso mesmo. Os cearenses estão vindo para o Ceará na condição de turistas, na carona da propalada ascensão das classes C e D no país. Se algum especialista deseja compreender como se dá a inclusão de novos contingentes da população às seduções do consumo, basta olhar em torno.

O aeroporto Pinto Martins está repleto. Os hotéis de Fortaleza estão lotados; os restaurantes,
idem. Lotados de cearenses, ressalve-se. Impossível dar um único passo pelos corredores do hotel sem também dar de cara com famílias inteiras de cearenses um dia desterrados, agora de visita à cidade. No café da manhã, a demanda por tapioca deve estar batendo todos os recordes históricos.

O sotaque inconfundível (ao mesmo tempo áspero e dengoso), um certo desprendimento que às vezes pode ser confundido com a grosseria ou com a falta de modos, essa sem-cerimônia notória, tudo lhes denuncia a origem e o orgulho de estarem de volta, muitos talvez pagando passagens e hospedagens de alto padrão em módicas prestações a perder de vista.

Já no avião, ficava nítida a superioridade numérica dos cearenses em relação aos turistas de outras procedências. Além de quase todos terem as cabeças-chatas iguais à minha, muitos demonstravam a peculiar impaciência cearense que, confesso a vocês, conheço muito bem.

Quando a porta da aeronave demorou alguns poucos segundos a mais para abrir, uma senhora que estava atrás de mim passou me atropelando com malas e bagagens de mão, gritando para o atônito comissário que aguardava a devida autorização para realizar os procedimentos de praxe: “Hômi, abre isso!”, esbravejava a senhora, na mais legítima prosódia cearense. “Vixe, muié, o que foi? Deixou o feijão queimando no fogão?”, interrogou o senhor mais à frente, pondo em evidência o espontâneo humor local.

Olhei para minha mulher e trocamos sorrisos cúmplices. “Estamos em casa”, cochichei-lhe. Pois é. Eles também estão.

Texto publicado originalmente no jornal Brasil Econômico, caderno Outlook, em 23 de julho de 2010.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Vida longa à ousadia



Existe algo de novo sob o sol escaldante da capital cearense - e não é aquele esdrúxulo jardim japonês à beira-mar. De férias em Fortaleza por uma semana, fiz questão de ir na última terça-feira à simpática livraria Lua Nova, no bairro universitário do Benfica, para conhecer os misteriosos autores de uma publicação apócrifa, que tem dado o que falar por estas bandas.

Eu estava curiosíssimo para saber, afinal de contas, quem responde pela linha editorial anárquica e pelos textos escrachados da tal "Aerolândia", uma revista virtual que tem feito rir a muitos e tirado outros tantos do sério na cidade. Tenho amigos diletos que amam a revista; outros que a odeiam com todas as forças de seus sinceros e ofendidos corações.

A aventura de enfrentar o inferno do engarrafamento da 13 de Maio e de aturar os grunhidos de protesto do taxista valeram a pena. Finalmente deparei-me, no café literário da livraria, com os culpados pelo tão malcriado e bissexto "semanário". Diante da platéia lotada, um grupo de jovens estudantes de jornalismo, com uma expressão facial que às vezes variava entre o espanto e o cinismo, assumiu a autoria do flagrante delito.

Na maior parte do tempo em que durou o evento, era visível, eles próprios pareciam surpresos com o fuzuê que têm conseguido provocar até aqui. Pudera. O que começou como mera brincadeira iconoclasta terminou por ganhar corpo, tomou proporções imprevistas e se transformou em um caso indiscutível de sucesso editorial. "Nós, simplesmente, não nos levamos a sério", avisaram, numa frase que sintetiza o espírito do grupo e, ao mesmo tempo, explica as razões tanto do entusiasmo quanto do incômodo que provocam.

Sem pedir licença, os responsáveis por "Aerolândia" chegaram com sua revista atrevida metendo o dedo no olho do jornalismo burocrático e dando uma voadora radical sobre o comodismo. São desregrados, desbocados, desavergonhadamente impudicos. Têm uma irreverência selvagem, um sarcasmo impiedoso, um escárnio demolidor. Sua molecagem não respeita nada e ninguém. Sua maior diversão é desferir pontapés no traseiro da moral e dos bons costumes. Por isso mesmo são bem-vindos, necessários, imprescindíveis.

Em um dos momentos de maior mordacidade e insolência da revista, eles tiraram um sarro antológico até mesmo da estátua de Nossa Senhora de Fátima, um dos símbolos mais representativos da vocação carola e kitsch da classe média fortalezense. Eu próprio fui vítima da revista, quando me tornei alvo de uma fotomontagem em que a redação da "Aerolândia" me flagrava em um instante de manifesta ressaca moral. Tive ganas de mandá-los vocês sabem exatamente para onde. Mas compreendi que rir de mim mesmo era, sem dúvida, o único remédio que me restava. Em vez de amaldiçoá-los, tornei-me fã ainda mais confesso.

É evidente que a revista "Aerolândia" nasceu como uma paródia gonza de sua prima rica e bem-nascida, a revista "Aldeota" (publicação que já chegou a mais de duas dezenas de edições semanais impressas, um feito e tanto em um mercado editorial rarefeito como o cearense). E me arrisco a supor que a irreverência e a força avassaladora do recado desferido pela moçada da "Aerolândia" são responsáveis, em alguma medida, por certas correções de rota na própria redação da "Aldeota" que, depois de um início claudicante e de alguns aldeotismos, vem acertando a mão em sucessivas edições de excelente qualidade gráfica e textual, de tirar o chapéu.

Contudo, o fundamental é que ambas, "Aerolândia" e "Aldeota", estão fazendo vir à tona uma promissora geração de talentos em terras alencarinas. A pasmaceira que dominou e engessou parte da vida intelectual de Fortaleza nas últimas duas ou três décadas tem tudo para ser sacudida, de uma vez por todas, por estes jovens jornalistas e escritores que têm encontrado, nas duas revistas, uma no papel, outra na virtualidade, o canal oportuno para experimentar e exercitar toda a sua verve, sensibilidade e argúcia. Que eles tomem então conta do cenário e ponham um ponto final no pacto de mediocridade que vigorou nesta cidade durante tanto tempo.

O frufru dos lançamentos semanais de livros toscos em clubes sociais pretensamente chiques de Fortaleza, por exemplo, precisa ter fim. A empáfia beletrista de certas patotas, também. A condescendência com as eternas confrarias do elogio mútuo, de há muito, já esgotou o prazo de validade. Sorte de Fortaleza que pode contar, simultaneamente, com uma audaciosa "Aldeota" e uma esculhambada "Aerolândia". Que venham outras. De longe, ficarei torcendo para que apareçam uma "Papicu", uma "Quintino Cunha", uma "Varjota", uma "Parque Araxá", uma "Montese". Os leitores, ávidos, agradecem. E nós, da chamada grande imprensa, teremos muito o que aprender com elas.

Vida longa à "Aldeota". Vida longa à "Aerolândia". Vida longa à ousadia.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 23 de julho de 2010)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O ovo (gorado) da serpente



O nome dela é Fabiana. Em seu lacônico perfil na internet, ela não nos revela o sobrenome. Mas se diz "nascida e criada em São Paulo, filha e neta de paulistas". Informa-nos também, com idêntico orgulho: "Crescida na capital, com vínculos com o interior". Fabiana, que se assume uma "iniciante em temas como cultura e autodeterminação há cerca de dois anos", é moderadora do blog "São Paulo para os paulistas".

Os anônimos idealizadores do blog, dias atrás, despejaram na rede uma petição às autoridades e à sociedade paulista. Até o instante em que garatujo este texto, 471 indivíduos - supostamente todos membros de quatrocentonas estirpes de Piratininga - adicionaram o nome ao documento. Pena que boa parte dos signatários adote o exemplo de Fabiana e não nos consinta conhecer os sobrenomes, o que nos impede de conferir-lhes até onde vai a integridade dos galhos de sua venerável árvore genealógica.

"São Paulo é grandioso, nossos antepassados trabalharam para isso", gaba-se o manifesto. "Não se deve permitir que outros se apoderem do que é nosso", defendem os autores da briosa petição. "Todo local ao nosso redor está infestado de migrantes", escandalizam-se. "Nas ruas, ônibus, supermercados, parques, todos os postos tomados. Ao adentrar em um comércio, todos os funcionários são migrantes. Isto é um extermínio cultural inadmissível", protestam, quiçá tapando o nariz, provavelmente arrebitado.

Por falar em extermínio, a repulsa de Fabiana e seus camaradas nessa cruzada moral e cívica não é contra a migração em geral, mas contra uma espécie peculiar de migrante. Em relação aos estrangeiros, por exemplo, nada têm a objetar. "Estes ajudaram a construir São Paulo", acreditam. Mas "repugnamos o ´R´ gutural, vogais abertas, as expressões ´ôxe´, etc.", particularizam.

Consideram falácia a afirmação de que São Paulo foi construída pelo braço nordestino. Até os anos 50, imaginam, a presença de migrantes do Nordeste teria sido "irrisória" para o estado. "As fotos e filmagens do período atestam o perfil da população", afiançam, demonstrando um rigor histórico capaz de fazer o ectoplasma de Plínio Salgado dar pinotes de vergonha. "São Paulo não optou por esta mão-de-obra. Em sua ausência, seria substituída", alegam. "E com melhor qualidade", asseguram.

Os idealizadores do manifesto repudiam a pecha de racistas que, presumem, desabará sobre suas afiladas cabeças: "Não existem culturas superiores ou inferiores. Respeitamos todas as culturas", declaram. "Exigimos que respeitem a nossa, agredida pela migração", ressalvam. "A cultura migrante caracteriza-se por ser agressiva, violenta, simbolizada no fato de ter como seu herói a figura de um cangaceiro". Com base em uma lógica escalafobética, deduzem: "Daí a alta taxa de criminalidade cometida por migrantes em São Paulo".

Os verdadeiros preconceituosos, raciocinam os companheiros da altiva Fabiana, somos nós, os próprios migrantes. "Preconceito é invadir a terra alheia, prejulgando que pode jogar lixo nela, apoderar-se, impor cultura e costumes, ouvir seus ritmos, falar alto em ônibus", revoltam-se os polidos signatários. "Preconceito é o ato de, sendo intruso, negar o direito ao dono da casa de se manifestar", sofismam, evocando o sagrado princípio da livre expressão. "Esclarecemos que não se possui absolutamente nenhuma animosidade contra aqueles que estão em sua terra", explicam. Estará tudo bem, desde que os nordestinos "façam arruaças em suas terras de origem". E advertem: "São Paulo não é filial do Nordeste".

Os digníssimos que assinam o manifesto denunciam uma "vitimação" orquestrada por nordestinos. "Migrantes fazem-se de vítima" para disfarçar a "cobiça de tomar o que é do outro". O argumento remete ao horror antissemita, mas os 471 confrades de Fabiana refutam qualquer hipótese de serem confundidos com nazistas, fascistas, skinheads e afins.

"Não compactuamos com idéias ilegais, clandestinas, desumanas ou intolerantes", juram, para afirmar que não estão amparados em "conceitos prévios", mas em "fatos" concretos. Queixam-se, por exemplo, de que "a quase totalidade dos serviços públicos de São Paulo são para usufruto de outras culturas": postos de saúde, transporte, atendimentos de emergência, assistência social. Como se não bastasse, "migrantes tomam vagas de nossas crianças nas escolas e creches, aumentam a demanda por merenda". Sentindo-se ultrajados, proclamam: "É hora do povo paulista ser menos altruísta".

A pobreza histórica do Nordeste, avalia o manifesto, seria fruto do gosto atávico dos nordestinos pela folia. "Festas juninas interrompem o trabalho por um mês. Há os carnavais fora de época, intermináveis. Enquanto isso, o paulista esgota-se no trabalho".

Como solução final para a "migração predatória", propõem às autoridades medidas radicais. Uma delas, a suspensão de todo e qualquer benefício público a migrantes, incluindo hospitais, escolas, metrôs e creches. Querem multas para empresas que contratem temporários migrantes mas que não providenciem a sua devida "devolução". Concursos públicos seriam vedados a migrantes. O ofício de professor, idem. "O baixo desempenho do estado nos indicadores nacionais são devidos aos migrantes", justificam, aliás, patinando na gramática.

Por fim, solicitam a demolição do Monumento ao Migrante Nordestino e a proibição dos Centros de Tradições Nordestinas no estado. "Repudiamos qualquer tipo de evento à cultura migrante com verbas públicas", bradam. "Tenta-se vender a ideia de que São Paulo é terra sem dono, casa-da-mãe-joana", deploram. "Nossa praças não são locais de rodas de forró", reclamam. "São Paulo para os paulistas!", exigem os 471 gatos pingados, patética e burlesca minoria em uma terra arrebatadora e generosa. Trágico, não fosse tão cômico.

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 16 de julho de 2010.
Imagem: Rufino Tamayo.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Oba, tem uma cearense na minha cozinha



Dona Socorro chegou aqui em casa faz três semanas. Não lhe peçam firulas gastronômicas ou ousadias culinárias. Ela não é de inventar na cozinha. Se não é exatamente um Alex Atala, sabe preparar um arroz com feijão que minha mulher adora, uma tapioca fininha de dar gosto, um ovo frito com gema meio dura, meio mole, que é assim uma obra-prima.

Morando há mais de 30 anos em São Paulo, a cabocla fortalezense vinda do bairro da Serrinha felizmente não perdeu o sotaque carregado, o jeitão despachado, a cearensíssima sem-cerimônia. "Tu num quer mais um tiquim de farofa?", pergunta-me, à hora do almoço, com aquela prosódia característica que me remete às origens suburbanas. "E a bixinha num vai cumê, não?", indaga, os olhos por cima dos óculos, vendo minha filha com cara de pouco apetite. "Tá de fastio, num é? Tadinha", lamenta. "Deve ser verme", conclui.

Quando fala, além da peculiar e quase comovente falta de noção, dos diminutivos sem conta e da flexão deliciosamente imperfeita da segunda pessoa do singular, dona Socorro engole também o "d" dos gerúndios, essa outra marca típica da cearensidade. Com ela, não é "cozinhando"; mas "cozinhano". Não é "temperando"; mas "temperano". Aqui em São Paulo, onde os gerúndios são estendidos a perder da conta ("cozinhaaaannnnnndo", "temperaaannnnndo"), isso vale como um afago aos ouvidos de um cearense desterrado há quase uma década.

Com a chegada de dona Socorro, comecei a fazer, por conta própria, um inventário das palavras que andavam meio sumidinhas aqui de casa: "sereno" (para definir o orvalho noturno), "arrochado", "abestado", "nebrinando", "arrudiar", "chulipa", "batoré", "avexado", "cuxia" (meio-fio), "lascado", "pebado", "ispilicute" e "assanhado" (no sentido de despenteado, entenda-se).

Minha filha, nascida e criada em São Paulo, acha engraçado o jeito de dona Socorro falar, muito embora, às vezes, não consiga compreender o que ela diz. Não só por questões de vocabulário, mas também de pronúncia. "Dinheiro", por exemplo, vira dim-êro. O "h" do dígrafo desaparece cearensemente em algum desvão misterioso da fala e o segundo "i" vai para o espaço. "Cozinha", por sua vez, soa como algo próximo a "cuzi-ã".

Talvez por uma sábia lei do menor esforço, os "erres" finais dos verbos também se evaporam. "Vou fechá a porta da cuzi-ã prumode num passá o chêro de cumida pru restu da casa", avisa a previdente dona Socorro, fonte obrigatória de qualquer pesquisador disposto a elaborar um atlas linguístico da fala cearense. Aquele "prumode", então, é supimpa. Uma preciosidade. Adoro.

O mais curioso é que, apesar de ter chegado há tão pouco tempo para trabalhar conosco, dona Socorro criou uma empatia imediata com todos aqui em casa. É como se a conhecêssemos desde sempre. Há algo de verdadeiramente familiar nessa certa ausência de modos, nessa maneira de falar ao mesmo tempo áspero e dengoso, nesse jeito pouco cerimonioso e desabusado de ocupar espaços. Desde que ela não esparrame na comida aquele tempero abominável chamado cominho, ficará tudo bem, prevejo.

Pelo menos, desde que chegamos em São Paulo, é a primeira vez que temos alguém na cozinha que sente prazer, para sorte nossa, em usar e abusar do delicioso coentro, coisa que os paulistas execram. Semana passada, quando eu trouxe do supermercado um suculento rabo de boi, dona Socorro mostrou que seu forte é mesmo a cozinha rústica nordestina, uma de minhas maiores saudades do Ceará. Não é todo dia que se vê uma rabada com coentro como aquela, nesta cidade que se orgulha de ser a capital gastronômica do Brasil.

A fala e a comida de dona Socorro têm o mesmo sabor e o mesmo encanto simples de coisas que nos remetem, aqui na Pauliceia, a uma outra fruição do tempo, a um outro ritmo de vida: o ritmo do balanço de rede, do baião de Luiz Gonzaga, do arrastar de chinelo no alpendre.

Dona Socorro também é dona daquele peculiar e atávico senso de humor cearense, mesmo quando verdadeiramente ela não quer nos fazer rir. Mãe do Rogério, zelador do prédio, jura que o filho, quando nasceu, era até bonitinho. "Mas a gente só via a cabeça do bixim, de tão grande que ela era", comenta, sinceramente comovida, enquanto mexe o caldo no fogão.

Se já demonstrou intimidade suficiente com temperos e panelas, dona Socorro ainda não se entendeu bem foi com a maquininha de café espresso. Atrapalha-se toda com minha engenhoca de estimação. Fica apavorada quando não consegue apertar os botões certos.

Dia desses, ao ver sair apenas água quente da máquina, desesperou-se de vez. Quando minha mulher entrou na cozinha, percebeu-lhe o pânico. Indagada se havia lembrado de colocar antes a cápsula de café no local apropriado, dona Socorro fez cara de alívio. "Vixe, é mermo, muié!", exclamou e, de tão contente, ato contínuo, sentou um tapão nas costas de Adriana, à guisa de agradecimento.

O tapão nas costas, penso eu, é uma das instituições mais legítimas e um dos traços mais característicos da cultura do Ceará. A expansividade de Dona Socorro me fez lembrar do garçom que, certa vez, em um restaurante distinto de Fortaleza, atendeu-me também com um baita tapa no ombro, como demonstração de cortesia e gentileza: "E aí, minha joia, vai cumê o quê?"

Já avisei à minha mulher que, da próxima vez que dona Socorro se atrapalhar na hora de fazer o café espresso, pode deixar que eu resolvo. Vou chegar de repente na cozinha e exclamar, sorrindo, caprichando no meu melhor cearencês: "Ah, uma jaula...!!!".

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 9 de julho de 2010.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Só os medíocres têm medo do talento



Quase não acreditei no que estava vendo e ouvindo. Na tevê, no comercial de uma dessas beberagens isotônicas, enquanto as imagens mostravam os atletas da seleção canarinho saindo do túnel para o gramado, o narrador soltava o seguinte disparate: "Jogador da seleção brasileira, quando entrar em campo, esqueça que é um craque". Como assim? Esquecer-se de que é craque? Quem foi o publicitário de mente brilhante que bolou semelhante coisa, em um país historicamente produtor de fenomenais talentos da bola?

Meu assombro tornou-se ainda maior quando, na cena seguinte, a narração prosseguiu: "É melhor um jogador com força de vontade do que um gênio na zona de conforto". Àquela altura, eu já estava boquiaberto, mas entendendo tudo. Lá vem de novo aquele discurso tacanho de que o esforço, a tal "força de vontade", é mais importante do que a criatividade. Quem foi que disse, deus-do-céu, que a verdadeira genialidade se permite estacionar em alguma espécie de "zona de conforto", seja lá o que venha a ser isso? Penso que a genialidade é, por essência, inquieta, ansiosa, sedenta, incômoda. Nunca confortável. Nem é preciso ser gênio para constatar isso.

"Sue a camisa, jogue com a alma", insistia o comercial, opondo mais uma vez o talento à determinação. Isso representa, com todas as dolorosas letras, o discurso da mediocridade contra a habilidade, a redenção dos "esforçados" em detrimento do mérito, a supremacia dos tratores frente à sutileza. É, em suma, a mais perfeita tradução da chamada "Era Dunga", ela sim, a verdadeira "zona de conforto" dos medianos, responsável por transplantar para os gramados os piores chavões da autoajuda e os mais infames clichês da comunicação organizacional.

Recordo que, quando eu ainda trabalhava em uma redação de jornal, um desses consultores pagos a peso de ouro pela direção da casa ousou ensaiar tal homilia para uma plateia de funcionários. Para demonstrar que todos deviam "vestir a camisa" da organização, o consultor sugeriu que alguns dos melhores jornalistas da redação pegassem da vassoura e fossem limpar o chão. A mim, então editor de cultura, coube a sublime tarefa de lavar a cantina do jornal.

Tentei, naquele dia, esboçar para o grupo uma reflexão sobre as raízes da divisão social do trabalho, da cisão entre trabalho manual e o trabalho intelectual, discutir as causas e consequências da ruptura histórica entre as tarefas de execução e reflexão, mas fui interrompido pelo senhor consultor. "Não é isso que está em questão aqui. Queremos apenas que todos se mostrem dispostos a suar a camisa em nome do grupo", sentenciou, com sua colossal sapiência. Se era assim, então me rebelei. "Lavarei a cantina se aquela senhora, que fica de avental lá por trás do balcão, vier editar aqui o caderno de cultura", aloprei. "Vocês estão vendo?", disse o sujeito, vitorioso, apontando para mim. "Nem sempre os que se julgam mais capazes são aqueles que melhor servem à organização", comemorou. A cantina, é claro, continuou a imundície de sempre.

Com a seleção de Dunga, dá-se fenômeno similar. É evidente que o trauma da Copa passada, quando as mais badaladas estrelas da seleção brasileira deram aquele vexame histórico, está no cerne de todo esse equívoco. Confunde-se, de forma bobinha ou talvez mal intencionada, a soberba com o talento, a empáfia midiática com a genialidade, o pavão malabarista com o craque.

De modo ainda mais perverso, hoje, no caso da seleção brasileira, valoriza-se a fidelidade canina em lugar do merecimento. Opõe-se a eficiência ao brilho, a lealdade ao primor, o futebol de resultados ao futebol-arte, como se essas coisas fossem excludentes entre si, como se nunca houvéssemos sequer ouvido falar por aqui de certos sujeitos chamados Pelé, Tostão e Gérson, tão eficientes quanto brilhantes.

A Seleção de 1982, aquela geração comandada por Telê Santana, com Zico, Falcão, Sócrates e Júnior, carrega para todo o sempre a pecha de ter sido um time fenomenal, cheio de craques, mas que não conseguiu levantar a taça de campeão do mundo. Desde então, os arautos da pequenez engrossaram a voz. Desde ali, os carregadores de piano, os brucutus, os que "suam a camisa", os que têm a oferecer unicamente a força de vontade, os "determinados", os apenas esforçados, estes se tornaram os verdadeiros eleitos.

Hoje, 2 de julho de 2010, dia em que o Brasil enfrenta a Holanda nas quartas-de-final da Copa do Mundo da África do Sul, torcerei para o time de Dunga. Não porque Dunga tenha se transformado no super-herói carrancudo de certo esquerdismo infantil que adorou vê-lo peitar a principal rede de televisão do país. Mas pelo simples fato de que, para mim, é humanamente impossível torcer contra aquelas míticas camisas amarelas.

Espero, portanto, que o Brasil passe à semifinal e que, depois disso, se torne hexacampeão do mundo, de preferência vencendo uma final contra a Argentina do impagável Maradona. Ou contra a jovial Alemanha, que trocou o futebol burocrático por alguma desenvoltura e certa iluminação.

Mas torço, principalmente, para que Kaká e Robinho desequilibrem e se destaquem como nunca nessa equipe brasileira, apinhada de jogadores assim-assim, que não fedem nem cheiram, que não são carne nem peixe, que se sentem perfeitamente confortáveis na categoria do mais-ou-menos. Minha torcida, portanto, é para que, exatamente ao contrário do que diz o comercial do isotônico, alguém nesse time esqueça a tal história de que não há mais lugar no mundo para o brilho, para o talento, para o bom-humor, para a alegria, para o lampejo do craque.

Salve a Seleção. Ou melhor: salvem a Seleção.

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 2 de julho de 2010.