segunda-feira, 26 de julho de 2010

A classe C vai ao paraíso



Escrevo este texto enquanto bebo uma água de coco gelada, contemplando o mar verde de Fortaleza emoldurado na janela do hotel. Como o quarto fica acima do décimo andar e o prédio está situado quase à beira da praia, a impressão que se tem é a de estar levitando sobre o próprio oceano. Todos os anos, venho pelo menos duas vezes para cá. Dou um tempo na correria da paulicéia e, quando o trabalho atinge um incontornável nível de estresse, tiro uma única semana de férias como esta, para reabastecer as baterias, limpar a vista, respirar a maresia.

Mas, na verdade, Fortaleza é uma daquelas cidades para onde nunca se é possível voltar exatamente para o mesmo lugar de antes. A capital cearense se autodestrói e se autoconstrói a todo instante, numa velocidade avassaladora e numa autofagia alucinada. Por isso, difícil encontrar na cartografia urbana local um marco histórico mais significativo. Há, por aqui, um visível desapego à memória, uma incorrigível instabilidade de cenários, uma volúpia em implodir referências e paisagens.

Fortaleza é a mais perfeita tradução cabocla de modernidade, onde se torna impossível determinar a fronteira entre construção e ruína. O esqueleto de concreto das obras do que deveria ser o moderno metrô da cidade – hoje com trechos aparentemente em total abandono, com suas fundações açoitadas pela chuva e pelo sol abrasador – é um dos símbolos mais eloquentes do fenômeno.

Mas, verdade seja dita. Desta vez, desde que desembarquei no aeroporto, venho notando na ensolarada cidade em que nasci certos traços de familiaridade que eu julgava para sempre perdidos. A histórica diáspora nordestina, aquela que tratou de espalhar centenas de milhares de cearenses ao léu por todo o país, está vivendo um momento singular, até então insuspeitado para mim.

Os cearenses que um dia migraram, vejam vocês, estão de retorno à própria terra. Não para ficar de vez, não para fazer o definitivo caminho de volta, mas também para simplesmente tomar água de coco, comer queijo de coalho, bronzear a pele e matar as saudades do lugar onde estão enterrados seus respectivos umbigos.

Isso mesmo. Os cearenses estão vindo para o Ceará na condição de turistas, na carona da propalada ascensão das classes C e D no país. Se algum especialista deseja compreender como se dá a inclusão de novos contingentes da população às seduções do consumo, basta olhar em torno.

O aeroporto Pinto Martins está repleto. Os hotéis de Fortaleza estão lotados; os restaurantes,
idem. Lotados de cearenses, ressalve-se. Impossível dar um único passo pelos corredores do hotel sem também dar de cara com famílias inteiras de cearenses um dia desterrados, agora de visita à cidade. No café da manhã, a demanda por tapioca deve estar batendo todos os recordes históricos.

O sotaque inconfundível (ao mesmo tempo áspero e dengoso), um certo desprendimento que às vezes pode ser confundido com a grosseria ou com a falta de modos, essa sem-cerimônia notória, tudo lhes denuncia a origem e o orgulho de estarem de volta, muitos talvez pagando passagens e hospedagens de alto padrão em módicas prestações a perder de vista.

Já no avião, ficava nítida a superioridade numérica dos cearenses em relação aos turistas de outras procedências. Além de quase todos terem as cabeças-chatas iguais à minha, muitos demonstravam a peculiar impaciência cearense que, confesso a vocês, conheço muito bem.

Quando a porta da aeronave demorou alguns poucos segundos a mais para abrir, uma senhora que estava atrás de mim passou me atropelando com malas e bagagens de mão, gritando para o atônito comissário que aguardava a devida autorização para realizar os procedimentos de praxe: “Hômi, abre isso!”, esbravejava a senhora, na mais legítima prosódia cearense. “Vixe, muié, o que foi? Deixou o feijão queimando no fogão?”, interrogou o senhor mais à frente, pondo em evidência o espontâneo humor local.

Olhei para minha mulher e trocamos sorrisos cúmplices. “Estamos em casa”, cochichei-lhe. Pois é. Eles também estão.

Texto publicado originalmente no jornal Brasil Econômico, caderno Outlook, em 23 de julho de 2010.