sexta-feira, 2 de julho de 2010

Só os medíocres têm medo do talento



Quase não acreditei no que estava vendo e ouvindo. Na tevê, no comercial de uma dessas beberagens isotônicas, enquanto as imagens mostravam os atletas da seleção canarinho saindo do túnel para o gramado, o narrador soltava o seguinte disparate: "Jogador da seleção brasileira, quando entrar em campo, esqueça que é um craque". Como assim? Esquecer-se de que é craque? Quem foi o publicitário de mente brilhante que bolou semelhante coisa, em um país historicamente produtor de fenomenais talentos da bola?

Meu assombro tornou-se ainda maior quando, na cena seguinte, a narração prosseguiu: "É melhor um jogador com força de vontade do que um gênio na zona de conforto". Àquela altura, eu já estava boquiaberto, mas entendendo tudo. Lá vem de novo aquele discurso tacanho de que o esforço, a tal "força de vontade", é mais importante do que a criatividade. Quem foi que disse, deus-do-céu, que a verdadeira genialidade se permite estacionar em alguma espécie de "zona de conforto", seja lá o que venha a ser isso? Penso que a genialidade é, por essência, inquieta, ansiosa, sedenta, incômoda. Nunca confortável. Nem é preciso ser gênio para constatar isso.

"Sue a camisa, jogue com a alma", insistia o comercial, opondo mais uma vez o talento à determinação. Isso representa, com todas as dolorosas letras, o discurso da mediocridade contra a habilidade, a redenção dos "esforçados" em detrimento do mérito, a supremacia dos tratores frente à sutileza. É, em suma, a mais perfeita tradução da chamada "Era Dunga", ela sim, a verdadeira "zona de conforto" dos medianos, responsável por transplantar para os gramados os piores chavões da autoajuda e os mais infames clichês da comunicação organizacional.

Recordo que, quando eu ainda trabalhava em uma redação de jornal, um desses consultores pagos a peso de ouro pela direção da casa ousou ensaiar tal homilia para uma plateia de funcionários. Para demonstrar que todos deviam "vestir a camisa" da organização, o consultor sugeriu que alguns dos melhores jornalistas da redação pegassem da vassoura e fossem limpar o chão. A mim, então editor de cultura, coube a sublime tarefa de lavar a cantina do jornal.

Tentei, naquele dia, esboçar para o grupo uma reflexão sobre as raízes da divisão social do trabalho, da cisão entre trabalho manual e o trabalho intelectual, discutir as causas e consequências da ruptura histórica entre as tarefas de execução e reflexão, mas fui interrompido pelo senhor consultor. "Não é isso que está em questão aqui. Queremos apenas que todos se mostrem dispostos a suar a camisa em nome do grupo", sentenciou, com sua colossal sapiência. Se era assim, então me rebelei. "Lavarei a cantina se aquela senhora, que fica de avental lá por trás do balcão, vier editar aqui o caderno de cultura", aloprei. "Vocês estão vendo?", disse o sujeito, vitorioso, apontando para mim. "Nem sempre os que se julgam mais capazes são aqueles que melhor servem à organização", comemorou. A cantina, é claro, continuou a imundície de sempre.

Com a seleção de Dunga, dá-se fenômeno similar. É evidente que o trauma da Copa passada, quando as mais badaladas estrelas da seleção brasileira deram aquele vexame histórico, está no cerne de todo esse equívoco. Confunde-se, de forma bobinha ou talvez mal intencionada, a soberba com o talento, a empáfia midiática com a genialidade, o pavão malabarista com o craque.

De modo ainda mais perverso, hoje, no caso da seleção brasileira, valoriza-se a fidelidade canina em lugar do merecimento. Opõe-se a eficiência ao brilho, a lealdade ao primor, o futebol de resultados ao futebol-arte, como se essas coisas fossem excludentes entre si, como se nunca houvéssemos sequer ouvido falar por aqui de certos sujeitos chamados Pelé, Tostão e Gérson, tão eficientes quanto brilhantes.

A Seleção de 1982, aquela geração comandada por Telê Santana, com Zico, Falcão, Sócrates e Júnior, carrega para todo o sempre a pecha de ter sido um time fenomenal, cheio de craques, mas que não conseguiu levantar a taça de campeão do mundo. Desde então, os arautos da pequenez engrossaram a voz. Desde ali, os carregadores de piano, os brucutus, os que "suam a camisa", os que têm a oferecer unicamente a força de vontade, os "determinados", os apenas esforçados, estes se tornaram os verdadeiros eleitos.

Hoje, 2 de julho de 2010, dia em que o Brasil enfrenta a Holanda nas quartas-de-final da Copa do Mundo da África do Sul, torcerei para o time de Dunga. Não porque Dunga tenha se transformado no super-herói carrancudo de certo esquerdismo infantil que adorou vê-lo peitar a principal rede de televisão do país. Mas pelo simples fato de que, para mim, é humanamente impossível torcer contra aquelas míticas camisas amarelas.

Espero, portanto, que o Brasil passe à semifinal e que, depois disso, se torne hexacampeão do mundo, de preferência vencendo uma final contra a Argentina do impagável Maradona. Ou contra a jovial Alemanha, que trocou o futebol burocrático por alguma desenvoltura e certa iluminação.

Mas torço, principalmente, para que Kaká e Robinho desequilibrem e se destaquem como nunca nessa equipe brasileira, apinhada de jogadores assim-assim, que não fedem nem cheiram, que não são carne nem peixe, que se sentem perfeitamente confortáveis na categoria do mais-ou-menos. Minha torcida, portanto, é para que, exatamente ao contrário do que diz o comercial do isotônico, alguém nesse time esqueça a tal história de que não há mais lugar no mundo para o brilho, para o talento, para o bom-humor, para a alegria, para o lampejo do craque.

Salve a Seleção. Ou melhor: salvem a Seleção.

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 2 de julho de 2010.