sexta-feira, 30 de julho de 2010

Um tapinha não dói?



Doeu muito mais nela do que em mim. Naquele dia, minha mãe havia perdido o controle e partido para cima de meu lombo com o fio do ferro de passar roupa. Ela nunca fizera aquilo antes. Nem lembro qual foi a terrível traquinagem que aprontei para que dona Darcy perdesse a ternura habitual e resolvesse me dar uma boa surra, a primeira e única de toda a minha vida. Deve ter sido algo grave, mas a memória é seletiva e gosta de nos pregar peças. Apaguei para sempre de minha lembrança o motivo daquela sova histórica.

Ficou apenas a imagem de minha mãe empunhando o fio encapado com tecido branco e preto. Ela desceu-me o sarrafo uma, duas, três vezes seguidas. A cada bordoada, eu engolia o gemido e soltava uma gargalhada histérica. "Não doeu, não doeu, não doeu", eu repetia, esforçando-me para manter o ar de desafio e zombaria.

Talvez minha mãe não tenha realmente conferido, de propósito, muita força aos golpes. Talvez eu estivesse anestesiado pelo medo. O fato é que não derramei uma só lágrima. Eu chorava por dentro, em silêncio, não propriamente pela dor, mas porque percebia que os olhos de dona Darcy, estes sim, é que estavam encharcados. Ela mostrava-se visivelmente condoída pelo próprio gesto de bater no filho que sempre amou tanto.

Essa reminiscência me veio assim, de repente, nos últimos dias, quando li as notícias sobre a tal nova lei que proíbe os pais de darem palmadas nos filhos. Em minha infância, afora aquela cena do fio estalando no meu pobre e descarnado traseiro, meus pais nunca precisaram recorrer a tal expediente para nos manter na linha e nos impor limites. Para mim, aquela velha canção que éramos obrigados a cantar no colégio a cada ano, nos Dias das Mães - "...eu me lembro chinelo na mão, avental todo sujo de ovo..." - nunca fez nenhum sentido.

Jamais vi minha mãe de avental, muito menos todo sujo de ovo. Ela trabalhava fora, dando duro em uma repartição pública federal a fim de alimentar as cinco bocas que deixava em casa todas as manhãs bem cedo, antes de pegar o ônibus em Caucaia para ir até o emprego em Fortaleza. A imagem de minha mãe não correspondia em nada à da canção masoquista que sugeria a idéia de uma matrona saindo da cozinha com o avental melecado e o chinelo na mão para escorraçar os filhos.

Creio que a ausência de palmadas e chineladas em nossa casa não produziu nenhum grande estrago na minha formação. Não sou propriamente um santo, admito, mas não acredito que se tivesse levado mais algumas pancadas na tenra infância pudesse ter me tornado hoje um adulto melhor. O que nos educou não foi o solado colorido de borracha de uma havaianas, mas a força do exemplo que partia de nossa mãe.

Nunca faltaram livros e revistas, por exemplo, em nossa casa. Na volta do trabalho, à noite, minha mãe sempre trazia algum fascículo de uma enciclopédia ilustrada, um gibi, uma revistinha qualquer. Os vendedores que negociavam livros de porta em porta em Caucaia também sabiam que o número 366 da rua XV de Novembro era garantia de bom negócio.

Lembro das horas e mais horas que passei, tardes a fio, debruçado sobre as páginas em couchê fosco da enorme Delta Larrouse, devorando os textos do instigante Tesouro da Juventude, aprendendo os primeiros mistérios da ciência, da geografia e da história na divertidíssima Enciclopédia Disney. Sem falar na coleção de Monteiro Lobato, desde sempre a minha preferida entre todos os volumes de nossa modesta biblioteca familiar, na verdade uma estante de madeira em que íamos empilhando as novas aquisições. Sem dúvida, minha mãe nunca precisou tirar os chinelos dos pés para zelar por nossa educação.

Do mesmo modo, para cuidar de meus próprios filhos, nunca me permiti recorrer à pedagogia da pancada. Dois deles, Ícaro e Nara, já são adultos e estão relativamente encaminhados na vida. É evidente que, como toda criança, protagonizaram birras homéricas no passado. Nesses casos, a melhor tática sempre foi a de simplesmente ignorar tais ataques de capricho infantil até que eles se convencessem de que não é com choro e esperneio que se resolvem as coisas nessa vida. Enquanto se estrebuchavam, abriam o berreiro e davam gritos para chamar a atenção, o melhor era virar o rosto, afastar-se um pouco do local e fazer de conta que não estava dando a mínima para tamanho escarcéu. Sempre funcionou.

Agora, quando novamente sou pai de duas crianças, meu chinelo continua no pé. Mais uma vez, tem dado certo. Dia desses, Emília, 6 anos, foi com uma amiguinha a uma exposição sobre Antoine de Saint-Exupery no Parque do Ibirapuera. Ela trouxe de lá um livreto azul, no formato de um passaporte, no qual teve que preencher alguns dados pessoais. "Eu tenho uma irmã mais nova", escreveu, no local em que precisava dizer quem era. Ou seja: para Emília, a existência de Alice, de 1 ano, é a coisa mais importante a relatar sobre si mesma. Em outra página, quando o livrinho indagava o que ela jamais gostaria de esquecer, mesmo depois de se tornar uma adulta, ela escreveu, com sua letrinha garranchuda: "Falar a verdade e dizer coisas bonitas".

Como imaginar que é possível dar uma palmada em uma criaturinha assim?

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 30 de julho de 2010.
Imagem: Hieronymus Bosch