sexta-feira, 23 de julho de 2010

Vida longa à ousadia



Existe algo de novo sob o sol escaldante da capital cearense - e não é aquele esdrúxulo jardim japonês à beira-mar. De férias em Fortaleza por uma semana, fiz questão de ir na última terça-feira à simpática livraria Lua Nova, no bairro universitário do Benfica, para conhecer os misteriosos autores de uma publicação apócrifa, que tem dado o que falar por estas bandas.

Eu estava curiosíssimo para saber, afinal de contas, quem responde pela linha editorial anárquica e pelos textos escrachados da tal "Aerolândia", uma revista virtual que tem feito rir a muitos e tirado outros tantos do sério na cidade. Tenho amigos diletos que amam a revista; outros que a odeiam com todas as forças de seus sinceros e ofendidos corações.

A aventura de enfrentar o inferno do engarrafamento da 13 de Maio e de aturar os grunhidos de protesto do taxista valeram a pena. Finalmente deparei-me, no café literário da livraria, com os culpados pelo tão malcriado e bissexto "semanário". Diante da platéia lotada, um grupo de jovens estudantes de jornalismo, com uma expressão facial que às vezes variava entre o espanto e o cinismo, assumiu a autoria do flagrante delito.

Na maior parte do tempo em que durou o evento, era visível, eles próprios pareciam surpresos com o fuzuê que têm conseguido provocar até aqui. Pudera. O que começou como mera brincadeira iconoclasta terminou por ganhar corpo, tomou proporções imprevistas e se transformou em um caso indiscutível de sucesso editorial. "Nós, simplesmente, não nos levamos a sério", avisaram, numa frase que sintetiza o espírito do grupo e, ao mesmo tempo, explica as razões tanto do entusiasmo quanto do incômodo que provocam.

Sem pedir licença, os responsáveis por "Aerolândia" chegaram com sua revista atrevida metendo o dedo no olho do jornalismo burocrático e dando uma voadora radical sobre o comodismo. São desregrados, desbocados, desavergonhadamente impudicos. Têm uma irreverência selvagem, um sarcasmo impiedoso, um escárnio demolidor. Sua molecagem não respeita nada e ninguém. Sua maior diversão é desferir pontapés no traseiro da moral e dos bons costumes. Por isso mesmo são bem-vindos, necessários, imprescindíveis.

Em um dos momentos de maior mordacidade e insolência da revista, eles tiraram um sarro antológico até mesmo da estátua de Nossa Senhora de Fátima, um dos símbolos mais representativos da vocação carola e kitsch da classe média fortalezense. Eu próprio fui vítima da revista, quando me tornei alvo de uma fotomontagem em que a redação da "Aerolândia" me flagrava em um instante de manifesta ressaca moral. Tive ganas de mandá-los vocês sabem exatamente para onde. Mas compreendi que rir de mim mesmo era, sem dúvida, o único remédio que me restava. Em vez de amaldiçoá-los, tornei-me fã ainda mais confesso.

É evidente que a revista "Aerolândia" nasceu como uma paródia gonza de sua prima rica e bem-nascida, a revista "Aldeota" (publicação que já chegou a mais de duas dezenas de edições semanais impressas, um feito e tanto em um mercado editorial rarefeito como o cearense). E me arrisco a supor que a irreverência e a força avassaladora do recado desferido pela moçada da "Aerolândia" são responsáveis, em alguma medida, por certas correções de rota na própria redação da "Aldeota" que, depois de um início claudicante e de alguns aldeotismos, vem acertando a mão em sucessivas edições de excelente qualidade gráfica e textual, de tirar o chapéu.

Contudo, o fundamental é que ambas, "Aerolândia" e "Aldeota", estão fazendo vir à tona uma promissora geração de talentos em terras alencarinas. A pasmaceira que dominou e engessou parte da vida intelectual de Fortaleza nas últimas duas ou três décadas tem tudo para ser sacudida, de uma vez por todas, por estes jovens jornalistas e escritores que têm encontrado, nas duas revistas, uma no papel, outra na virtualidade, o canal oportuno para experimentar e exercitar toda a sua verve, sensibilidade e argúcia. Que eles tomem então conta do cenário e ponham um ponto final no pacto de mediocridade que vigorou nesta cidade durante tanto tempo.

O frufru dos lançamentos semanais de livros toscos em clubes sociais pretensamente chiques de Fortaleza, por exemplo, precisa ter fim. A empáfia beletrista de certas patotas, também. A condescendência com as eternas confrarias do elogio mútuo, de há muito, já esgotou o prazo de validade. Sorte de Fortaleza que pode contar, simultaneamente, com uma audaciosa "Aldeota" e uma esculhambada "Aerolândia". Que venham outras. De longe, ficarei torcendo para que apareçam uma "Papicu", uma "Quintino Cunha", uma "Varjota", uma "Parque Araxá", uma "Montese". Os leitores, ávidos, agradecem. E nós, da chamada grande imprensa, teremos muito o que aprender com elas.

Vida longa à "Aldeota". Vida longa à "Aerolândia". Vida longa à ousadia.

(Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 23 de julho de 2010)