sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Um universo chamado Benfica



Se eu ainda morasse em Fortaleza, ou se pelo menos estivesse por aí neste final de semana, já teria um programa certo para a tarde de amanhã, sábado. Caminharia pela Floriano Peixoto até chegar em frente ao edifício Raul Barbosa, ali onde está a sede do Centro Cultural Banco do Nordeste. Lá, pontualmente às quatro da tarde, subiria no ônibus com a tabuleta "Percursos Urbanos" instalada no parabrisas. Seria mais um dos passageiros desta que é uma das ideias mais geniais - e mais simples - de que já ouvi falar em relação ao mapeamento afetivo de uma cidade.

A cada novo sábado o ônibus do "Percursos Urbanos" faz um itinerário diferente. São viagens temáticas, que percorrem a essência, a memória e os aspectos menos evidentes de uma Fortaleza que não está retratada em previsíveis cartões postais. Porém, uma Fortaleza que pode ser tão bela - e muito mais verdadeira - quanto aquela que consta dos slogans políticos e do catálogo tão pouco criativo dos guias turísticos.

Um mediador, sempre íntimo ao tema, conduz o percurso, sugerindo olhares menos óbvios e menos apressados sobre a paisagem da cidade. No trajeto, revelam-se matizes, desvendam-se segredos, descobrem-se novidades que na verdade sempre estiveram ali, bem diante de nós, mas que o imperativo do cotidiano impede-nos de parar, compreender, contemplar. É mesmo como se um novo mapa simbólico, uma cartografia irresistivelmente inusitada, se desenhasse sobre o traçado de pedra e asfalto que compõem as já tão conhecidas ruas e avenidas da cidade.

De 2008 para cá, os passageiros do Percursos Urbanos, entre tantas outras viagens, já excursionaram, por exemplo, pelo universo das lendas urbanas de Fortaleza, à espreita dos indícios do célebre Cão da Itaoca e da terrível Perna Cabeluda. Já percorreram o roteiro das manifestações arquitetônicas de uma Fortaleza despudoradamente cafona, com direito a paradas obrigatórias em frente à catedral de pretensão gótica construída debaixo de um sol de rachar, à inacreditável Casa do Português e seu desenho bizarro e, é claro, à estátua gigantesca e estrábica de Nossa Senhora de Fátima plantada à margem da avenida 13 de Maio.

O ônibus do Percursos Urbanos já trafegou também pela geografia sentimental de escritores como Moreira Campos, Ciro Colares, Gustavo Barroso. Já revisitou o espírito de uma Fortaleza insubmissa, conferindo os cenários de revoltas populares e sublevações históricas. Já flanou pela Fortaleza boêmia, pela Fortaleza dos maçons, pela Fortaleza de Fausto Nilo, e por tantas outras Fortalezas mais ou menos conhecidas - e desconhecidas.

Como a Fortaleza dos dançarinos de salão, a Fortaleza do bumba-meu-boi, a Fortaleza das lagoas aterradas, a Fortaleza de mangues estrangulados. Mas também a Fortaleza da imprensa alternativa dos anos 70, a Fortaleza da "belle epòque" cabocla, a Fortaleza dos trabalhadores do mar e, quando se imagina que até para a criatividade há algum limite, a Fortaleza dos caçadores de ETs.

Amanhã, monitorado por um bom amigo, o professor Kelsen Bravos, o ônibus do Percursos Urbanos parte do centro da cidade em direção ao Benfica. Por isso mesmo, gostaria de estar aí, para escolher uma cadeira próxima a uma das janelas, um lugar qualquer que me permitisse uma visão privilegiada do trajeto.

Afinal, aquele bairro faz parte indissolúvel de minha vida. Foi nele que passei alguns dos melhores anos de juventude, orbitando entre o prédio da antiga Escola Técnica Federal, o Centro de Humanidades da Uece, a constelação de equipamentos culturais em torno da torrinha cor de rosa da reitoria da UFC e, é claro, a buliçosa feirinha da Gentilândia. Um perímetro universitário que alguns amigos tratavam, com carinho e certa ironia de inspiração ideológica, como PCdoB: Pólo Cultural do Benfica.

Foi ali que estudei, perambulei, namorei, deixei a barba e o cabelo crescer, descobri-me poeta marginal e anarquista juvenil. Foi ali que participei de passeatas pueris, bebi numa miríade de botecos sujos, conheci gente bacana e um pessoal nem tanto assim. Ali, escrevi para revistas literárias efêmeras e fiz amigos perenes. Desafiei professores obtusos e aprendi com alguns - poucos, é verdade - mestres geniais. O verdadeiro aprendizado estava nas ruas, na atmosfera utópica com que conduzíamos nossas existências tão ingênuas e, ao mesmo tempo, tão idealistas.

Éramos jovens. Fazíamos mil revoluções por minuto nas mesas do Esquina Azul, do Bar das Letras, do Jazz Blues Bar e, mais tarde, do Pertinho do Céu. Embriagávamo-nos de vinho barato e boa literatura no Bosque da Letras, fazíamos xixi no pedestal da estátua da praça e, quase todo dia, víamos Moreira Campos de paletó e gravata dirigindo o seu fusquinha. Como gostávamos do velhinho. Gostávamos mais ainda de seus contos cheios de silêncios, interditos e sofisticadas sacanagens.

Hoje, tantos anos depois, o melhor de tudo é saber que a história de amor entre o bairro e várias gerações de fortalezenses não se esgota nesse tipo de reminiscência, na simples nostalgia. Soube que, agora mesmo, tramita na Câmara Municipal de Fortaleza um projeto que oficializa a criação do "Pólo Cultural do Benfica". Vão institucionalizar, portanto, o epíteto brincalhão de PCdoB. Ótimo. Mas torço para que isso não signifique um simples batismo solene com base em um trocadilho que, um dia, soava genial, mas que hoje perdeu em frescor e sentido.

Seja como for, amanhã, caros leitores, se estiverem a bordo do ônibus do Percursos Urbanos em direção ao Benfica, bem na hora em que passarem diante do Centro de Humanidades da Uece, perguntem ao Kelsen Bravos a respeito da nossa grande frustração daquele tempo de estudantes. Nunca conseguimos sequestrar, de verdade, a estátua de São Tomás de Aquino instalada à entrada do prédio, como tanto idealizávamos. O plano era rocambolesco. Alta madrugada, eu, Kelsen e o gigante Vessillo Monte roubaríamos a imagem do expoente da filosofia escolástica para colocar outra em seu lugar: a de Exu, que pretendíamos comprar em uma loja de artigos de macumba.

Que pena. Jamais cometemos tão sonhada heresia.

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 27 de agosto de 2010.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Herodes está à solta na Bienal do Livro



Minha filha, do alto de seus seis anos de idade, insistiu. Bateu o pé. Quis, por todas as forças, visitar o espaço “Exploração Discovery Kids”, anunciado no site oficial da 21ª Bienal do Livro Internacional de São Paulo como um dos destaques da programação infantil do evento. Tentei convencê-la de que talvez fosse bem mais divertido explorar outros estandes abarrotados de livros. Ela disse não, taxativa. O poder de atração que a programação daquela emissora exerce sobre os pimpolhos é realmente inquestionável, constatei.

É preciso dizer que Emília, minha filha, adora visitar livrarias. Em casa, temos um quartinho especial, onde ela guarda seus brinquedos e, também, conserva com carinho a pequena estante branca atulhada de livros coloridos. Sempre adorou folheá-los, desde que ainda era uma bebezinha e levava, então, os livrinhos de plástico para a banheira. Agora, que aprendeu a ler e escrever, diverte-se mais ainda, ao saber que pode, finalmente, decifrar o universo mágico das palavras.

Mas, naquela tarde friorenta do último domingo, com o Anhembi apinhado de gente e de livros, Emília preferiu conferir primeiro quais surpresas a esperavam no tal estande organizado pelo canal infantil de televisão – conhecido, é verdade, por não transmitir programas de cunho violento, mas também por bombardear a meninada com uma carga maciça de comerciais que incentivam o consumismo infantil.

Deixei que Emília me puxasse pelas mãos e lá fomos nós enfrentar a gigantesca fila, que serpenteava por algumas boas dezenas de metros à frente do local. Garantimos o nosso lugar no rabo daquela centopéia humana e aguardamos, pacientemente, que chegasse a nossa vez. Fiz questão de marcar o tempo no relógio. Foram duas horas e dez minutos de espera. Em pé.

Depois da primeira meia hora, mães com bebês ao colo já demonstravam inevitáveis sinais de cansaço. Uma hora depois, mesmo as crianças maiores, obviamente, já estavam depauperadas. Algumas choravam, atiravam-se ao chão de tão exaustas. Enquanto isso, a fila caminhava devagar, à medida que um grupo de crianças entrava no estande lá na frente, uma dúzia a cada vez, na companhia dos respectivos pais.

“Não é melhor procurarmos coisa mais divertida para fazer na Bienal?”, perguntei. Emília, olhos marejados, tentando disfarçar o beicinho de choro, sugeriu que esperássemos até o fim. “Eu queria tanto ver o Doki”, justificou, referindo-se ao cachorrinho branco com mancha preta no olho, símbolo da emissora. “Só espero que o que tenha aí dentro seja mesmo sensacional”, suspirou um pai atrás de mim na fila, cuja filhota pequenininha pedia, por favor, mãozinhas postas, para que ele também não desistisse do suplício.

Quando, enfim, conseguimos entrar, veio o malogro. Um jovem monitor, que nos disse ter 19 anos e que quase podia ser confundido com mais uma daquelas crianças ali dentro, era o único responsável por controlar o grupo no interior do estande, composto por dois pequenos e apertados ambientes. No primeiro, via-se um livro gigante, no qual o jovem monitor, extenuado como nós, esforçava-se para contar uma historinha boba, pouco criativa, que arrancou bocejos da meninada. “Estou aqui desde as 10 da manhã, ficarei até as 10 da noite”, o rapaz cochichou-me depois, também bocejando, como a justificar a evidente falta de ânimo.

No segundo ambiente, deu-se o desastre. O monitor atirou algumas chaves de madeira sobre um pula-pula de plástico em forma de labirinto e depois pediu para que as crianças as procurassem, para provarem que eram “verdadeiros exploradores”. Como não houve separação por faixa etária na entrada, assistiu-se a uma hecatombe. Garotos de oito, nove, dez anos passaram a atropelar os mais novos, alguns destes com apenas três ou quatro anos de idade. Os bebês gritavam assustados, ao serem pisoteados pelos maiores.

Fiquei me perguntando o que um absurdo daqueles agrega à programação de uma Bienal do Livro. E quem são os consultores pedagógicos daquele infanticídio em potencial. “Um Explorador Discovery Kids é uma criança que explora a vida à medida que vai crescendo, de forma alegre e divertida”, explica o texto oficial dos organizadores. Ah, bom. Nem mesmo Herodes teria bolado plano tão perfeito – e desculpa tão esfarrapada – para atentar contra pobres criancinhas indefesas.

Texto publicado originalmente no Brasil Econômico, caderno "Outlook", em 20 de agosto de 2010.

Viva o pai dos burros!




Sempre fui fascinado por dicionários. Quando menino, deitava a barriga no chão de cimento do alpendre de casa, com o livrão de capa dura, de mais de mil páginas, aberto à minha frente. Um dia, decidi começar pela letra A. Durante semanas, prossegui, letra a letra, até que, muitos meses depois, acreditem, cheguei ao Z. De vez em quanto, também abria uma página de modo aleatório e percorria os caracteres miúdos a esmo, até o dedo indicador se demorar em alguma palavra que me parecia mais sonora. Meus irmãos mais velhos, provavelmente, achavam que eu havia ficado doido.

É claro que eu não conseguia reter todo o conteúdo daquilo que ia descobrindo, com sofreguidão, a cada uma de minhas jornadas de leitor infantil de dicionários. Esquecia, obviamente, a maioria dos significados que me eram oferecidos pelas centenas de milhares de verbetes ali dispostos, um logo abaixo do outro. Mas me deliciava quando uma palavra nova fazia cócegas na minha imaginação. Lembro do prazer que algumas delas me provocavam. "Chusma", por exemplo, que significa grande quantidade de pessoas e coisas, era uma das minhas favoritas. "Estabanado", também, sempre esteve na lista de minhas predileções, talvez pelo fato de, desde criança, me identificar perfeitamente com o significado dela.

Outra palavra que me dava satisfação era "rusga", que tem o sentido de arranca-rabo, confusão. Nesse caso, talvez pelo evidente contraste com minha compleição franzina e meu temperamento tímido, que fizeram de mim um menino ruim de briga, de natureza pacífica. O caso é que "rusga" ficou de tal forma tatuada em minha memória que, ao escrever um texto qualquer, às vezes não controlo a tentação de empregá-la no meio de uma frase ou outra. Há algum tempo, minha mulher me advertiu que eu andava usando "rusga" demais. Desde então, expurguei tal palavrinha do meu repertório e, a cada nova edição de meus livros, fico atento para saber se ainda me escapou alguma. Saio catando-as como piolhos e, caso encontre uma "rusga" perdida em algum período, esmago-a na unha.

Em minha mesa de trabalho, ao lado do computador, mantenho alguns dicionários à mão. Um grandalhão, atualizado de acordo com a nova reforma ortográfica e, logo ao lado dele, um mais sintético, o indispensável dicionário de sinônimos e antônimos. Apesar de ter um Aurélio eletrônico instalado no PC e de consultar o Houaiss diretamente na internet, não dispenso as versões em papel, que me possibilitam a sensação de percorrer a página com o dedo estendido sobre as palavras. Talvez haja algo de libidinoso nessa necessidade táctil, corporal, quase lasciva mesmo, em minha relação com o mundo essencialmente abstrato dos significantes e significados.

Quando soube que haviam relançado, setenta anos depois da primeira publicação, o extraordinário Dicionário analógico da língua portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, tratei imediatamente de comprá-lo. A edição que chegou há poucas semanas às livrarias traz um prefacinho charmoso, no qual Chico Buarque nos revela que a obra era uma dos livros de consulta obrigatória do pai, Sérgio Buarque de Hollanda. O mesmo Chico confessa que algumas letras de suas melhores canções foram elaboradas com o devido auxílio do Dicionário analógico, presente deixado ao filho pelo pai, pouco antes de morrer. "Isso pode te servir", profetizou o velho.

Conforme esclarecem os editores na apresentação, o segredo de um "dicionário analógico", ou "dicionário de ideias afins", consiste em oferecer ao usuário uma ferramenta que funciona de modo exatamente oposto aos dicionários comuns. Em vez de partirmos de uma palavra conhecida para buscar os significados possíveis, ele permite que, a partir da noção de um determinado significado, encontremos uma palavra adequada para o contexto e a situação que nos ocorre. Para quem vive de escrever - ou mesmo para quem apenas se propõe a escrever de modo preciso e eficiente - é uma mão na roda.

A propósito de dicionários, os leitores que me desculpem esse "mão na roda" do parágrafo anterior. A expressão é mesmo batida e, digamos assim, do "arco da velha", esse também outro clichê condenado pelo delicioso O pai dos burros: dicionário de lugares comuns e frases feitas, do jornalista e escritor Humberto Werneck, com quem tive o prazer de dividir uma mesa sobre biografias no começo desta semana, na Casa do Saber, em São Paulo. Todo aspirante a jornalista, todo candidato a escritor, todo cidadão minimamente alfabetizado devia ter um exemplar do livrinho azul de Humberto Werneck ao alcance das mãos (Opa! "Ao alcance das mãos" é outro clichê abominável, listado por Werneck).

Desde "abraçar uma causa" até o "zero à esquerda", o dicionário de lugares comuns de Humberto Werneck sai colecionando e denunciando chavões: "vista privilegiada", "soltar o verbo", "sonora vaia", "dura travessia", "dar o tom", "cair por terra", "fechar o tempo", "sucesso retumbante", "sol escaldante", "pura e simplesmente", "seios arfantes", "resta saber", "retrato fiel", "de cair o queixo", "prova cabal", "presa fácil", "a qualquer preço", "sacudir a poeira", "pisar na bola", "passar a perna"...

Confessemos, acabrunhados: quantas vezes nos deparamos com o impulso de utilizarmos sentenças que parecem conferir uma sedução adicional ao texto, mas que na verdade, segundo as palavras do próprio Humberto Werneck, não passam de "detritos verbais", "repetidos até a exaustão semântica", a ponto de terem se transformado em "fórmulas prontas"?

Aliás, até mesmo a expressão "fórmula pronta", meu caro Werneck, não seria outro flagrante lugar comum? E o próprio "lugar comum" não é, por sua vez, uma frase feita? E a tal "frase feita" não é outra expressão, assim, já manjadíssima? Socorrei-nos, ó Pai dos Burros.


Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 20 de agosto de 2010.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O homem mais famoso do mundo



Semana passada, quando o carro passou em frente à tabuleta verde na estrada que indicava a cidade potiguar de Lajes, o motorista do táxi, que se chamava Daniel, me cutucou, como quem deseja encontrar assunto para a conversa: "O senhor sabia que aqui, neste lugar, nasceu um homem muito famoso?", indagou-me, com uma das mãos apontando para os lados da cidadezinha, enquanto mantinha a outra, firme, sobre o volante.

Havíamos saído de Natal, a capital do Rio Grande do Norte, e estávamos rodando a caminho de Mossoró, onde à noite eu falaria na Feira do Livro local, para uma plateia atenta e participativa. "Ah, é? Aqui nasceu um homem muito famoso? Quem?", indaguei, confesso que sem maiores interesses no rumo daquela prosa. Eu estava bem mais preocupado em repassar mentalmente o roteiro de minha palestra, marcada para dali a poucas horas.

"Aqui, em Lajes, nasceu o Zé", respondeu o motorista. "O Zé? Mas que Zé?", prossegui, quase automaticamente, ainda desinteressado, os olhos postos na fileira de casinhas tristes e mal caiadas à beira da BR-304. "Ora, o Zé de Lajes", continuou, entusiasmado, meu condutor.

A isso se seguiram alguns minutos de silêncio, preenchidos apenas pelo ruído do motor e pela sanfona do forró de raiz que resfolegava, baixinho, nos alto-falantes do carro. "O senhor, que parece tão sabido, já ouviu falar do Zé de Lajes, é claro", voltou à carga o motorista. "Não, nunca ouvi falar desse tal Zé de Lajes. Quem é mesmo ele?", bocejei.

"Ah, pois então o senhor deve ser a única pessoa nesse mundo-de-meu-deus inteirinho, no planeta Terra todinho, que não conhece o famoso Zé de Lajes", comentou Daniel, com cara de espanto, mas sem tirar a atenção da estrada. "Esse tal Zé é mesmo assim tão célebre?", brinquei, já um pouco mais disponível ao persistente interlocutor.

Afinal de contas, quem diabos seria o tal Zé de Lajes? - interpelei os meus botões. Só então lembrei que, naquele instante, eu não tinha botões. Estava de camiseta, devido ao enorme calor lá fora. Por isso, talvez, não me veio nenhuma resposta plausível. "Esse Zé de Lajes pode ser famoso, mas talvez só aqui pela região", objetei, pensando alto, a ponto se ser ouvido pelo motorista.

"Pois um vizinho do Zé achava a mesma coisa que o senhor. Até fez uma aposta com ele. Apostou que havia gente por aí afora que nunca havia ouvido falar nele", contou-me Daniel, agora contente por ter conseguido, enfim, engatar o diálogo. "Logicamente, o Zé perdeu tal aposta", concluí. "Não! É claro que não! O vizinho é que perdeu!", exaltou-se o taxista, como se eu houvesse dito uma heresia.

Pronto. A história me fisgara. Queria saber mais sobre ela. Animado, enquanto Daniel ligava a seta para sinalizar a ultrapassagem por um caminhão, pedi detalhes. O taxista atendeu prontamente: "Deu-se que o tal vizinho, aquele da aposta, pegou o Zé e foi com ele até a cidade de Natal. Lá, os dois bateram na porta do palácio do governo. Mas, é claro, os guardas não quiseram deixar que eles entrassem, pois não haviam marcado audiência. De repente, veja o senhor, apareceu no saguão do palácio o próprio governador, em carne e osso, que reconheceu o Zé de Lajes na hora. O senhor acredita?", narrou o motorista. "O governador até perguntou ao Zé como é que estava a família, se todos estavam bem em casa", sublinhou.

Soltei um muxoxo. "Ora, todo político é assim mesmo. Fazem de conta que são amigos de todo mundo, principalmente se for em época de eleição", desdenhei. "Pois então pronto. O vizinho do Zé pensou igualzinho ao senhor. Por isso mesmo, desafiou o amigo a ir até o Rio de Janeiro, que naquela época era a capital do Brasil. O Zé topou. Os dois foram lá no Rio e fizeram a mesma coisa, só que dessa vez num tal Palácio do Catete, onde morava o Getúlio Vargas", atalhou-me o taxista.

Só então percebi que havia caído em uma presepada. Aquilo, logicamente, era uma pilhéria e eu entrara direitinho no jogo, sem me dar conta. "Tá bom. Pois agora, Daniel, eu quero saber o final da história. Mas acho que já sei. O Getúlio também conhecia o Zé", palpitei, com ar triunfante, por supostamente ter tirado o gostinho de vitória do meu companheiro de viagem.

Daniel, porém, nem se abalou: "É, o senhor acertou. O doutor Getúlio abraçou o Zé, todo emocionado. ´Como vai a comadre Filomena, meu querido Zé?´, chegou a perguntar o presidente, com aquele charutão na boca. Mas isso não foi nada. O mais incrível mesmo, veja bem o senhor, veio depois".

Então Daniel me contou o final do "causo", que me arrancaria gargalhadas horas a fio. Acho que só parei de rir muito tempo depois, já quando desci do carro, ao final da viagem, na porta do hotel em Mossoró. Resumo da ópera: Zé de Lajes e o vizinho aproveitaram a viagem ao Rio de Janeiro, pegaram por lá um navio e foram dar com os costados em Roma. Andaram pela chamada "Cidade Eterna" e, pergunta daqui, pergunta dali, chegaram ao Vaticano.

Na Praça de São Pedro, os homens da guarda suíça - "aqueles soldadinhos de roupa colorida e engraçada, parecendo uns palhaços de circo", na definição do taxista - só permitiram a entrada do Zé, pois, é claro, já o conheciam de longas datas. O vizinho, contrariado, desta vez teve que se contentar em ficar do lado de fora, chupando o dedo.

Daniel prosseguiu: "Horas mais tarde, o Papa, que naquele tempo era o Pio XII, apareceu na janela para acenar para a multidão que estava na praça lá embaixo. Pois assim bem pertinho, ao lado do Papa, lá em cima, na janelinha, estava adivinha o senhor sabe quem? Isso mesmo. Adivinhou. O Zé".

Ri a valer. Aquele era boa. Iria repetir para os amigos. Talvez, quem sabe, até transformasse a historieta em crônica de jornal. Contudo, quando achei que o motorista já havia acabado, veio o grande desfecho.

"O vizinho do Zé ficou desconfiado de que aquilo tudo fosse uma armação do amigo. Então chegou para uma peregrina ali na praça, uma senhora italiana bem velhinha, que estava agarrada assim com o terço na mão, toda vestida de preto, e perguntou a ela se, por acaso, aquele homem de batina colorida lá em cima era mesmo o Papa Pio XII. Sabe o que ela respondeu?"

Olhei para Daniel, curioso. Não, eu não sabia o que a mulher havia respondido. O que ela havia dito, afinal? "Pois meu senhor, juro por Deus, a mulher disse assim, ó: ´Meu filho, eu não sei se aquele homem lá é o Papa, mas aquele senhor bem do lado dele eu conheço bem. É o Zé de Lajes´".

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 13 de agosto de 2010.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Alguém aí topa o desafio?




Ele foi o figurão mais poderoso e influente de sua época. Os caricaturistas do período costumavam retratá-lo tanto como um galo de crista levantada – afinal, ele era o dono do terreiro – quanto como uma ladina raposa, pois ele era também o terror dos galinheiros políticos do país. Com o porte atlético e a vasta cabeleira sempre em desalinho, o empertigado senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado reinou absoluto na chamada República Velha. Por trás de seu colossal bigode, eram tramadas todas as alianças, negociatas e conchavos que davam sustentação e estofo ao Palácio do Catete, então sede do governo federal. Segundo o jornal satírico O Gato, ao passar a faixa ao sucessor, o então presidente Hermes da Fonseca teria comentado: “Olha, Venceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a governar pela gente”.

Na verdade, ele possuía uma capacidade inesgotável de fazer inimigos. Pinheiro Machado chegou a duelar com um famoso jornalista, Edmundo Bittencourt, porque este tinha por passatempo predileto fustigá-lo pelas páginas do Correio da Manhã. Encrespado, Pinheiro desafiou Bittencourt para um acerto de contas nos moldes medievais. Os duelos estavam proibidos no país, mas mesmo assim lá se foram os dois se encontrar frente a frente, na então remota praia de Ipanema, pistolas em punho. O entrevero terminou com Pinheiro ileso e com o jornalista – cuja pistola falhara no momento decisivo – baixando no hospital com uma bala na região glútea.

A trajetória de Pinheiro Machado sempre pediu um biógrafo à altura. É incompreensível como não exista, até hoje, uma bela biografia do sujeito. Sua vida tem lances tão rocambolescos que um bom livro sobre ele beiraria, em certos trechos, a ação e o suspense típicos de um romance de capa e espada. Aos 14 anos de idade, Pinheiro fugiu de casa para se alistar na Guerra do Paraguai. O pai quase arrancou os cabelos quando soube que o filho mentiu a idade, rasurou a certidão de nascimento, fez-se soldado e foi para os campos de batalha.

Pinheiro adoeceu gravemente em combate, precisou de dois anos para recuperar a saúde e, quando pôde se colocar finalmente de pé, viajou para São Paulo conduzindo uma tropa de mulas chucras. Quando retornou ao Rio Grande do Sul, anos depois, levava na bagagem de volta o diploma de advogado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Começou então uma carreira política meteórica.

Tornou-se vereador na gaúcha São Luiz Gonzaga e, tão logo veio a proclamação da República, fez-se senador aos 40 anos de idade. Como não dispensava uma boa briga, ausentou-se do senado para quebrar lanças na chamada Revolução Federalista, a mais sangrenta de todas as guerras civis brasileiras. Organizou e comandou pessoalmente uma divisão armada e, ao fim do conflito, já transformado em uma espécie de lenda viva, sentou-se novamente em sua cadeira senatorial. Ninguém o arredaria mais dali.

A influência de José Gomes Pinheiro Machado no Senado era tão dilatada que, quando escrevi as biografias de personagens aparentemente tão díspares entre si e tão distanciados no tempo como Castello Branco e Padre Cícero, o mesmo Pinheiro Machado intrometeu-se inevitavelmente nas duas narrativas, como personagem dos bastidores de ambas as tramas. Aliás, essa era uma das características fundamentais de sua prática política. Atuava sempre por trás do palco, manobrando com singular competência e astúcia os cordéis da cena principal. Quando agora escrevo um novo livro, uma nova biografia – cujo biografado, desculpem, ainda é segredo de estado – novamente Pinheiro Machado aparece dando as cartas do jogo. Definitivamente, o homem era mesmo onipresente na vida brasileira.

Como todo aventureiro que se preze, teve um fim trágico. Pinheiro Machado morreu em 8 de setembro de 1915, assassinado, no Rio de Janeiro, com duas punhaladas nas costas. Daqui a cinco anos, portanto, completa-se o centenário de sua morte. Tempo suficiente para que alguém tome para si a hercúlea tarefa de biografar um dos personagens mais polêmicos e fascinantes da história nacional. Fico de dedos cruzados para que algum colega que leia este texto aceite minha provocação. E então? Alguém aí se habilita?

Texto publicado originalmente no jornal Brasil Econômico, caderno Outlook, em 6 de agosto de 2010.

Caricatura: Pinheiro Machado por J. Carlos (1914)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A última vez em que vi Bob Lira



Inevitável. Sempre por esta época do ano, quando a tevê e os jornais nos bombardeiam com propagandas apelativas sobre o Dia dos Pais, me pego a pensar no velho Bob Lira. Mais especificamente, fico a recordar a última vez em que o vi e, não por coincidência, a última vez em que estive em Massapê, a cidade na qual meu pai tinha o umbigo enterrado e onde hoje, também, descansam os seus ossos.

Ele já estava bem doente, o organismo depauperado pelo câncer de pâncreas que o levaria deste mundo. A moléstia, ele próprio reconhecia, era o resultado de uma vida de poucos cuidados. Os hectolitros de aguardente que havia ingerido desde muito moço terminaram por cobrar-lhe o preço. Admiro-me agora que ele também não tenha sofrido com alguma complicação pulmonar, a despeito das toneladas de nicotina que devia acumular no peito.

Quando soube que ele estava bem mal, fui visitá-lo, já desconfiado. Pelo que minhas tias haviam narrado ao telefone, aquela seria uma viagem de despedida. Durante as quatro horas do percurso entre Fortaleza e Massapê, fui juntando os cacos da memória, tentando costurar os fiapos das lembranças, buscando reconstituir a imagem de meu pai, sempre tão ausente, tão distante, tão largado de tudo e de todos - principalmente de si mesmo.

Lembrei das moedas escondidas por ele no fundo da mala, para que os filhos, depois da festa por sua chegada de mais uma longa viagem, pudessem brincar de procurá-las em uma espécie de caça ao tesouro. Lembrei também das muitas vezes em que o vi embriagar-se sozinho no sofá vermelho da sala, entornando goles generosos de cachaça, ao som de tangos, sambas-canções e boleros rasgados. Lembrei ainda dos versos que declamava, das doces mentiras que contava, do seu alucinado medo de alma penada.

Enfim em Massapê, quando de longe avistei o casarão de meus avós paternos, vislumbrei também a figura de alguém em pé na varanda, bem próximo à porta principal, logo acima dos degraus que levavam ao portãozinho de ferro pintado de branco. Imaginei que era meu pai que já me aguardava, ansioso, pois eu havia ligado no dia anterior para dizer que chegaria no primeiro ônibus da tarde. Porém, logo uma dúvida me assomou. Aquela pessoa plantada na fachada da casa parecia bem menor e ainda mais frágil do que a imagem que eu havia guardado de meu pai desde o nosso último encontro em Massapê.

Depois de caminhar algumas dezenas de metros, fui percebendo que, sim, realmente era ele. Estava bem mais magro, constatei, depois de percorrer alguns passos em direção à casa. Ele estava com os ombros mais curvados, reparei, após distância menor. O rosto parecia ainda mais enrugado, verifiquei, ao me aproximar do portão. Meu pai não desceu os seis ou sete degraus que nos separavam para vir ao meu encontro. Compreendi que aquilo exigiria dele um esforço que o velho Bob Lira não podia mais se dar ao luxo de me oferecer.

Lá estava eu diante de meu pai ou, pelo menos, do que a vida fizera dele. Procurei não abraçá-lo com muita força, com medo de que suas clavículas, cujos contornos aparentes se desenhavam por baixo da camiseta encardida, se quebrassem em minhas mãos. A barriga dele parecia inflada, um par de olheiras adornava-lhe a face. Naquela tarde, conversaríamos amenidades, trocaríamos novidades a respeito da família, evitaríamos assuntos que despertassem emoções demasiadamente fortes.

No começo da noite, enquanto ainda palestrávamos abobrinhas embalados em confortáveis cadeiras de balanço, um velho amigo de meu pai passou por lá para visitá-lo. Depois das apresentações de praxe, o recém-chegado olhou para mim com ar condoído e, em seguida, soltando um suspiro, alvejou meu pai com um olhar de censura. "Seu pai está assim porque quis", disse-me o visitante, enquanto abanava a cabeça de um lado para outro, em sinal de reprovação. "O Bob bebeu muito, fumou demais, raparigou feito um demônio", comentou, com o sotaque tipicamente sertanejo.

Quando em seguida o homem me informou que era quase vinte anos mais velho de que meu pai - apesar de na verdade aparentar ter apenas a metade da idade dele -, tomei um susto. Postos lado a lado, aqueles dois indivíduos protagonizavam um doloroso contraste. Um, mais idoso, falante, lépido e fagueiro; o outro, bem mais jovem, alquebrado, a voz rouca, mal conseguia sustentar o peso do próprio corpo. Durante os vários minutos em que o homem continuava a tagarelar e a desfiar toda a sua catilinária, meu pai permaneceu calado, a cabeça pendida sobre o peito, a boca fechada, a comissura dos lábios voltada para baixo.

De súbito, alguns instantes depois, vi Bob Lira aprumar-se na cadeira, endireitar o pescoço, estufar o peito, pôr o dedo em riste e encarar o amigo com impressionante firmeza. Percebi que ele procurara encontrar, sabe-se lá como, sabe-se lá onde, alguma força misteriosa dentro de si mesmo, uma última centelha de vida que fosse, para responder às recriminações que lhe eram atiradas assim ao rosto.

"E você, heim, seu filho de papa com freira? Está assim todo pimpãozinho também porque quis", esbravejou meu pai para o sujeito. "Você nunca provou um cigarro, nunca bebeu um gole de bebida, nunca fez uma mulher gemer de verdade na cama. Sempre viveu acuado na barra da saia de sua mãe, aquela pobre velhota que talvez tenha morrido de desgosto por ter criado um cabra frouxo como você", desabafou.

O homem arregalou os olhos, deu boa noite e saiu de fininho, sem querer mais conversa. Fiquei então olhando para meu pai, atônito. Eu estava ainda um tanto quanto abismado com aquela inesperada virada de mesa. Porém, não demorou muito e ele logo tornou a debruçar o queixo sobre o peito, respirou fundo, pôs as mãos sobre as pernas e voltou a mergulhar no silêncio. Pelos cantos da boca, enquanto ressonava, parecia sorrir. Aquele rompante e aquele meio sorriso foram as últimas lembranças que guardei de meu pai. Semanas depois, já em casa, recebi a notícia de que ele havia morrido.

Combinei com meu irmão que iríamos ao enterro em Massapê. Mas confesso que fiquei feliz quando o carro pifou bem na hora de pegarmos a estrada. Não lembro o motivo pelo qual o automóvel não quis mais ligar o motor. Só sei que, por causa disso, não cheguei a ver meu pai morto. Nunca mais voltei a Massapê. Jamais botei os olhos no túmulo de meu pai. Preferi guardar aquela derradeira imagem dele para sempre: um homem que se orgulhava de ter vivido todos os dias que lhe foram possíveis viver. É este o Bob Lira que ficou vivo, idealizado, em minhas retinas, em minha saudade e em minha dolorida memória.

Feliz Dia dos Pais, Bob Lira

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 6 de agosto de 2010.