segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Alguém aí topa o desafio?




Ele foi o figurão mais poderoso e influente de sua época. Os caricaturistas do período costumavam retratá-lo tanto como um galo de crista levantada – afinal, ele era o dono do terreiro – quanto como uma ladina raposa, pois ele era também o terror dos galinheiros políticos do país. Com o porte atlético e a vasta cabeleira sempre em desalinho, o empertigado senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado reinou absoluto na chamada República Velha. Por trás de seu colossal bigode, eram tramadas todas as alianças, negociatas e conchavos que davam sustentação e estofo ao Palácio do Catete, então sede do governo federal. Segundo o jornal satírico O Gato, ao passar a faixa ao sucessor, o então presidente Hermes da Fonseca teria comentado: “Olha, Venceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a governar pela gente”.

Na verdade, ele possuía uma capacidade inesgotável de fazer inimigos. Pinheiro Machado chegou a duelar com um famoso jornalista, Edmundo Bittencourt, porque este tinha por passatempo predileto fustigá-lo pelas páginas do Correio da Manhã. Encrespado, Pinheiro desafiou Bittencourt para um acerto de contas nos moldes medievais. Os duelos estavam proibidos no país, mas mesmo assim lá se foram os dois se encontrar frente a frente, na então remota praia de Ipanema, pistolas em punho. O entrevero terminou com Pinheiro ileso e com o jornalista – cuja pistola falhara no momento decisivo – baixando no hospital com uma bala na região glútea.

A trajetória de Pinheiro Machado sempre pediu um biógrafo à altura. É incompreensível como não exista, até hoje, uma bela biografia do sujeito. Sua vida tem lances tão rocambolescos que um bom livro sobre ele beiraria, em certos trechos, a ação e o suspense típicos de um romance de capa e espada. Aos 14 anos de idade, Pinheiro fugiu de casa para se alistar na Guerra do Paraguai. O pai quase arrancou os cabelos quando soube que o filho mentiu a idade, rasurou a certidão de nascimento, fez-se soldado e foi para os campos de batalha.

Pinheiro adoeceu gravemente em combate, precisou de dois anos para recuperar a saúde e, quando pôde se colocar finalmente de pé, viajou para São Paulo conduzindo uma tropa de mulas chucras. Quando retornou ao Rio Grande do Sul, anos depois, levava na bagagem de volta o diploma de advogado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Começou então uma carreira política meteórica.

Tornou-se vereador na gaúcha São Luiz Gonzaga e, tão logo veio a proclamação da República, fez-se senador aos 40 anos de idade. Como não dispensava uma boa briga, ausentou-se do senado para quebrar lanças na chamada Revolução Federalista, a mais sangrenta de todas as guerras civis brasileiras. Organizou e comandou pessoalmente uma divisão armada e, ao fim do conflito, já transformado em uma espécie de lenda viva, sentou-se novamente em sua cadeira senatorial. Ninguém o arredaria mais dali.

A influência de José Gomes Pinheiro Machado no Senado era tão dilatada que, quando escrevi as biografias de personagens aparentemente tão díspares entre si e tão distanciados no tempo como Castello Branco e Padre Cícero, o mesmo Pinheiro Machado intrometeu-se inevitavelmente nas duas narrativas, como personagem dos bastidores de ambas as tramas. Aliás, essa era uma das características fundamentais de sua prática política. Atuava sempre por trás do palco, manobrando com singular competência e astúcia os cordéis da cena principal. Quando agora escrevo um novo livro, uma nova biografia – cujo biografado, desculpem, ainda é segredo de estado – novamente Pinheiro Machado aparece dando as cartas do jogo. Definitivamente, o homem era mesmo onipresente na vida brasileira.

Como todo aventureiro que se preze, teve um fim trágico. Pinheiro Machado morreu em 8 de setembro de 1915, assassinado, no Rio de Janeiro, com duas punhaladas nas costas. Daqui a cinco anos, portanto, completa-se o centenário de sua morte. Tempo suficiente para que alguém tome para si a hercúlea tarefa de biografar um dos personagens mais polêmicos e fascinantes da história nacional. Fico de dedos cruzados para que algum colega que leia este texto aceite minha provocação. E então? Alguém aí se habilita?

Texto publicado originalmente no jornal Brasil Econômico, caderno Outlook, em 6 de agosto de 2010.

Caricatura: Pinheiro Machado por J. Carlos (1914)