sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Herodes está à solta na Bienal do Livro



Minha filha, do alto de seus seis anos de idade, insistiu. Bateu o pé. Quis, por todas as forças, visitar o espaço “Exploração Discovery Kids”, anunciado no site oficial da 21ª Bienal do Livro Internacional de São Paulo como um dos destaques da programação infantil do evento. Tentei convencê-la de que talvez fosse bem mais divertido explorar outros estandes abarrotados de livros. Ela disse não, taxativa. O poder de atração que a programação daquela emissora exerce sobre os pimpolhos é realmente inquestionável, constatei.

É preciso dizer que Emília, minha filha, adora visitar livrarias. Em casa, temos um quartinho especial, onde ela guarda seus brinquedos e, também, conserva com carinho a pequena estante branca atulhada de livros coloridos. Sempre adorou folheá-los, desde que ainda era uma bebezinha e levava, então, os livrinhos de plástico para a banheira. Agora, que aprendeu a ler e escrever, diverte-se mais ainda, ao saber que pode, finalmente, decifrar o universo mágico das palavras.

Mas, naquela tarde friorenta do último domingo, com o Anhembi apinhado de gente e de livros, Emília preferiu conferir primeiro quais surpresas a esperavam no tal estande organizado pelo canal infantil de televisão – conhecido, é verdade, por não transmitir programas de cunho violento, mas também por bombardear a meninada com uma carga maciça de comerciais que incentivam o consumismo infantil.

Deixei que Emília me puxasse pelas mãos e lá fomos nós enfrentar a gigantesca fila, que serpenteava por algumas boas dezenas de metros à frente do local. Garantimos o nosso lugar no rabo daquela centopéia humana e aguardamos, pacientemente, que chegasse a nossa vez. Fiz questão de marcar o tempo no relógio. Foram duas horas e dez minutos de espera. Em pé.

Depois da primeira meia hora, mães com bebês ao colo já demonstravam inevitáveis sinais de cansaço. Uma hora depois, mesmo as crianças maiores, obviamente, já estavam depauperadas. Algumas choravam, atiravam-se ao chão de tão exaustas. Enquanto isso, a fila caminhava devagar, à medida que um grupo de crianças entrava no estande lá na frente, uma dúzia a cada vez, na companhia dos respectivos pais.

“Não é melhor procurarmos coisa mais divertida para fazer na Bienal?”, perguntei. Emília, olhos marejados, tentando disfarçar o beicinho de choro, sugeriu que esperássemos até o fim. “Eu queria tanto ver o Doki”, justificou, referindo-se ao cachorrinho branco com mancha preta no olho, símbolo da emissora. “Só espero que o que tenha aí dentro seja mesmo sensacional”, suspirou um pai atrás de mim na fila, cuja filhota pequenininha pedia, por favor, mãozinhas postas, para que ele também não desistisse do suplício.

Quando, enfim, conseguimos entrar, veio o malogro. Um jovem monitor, que nos disse ter 19 anos e que quase podia ser confundido com mais uma daquelas crianças ali dentro, era o único responsável por controlar o grupo no interior do estande, composto por dois pequenos e apertados ambientes. No primeiro, via-se um livro gigante, no qual o jovem monitor, extenuado como nós, esforçava-se para contar uma historinha boba, pouco criativa, que arrancou bocejos da meninada. “Estou aqui desde as 10 da manhã, ficarei até as 10 da noite”, o rapaz cochichou-me depois, também bocejando, como a justificar a evidente falta de ânimo.

No segundo ambiente, deu-se o desastre. O monitor atirou algumas chaves de madeira sobre um pula-pula de plástico em forma de labirinto e depois pediu para que as crianças as procurassem, para provarem que eram “verdadeiros exploradores”. Como não houve separação por faixa etária na entrada, assistiu-se a uma hecatombe. Garotos de oito, nove, dez anos passaram a atropelar os mais novos, alguns destes com apenas três ou quatro anos de idade. Os bebês gritavam assustados, ao serem pisoteados pelos maiores.

Fiquei me perguntando o que um absurdo daqueles agrega à programação de uma Bienal do Livro. E quem são os consultores pedagógicos daquele infanticídio em potencial. “Um Explorador Discovery Kids é uma criança que explora a vida à medida que vai crescendo, de forma alegre e divertida”, explica o texto oficial dos organizadores. Ah, bom. Nem mesmo Herodes teria bolado plano tão perfeito – e desculpa tão esfarrapada – para atentar contra pobres criancinhas indefesas.

Texto publicado originalmente no Brasil Econômico, caderno "Outlook", em 20 de agosto de 2010.