segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O homem mais famoso do mundo



Semana passada, quando o carro passou em frente à tabuleta verde na estrada que indicava a cidade potiguar de Lajes, o motorista do táxi, que se chamava Daniel, me cutucou, como quem deseja encontrar assunto para a conversa: "O senhor sabia que aqui, neste lugar, nasceu um homem muito famoso?", indagou-me, com uma das mãos apontando para os lados da cidadezinha, enquanto mantinha a outra, firme, sobre o volante.

Havíamos saído de Natal, a capital do Rio Grande do Norte, e estávamos rodando a caminho de Mossoró, onde à noite eu falaria na Feira do Livro local, para uma plateia atenta e participativa. "Ah, é? Aqui nasceu um homem muito famoso? Quem?", indaguei, confesso que sem maiores interesses no rumo daquela prosa. Eu estava bem mais preocupado em repassar mentalmente o roteiro de minha palestra, marcada para dali a poucas horas.

"Aqui, em Lajes, nasceu o Zé", respondeu o motorista. "O Zé? Mas que Zé?", prossegui, quase automaticamente, ainda desinteressado, os olhos postos na fileira de casinhas tristes e mal caiadas à beira da BR-304. "Ora, o Zé de Lajes", continuou, entusiasmado, meu condutor.

A isso se seguiram alguns minutos de silêncio, preenchidos apenas pelo ruído do motor e pela sanfona do forró de raiz que resfolegava, baixinho, nos alto-falantes do carro. "O senhor, que parece tão sabido, já ouviu falar do Zé de Lajes, é claro", voltou à carga o motorista. "Não, nunca ouvi falar desse tal Zé de Lajes. Quem é mesmo ele?", bocejei.

"Ah, pois então o senhor deve ser a única pessoa nesse mundo-de-meu-deus inteirinho, no planeta Terra todinho, que não conhece o famoso Zé de Lajes", comentou Daniel, com cara de espanto, mas sem tirar a atenção da estrada. "Esse tal Zé é mesmo assim tão célebre?", brinquei, já um pouco mais disponível ao persistente interlocutor.

Afinal de contas, quem diabos seria o tal Zé de Lajes? - interpelei os meus botões. Só então lembrei que, naquele instante, eu não tinha botões. Estava de camiseta, devido ao enorme calor lá fora. Por isso, talvez, não me veio nenhuma resposta plausível. "Esse Zé de Lajes pode ser famoso, mas talvez só aqui pela região", objetei, pensando alto, a ponto se ser ouvido pelo motorista.

"Pois um vizinho do Zé achava a mesma coisa que o senhor. Até fez uma aposta com ele. Apostou que havia gente por aí afora que nunca havia ouvido falar nele", contou-me Daniel, agora contente por ter conseguido, enfim, engatar o diálogo. "Logicamente, o Zé perdeu tal aposta", concluí. "Não! É claro que não! O vizinho é que perdeu!", exaltou-se o taxista, como se eu houvesse dito uma heresia.

Pronto. A história me fisgara. Queria saber mais sobre ela. Animado, enquanto Daniel ligava a seta para sinalizar a ultrapassagem por um caminhão, pedi detalhes. O taxista atendeu prontamente: "Deu-se que o tal vizinho, aquele da aposta, pegou o Zé e foi com ele até a cidade de Natal. Lá, os dois bateram na porta do palácio do governo. Mas, é claro, os guardas não quiseram deixar que eles entrassem, pois não haviam marcado audiência. De repente, veja o senhor, apareceu no saguão do palácio o próprio governador, em carne e osso, que reconheceu o Zé de Lajes na hora. O senhor acredita?", narrou o motorista. "O governador até perguntou ao Zé como é que estava a família, se todos estavam bem em casa", sublinhou.

Soltei um muxoxo. "Ora, todo político é assim mesmo. Fazem de conta que são amigos de todo mundo, principalmente se for em época de eleição", desdenhei. "Pois então pronto. O vizinho do Zé pensou igualzinho ao senhor. Por isso mesmo, desafiou o amigo a ir até o Rio de Janeiro, que naquela época era a capital do Brasil. O Zé topou. Os dois foram lá no Rio e fizeram a mesma coisa, só que dessa vez num tal Palácio do Catete, onde morava o Getúlio Vargas", atalhou-me o taxista.

Só então percebi que havia caído em uma presepada. Aquilo, logicamente, era uma pilhéria e eu entrara direitinho no jogo, sem me dar conta. "Tá bom. Pois agora, Daniel, eu quero saber o final da história. Mas acho que já sei. O Getúlio também conhecia o Zé", palpitei, com ar triunfante, por supostamente ter tirado o gostinho de vitória do meu companheiro de viagem.

Daniel, porém, nem se abalou: "É, o senhor acertou. O doutor Getúlio abraçou o Zé, todo emocionado. ´Como vai a comadre Filomena, meu querido Zé?´, chegou a perguntar o presidente, com aquele charutão na boca. Mas isso não foi nada. O mais incrível mesmo, veja bem o senhor, veio depois".

Então Daniel me contou o final do "causo", que me arrancaria gargalhadas horas a fio. Acho que só parei de rir muito tempo depois, já quando desci do carro, ao final da viagem, na porta do hotel em Mossoró. Resumo da ópera: Zé de Lajes e o vizinho aproveitaram a viagem ao Rio de Janeiro, pegaram por lá um navio e foram dar com os costados em Roma. Andaram pela chamada "Cidade Eterna" e, pergunta daqui, pergunta dali, chegaram ao Vaticano.

Na Praça de São Pedro, os homens da guarda suíça - "aqueles soldadinhos de roupa colorida e engraçada, parecendo uns palhaços de circo", na definição do taxista - só permitiram a entrada do Zé, pois, é claro, já o conheciam de longas datas. O vizinho, contrariado, desta vez teve que se contentar em ficar do lado de fora, chupando o dedo.

Daniel prosseguiu: "Horas mais tarde, o Papa, que naquele tempo era o Pio XII, apareceu na janela para acenar para a multidão que estava na praça lá embaixo. Pois assim bem pertinho, ao lado do Papa, lá em cima, na janelinha, estava adivinha o senhor sabe quem? Isso mesmo. Adivinhou. O Zé".

Ri a valer. Aquele era boa. Iria repetir para os amigos. Talvez, quem sabe, até transformasse a historieta em crônica de jornal. Contudo, quando achei que o motorista já havia acabado, veio o grande desfecho.

"O vizinho do Zé ficou desconfiado de que aquilo tudo fosse uma armação do amigo. Então chegou para uma peregrina ali na praça, uma senhora italiana bem velhinha, que estava agarrada assim com o terço na mão, toda vestida de preto, e perguntou a ela se, por acaso, aquele homem de batina colorida lá em cima era mesmo o Papa Pio XII. Sabe o que ela respondeu?"

Olhei para Daniel, curioso. Não, eu não sabia o que a mulher havia respondido. O que ela havia dito, afinal? "Pois meu senhor, juro por Deus, a mulher disse assim, ó: ´Meu filho, eu não sei se aquele homem lá é o Papa, mas aquele senhor bem do lado dele eu conheço bem. É o Zé de Lajes´".

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 13 de agosto de 2010.