sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Viva o pai dos burros!




Sempre fui fascinado por dicionários. Quando menino, deitava a barriga no chão de cimento do alpendre de casa, com o livrão de capa dura, de mais de mil páginas, aberto à minha frente. Um dia, decidi começar pela letra A. Durante semanas, prossegui, letra a letra, até que, muitos meses depois, acreditem, cheguei ao Z. De vez em quanto, também abria uma página de modo aleatório e percorria os caracteres miúdos a esmo, até o dedo indicador se demorar em alguma palavra que me parecia mais sonora. Meus irmãos mais velhos, provavelmente, achavam que eu havia ficado doido.

É claro que eu não conseguia reter todo o conteúdo daquilo que ia descobrindo, com sofreguidão, a cada uma de minhas jornadas de leitor infantil de dicionários. Esquecia, obviamente, a maioria dos significados que me eram oferecidos pelas centenas de milhares de verbetes ali dispostos, um logo abaixo do outro. Mas me deliciava quando uma palavra nova fazia cócegas na minha imaginação. Lembro do prazer que algumas delas me provocavam. "Chusma", por exemplo, que significa grande quantidade de pessoas e coisas, era uma das minhas favoritas. "Estabanado", também, sempre esteve na lista de minhas predileções, talvez pelo fato de, desde criança, me identificar perfeitamente com o significado dela.

Outra palavra que me dava satisfação era "rusga", que tem o sentido de arranca-rabo, confusão. Nesse caso, talvez pelo evidente contraste com minha compleição franzina e meu temperamento tímido, que fizeram de mim um menino ruim de briga, de natureza pacífica. O caso é que "rusga" ficou de tal forma tatuada em minha memória que, ao escrever um texto qualquer, às vezes não controlo a tentação de empregá-la no meio de uma frase ou outra. Há algum tempo, minha mulher me advertiu que eu andava usando "rusga" demais. Desde então, expurguei tal palavrinha do meu repertório e, a cada nova edição de meus livros, fico atento para saber se ainda me escapou alguma. Saio catando-as como piolhos e, caso encontre uma "rusga" perdida em algum período, esmago-a na unha.

Em minha mesa de trabalho, ao lado do computador, mantenho alguns dicionários à mão. Um grandalhão, atualizado de acordo com a nova reforma ortográfica e, logo ao lado dele, um mais sintético, o indispensável dicionário de sinônimos e antônimos. Apesar de ter um Aurélio eletrônico instalado no PC e de consultar o Houaiss diretamente na internet, não dispenso as versões em papel, que me possibilitam a sensação de percorrer a página com o dedo estendido sobre as palavras. Talvez haja algo de libidinoso nessa necessidade táctil, corporal, quase lasciva mesmo, em minha relação com o mundo essencialmente abstrato dos significantes e significados.

Quando soube que haviam relançado, setenta anos depois da primeira publicação, o extraordinário Dicionário analógico da língua portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, tratei imediatamente de comprá-lo. A edição que chegou há poucas semanas às livrarias traz um prefacinho charmoso, no qual Chico Buarque nos revela que a obra era uma dos livros de consulta obrigatória do pai, Sérgio Buarque de Hollanda. O mesmo Chico confessa que algumas letras de suas melhores canções foram elaboradas com o devido auxílio do Dicionário analógico, presente deixado ao filho pelo pai, pouco antes de morrer. "Isso pode te servir", profetizou o velho.

Conforme esclarecem os editores na apresentação, o segredo de um "dicionário analógico", ou "dicionário de ideias afins", consiste em oferecer ao usuário uma ferramenta que funciona de modo exatamente oposto aos dicionários comuns. Em vez de partirmos de uma palavra conhecida para buscar os significados possíveis, ele permite que, a partir da noção de um determinado significado, encontremos uma palavra adequada para o contexto e a situação que nos ocorre. Para quem vive de escrever - ou mesmo para quem apenas se propõe a escrever de modo preciso e eficiente - é uma mão na roda.

A propósito de dicionários, os leitores que me desculpem esse "mão na roda" do parágrafo anterior. A expressão é mesmo batida e, digamos assim, do "arco da velha", esse também outro clichê condenado pelo delicioso O pai dos burros: dicionário de lugares comuns e frases feitas, do jornalista e escritor Humberto Werneck, com quem tive o prazer de dividir uma mesa sobre biografias no começo desta semana, na Casa do Saber, em São Paulo. Todo aspirante a jornalista, todo candidato a escritor, todo cidadão minimamente alfabetizado devia ter um exemplar do livrinho azul de Humberto Werneck ao alcance das mãos (Opa! "Ao alcance das mãos" é outro clichê abominável, listado por Werneck).

Desde "abraçar uma causa" até o "zero à esquerda", o dicionário de lugares comuns de Humberto Werneck sai colecionando e denunciando chavões: "vista privilegiada", "soltar o verbo", "sonora vaia", "dura travessia", "dar o tom", "cair por terra", "fechar o tempo", "sucesso retumbante", "sol escaldante", "pura e simplesmente", "seios arfantes", "resta saber", "retrato fiel", "de cair o queixo", "prova cabal", "presa fácil", "a qualquer preço", "sacudir a poeira", "pisar na bola", "passar a perna"...

Confessemos, acabrunhados: quantas vezes nos deparamos com o impulso de utilizarmos sentenças que parecem conferir uma sedução adicional ao texto, mas que na verdade, segundo as palavras do próprio Humberto Werneck, não passam de "detritos verbais", "repetidos até a exaustão semântica", a ponto de terem se transformado em "fórmulas prontas"?

Aliás, até mesmo a expressão "fórmula pronta", meu caro Werneck, não seria outro flagrante lugar comum? E o próprio "lugar comum" não é, por sua vez, uma frase feita? E a tal "frase feita" não é outra expressão, assim, já manjadíssima? Socorrei-nos, ó Pai dos Burros.


Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 20 de agosto de 2010.