sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Vá em paz, Paulinho



O Brasil estava dividido. Metade do país torcia por Nara Leão, que defendia “A banda”, de Chico Buarque. A outra metade preferia “Disparada”, de Geraldo Vandré, na voz de Jair Rodrigues. Naquele 10 de outubro de 1966, o dia da grande final do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, milhões de pessoas grudaram os narizes na tela da tevê, excitadas para saber quem ganharia a peleja. Faziam-se apostas, lançavam-se desafios, trocavam-se desaforos entre os respectivos fã-clubes.

Nos bastidores, um homem coçava a careca, apreensivo. Qualquer que fosse o resultado, ele temia que os partidários da música que terminasse em segundo lugar iniciassem um ensaio de guerra civil no auditório do Teatro Record. Não era exagero. Os ânimos estavam exaltados. Lá fora, a polícia estava pronta para agir, em caso de necessidade. Os festivais de música popular, à época, despertavam maior rivalidade do que uma final de Corinthians x Palmeiras no Pacaembu.

Quando o júri anunciou o veredicto, o placar foi de sete votos para “A banda” e cinco para “Disparada”. “Pelo clima do teatro, não achei muito bom”, diria o homem carequinha, em suas memórias. Mas o pior ainda estava por vir. Das coxias, chegou a notícia: Chico Buarque se recusava a receber o prêmio. O próprio autor de “A Banda” achava que “Disparada” era uma música melhor do que a sua. Chico ameaçava recusar o troféu ao vivo, diante da platéia e das câmeras de tevê. Seria um estrupício.

O carequinha teve uma idéia luminosa e salomônica: os votos do júri seriam matreiramente ignorados e declarar-se-ia o empate. Assim foi feito. Naquela noite, ninguém iria para casa chateado. Chuvas de papel picado e pétalas de rosas foram despejados igualmente sobre Nara, Jair e Chico. Vandré, que não estava na cidade, soube do ocorrido por meio de um telegrama, enviado pelo tal carequinha, que na verdade atendia pelo nome de Paulo Machado de Carvalho Filho, o Paulinho, como era conhecido por meio mundo da música e da televisão brasileira.

Paulinho adorava contar, pela milionésima vez, histórias saborosas como essa, sempre sublinhando cada frase com seu peculiar sorriso, revelando novos detalhes a cada ocasião em que, coçando a careca com a ponta dos dedos, revirava os baús de sua prodigiosa memória. No meio desta semana, ao abrir o jornal à mesa do café da manhã, soube que Paulinho morreu, aos 86 anos, na última terça-feira. O pão com manteiga entalou-me na garganta.

Estive com Paulinho poucas vezes. Talvez não mais do que cinco oportunidades ao vivo, além de trocarmos algumas dezenas de telefonemas. O suficiente para que passasse a nutrir por aquele senhor sorridente e elegante uma afeição particular.

Devo a ele alguns dos melhores parágrafos de Maysa: Só numa multidão de amores. Quando estava escrevendo a biografia da cantora, Paulinho recebeu-me gentilmente em sua casa. Narrou-me uma série de episódios e forneceu-me documentos que ajudaram a reconstituir o início da carreira da autora de “Ouça”. “Ah, só mais uma coisa: não precisa me chamar de Dr. Paulo, pode me chamar de Paulinho mesmo”, disse, quando nos despedimos, após eu encher umas três ou quatro fitas cassetes com nossa conversa para o livro.

Paulinho estava lá, naquele 13 de março de 1957, quando Maysa apareceu pela primeira vez na tevê, em um programa semanal na Record, com o patrocínio da Bombril. Maysa adorou quando o câmera Salvador Tredicci fechou o ângulo e enquadrou, em um big-close, apenas seus decantados olhos verdes, felinos e sedutores. “Faça isso mais vezes. Como estou um tanto quanto gordinha, ninguém precisa ver o resto do corpo”, brincou Maysa, sem suspeitar que, já na primeira noite de programa, aquela imagem viraria sua marca registrada.

Os arranca-rabos de Maysa com Elis Regina, as dificuldades da família Matarazzo em aceitar a carreira artística da moça, os sopapos públicos trocados entre ela e o marido, os pormenores dos contratos de patrocínio, nada escapou às narrativas indiscretas de Paulinho. Quando o livro foi publicado, ele não pôde comparecer ao lançamento, por motivos de saúde. Mas me ligou e me fez prometer que eu iria ao lançamento do livro de memórias dele, Histórias que a história não contou. Garanti que iria, porém, uma viagem de trabalho me impediu de honrar a promessa.

Telefonei-lhe no dia seguinte, dizendo que mesmo assim fazia questão de um autógrafo no exemplar que comprara no aeroporto. Ele convidou-me para um café, que foi sempre sendo adiado, por mim ou por ele, por esse ou aquele motivo. Agora, enquanto escrevo este texto, tomo solitariamente uma xícara de café amargo e quente. O café que não tomamos. Entre um parágrafo e outro, levanto e vou à estante. Na prateleira de música e tevê, pego seu livro. Na folha de rosto, sinto falta do autógrafo que nunca fui buscar.

Texto publicado originalmente no caderno Outlook, do jornal Brasil Econômico, em 20 de setembro de 2010.

Eles é que ficam tontos?



Se dependesse dos comerciais de cerveja, já teria me tornado um abstêmio. Os publicitários parecem imaginar que todo mundo que gosta de cerveja tem uma bexiga no lugar do cérebro. Chega a ser constrangedor o infantilismo com que nos brindam as propagandas do produto na tevê. Como entoaria a Turma do Funil, nós é que bebemos e eles é que ficam tontos?                      

Puxando assim pela memória, se não me trai a amnésia alcoólica, foi lá pelos meados dos anos 70 do século passado que começou essa mania de tratar os apreciadores da cerveja como idiotas. "Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?" - dizia o bordão eternizado no filmete protagonizado por Adoniran Barbosa. O verbo estava conjugado errado - tudo bem, era o Adoniran - e a questão embutia um falso dilema.

A cerveja é uma bebida tribal, para ser sorvida em meio a uma roda de amigos, de preferência com alguma calabresa apimentada servindo de complemento e muita conversa fiada à mesa. O cúmulo da solidão é beber uma cerveja desacompanhado num bar. De modo idêntico e inversamente proporcional, o paroxismo da tristeza é uma turma que bebe em silêncio, por absoluta falta de assunto.

Adoniran que me perdoe. Mas beber cerveja e conversar são atos tão inseparáveis como essencialmente devem ser o lúpulo e a cevada. Mas desde aquele antigo comercial até aqui, as agências de publicidade têm se esmerado em bater o próprio recorde em mau gosto, machismo e insensatez. Quem foi o idiota, por exemplo, que bolou a velha expressão "estupidamente gelada"?

Como diria um amigo meu, uma cerveja estupidamente gelada, na verdade, não passa de uma cerveja estúpida: sem gosto, aguada, desprovida de sentido, pois neutralizada em seu característico e necessário amargor. E, antes que me esqueça, uma cerveja "subzero", duplamente filtrada, é, para qualquer bom entendedor, uma subcerveja.

Nos comerciais, o estereótipo do bebedor de cerveja é o do garotão com cara de pateta, que baba por uma loura gostosa enquanto solta piadinhas infantilóides, maliciosas na intenção, mas toscas na forma e no conteúdo. A associação entre cerveja, verão e juventude já proporcionou os clássicos mais infames do gênero, mas nada que chegue perto do comercial no qual alguns bocós se gabam de beber, segundo eles próprios relincham, um "cervejão". Ora, ora, que besteirão.

Desconfio que os publicitários miram de propósito no público adolescente, como se considerassem que beber cerveja, no final das contas, fosse apenas coisa de garotos. Ou, pior ainda, suspeito que os senhores gênios do marketing querem passar a ideia irresponsável de que puberdade e pileque foram feitas assim uma para o outro, a exemplo da tulipa de chope e o pratinho de tremoços.

Lembram do comercial de cerveja que mostrava ratinhos de laboratório que recebiam choques ao abocanhar o pedaço de queijo, mas teimavam em repetir sempre o mesmo gesto? "Como a recompensa é boa, eles voltam ao local de origem, esquecendo a experiência ruim", dizia o locutor. "Ratinhos estúpidos, não?", comentava a mocinha bonita no comercial, pois afinal se convencionou que todo comercial de cerveja tem que ter uma mulher linda no meio.

Seguia-se então a cena de um grupo de rapazes tomando choques recorrentes ao abrirem seguidamente a porta da geladeira para pegar latinhas de cerveja. Moral da história: nós, os bebedores de cerveja, somos tão inteligentes quanto ratinhos de laboratório. Mais cretino, impossível.

Por essas e por outras, conheço gente que se sente incomodada em pedir uma cerveja durante um jantar mais bacana. Como se um destilado ou uma boa taça de vinho fossem as únicas bebidas permitidas ao bom tom e à elegância numa hora e numa ocasião dessas.

Cervejeiro assumido que sou, já vi gente torcendo o nariz ao me ver pedir uma prosaica long neck enquanto todos vão de merlot ou cabernet sauvignon - mesmo que seja aí em Fortaleza, numa noite quente de tirar o juízo de qualquer cidadão.

Creio que isso ocorre porque as propagandas de cerveja nunca ressaltam a qualidade do produto em si, jamais dão ênfase à honestidade do malte, ao exato nível de amargor do lúpulo, à correta fermentação da levedura. Mas, pensando bem, talvez seja até melhor assim.

Afinal, nada pode ser mais insuportável do que uma nova categoria de frequentador de botequim que apareceu nos últimos tempos aqui em São Paulo: a do "especialista" em cerveja.

Ele é o equivalente ao enófilo, esse chato que pode ser visto por aí com o nariz enfiado dentro de uma taça, adivinhando aromas etéreos, bochechando taninos redondos, deliciando-se com notas de couro e toques herbáceos, decifrando retrogostos amadeirados onde nós, meros mortais, só identificamos o gosto do vinho mesmo.

Noite dessas, um "cervejólogo" na mesa ao lado, levando ao focinho e aos lábios uma taça de cerveja irlandesa, daquelas deliciosamente encorpadas, descobriu nela um "buquê de frutas escuras", "um pronunciado sabor de cerejas ao marrasquino", "um final herbal, levemente apimentado e terroso".

Fico imaginando que aromas colossais e que sabores incomensuráveis o dono de faro e paladar tão poderosos seja capaz de captar - valhei-me Santo Agostinho, padroeiro dos cervejeiros - à hora do sagrado ofício do sexo.

Infelizmente, a natureza não me proporcionou à língua e ao nariz um par de sentidos tão sofisticados assim. Pobre de mim, que como já dizia um ex-presidente maluquete, bebo apenas porque é líquido, pois se fosse sólido eu comia. Hic!


Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 17 de setembro de 2010.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O último dos cangaceiros




Leio no jornal: aos 100 anos, morreu Moreno, um dos últimos cangaceiros do bando de Lampião. Não sou de desejar a morte a ninguém, mas devo admitir que, nesse caso, sinto-me tentado a dizer: já vai tarde.

Quem dera tivesse ido embora com ele a ignorância cavalar de todos os sociólogos, historiadores, cineastas, jornalistas e escritores que, ainda hoje, por estupidez ideológica, ranço acadêmico ou ingenuidade histórica, insistem em glamourizar o cangaço.

O pernambucano Moreno - José Antônio Souto, no registro civil - era um facínora. Mas morreu paparicado, recebido com festa e como herói na cidade cearense de Brejo Santo, onde passou parte da adolescência até enveredar para a vida do crime e se escafeder para os cafundós da Paraíba.

Moreno matou 21 homens, segundo suas próprias contas. Há pouco, quando estava prestes a esticar as canelas, deu entrevistas nas rádios locais como uma celebridade, foi saudado por cantadores populares e abraçou a família sorridente, que não escondeu o orgulho pela notoriedade e pela fama de valentão do parente ilustre.

Uma miopia conceitual é responsável, em grande parte, pela mitificação desses bandidos que roubavam, seqüestravam, matavam, estupravam e viviam à sombra do coronelismo e do latifúndio.

Na década de 60 e 70 do século passado, tornou-se moeda corrente nas universidades a interpretação canhestra de que a violência imposta aos nordestinos por gente sanguinária como Lampião, Corisco, Azulão e outros celerados menos famosos como Moreno fosse uma resposta natural - e positiva - à violência social endêmica do sertão.

Os cangaceiros seriam, conforme tal viés, os Robin Hoods da caatinga. Ou, melhor dizendo, seriam "bandidos sociais" - para usar o termo então tomado emprestado ao historiador norte-americano Eric Hobsbawm, que conferiu certo verniz intelectual ao que, no fundo, nunca passou de um atestado de miséria teórica.

Lastreados em um marxismo mal lido e mal digerido, cientistas sociais brasileiros passaram a querer atribuir ao cangaço até mesmo certa nobreza de princípios e alguma justiça nas ações. Lampião passou a ser o rebelde primitivo, o justiceiro romanesco, o paladino dos fracos e oprimidos.

Bem antes disso, em 1935, a Aliança Nacional Libertadora já citava Lampião como um de seus inspiradores políticos. Trinta anos depois, Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas, iria pelo mesmo caminho e, num surto de desvario histórico, chegaria a dizer que Virgulino Ferreira da Silva foi "o primeiro homem do Nordeste a batalhar contra o latifúndio e arbitrariedade".

Ora, como se o mesmo Virgulino não dispusesse de coiteiros poderosos, os coronéis sertanejos que lhe ofereciam armas, guarida e munição, em troca do serviço de milícia proporcionado pelo bando, o que garantia a inviolabilidade de seus domínios feudais.

Também data dos anos 60 do século passado um livreto de poucas páginas e de ideias ainda mais ralas. Superestimado durante muito tempo, Cangaceiros e Fanáticos, de Rui Facó, tornou-se uma espécie de bíblia engajada para os "estudiosos" do tema, ao pregar que o cangaço era "um exemplo de insubmissão" e "um passo à frente para a emancipação dos pobres do campo".

Felizmente, uma bibliografia mais contemporânea devolve os cangaceiros a seu devido papel na história: o de carniceiros. É o caso de Guerreiros do Sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil, de Frederico Pernambucano de Mello, arguto pesquisador de história social da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. A obra serve de providencial colírio desembaçador aos que ainda insistem, mesmo hoje, em enxergar Lampião através de lentes românticas.

Em um dos capítulos mais instigantes do livro, o autor expõe a tese do "escudo ético", ao desvendar a necessidade que os cangaceiros tinham de justificar aos próprios olhos - e aos olhos de terceiros - suas ações criminosas, sob o pretexto da lavagem da honra ofendida e do desejo de vingança.

Com efeito, no caso de Moreno, o cangaceiro centenário que acaba de morrer, o "escudo ético" seria proveniente da surra que ele levou da polícia na juventude em Brejo Santo, ao ser acusado - injustamente - do roubo de um carneiro. É o que nos conta a reportagem do jornalista Antônio Vicelmo, publicada neste mesmo Diário, na última quarta-feira.

Tão logo se viu livre da cadeia, Moreno teria matado o homem que o denunciou e que seria o verdadeiro ladrão do bicho. Pronto. Estava justificada, sob o abrigo de um providencial escudo ético, a entrada de Moreno para o cangaço. O que a partir daí passou a ser um meio de vida ilegal, violento e desonesto, estaria plenamente abonado.

Não há dúvidas de que o cangaço, com sua crônica interminável de atrocidades, truculências e selvajerias - que, de fato, só encontrava equivalente na ferocidade das volantes -, ainda seja capaz de fornecer material copioso para historiadores, jornalistas, escritores, cineastas e ficcionistas.

Afinal, paralelo ao regime de terror que infundiam, os cangaceiros também irradiavam fascínio com sua indumentária ostensiva, sua aura de implacáveis combatentes, seu cotidiano repleto de aventuras e perigos. Em uma terra em que a valentia, a macheza e a falta de polidez são considerados atributos positivos - e onde a "honra manchada" ainda desculpa o uso da violência - os cangaceiros tornaram-se, entre nós, os ícones máximos da audácia.

Quando estive recentemente na cidade potiguar de Mossoró, embasbaquei-me com o realmente impressionante Memorial do Cangaço, um dos orgulhos dos moradores do lugar, que fazem questão de mostrá-lo aos visitantes, com incontida vaidade. Segundo consta, Mossoró foi a única cidade nordestina a colocar o bando de Lampião para correr.

Contudo, no lugar de se exaltar a decantada resistência dos mossoroenses, tema de um painel fotográfico apenas secundário, a grande estrela do Memorial do Cangaço potiguar é o próprio Virgulino e sua companheira, Maria Bonita, cujas imagens aparecem em painéis gigantescos, de vários metros de altura.

Fico imaginando, daqui a algumas décadas, no Rio de Janeiro, quando alguém pensar em erguer um memorial à guerra contra o narcotráfico, se os painéis principais exibirão a imagem dos bandidos em tamanho gigante - e não das vítimas que eles fizeram com seu negócio sujo.


Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 10 de setembro de 2010.


Foto de Moreno por Leonardo Lara

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Estão pensando que somos abestados?



“Vote no abestado”. Lá está ele, meu conterrâneo, no horário eleitoral gratuito, fazendo graça e barulho, anunciando que é candidato a deputado federal. “Vote no Tiririca, pior do que está, não fica”, diz o slogan, pérola do cinismo e da despolitização absoluta.

“Você sabe o que faz um deputado federal? Não? Eu também não. Mas vote em mim que depois eu te conto” – essa é a principal promessa da campanha. Até tem outra, um pouco mais ambiciosa e ainda mais irreverente: “Quero trabalhar pelos mais necessitados. Principalmente os de minha família”.

Pode ser que a plataforma política do palhaço Tiririca seja mais ampla do que isso, como garantiu em entrevista recente. “De cabeça, assim, não dá pra falar. Mas como tem uma equipe trabalhando por trás, a gente tem os projetos que tão elaborados, tá tudo beleza”, jura, com a prosódia característica e a peculiar cara de pau que lhe fez a fama.

Mas é difícil saber. No site oficial da campanha, encontram-se informações sobre sua biografia de fato singular, é possível conhecer a família e os amigos do palhaço cearense e, uau, fazer download de santinhos, jingle e fotos. Tudo bonitinho e colorido. Contudo, o link para as “propostas” remete a uma página em branco. Sintomático. Até quando não quer fazer rir, o sujeito é engraçado.

Meses atrás, imaginava-se que outro cearense polêmico, Ciro Gomes, é que iria dar o que falar na eleição em São Paulo. Ciro chegou a transferir o domicílio eleitoral para a capital paulista e, por algumas semanas, acreditou-se que sua candidatura ao Palácio do Bandeirantes era pra valer. Jogado para escanteio, Ciro ficou sem saída imediata e só lhe restou mergulhar no silêncio – e no rancor? – dos traídos.

Em lugar dele, aí está o Tiririca, provocando gargalhadas de uns e arrancando protestos furibundos de outros. “Tiririca faz deboche com a democracia”, acusa o ministro da Cultura, Juca Ferreira. Para Juca, a piada chamada Tiririca não tem graça nenhuma.

Peço vênia ao senhor ministro. Eu acho que tem. Jamais votaria em Tiririca, mas confesso que, a cada aparição dele na tevê, não contenho a gargalhada. Não porque ache que um voto de protesto desse naipe faça mais algum sentido ou contribua em algo para o aprimoramento eleitoral no país. Não porque aprove a estratégia de se reduzir toda a classe política a um único balaio de gatos e gatunos, sintetizada na crença de que “pior que está não fica”. Nisso, concordo com o ministro Juca.

Contudo, acho que a candidatura de Tiririca tem graça, sim, porque sua avacalhação explícita representa uma dissonância à assepsia marqueteira, tornando ainda mais evidente o artificialismo dos candidatos que tentam vender uma imagem fabricada em laboratório. É como se eles considerassem que nós, e não o Tiririca, é que somos os verdadeiros abestados.

Além do mais, admito a vocês que sempre me espantou o poder de comunicação desse cearense de Itapipoca aparvalhado, que não demonstra nenhuma sofisticação em sua verve e conta piadas na tevê como se estivesse no picadeiro de um circo de lona furada. Sempre achei o humor de Tiririca comovente em sua suprema ingenuidade e em sua absurda pobreza cênica e vernacular. É isso, nele, que sempre me faz rir, de rolar no chão.

É um humor tipicamente cearense, autodepreciativo, capaz de fazer graça com suas próprias misérias e tragédias íntimas. No Ceará, posso garantir, tropeça-se em tiriricas a cada esquina. Minha surpresa é que este humor tão cabeça-chata, que eu supunha quase cifrado para um ouvido carioca ou paulistano, tenha conseguido transformar Tiririca, desde que ele surgiu, anos atrás, em um fenômeno de massas no país inteiro.

Tenho amigos aqui em São Paulo, paulistanos de pai e mãe, que já flagrei rindo de uma piada boba dita pela boca mole do Tiririca. Mas agora, quando o vêem no programa eleitoral gratuito, fazem cara séria. Preocupam-se com o achincalhe da democracia que ela supostamente representa.

Cá no meu canto, continuo rindo com as presepadas de Tiririca, pois ele segue me comovendo com sua ingenuidade sem limites. Mal percebe que está sendo usado pelo partido que o aliciou apenas para puxar votos à legenda e, assim, presume-se, irá ajudar a eleger alguns espertinhos do insípido PR. Os cardeais do partido até reservaram para ele um número fácil de decorar, 2222, coisa disputada a tapa na hora da inscrição das candidaturas. “Ô numerozinho lindo!”, comemora Tiririca, no programa eleitoral.

Tiririca tem toda razão. Ele é mesmo um abestado.

Texto publicado originalmente no caderno Outlook, do jornal Brasil Econômico, em 3 de setembro de 2010.

Profissão: escritor



Encontro no elevador o novo funcionário do prédio onde moro. Depois do protocolar bom-dia, ele me interroga à queima-roupa: "Seu Lira, em que é mesmo que o senhor trabalha?". Sou jornalista, respondo. "É mesmo, em qual jornal?". Não trabalho mais em jornal ou revista, informo. Há alguns anos, dei adeus às redações. Vivo basicamente de escrever livros, comento, com algum orgulho.

Mas a frase não produziu o efeito esperado. Ao contrário, o rapaz me olhou com cara de quem estava sentindo lá no fundo do coração uma baita pena de mim. "Pois é, seu Lira. É isso mesmo. Cada um se vira como pode", disse, abanando a cabeça, a meio caminho entre o solidário e o decepcionado.

Achei curiosa a reação do moço. Para ele, a vida de escritor deve ser assim um suplício, quase um demérito, uma penúria lascada. Desde aquele dia, ele deve ter concluído que, como não tinha nada de mais útil ou promissor a fazer na vida, decidi ser escritor. "O senhor escreve livros de auto-ajuda?", ainda me perguntou, bem na hora em que a porta do elevador se abriu à nossa frente, para ele descer.

"Não. Não escrevo auto-ajuda", tive tempo de responder, dessa vez já um tanto quanto encabulado. "Sei, entendo", devolveu o rapaz, lacônico, antes de deixar o elevador e me desejar de novo um bom-dia, agora seguido de um voto sincero de boa sorte. A porta de aço escovado então se fechou entre nós, separando o seu desapontamento de meu visível embaraço.

Já passei por aflições maiores. Como no dia em que tive de preencher o cadastro em uma imobiliária e o corretor, sorridente, perguntou-me a profissão. "Escritor", eu disse, automaticamente. O corretor fechou o sorriso e parou alguns segundos a caneta no ar, durante os quais, suponho, ficou intrigado para saber se por acaso um escritor teria como pagar o aluguel no fim do mês.

Em palestras que faço pelo país afora, a pergunta recorrente vem sempre à baila: "É possível viver de escrever livros no Brasil?". Sinto, no cantinho da boca de quem pergunta tal coisa, um certo esgar de sadismo, como se esse alguém esperasse que, na resposta, eu passasse a expelir uma pletora de queixas e rancores.

Para surpresa e certa incredulidade das plateias, sempre digo que sim, é possível ser escritor profissional, sem com isso precisar pedir esmolas na esquina ou vender laranja no semáforo para completar a renda familiar.

É claro que, em especial no começo de carreira, não é tarefa fácil. Mas não precisa ser nenhum Paulo Coelho ou um Jorge Amado (que Ogum o tenha) para poder honrar as contas escrevendo livros. Desde que não se pretenda ficar milionário e não se queira comprar um iate com o cheque trimestral dos direitos autorais, a boa notícia é que é perfeitamente plausível viver, com alguma dignidade, nesse tipo de ofício.

A notícia ruim é que, para isso, você terá que trabalhar feito um condenado. A exemplo do ditado bíblico, é preciso comer o pão com o suor do próprio rosto. Ou, como preferiria afirmar numa hora dessa minha avó Isaura, é aí que a porca torce o rabo. Não basta encastelar-se em um minarete e contar com o beneplácito das musas. É preciso, obviamente, em primeiro lugar, escrever algo que preste - e que, ao mesmo tempo, desperte em um número suficientemente considerável de pessoas a vontade de lê-lo. Essa, talvez, seja a parte mais difícil.

Mas também não basta escrever e publicar o livro, mesmo que ele seja, digamos, genial. Organizar uma boa agenda de palestras, escrever artigos de jornal, fazer um bom "frila" (o trabalho free-lance, no jargão das redações), aqui e ali, também é parte do segredo. Se calhar de negociar os direitos do livro para alguma adaptação de tevê ou cinema, bingo, melhor ainda. Mas todo o esforço despendido será em vão sem a parceria de um bom editor, alguém com excelente faro de mercado e extrema capacidade de avaliar as possibilidades de um texto.

Aviso aos interessados: o mercado brasileiro de livros está se profissionalizando cada vez mais. A chegada de grandes grupos editoriais estrangeiros tem provocado um rebuliço ainda maior no setor. Em tal cenário, para os autores que já têm alguma estrada percorrida e algum serviço demonstrado no caminho, tornou-se possível sentar à mesa de um editor competente e, entre um cafezinho e outro, negociar contratos razoáveis.

O problema é que o resquício de certo ranço beletrista ainda está à solta. Para muitos, escrever livros deveria ser uma atividade preferencialmente diletante. Afloram brotoejas pelo corpo de muita gente à simples menção de que o ato de escrever pode ser encarado como um trabalho como outro qualquer. Acredita-se, em geral, que a única opção possível para um autor escapar da miséria seja uma sinecura em alguma repartição pública.

Em oposição a esses burocratas das letras, mas igualmente puritanos, estão os que sacralizam o ofício de escrever, tratando-o como uma espécie de sacerdócio, um ato imaculado, baseado na lógica da "fracassomania": se um livro vende bem, calculam, é porque não presta. Para ser bom, teria que vender pouco, ser hermético, indecifrável, talvez ganhar alguns prêmios literários, mas arrancar indispensáveis bocejos de tédio por parte dos leitores.

Isso se torna mais eloquente em um país no qual a leitura ainda é encarada como um símbolo de distinção - e não como uma prazerosa necessidade. Qualquer coisa que seja consumida em escala um pouco mais generosa é vista como, forçosamente, de qualidade inferior. "Fazer sucesso no Brasil é pecado", dizia Tom Jobim.

Viver - ou apenas sobreviver, como é o meu caso - de escrever livros nesse país, ainda que aos trancos e barrancos, não é visto como algo natural. Mas sim como um milagre ou, pior ainda, como um verdadeiro sacrilégio.

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 3 de setembro de 2010.