sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Eles é que ficam tontos?



Se dependesse dos comerciais de cerveja, já teria me tornado um abstêmio. Os publicitários parecem imaginar que todo mundo que gosta de cerveja tem uma bexiga no lugar do cérebro. Chega a ser constrangedor o infantilismo com que nos brindam as propagandas do produto na tevê. Como entoaria a Turma do Funil, nós é que bebemos e eles é que ficam tontos?                      

Puxando assim pela memória, se não me trai a amnésia alcoólica, foi lá pelos meados dos anos 70 do século passado que começou essa mania de tratar os apreciadores da cerveja como idiotas. "Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?" - dizia o bordão eternizado no filmete protagonizado por Adoniran Barbosa. O verbo estava conjugado errado - tudo bem, era o Adoniran - e a questão embutia um falso dilema.

A cerveja é uma bebida tribal, para ser sorvida em meio a uma roda de amigos, de preferência com alguma calabresa apimentada servindo de complemento e muita conversa fiada à mesa. O cúmulo da solidão é beber uma cerveja desacompanhado num bar. De modo idêntico e inversamente proporcional, o paroxismo da tristeza é uma turma que bebe em silêncio, por absoluta falta de assunto.

Adoniran que me perdoe. Mas beber cerveja e conversar são atos tão inseparáveis como essencialmente devem ser o lúpulo e a cevada. Mas desde aquele antigo comercial até aqui, as agências de publicidade têm se esmerado em bater o próprio recorde em mau gosto, machismo e insensatez. Quem foi o idiota, por exemplo, que bolou a velha expressão "estupidamente gelada"?

Como diria um amigo meu, uma cerveja estupidamente gelada, na verdade, não passa de uma cerveja estúpida: sem gosto, aguada, desprovida de sentido, pois neutralizada em seu característico e necessário amargor. E, antes que me esqueça, uma cerveja "subzero", duplamente filtrada, é, para qualquer bom entendedor, uma subcerveja.

Nos comerciais, o estereótipo do bebedor de cerveja é o do garotão com cara de pateta, que baba por uma loura gostosa enquanto solta piadinhas infantilóides, maliciosas na intenção, mas toscas na forma e no conteúdo. A associação entre cerveja, verão e juventude já proporcionou os clássicos mais infames do gênero, mas nada que chegue perto do comercial no qual alguns bocós se gabam de beber, segundo eles próprios relincham, um "cervejão". Ora, ora, que besteirão.

Desconfio que os publicitários miram de propósito no público adolescente, como se considerassem que beber cerveja, no final das contas, fosse apenas coisa de garotos. Ou, pior ainda, suspeito que os senhores gênios do marketing querem passar a ideia irresponsável de que puberdade e pileque foram feitas assim uma para o outro, a exemplo da tulipa de chope e o pratinho de tremoços.

Lembram do comercial de cerveja que mostrava ratinhos de laboratório que recebiam choques ao abocanhar o pedaço de queijo, mas teimavam em repetir sempre o mesmo gesto? "Como a recompensa é boa, eles voltam ao local de origem, esquecendo a experiência ruim", dizia o locutor. "Ratinhos estúpidos, não?", comentava a mocinha bonita no comercial, pois afinal se convencionou que todo comercial de cerveja tem que ter uma mulher linda no meio.

Seguia-se então a cena de um grupo de rapazes tomando choques recorrentes ao abrirem seguidamente a porta da geladeira para pegar latinhas de cerveja. Moral da história: nós, os bebedores de cerveja, somos tão inteligentes quanto ratinhos de laboratório. Mais cretino, impossível.

Por essas e por outras, conheço gente que se sente incomodada em pedir uma cerveja durante um jantar mais bacana. Como se um destilado ou uma boa taça de vinho fossem as únicas bebidas permitidas ao bom tom e à elegância numa hora e numa ocasião dessas.

Cervejeiro assumido que sou, já vi gente torcendo o nariz ao me ver pedir uma prosaica long neck enquanto todos vão de merlot ou cabernet sauvignon - mesmo que seja aí em Fortaleza, numa noite quente de tirar o juízo de qualquer cidadão.

Creio que isso ocorre porque as propagandas de cerveja nunca ressaltam a qualidade do produto em si, jamais dão ênfase à honestidade do malte, ao exato nível de amargor do lúpulo, à correta fermentação da levedura. Mas, pensando bem, talvez seja até melhor assim.

Afinal, nada pode ser mais insuportável do que uma nova categoria de frequentador de botequim que apareceu nos últimos tempos aqui em São Paulo: a do "especialista" em cerveja.

Ele é o equivalente ao enófilo, esse chato que pode ser visto por aí com o nariz enfiado dentro de uma taça, adivinhando aromas etéreos, bochechando taninos redondos, deliciando-se com notas de couro e toques herbáceos, decifrando retrogostos amadeirados onde nós, meros mortais, só identificamos o gosto do vinho mesmo.

Noite dessas, um "cervejólogo" na mesa ao lado, levando ao focinho e aos lábios uma taça de cerveja irlandesa, daquelas deliciosamente encorpadas, descobriu nela um "buquê de frutas escuras", "um pronunciado sabor de cerejas ao marrasquino", "um final herbal, levemente apimentado e terroso".

Fico imaginando que aromas colossais e que sabores incomensuráveis o dono de faro e paladar tão poderosos seja capaz de captar - valhei-me Santo Agostinho, padroeiro dos cervejeiros - à hora do sagrado ofício do sexo.

Infelizmente, a natureza não me proporcionou à língua e ao nariz um par de sentidos tão sofisticados assim. Pobre de mim, que como já dizia um ex-presidente maluquete, bebo apenas porque é líquido, pois se fosse sólido eu comia. Hic!


Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste, em 17 de setembro de 2010.