sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Estão pensando que somos abestados?



“Vote no abestado”. Lá está ele, meu conterrâneo, no horário eleitoral gratuito, fazendo graça e barulho, anunciando que é candidato a deputado federal. “Vote no Tiririca, pior do que está, não fica”, diz o slogan, pérola do cinismo e da despolitização absoluta.

“Você sabe o que faz um deputado federal? Não? Eu também não. Mas vote em mim que depois eu te conto” – essa é a principal promessa da campanha. Até tem outra, um pouco mais ambiciosa e ainda mais irreverente: “Quero trabalhar pelos mais necessitados. Principalmente os de minha família”.

Pode ser que a plataforma política do palhaço Tiririca seja mais ampla do que isso, como garantiu em entrevista recente. “De cabeça, assim, não dá pra falar. Mas como tem uma equipe trabalhando por trás, a gente tem os projetos que tão elaborados, tá tudo beleza”, jura, com a prosódia característica e a peculiar cara de pau que lhe fez a fama.

Mas é difícil saber. No site oficial da campanha, encontram-se informações sobre sua biografia de fato singular, é possível conhecer a família e os amigos do palhaço cearense e, uau, fazer download de santinhos, jingle e fotos. Tudo bonitinho e colorido. Contudo, o link para as “propostas” remete a uma página em branco. Sintomático. Até quando não quer fazer rir, o sujeito é engraçado.

Meses atrás, imaginava-se que outro cearense polêmico, Ciro Gomes, é que iria dar o que falar na eleição em São Paulo. Ciro chegou a transferir o domicílio eleitoral para a capital paulista e, por algumas semanas, acreditou-se que sua candidatura ao Palácio do Bandeirantes era pra valer. Jogado para escanteio, Ciro ficou sem saída imediata e só lhe restou mergulhar no silêncio – e no rancor? – dos traídos.

Em lugar dele, aí está o Tiririca, provocando gargalhadas de uns e arrancando protestos furibundos de outros. “Tiririca faz deboche com a democracia”, acusa o ministro da Cultura, Juca Ferreira. Para Juca, a piada chamada Tiririca não tem graça nenhuma.

Peço vênia ao senhor ministro. Eu acho que tem. Jamais votaria em Tiririca, mas confesso que, a cada aparição dele na tevê, não contenho a gargalhada. Não porque ache que um voto de protesto desse naipe faça mais algum sentido ou contribua em algo para o aprimoramento eleitoral no país. Não porque aprove a estratégia de se reduzir toda a classe política a um único balaio de gatos e gatunos, sintetizada na crença de que “pior que está não fica”. Nisso, concordo com o ministro Juca.

Contudo, acho que a candidatura de Tiririca tem graça, sim, porque sua avacalhação explícita representa uma dissonância à assepsia marqueteira, tornando ainda mais evidente o artificialismo dos candidatos que tentam vender uma imagem fabricada em laboratório. É como se eles considerassem que nós, e não o Tiririca, é que somos os verdadeiros abestados.

Além do mais, admito a vocês que sempre me espantou o poder de comunicação desse cearense de Itapipoca aparvalhado, que não demonstra nenhuma sofisticação em sua verve e conta piadas na tevê como se estivesse no picadeiro de um circo de lona furada. Sempre achei o humor de Tiririca comovente em sua suprema ingenuidade e em sua absurda pobreza cênica e vernacular. É isso, nele, que sempre me faz rir, de rolar no chão.

É um humor tipicamente cearense, autodepreciativo, capaz de fazer graça com suas próprias misérias e tragédias íntimas. No Ceará, posso garantir, tropeça-se em tiriricas a cada esquina. Minha surpresa é que este humor tão cabeça-chata, que eu supunha quase cifrado para um ouvido carioca ou paulistano, tenha conseguido transformar Tiririca, desde que ele surgiu, anos atrás, em um fenômeno de massas no país inteiro.

Tenho amigos aqui em São Paulo, paulistanos de pai e mãe, que já flagrei rindo de uma piada boba dita pela boca mole do Tiririca. Mas agora, quando o vêem no programa eleitoral gratuito, fazem cara séria. Preocupam-se com o achincalhe da democracia que ela supostamente representa.

Cá no meu canto, continuo rindo com as presepadas de Tiririca, pois ele segue me comovendo com sua ingenuidade sem limites. Mal percebe que está sendo usado pelo partido que o aliciou apenas para puxar votos à legenda e, assim, presume-se, irá ajudar a eleger alguns espertinhos do insípido PR. Os cardeais do partido até reservaram para ele um número fácil de decorar, 2222, coisa disputada a tapa na hora da inscrição das candidaturas. “Ô numerozinho lindo!”, comemora Tiririca, no programa eleitoral.

Tiririca tem toda razão. Ele é mesmo um abestado.

Texto publicado originalmente no caderno Outlook, do jornal Brasil Econômico, em 3 de setembro de 2010.