sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Profissão: escritor



Encontro no elevador o novo funcionário do prédio onde moro. Depois do protocolar bom-dia, ele me interroga à queima-roupa: "Seu Lira, em que é mesmo que o senhor trabalha?". Sou jornalista, respondo. "É mesmo, em qual jornal?". Não trabalho mais em jornal ou revista, informo. Há alguns anos, dei adeus às redações. Vivo basicamente de escrever livros, comento, com algum orgulho.

Mas a frase não produziu o efeito esperado. Ao contrário, o rapaz me olhou com cara de quem estava sentindo lá no fundo do coração uma baita pena de mim. "Pois é, seu Lira. É isso mesmo. Cada um se vira como pode", disse, abanando a cabeça, a meio caminho entre o solidário e o decepcionado.

Achei curiosa a reação do moço. Para ele, a vida de escritor deve ser assim um suplício, quase um demérito, uma penúria lascada. Desde aquele dia, ele deve ter concluído que, como não tinha nada de mais útil ou promissor a fazer na vida, decidi ser escritor. "O senhor escreve livros de auto-ajuda?", ainda me perguntou, bem na hora em que a porta do elevador se abriu à nossa frente, para ele descer.

"Não. Não escrevo auto-ajuda", tive tempo de responder, dessa vez já um tanto quanto encabulado. "Sei, entendo", devolveu o rapaz, lacônico, antes de deixar o elevador e me desejar de novo um bom-dia, agora seguido de um voto sincero de boa sorte. A porta de aço escovado então se fechou entre nós, separando o seu desapontamento de meu visível embaraço.

Já passei por aflições maiores. Como no dia em que tive de preencher o cadastro em uma imobiliária e o corretor, sorridente, perguntou-me a profissão. "Escritor", eu disse, automaticamente. O corretor fechou o sorriso e parou alguns segundos a caneta no ar, durante os quais, suponho, ficou intrigado para saber se por acaso um escritor teria como pagar o aluguel no fim do mês.

Em palestras que faço pelo país afora, a pergunta recorrente vem sempre à baila: "É possível viver de escrever livros no Brasil?". Sinto, no cantinho da boca de quem pergunta tal coisa, um certo esgar de sadismo, como se esse alguém esperasse que, na resposta, eu passasse a expelir uma pletora de queixas e rancores.

Para surpresa e certa incredulidade das plateias, sempre digo que sim, é possível ser escritor profissional, sem com isso precisar pedir esmolas na esquina ou vender laranja no semáforo para completar a renda familiar.

É claro que, em especial no começo de carreira, não é tarefa fácil. Mas não precisa ser nenhum Paulo Coelho ou um Jorge Amado (que Ogum o tenha) para poder honrar as contas escrevendo livros. Desde que não se pretenda ficar milionário e não se queira comprar um iate com o cheque trimestral dos direitos autorais, a boa notícia é que é perfeitamente plausível viver, com alguma dignidade, nesse tipo de ofício.

A notícia ruim é que, para isso, você terá que trabalhar feito um condenado. A exemplo do ditado bíblico, é preciso comer o pão com o suor do próprio rosto. Ou, como preferiria afirmar numa hora dessa minha avó Isaura, é aí que a porca torce o rabo. Não basta encastelar-se em um minarete e contar com o beneplácito das musas. É preciso, obviamente, em primeiro lugar, escrever algo que preste - e que, ao mesmo tempo, desperte em um número suficientemente considerável de pessoas a vontade de lê-lo. Essa, talvez, seja a parte mais difícil.

Mas também não basta escrever e publicar o livro, mesmo que ele seja, digamos, genial. Organizar uma boa agenda de palestras, escrever artigos de jornal, fazer um bom "frila" (o trabalho free-lance, no jargão das redações), aqui e ali, também é parte do segredo. Se calhar de negociar os direitos do livro para alguma adaptação de tevê ou cinema, bingo, melhor ainda. Mas todo o esforço despendido será em vão sem a parceria de um bom editor, alguém com excelente faro de mercado e extrema capacidade de avaliar as possibilidades de um texto.

Aviso aos interessados: o mercado brasileiro de livros está se profissionalizando cada vez mais. A chegada de grandes grupos editoriais estrangeiros tem provocado um rebuliço ainda maior no setor. Em tal cenário, para os autores que já têm alguma estrada percorrida e algum serviço demonstrado no caminho, tornou-se possível sentar à mesa de um editor competente e, entre um cafezinho e outro, negociar contratos razoáveis.

O problema é que o resquício de certo ranço beletrista ainda está à solta. Para muitos, escrever livros deveria ser uma atividade preferencialmente diletante. Afloram brotoejas pelo corpo de muita gente à simples menção de que o ato de escrever pode ser encarado como um trabalho como outro qualquer. Acredita-se, em geral, que a única opção possível para um autor escapar da miséria seja uma sinecura em alguma repartição pública.

Em oposição a esses burocratas das letras, mas igualmente puritanos, estão os que sacralizam o ofício de escrever, tratando-o como uma espécie de sacerdócio, um ato imaculado, baseado na lógica da "fracassomania": se um livro vende bem, calculam, é porque não presta. Para ser bom, teria que vender pouco, ser hermético, indecifrável, talvez ganhar alguns prêmios literários, mas arrancar indispensáveis bocejos de tédio por parte dos leitores.

Isso se torna mais eloquente em um país no qual a leitura ainda é encarada como um símbolo de distinção - e não como uma prazerosa necessidade. Qualquer coisa que seja consumida em escala um pouco mais generosa é vista como, forçosamente, de qualidade inferior. "Fazer sucesso no Brasil é pecado", dizia Tom Jobim.

Viver - ou apenas sobreviver, como é o meu caso - de escrever livros nesse país, ainda que aos trancos e barrancos, não é visto como algo natural. Mas sim como um milagre ou, pior ainda, como um verdadeiro sacrilégio.

Texto publicado originalmente no Diário do Nordeste em 3 de setembro de 2010.