sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Vá em paz, Paulinho



O Brasil estava dividido. Metade do país torcia por Nara Leão, que defendia “A banda”, de Chico Buarque. A outra metade preferia “Disparada”, de Geraldo Vandré, na voz de Jair Rodrigues. Naquele 10 de outubro de 1966, o dia da grande final do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, milhões de pessoas grudaram os narizes na tela da tevê, excitadas para saber quem ganharia a peleja. Faziam-se apostas, lançavam-se desafios, trocavam-se desaforos entre os respectivos fã-clubes.

Nos bastidores, um homem coçava a careca, apreensivo. Qualquer que fosse o resultado, ele temia que os partidários da música que terminasse em segundo lugar iniciassem um ensaio de guerra civil no auditório do Teatro Record. Não era exagero. Os ânimos estavam exaltados. Lá fora, a polícia estava pronta para agir, em caso de necessidade. Os festivais de música popular, à época, despertavam maior rivalidade do que uma final de Corinthians x Palmeiras no Pacaembu.

Quando o júri anunciou o veredicto, o placar foi de sete votos para “A banda” e cinco para “Disparada”. “Pelo clima do teatro, não achei muito bom”, diria o homem carequinha, em suas memórias. Mas o pior ainda estava por vir. Das coxias, chegou a notícia: Chico Buarque se recusava a receber o prêmio. O próprio autor de “A Banda” achava que “Disparada” era uma música melhor do que a sua. Chico ameaçava recusar o troféu ao vivo, diante da platéia e das câmeras de tevê. Seria um estrupício.

O carequinha teve uma idéia luminosa e salomônica: os votos do júri seriam matreiramente ignorados e declarar-se-ia o empate. Assim foi feito. Naquela noite, ninguém iria para casa chateado. Chuvas de papel picado e pétalas de rosas foram despejados igualmente sobre Nara, Jair e Chico. Vandré, que não estava na cidade, soube do ocorrido por meio de um telegrama, enviado pelo tal carequinha, que na verdade atendia pelo nome de Paulo Machado de Carvalho Filho, o Paulinho, como era conhecido por meio mundo da música e da televisão brasileira.

Paulinho adorava contar, pela milionésima vez, histórias saborosas como essa, sempre sublinhando cada frase com seu peculiar sorriso, revelando novos detalhes a cada ocasião em que, coçando a careca com a ponta dos dedos, revirava os baús de sua prodigiosa memória. No meio desta semana, ao abrir o jornal à mesa do café da manhã, soube que Paulinho morreu, aos 86 anos, na última terça-feira. O pão com manteiga entalou-me na garganta.

Estive com Paulinho poucas vezes. Talvez não mais do que cinco oportunidades ao vivo, além de trocarmos algumas dezenas de telefonemas. O suficiente para que passasse a nutrir por aquele senhor sorridente e elegante uma afeição particular.

Devo a ele alguns dos melhores parágrafos de Maysa: Só numa multidão de amores. Quando estava escrevendo a biografia da cantora, Paulinho recebeu-me gentilmente em sua casa. Narrou-me uma série de episódios e forneceu-me documentos que ajudaram a reconstituir o início da carreira da autora de “Ouça”. “Ah, só mais uma coisa: não precisa me chamar de Dr. Paulo, pode me chamar de Paulinho mesmo”, disse, quando nos despedimos, após eu encher umas três ou quatro fitas cassetes com nossa conversa para o livro.

Paulinho estava lá, naquele 13 de março de 1957, quando Maysa apareceu pela primeira vez na tevê, em um programa semanal na Record, com o patrocínio da Bombril. Maysa adorou quando o câmera Salvador Tredicci fechou o ângulo e enquadrou, em um big-close, apenas seus decantados olhos verdes, felinos e sedutores. “Faça isso mais vezes. Como estou um tanto quanto gordinha, ninguém precisa ver o resto do corpo”, brincou Maysa, sem suspeitar que, já na primeira noite de programa, aquela imagem viraria sua marca registrada.

Os arranca-rabos de Maysa com Elis Regina, as dificuldades da família Matarazzo em aceitar a carreira artística da moça, os sopapos públicos trocados entre ela e o marido, os pormenores dos contratos de patrocínio, nada escapou às narrativas indiscretas de Paulinho. Quando o livro foi publicado, ele não pôde comparecer ao lançamento, por motivos de saúde. Mas me ligou e me fez prometer que eu iria ao lançamento do livro de memórias dele, Histórias que a história não contou. Garanti que iria, porém, uma viagem de trabalho me impediu de honrar a promessa.

Telefonei-lhe no dia seguinte, dizendo que mesmo assim fazia questão de um autógrafo no exemplar que comprara no aeroporto. Ele convidou-me para um café, que foi sempre sendo adiado, por mim ou por ele, por esse ou aquele motivo. Agora, enquanto escrevo este texto, tomo solitariamente uma xícara de café amargo e quente. O café que não tomamos. Entre um parágrafo e outro, levanto e vou à estante. Na prateleira de música e tevê, pego seu livro. Na folha de rosto, sinto falta do autógrafo que nunca fui buscar.

Texto publicado originalmente no caderno Outlook, do jornal Brasil Econômico, em 20 de setembro de 2010.