segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Zero Hora: "Getúlio continua sendo uma esfinge"




(Por Antônio Luiz Araújo) - Zero Hora (RS).

Biógrafo consagrado de vultos históricos, o escritor e jornalista Lira Neto se dedica há cerca de um ano a um livro sobre a vida de Getúlio Vargas. A obra terá a forma de uma trilogia, com cerca de 500 páginas, em média, por volume. Nascido no Ceará e radicado em São Paulo, Lira diz: "Na Presidência, ninguém foi mais enigmático, contraditório, ambivalente". O escritor se esquiva de revelar a data prevista para o lançamento da obra. Aceitou, no entanto, um pedido de Zero Hora para responder, por e-mail, a perguntas sobre seu trabalho. A seguir, um resumo:

Zero HoraPor que o senhor decidiu biografar Getúlio Vargas?
Lira Neto
– Sempre me surpreendeu o fato de Getúlio ainda não ter sido alvo de uma biografia jornalística, moderna, exaustiva. Vinha flertando com o tema há vários anos. Em 2009, depois de entregar os originais de meu livro mais recente, Padre Cícero – Poder, Fé e Guerra no Sertão, resolvi que era chegada a hora de encarar o desafio. Tem sido fundamental a estrutura, a atenção e o apoio estratégico fornecido pela editora que publicará a obra, a Companhia das Letras.

ZH – Como o senhor define Vargas?
Lira – O melhor biografado é aquele que não pode ser definido com uma única palavra, numa única frase, em um único parágrafo, um único capítulo e, às vezes, nem mesmo em um único livro. No caso de padre Cícero, a pergunta que perpassa as quase 600 páginas da obra é exatamente esta: afinal, quem foi Cícero Romão Batista? Ao final da leitura, se tiver provocado no leitor mais dúvidas do que certezas absolutas, terei cumprido meu papel de biógrafo. Em se tratando de Getúlio, acredito em algo parecido.

ZH – A Era Vargas acabou?
Lira –
Bem ao contrário disso. Para o bem e para o mal, ela parece mais viva do que nunca. Ao longo das décadas, muitas vezes decretou-se o fim da chamada “Era Vargas”: em 1954, às vésperas da morte de Getúlio; em 1964, quando do golpe militar; em 1994, com a posse de Fernando Henrique Cardoso, que inclusive pregou em discurso a necessidade de virar tal “página da história”. Nos últimos anos, e particularmente na eleiçãos presidencial que está sendo travadas, o legado de Getúlio está mais uma vez em questão. Mais vivo e mais polêmico do que nunca.

ZH – Quem, na sua opinião, compreendeu melhor a figura de Vargas entre os historiadores?
Lira
Há inúmeros trabalhos acadêmicos sobre ele. No conjunto, há obras de interpretação interessantes e bem relevantes. Mas ele continua sendo essencialmente uma esfinge.

ZH – Qual é o método para não submergir nas fontes que constituem, hoje, a existência real de seu biografado?
Lira –
O maior erro, e sem dúvida o mais comum, é tentar dividir a vida de Getúlio em vários “Getúlios”: o revolucionário de 30, o ditador do Estado Novo, o populista do segundo governo, e por aí afora. Pode ser mais didático, mas também é mais mecânico, estanque e, portanto, simplista. O mais difícil e o mais excitante é tentar compreender como Getúlio foi capaz de redirecionar os rumos da história brasileira e, ao mesmo tempo, como também se permitiu direcionar e se reinventar a partir das transformações que ele mesmo foi produzindo. Maria Celina D’Araújo, por exemplo, em seus estudos, mostra isso de modo brilhante.

ZH – O senhor biografou o escritor José de Alencar, o padre Cícero e o general e presidente Humberto Castello Branco – cearenses, como o senhor. Como o fato de Vargas ser gaúcho repercute em seu trabalho?
Lira – O fato de ter biografado cearenses não foi, obviamente, uma coincidência. Isso tem relação imediata com o fato de serem personagens que, de um modo ou de outro, fazem parte de meu universo de interesse pessoal desde muito cedo. Mas biografei também a cantora Maysa, que era carioca, criada em São Paulo. Por meio de Maysa, biografei o fim da Era do Rádio e o início do mercado fonográfico, assim como o surgimento da TV e a pré-história da imprensa de celebridades. Getúlio, por sua vez, obviamente, não pertence apenas ao Rio Grande do Sul. Mas também é óbvio que precisei mergulhar fundo na gênese do biografado, procedendo a intensa pesquisa na história gaúcha, tarefa que foi facilitada pela excelência de trabalhos como os de Gunter Axt, Luciano Arrone Abreu, Joseph Love, Sandra Jatahy Pesavento, Maria Antonieta Antonacci, Ricardo Vélez Rodrigues, Eliane Colussi, Mario Maestri, Hélgio Trindade e tantos outros que, independentemente de pontos de vistas e conclusões antagônicas que possam ter, fornecem um painel rico e polifônico do Rio Grande da época. Ao evocar tais nomes assim, de memória, devo ter pecado pela omissão de alguns.

(Zero Hora, 16.10.2010)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Diário do Nordeste: "Decifrando Getúlio"



(Por Natercia Rocha) - Diário do Nordeste (CE).

Depois de cinco biografias - O Poder e a Peste: A Vida de Rodolfo Teófilo (1999), Castello-A Marcha para a Ditadura (2004), O Inimigo do Rei: uma biografia de José de Alencar (2006), Maysa - Só Numa Multidão de Amores (2007) e Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão (2009), o jornalista cearense Lira Neto está preparando seu novo trabalho. Dando continuidade à parceria com a editora Companhia das Letras, o escritor está trabalhando a biografia de um dos mais polêmicos, enigmáticos e controvertidos personagens da história brasileira: Getúlio Vargas.

"Dei início aos trabalhos na semana seguinte depois que entreguei os originais de Padre Cícero para a editora. Naquela ocasião, conversamos a respeito de novos projetos e disse que meu 'sonho de consumo' como escritor era biografar Getúlio Vargas", revela Lira. "Eles toparam na hora. Desde agosto de 2009, ou seja, há pouco mais de um ano, estou mergulhado nesse assunto".

Ainda sem previsão de título para o livro, o autor adianta que a trajetória de vida pessoal e pública de Getúlio Vargas será esquadrinhada em três volumes, cada um com cerca de 500 páginas, a serem lançados com espaçamento de, aproximadamente, um ano entre um e outro. "Não posso adiantar muita coisa, nem de conteúdo, nem de prazos, até porque o cronograma ainda está sendo acertado com a editora. Mas posso dizer que os três volumes darão conta de toda a trajetória de Getúlio Vargas".

Neste primeiro ano de trabalho, a pesquisa que Lira Neto vem desenvolvendo está concentrada na gênese da história do "pai dos pobres". Desde o nascimento, infância e juventude e formação política em São Borja, no Rio Grande do Sul, até sua chegada à presidência da República.

"A longa história de Getúlio Vargas estará condensada em três volumes, mas meu primeiro campo de interesse está focado no momento em que ele entra para a política como deputado estadual, depois deputado federal, governador e ministro do governo Washington Luís", ressalta o escritor.

Documentos inéditos

Apenas na etapa inicial da pesquisa, cinco estados brasileiros já foram percorridos pelo biógrafo em busca de arquivos públicos e privados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. Mas o autor adianta que serão vasculhados, também, arquivos internacionais.

"Esse livro, como todos os outros que escrevi, pretende ser apoiado, essencialmente, em fontes primárias. Não é uma simples pesquisa bibliográfica. Queremos trazer à luz uma série de documentos pouco visitados pela historiografia ou, em grande parte, absolutamente inéditos", destaca.

"Em Minas Gerais, estive em Ouro Preto, local de passagem de Getúlio na pré-adolescência, quando estudou lá. Mas é no Rio Grande do Sul, tanto em São Borja, quanto em Porto Alegre, onde está o grosso da primeira fase da pesquisa, a maior parte dos documentos consultados. No Rio de Janeiro, no Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas, estão os arquivos pessoais dele. E em São Paulo as hemerotecas são muito ricas", enfatiza. "Mas não vou me restringir a arquivos somente brasileiros. Pretendo contemplar, e já comecei a fazer isso, arquivos no exterior, especificamente nos Estados Unidos, Itália e Alemanha".

Enquanto avança na pesquisa, o autor se prepara para receber a estatueta do 52º Prêmio Jabuti, por Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão, que ficou em segundo lugar (em empate com Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory. O primeiro lugar foi para Nem Vem que Não Tem - Vida e Veneno de Wilson Simonal, de Ricardo Alexandre). Outra novidade é que, este ano, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) está com votação aberta para o "Júri Popular", em que internautas elegerão, entre os vencedores de ficção e não-ficção, o "Livro do Ano".

Diário do Nordeste, 15/10/2010

É eleição para presidente ou para sacristão?



"Pretendemos, nesta hora grave para a família brasileira, inscrever a sua defesa em nosso programa político”. Responda rápido: quem disse essa frase? José Serra? Dilma Rousseff? Pois é. Poderia muito bem ter sido um ou outro. Mas foi o autoritário Plínio Salgado, mentor da Ação Integralista Brasileira, movimento inspirado no fascismo italiano de Benito Mussolini.

No histórico manifesto de outubro de 1932, considerado a certidão de nascimento do Integralismo, Plínio dedicou um capítulo inteiro à defesa do binômio “Família e Nação”. Agora, quase 80 anos depois, em pleno século 21, Dilma e Serra fazem uma campanha presidencial rasteira e envelhecida, baseada na mesma ladainha dos caricatos galinhas verdes.

“Dilma vai apoiar a família brasileira", diz o programa do PT, no horário eleitoral da televisão. "Quero defender a família brasileira", exclama por sua vez José Serra. O regozijo por finalmente termos dois candidatos modernos, disputando uma eleição presidencial no Brasil, esfarelou-se. Ambos preferiram enxovalhar as próprias biografias ao reduzirem a contenda a uma futrica moralista.

Tão constrangedor quanto assistir a Dilma Rousseff atrapalhando-se na hora de fazer o sinal da cruz na missa em Aparecida do Norte é ver José Serra beijando crucifixos em público. Convertidos a um cristianismo de ocasião, Dilma e Serra, orientados por seus respectivos marqueteiros, apequenam-se diante de si mesmos e aos olhos do eleitorado. Nem parece que são candidatos à presidência da República. Dão a impressão que estão concorrendo para saber quem vai cuidar da sacristia.

Ao ressuscitar a face mais conservadora do catolicismo em pleno horário eleitoral, Dilma e Serra realmente fazem a política retroagir decênios. Há temas urgentes, que precisariam ser discutidos por aqueles que se propõem a governar o país. Chega a ser vexatória a constatação de que a figura moralmente mais conservadora entre os principais candidatos do primeiro turno, Marina Silva – em quem não votei –, foi quem pautou as discussões mais contemporâneas e relevantes da campanha até aqui.

Agora, no segundo turno, ao mirarem o eleitorado da evangélica Marina, o senhor José Serra e a senhora Dilma Rousseff apropriaram-se exatamente do que havia de mais retrógrado nele, ignorando os aspectos de renovação política que a candidata pelo Partido Verde, bem ou mal, pôs em debate. Para usar a metáfora bíblica, como inclusive parece convir ao maniqueísmo que ora assola o país, postos entre a Luz e a Treva, Serra e Dilma estão apostando, de caso pensado, na Treva.

Pelo twitter, o coordenador de comunicação do PT, deputado André Vargas, expeliu recentemente a seguinte boutade, referindo-se ao adversário José Serra: “O Brasil verdadeiramente cristão não votará em quem introduziu a pílula do dia seguinte, que na pratica estimula milhões de abortos”.

A frase do senhor André Vargas é tão obscurantista quanto o despropósito da campanha tucana, que colou em Dilma Rousseff a pecha de ser a favor da descriminalização do aborto – coisa que deveria estar sendo discutida com maturidade, e de forma desassombrada, por qualquer cidadão preocupado com os índices de mortalidade de mulheres brasileiras que recorrem ao Citotec para interromper uma gravidez indesejada.

Não me espantarei se, dentro de alguns dias, algum marqueteiro a serviço do PT ou do PSDB sugerir à cúpula partidária a organização de manifestações públicas nos mesmos moldes das antigas marchas da família com Deus pela liberdade. Além de exumarem Plínio Salgado, os marqueteiros e coordenadores de comunicação de Dilma e Serra estão evocando os fantasmas de Carlos Lacerda e da velha UDN para nos assombrar.

A diferença é que ninguém precisa mais sair às ruas para levantar bandeiras contra ou a favor do que quer que seja. O mais desconcertante é exatamente isso. A internet, símbolo dos novos tempos de comunicação global e instantânea, é o instrumento escolhido pelos arautos do anacronismo para deflagrar a mais carola de todas as cruzadas eleitorais das últimas décadas.

Saímos do século 20. Mas o século 20, infelizmente, ainda não saiu de dentro de nós.

Texto publicado originalmente no caderno Outlook do Brasil Econômico, em 15 de outubro de 2010.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"Padre Cícero" ganha Prêmio Jabuti de Literatura




Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, publicado pela Companhia das Letras, ficou com o segundo lugar, na categoria biografia, do Prêmio Jabuti de Literatura. A lista dos vencedores foi divulgada hoje, 1 de outubro, pela Câmara Brasileira do Livro. A relação completa, segundo o blog do caderno "Prosa e Verso", do O Globo, é a seguinte:


"Se eu fechar os olhos", "Leite derramado" e "Os espiões" são os vencedores da categoria "Romance".

Os vencedores da categoria "Contos e crônicas" são: "Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras histórias de amor)", "A máquina de revelar destinos não cumpridos", "Paulicéia dilacerada". "Crônicas inéditas" (Manuel Bandeira), terceiro lugar da categoria "Contos e crônicas", vai concorrer na categoria póstuma

Venceram a categoria "Poesia": "Passageira em trânsito", "Sangradas escrituras" e "Lar".

Venceram a categoria "Biografia", na ordem: "Nem vem que não tem: vida e veneno de Wilson Simonal", "Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão" e "Euclides da Cunha: uma odisséia nos trópicos" empataram em segundo e, em terceiro ficou "Bendito, maldito: uma biografia de Plínio Marcos".

A categoria "Reportagem" tem como vencedores "O leitor apaixonado, prazeres a luz do abajur", "Olho por olho: livros secretos da ditadura" e "Conversas de cafetinas".

Os vencedores da categoria "Infantil" são: "Os herdeiros do lobo", "Carvoeirinhos" e "A visita dos dez monstrinhos".

Os vencedores da categoria "Juvenil" são: "Avó dezanove e o segredo soviético", "Marginal: à esquerda" e "Sofia e outros contos".

Os vencedores da categoria "Capa" são: "O resto é ruído: escutando o século XX", "Salas e abismos" e "Os espiões".

Em "Teoria e crítica literária" os vencedores na ordem foram: "A clave do poético","O controle do imaginário e a afirmação do romance" e "Cinzas do espólio".

Venceram na categoria "Tradução": em primeiro lugar "O leão e o chacal mergulhador", em segundo, "Canção do venrável" e em terceiro, "Trabalhar cansa".

A segunda categoria apurada foi "Arquitetura e urbanismo, fotografia, comunicação e artes". Os vencedores, na ordem, foram "Athos Bulcão", a coleção "Brasiliana Itaú", e "Ética, jornalismo e nova mídia".

Os vencedores em "Projeto gráfico" são, na ordem: "Igreja e convento de São Francisco da Bahia", a edição de colecionador de "Alice no país das maravilhas" e "Rino Lins, uma gráfica de fonteira".

O primeiro lugar da categoria "Ilustração" é "Já já: a história de uma árvore apressada". Em segundo lugar, estão empatados "O lobo" e "Marginal : esquerda". Também empatados em terceiro: "O tamanho da gente" e "O passarinho que não queria só cantar".

Na categoria "Ciências exatas, tecnologia e informática" venceram: "Obra científica de Mario Schomberg", "Linguagens formais, teoria, modelagem e implementação" e "Química verde".

Os vencedores de "Educação, psicologia e psicanálise" são: "O tempo e o cão", "Caderno sobre o mal" e "Brasil arcaico, escola nova: ciência, técnica e utopia nos anos".

Vencedores da categoria "Didático e paradidático": "Uma história da cultura afrobrasileira", "Coleção gira mundo" e "Almanaque de sentidos".

Venmceram na categoria "Economia, administração e negócios": "Trabalho flexível empregos precários?", "Os anos de chumbo" e "Biocombustíveis, energia da controvérsia".

Venceram a categoria "Direito": "A constituição na vida dos povos", "Direito das companhias", "Curso de direito tributário: constituição e código tributário nacional".

Venceram a categoria "Ciências humanas": "Viver em risco", "A luta pela anistia" e "Um enigma chamado Brasil".

Venceram a categoria "Ciências naturais e da saúde": "Clínica médica", "Manual de diagnóstico e tratamento para residentes de cirurgia" e "Medicina laboratorial para o clínico".

Venceram a categoria "Tradução de obra literária do espanhol para o português": "Purgatório", "Três tristes tigres", "Cem anos de solidão".


(Fonte: Prosa Online)