sexta-feira, 15 de outubro de 2010

É eleição para presidente ou para sacristão?



"Pretendemos, nesta hora grave para a família brasileira, inscrever a sua defesa em nosso programa político”. Responda rápido: quem disse essa frase? José Serra? Dilma Rousseff? Pois é. Poderia muito bem ter sido um ou outro. Mas foi o autoritário Plínio Salgado, mentor da Ação Integralista Brasileira, movimento inspirado no fascismo italiano de Benito Mussolini.

No histórico manifesto de outubro de 1932, considerado a certidão de nascimento do Integralismo, Plínio dedicou um capítulo inteiro à defesa do binômio “Família e Nação”. Agora, quase 80 anos depois, em pleno século 21, Dilma e Serra fazem uma campanha presidencial rasteira e envelhecida, baseada na mesma ladainha dos caricatos galinhas verdes.

“Dilma vai apoiar a família brasileira", diz o programa do PT, no horário eleitoral da televisão. "Quero defender a família brasileira", exclama por sua vez José Serra. O regozijo por finalmente termos dois candidatos modernos, disputando uma eleição presidencial no Brasil, esfarelou-se. Ambos preferiram enxovalhar as próprias biografias ao reduzirem a contenda a uma futrica moralista.

Tão constrangedor quanto assistir a Dilma Rousseff atrapalhando-se na hora de fazer o sinal da cruz na missa em Aparecida do Norte é ver José Serra beijando crucifixos em público. Convertidos a um cristianismo de ocasião, Dilma e Serra, orientados por seus respectivos marqueteiros, apequenam-se diante de si mesmos e aos olhos do eleitorado. Nem parece que são candidatos à presidência da República. Dão a impressão que estão concorrendo para saber quem vai cuidar da sacristia.

Ao ressuscitar a face mais conservadora do catolicismo em pleno horário eleitoral, Dilma e Serra realmente fazem a política retroagir decênios. Há temas urgentes, que precisariam ser discutidos por aqueles que se propõem a governar o país. Chega a ser vexatória a constatação de que a figura moralmente mais conservadora entre os principais candidatos do primeiro turno, Marina Silva – em quem não votei –, foi quem pautou as discussões mais contemporâneas e relevantes da campanha até aqui.

Agora, no segundo turno, ao mirarem o eleitorado da evangélica Marina, o senhor José Serra e a senhora Dilma Rousseff apropriaram-se exatamente do que havia de mais retrógrado nele, ignorando os aspectos de renovação política que a candidata pelo Partido Verde, bem ou mal, pôs em debate. Para usar a metáfora bíblica, como inclusive parece convir ao maniqueísmo que ora assola o país, postos entre a Luz e a Treva, Serra e Dilma estão apostando, de caso pensado, na Treva.

Pelo twitter, o coordenador de comunicação do PT, deputado André Vargas, expeliu recentemente a seguinte boutade, referindo-se ao adversário José Serra: “O Brasil verdadeiramente cristão não votará em quem introduziu a pílula do dia seguinte, que na pratica estimula milhões de abortos”.

A frase do senhor André Vargas é tão obscurantista quanto o despropósito da campanha tucana, que colou em Dilma Rousseff a pecha de ser a favor da descriminalização do aborto – coisa que deveria estar sendo discutida com maturidade, e de forma desassombrada, por qualquer cidadão preocupado com os índices de mortalidade de mulheres brasileiras que recorrem ao Citotec para interromper uma gravidez indesejada.

Não me espantarei se, dentro de alguns dias, algum marqueteiro a serviço do PT ou do PSDB sugerir à cúpula partidária a organização de manifestações públicas nos mesmos moldes das antigas marchas da família com Deus pela liberdade. Além de exumarem Plínio Salgado, os marqueteiros e coordenadores de comunicação de Dilma e Serra estão evocando os fantasmas de Carlos Lacerda e da velha UDN para nos assombrar.

A diferença é que ninguém precisa mais sair às ruas para levantar bandeiras contra ou a favor do que quer que seja. O mais desconcertante é exatamente isso. A internet, símbolo dos novos tempos de comunicação global e instantânea, é o instrumento escolhido pelos arautos do anacronismo para deflagrar a mais carola de todas as cruzadas eleitorais das últimas décadas.

Saímos do século 20. Mas o século 20, infelizmente, ainda não saiu de dentro de nós.

Texto publicado originalmente no caderno Outlook do Brasil Econômico, em 15 de outubro de 2010.