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Folha: "Figura polifônica de Getúlio
tornará controversa qualquer biografia dele"



(Lira Neto, especial para a Folha)

Em 1950, Rubens Vidal, repórter da extinta "Revista do Globo", desceu em um bimotor na fazenda Santos Reis, no interior do Rio Grande do Sul, com um propósito: pretendia escrever a biografia do ex-ditador que, deposto cinco anos antes, preparava-se para voltar ao Catete consagrado pelo voto popular.

"Sou contra biografias", rechaçou Getúlio. Tratava-se de meia verdade. Ele já abrira parte de seus arquivos para três biógrafos. O resultado foram três panegíricos lançados em pleno Estado Novo.

Getúlio não era contra biografias. Na verdade, era a favor. Mas, como todo biografado, desde que elas falassem bem dele. Dono de uma trajetória controvertida, Getúlio, voluntariamente ou não, forneceria ainda muitas histórias para os pretendentes a biógrafos, fossem apologistas ou detratores. Talvez seja o personagem histórico sobre o qual mais se escreveu no Brasil. A despeito disso, curiosamente, não há uma grande biografia sobre ele.

Quando propus a Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, uma biografia de Getúlio, sabia o tamanho da encrenca em que me metia. Mas o apoio e o entusiasmo de Luiz foram tão animadores que comecei a trabalhar nisso um dia depois de apresentar à editora os originais de "Padre Cícero", meu livro mais recente.

Há um ano, com a ajuda de uma boa equipe de pesquisadores, venho mergulhando em arquivos públicos e privados, de várias partes do país e do exterior. Foram visitadas dezenas de instituições e consultadas até agora cerca de 50 mil páginas de documentos: cartas, processos judiciais, telegramas, despachos, bilhetes, periódicos, relatórios, memorandos e mensagens oficiais.

Há muito mais a pesquisar, escarafunchar, descobrir. Só o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, é um universo.

Como repórter, sempre acreditei na investigação rigorosa, paciente e excitante em fontes primárias, ferramenta básica do jornalismo. Não se faz boa narrativa histórica sem isso, a menos que se pretenda chover no molhado, fazer revisão bibliográfica, pôr em linguagem corrente o que já se escreveu.

Basta dizer que todos os autores que já trataram da juventude de Getúlio, por exemplo, repetiram-se insistentemente, sem avançar muito, quando se referem a dois esqueletos no armário dessa história: Getúlio teria mesmo, aos 14 anos, matado um estudante paulista em Ouro Preto? E, nos anos 20, teria realmente assassinado um índio no interior gaúcho?

As pistas para as respostas estão nos inquéritos policiais e nos processos judiciais que permaneciam, até aqui, aparentemente intocados em arquivos em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. É imperativo gastar sola de sapato, decifrar caligrafias garranchudas, dialogar com documentos cobertos de pó. O grande desafio para qualquer biógrafo é construir, a partir desse amontoado de informações documentais, uma narrativa coesa e atraente.

No caso de uma história polifônica e fascinante como a de Getúlio, trata-se de uma equação ainda mais intrincada: tentar captar o biografado em todas as dimensões, articular a trajetória pública e os caminhos da vida privada, explorar o contexto em que agiu, transformou e, também, foi transformado.

Getúlio soube fabricar uma imagem pública sobre a qual até hoje se discute a partir de posições extremadas. Uma biografia dele, necessariamente, ainda que busque a isenção e o equilíbrio, também deverá ser alvo de controvérsias. "Sou contra biografias", diria, numa hora dessas, o próprio Getúlio.


Texto publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 23 de outubro de 2010.

 

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