sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Meu novo escritório é a céu aberto


Acabo de inaugurar um novo “escritório”. Ele não tem escrivaninha, computador ou ar-condicionado. Fica nas pedras históricas da rua do Ouvidor e resume-se a uma das tantas mesas dobráveis de madeira de um simpático botequim do centro do Rio, a Toca do Baiacu. A mesa está assentada estrategicamente bem em frente à porta de um dos templos sagrados da cultura e da alma cariocas: a Livraria Folha Seca, comandada por Rodrigo Ferrari, o Digão, livreiro, peladeiro, organizador de batucada e, claro, torcedor fanático do Flamengo.

Ao adentrar os umbrais da Folha Seca, situada no número 37 da Ouvidor, o transeunte que por acaso esteja zanzando pelo centro velho encontrará prateleiras abarrotadas dos melhores livros e dos últimos lançamentos sobre a música, o futebol, a literatura, a história, a fotografia, o urbanismo, as artes e as religiões de matriz africana que compõem, em conjunto, toda a singularidade de uma cidade que, apesar dos muitos pesares, continua, sim, maravilhosa.

Foi ali, no meu escritório novo, enquanto enxugava ampolas geladas de cerveja e devorava um arroz de bacalhau ou um filé à Nicola — todos preparados sob a supervisão direta do Marquinhos, dono do pedaço —, que entabulei, na última semana, algumas das conversas mais memoráveis de minha vida.

Em uma dessas jornadas, que começou pouco depois da hora do almoço e se prolongou noite adentro, tive a oportunidade e a suprema honra de dividir a mesa com uma turma de bambas. 

Numa ponta, sentou o grande Nei Lopes, intelectual e sambista de primeira, discorrendo sobre a diáspora africana e dando notícias, para breve, do seu Dicionário da História Social do Samba, obra que escreveu a quatro mãos com Luiz Antônio Simas. 

O próprio Simas, figuraça com quem eu havia almoçado naquela tarde no Al-Farabi — misto de sebo e restaurante mantido pelo camarada Carlos Alves em um casarão centenário da rua do Rosário —, sentou na outra ponta e, com simpatia e autoridade inquestionáveis, desfiou uma deliciosa sequência de narrativas sobre a formação histórica da música carioca.

O pessoal foi chegando e, em poucas horas, além daqueles dois gigantes, eu me vi sentado em torno de gente como Cássio Loredano (na minha opinião, o maior caricaturista e ilustrador brasileiro da atualidade), Álvaro da Costa e Silva (o “Marechal”, autor do Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro, jornalista com passagem por O GloboÚltima HoraJornal do BrasilMancheteEle&Ela e atualmente colunista da página 2 da Folha de S. Paulo), Salgado Maranhão (poeta e compositor, parceiro de Paulinho da Viola, Xangai, Moacyr Luz e Ivan Lins) e Maurício Barros de Castro (historiador, autor do livro Zicartola, que mereceu aplausos de Aldir Blanc e Hermínio Bello de Carvalho). 

Na ocasião, o antropólogo Marcos Alvito (autor de Histórias do Samba: de João da Baiana a Zeca Pagodinho), propôs a fundação da Academia Brasileira dos Loucos e Poetas em Geral, entidade etílico-cultural, “sem estatutos, sem juízo e, obviamente, sem dinheiro”.

No dia seguinte, recebi no escritório o amigo Rodrigo Alzuguir, autor de uma biografia extraordinária do sambista Wilson Batista, que chegou acompanhado de Pedro Paulo Malta, cantor, pesquisador e jornalista. Os dois me levaram para assistir ao grande show de lançamento dos discos Samba Sujo e Pra essa gente boa, de Alfredo Del-Penho, no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes. 

Del-Penho, vale dizer, vem sendo considerado pela crítica especializada um dos novos talentos da música brasileira e seus discos foram produzidos em sistema de crowdfunding, tendo ninguém menos do que Chico Buarque de Hollanda como um dos principais colaboradores.

Não se espantem, contudo, se por acaso, em meio ao rebuliço da rua do Ouvidor, me encontrarem algum dia sentado lá no escritório ao lado de dois distintos sujeitos de paletó e gravata. A dupla, saibam, nada tem de circunspecta. São dois advogados — Luiz Cláudio e Luiz Carlos Fraga (o Fraguinha) —, que na hora do sol a pino aproveitam o intervalo do almoço para dar um abraço no Digão, visitar a Folha Seca e comer o arroz de bacalhau da Toca do Baiacu.

Fraguinha, aliás, é outro formidável contador de histórias. Genro de Vitinho (ex-integrante da ala de tamborins do Salgueiro e jogador de vôlei que defendeu as cores brasileiras nas Olimpíadas de 1964), ele se orgulha, com razão, de uma das fotos penduradas nas paredes da Folha Seca. Nela, o sogro aparece ao lado de um jovem Edson Arantes do Nascimento. 

O time de futebol de praia de Vitinho, o Copaleme, desafiara a equipe que o então bicampeão do mundo mantinha nas areias de Santos. Fizeram uma aposta. Se seu time perdesse, Pelé posaria para uma fotografia vestindo o uniforme azul e amarelo do desafiante. O jogo terminou com 3 x 2 a favor do Copaleme. Por esse motivo, o Rei do Futebol está lá, com um sorriso um tanto quanto constrangido, envergando as cores do adversário.

Antes de retornar a São Paulo e pedir para Digão ficar tomando conta do escritório até minha próxima ida ao Rio, fui a Ipanema requerer a devida benção ao mestre Jairo Severiano, autor de livros fundamentais sobre MPB, entre eles Uma história da música popular brasileira e os dois volumes de A canção no tempo (estes em parceria com outro craque no assunto, Zuza Homem de Mello). 

Mestre Jairo, aos 88 anos, generoso como só ele sabe ser, recebeu-me com enorme cortesia e desfiou uma série de lembranças que lhe foram despertadas pela leitura dos três tomos de Getúlio.

Ao final, ainda deu tempo de tomar uma saideira rápida na Toca do Baiacu, passar a régua e meter na mala a avalanche de livros que eu havia encomendado ao Digão. Por causa disso, no aeroporto Santos-Dumont, quase tive que pagar excesso de bagagem.

A mala, é verdade, voltou muito mais pesada.

Mas minha alma, sem dúvida, estava incontavelmente mais leve.