domingo, 1 de outubro de 2017

"Onde se queimam livros, acabam-se queimando pessoas"



Sou fascinado pelo incontornável clichê: a fotografia do escritor em primeiro plano, a estante coalhada de livros ao fundo, o fetiche das lombadas atraindo-me o olhar como um convite à curiosidade e ao prazer. Tento identificá-las, apreciando a imagem por minutos, detendo-me em velhas capas conhecidas, adivinhando outras tantas que nunca tive em mãos.

Por idêntico motivo, ao entrar pela primeira vez em uma residência qualquer, passeio a vista pelo ambiente, exploro o local em busca de volumes empilhados à toa ou dispostos em fileiras contíguas sobre as prateleiras. Invejo os rituais de uma possível organização, deixo-me seduzir pelo caos da eventual desordem.

Durante a visita, se tiver oportunidade, roço a ponta dos dedos pelo costado dos tomos mais ao alcance, acaricio o dorso das encadernações e brochuras. Leio títulos, distingo autores, descubro temas, constato minhas ignorâncias. "Eu, que imaginava o Paraíso/ tendo uma biblioteca como modelo", propõem, aliás, os versos do "Poema dos Dons", de Jorge Luis Borges.

A escritora Marguerite Yourcenar, por sua vez, afirmava que a melhor maneira de se conhecer alguém é observando seus livros. Um homem, afinal, é aquilo que lê. Os desavisados não devem, porém, confundir tal constatação com a ideia de que lemos só aquilo que nos conforta e anima. Livros não são escritos para consolar certezas. Na verdade, mostram-se muito mais úteis quando conseguem semear a dúvida, desestabilizar credos, vergalhar convicções.

Por isso mesmo, livros sempre foram considerados perigosos pelos regimes de força, pelas mentes autoritárias e cheias de verdades, pelos inquisidores da vida alheia. Nos antigos ordálios da Antiguidade e da Idade Média, escritos considerados perniciosos eram atirados ao fogo e submetidos ao "juízo de Deus".

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 01/10/2017.
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