domingo, 28 de maio de 2017

Tempos estranhos




Cena 1: Um batalhão de soldados aparelhados de fuzis investe contra a multidão, deixando atrás de si um rastro de destruição e brutalidade. As paredes das habitações coletivas são demolidas com violência, embora lá dentro ainda existam moradores que não tiveram para onde ir nem oportunidade de correr. Em meio aos estampidos, entre nuvens de fumaça e poeira, homens, mulheres e até crianças fogem atarantados, sem direção definida. Pela imprensa, o prefeito comemora, minimizando a ocorrência de feridos e desabrigados.

Essa bem que poderia ser uma narrativa do final do século 19. A descrição da derrubada do Cabeça de Porco, por exemplo, o maior cortiço do Rio à época. Um episódio ocorrido no tempo em que questões sociais e de saúde pública eram tratadas pelas autoridades a bala, como caso de polícia. O prefeito carioca de então, Barata Ribeiro, definira aquela ação armada como medida civilizatória, cruzada em nome da ordem e do progresso. Resultado do imbróglio: pessoas em situação de extremo risco, desalojadas à força, ocuparam as encostas dos morros vizinhos, dando origem às primeiras favelas do país.

Infelizmente, custa crer, tal barbárie não faz parte do passado. Não à toa, os tempos verbais do primeiro parágrafo deste texto estão todos no presente. O absurdo da cena deu-se há poucos dias, século 21, no coração da cidade mais rica e desenvolvida do país. A pretexto de exterminar a cracolândia, uma megaoperação posta em prática em São Paulo apenas conseguiu espalhar um problema que já era crônico por outras regiões da cidade. Mais de cem anos antes, um jornal carioca, "O Paiz", indagara a Barata Ribeiro: "A cabeça está decepada, mas o rabo, toda essa cauda de expulsos que trazeis atrás, onde a acomodareis?"

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 28/05/2017.
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