domingo, 4 de fevereiro de 2018

A insurgência dos vagalumes

Imagine um livro denso sobre a obra e o pensamento de Franz Kafka que, para ser lido, exija o trabalho prévio de desatarraxar com chave de fenda dois pequenos parafusos enferrujados trespassando todas as páginas, desde a capa até a contracapa.
Ou um volume que, a propósito de falar de insurreições e revoltas de rua, tenha a extremidade das folhas chamuscadas, exemplar a exemplar, e por isso recenda levemente a papel queimado.
Ou, ainda, uma brochura sobre o inferno do sistema prisional, com as costuras da lombada à vista, acondicionada dentro de um marmitex de papel alumínio, simulando uma quentinha.
Tais ousadias gráficas, que dessacralizam o formato livro e ao mesmo tempo convertem tais publicações em objetos de arte, constituem apenas um dos muitos aspectos instigantes dos títulos lançados por uma editora alternativa paulistana, de catálogo tão enxuto quanto insubmisso às convenções do mercado.
Para além do artesanato e dos experimentalismos materiais que nos atiçam os sentidos, o portfólio da n-1 edições impressiona pelo espírito transgressivo de sua proposta editorial. Não são livros destinados ao mero deleite, à leitura de puro entretenimento. Foram escritos, de modo deliberado, para ferroar consciências.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 04/02/2018.
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domingo, 21 de janeiro de 2018

Uma revolução em curso



O fato me chamou a atenção desde quando estive pela primeira vez no Estado norte-americano de Vermont, no verão de 2015, como escritor-residente na Portuguese School, do Middlebury College.

Um dos dois senadores eleitos pelos cidadãos de Vermont, Bernie Sanders, senhor grisalho de 76 anos, campeão de votos com 71% dos sufrágios, define-se como socialista democrático e defende plataforma política bastante ousada para os padrões daquele país.

Um pacote que inclui propostas de liberação da maconha, legalização do aborto, gratuidade do ensino superior e o fim da discriminação contra minorias sexuais.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 21/01/2018.
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domingo, 7 de janeiro de 2018

Guerra de símbolos



Sim, é verdade, a direita saiu do armário. Perdeu o medo e a vergonha de exibir-se à luz do dia. Por conveniência e estratégia de combate político, os ditos "conservadores nos costumes e liberais em economia" aliam-se às bancadas do boi, da bala e da Bíblia.

No campo cultural, escudados no discurso "politicamente incorreto", por um lado esbravejam vitupérios, expelem platitudes, vomitam sarcasmos. Por outro, travestidos de pudicos guardiões da moral e dos bons costumes, apontam o dedo censório, invocam preconceitos, cultivam ódios primários.

De um modo e de outro, semeiam ignorâncias e manobram frustrações coletivas, transformando-as em combustível para a animosidade e o rancor em massa. Como são ruidosos, municiados com suas bombas semióticas, aparentam estar levando a melhor na batalha pela opinião pública.

Entretanto isso não significa que tenham passado a constituir, hoje em dia, uma supremacia avassaladora e sem volta. A sensação de que fomos tragados por uma onda retrógrada, um tsunami irremediável, precisa ser analisada com forte senso de urgência, mas sem derrotismos prévios.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 07/01/2018.
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domingo, 24 de dezembro de 2017

Papai Noel: negro e gay



Santa Claus, ou seja, Papai Noel, é negro e gay. Aquele outro senhor de bochechas rosadas e olhos azuis, estampado em todas as propagandas e enfeites natalinos, é David Claus, seu respectivo marido.

Isso mesmo: Santa Claus e David Claus, dois senhores barbudos, gorduchinhos e de meia idade, são casados. Vivem juntos no Polo Norte, no topo do mundo, e mantêm um relacionamento homoafetivo e inter-racial amável e bem-humorado.

Dividem as tarefas domésticas, assistem à TV de mãos dadas, dançam ouvindo música no rádio. Passam as férias na praia, brincam com o cachorro, jogam peteca, plantam girassóis.

De vez em quando, um dorme deitado no colo do outro, no sofá. Papai Noel ressona sorridente, enquanto David Claus lê um livro, os pés agasalhados por pantufas cor-de-rosa com cara de coelhinho.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 24/12/2017.
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domingo, 10 de dezembro de 2017

Elefantes voadores




"Se você diz que há elefantes voando no céu, as pessoas não vão acreditar", observava Gabriel García Márquez. "Mas se você disser que há 425 elefantes alados, as pessoas provavelmente acreditarão."

Expoente do chamado realismo mágico, o escritor aludia ao recurso literário de construir narrativas com alto nível de detalhamento, a ponto de fazer os leitores "acreditarem" nelas. Instaurar um pacto no qual a irrealidade, apesar de manifesta, é aceita em nome da fruição e, quase sempre, da alegoria.

Para além do campo literário, amparar supostas verdades com base em números e estatísticas, manobrando dados e fontes de informação, é truque de ilusionismo político. Em vez de artifício estético, trata-se de manipulação da fé alheia.

O relatório apresentado há poucos dias pelo Banco Mundial ao governo brasileiro, no capítulo destinado a traçar o diagnóstico de nossas universidades, tenta fazer a opinião pública acreditar que há paquidermes planando no céu. É o caso de lembrarmos que elefantes, obviamente, não voam.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 10/12/2017.
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domingo, 26 de novembro de 2017

Pós-verdade e ignorância histórica



"Indignai-vos", conclamou a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, na mesa de abertura do seminário "O Mundo Depois do Holocausto: Direitos Humanos e Direitos Nacionais", na quarta (22), na PUC-SP.

"Cada um de nós pode e deve ser um ativista", prosseguiu, aludindo à necessidade de demarcar posição no contexto das guerras narrativas contemporâneas, no qual os fatos objetivos são distorcidos por meio da manipulação dos medos, das ignorâncias e dos preconceitos coletivos.

"A informação é nossa arma", completou a professora, exortando a plateia ao bom combate contra um fenômeno tão antigo quanto a própria humanidade: a mentira factual, hoje amplificada pelas novas mídias e rebatizada de "pós-verdade" ou "fake news".

Uma rápida busca na internet, por exemplo, revela quantidade impressionante de sites, fóruns de discussão, postagens e comentários em redes sociais que procuram negar a existência do Holocausto. "No terreno pantanoso em que a verdade afunda, a mentira aflora", sentenciou Maria Luiza.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 26/11/2017.
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domingo, 12 de novembro de 2017

Um livreiro na contramão do mercado



Jamais caia na bobagem de perguntar ao livreiro Lúcio Zaccara se ele tem, nas prateleiras da loja, qualquer um dos badalados romances de Elena Ferrante à venda. "Não trabalho com esse tipo de literatura", será a resposta. Menos aconselhável ainda é indagá-lo sobre obras do tipo "50 Tons de Cinza", manuais de autoajuda ou autobiografias de youtubers. "Só vendo aquilo que posso recomendar, sem constrangimentos, ao leitor."

Esse senhor alto, magro e vivaz, de insuspeitados 60 anos, também é avesso a promoções e jogadas de marketing. Por isso, nunca fez qualquer tipo de propaganda do seu negócio. Mantém uma discrição quase monástica. "Não quero atrair gente que sairá decepcionada por não encontrar o best-seller da moda", justifica. "Quem está acostumado a entrar aqui já sabe que topará apenas com livros de qualidade."

Divulgadores não conseguem convencê-lo a afixar banners de vinil relativos a eventos literários. Ele aceita apenas cartazes em papel, que considera mais elegantes e amigáveis. De preferência, mandados confeccionar por ele próprio e assinados por artistas gráficos de renome.

Não permite, igualmente, pilhas de um mesmo lançamento na vitrine ou no interior da loja. Ali não é supermercado para ter gôndola, parece sugerir, criticando a prática das grandes redes alugarem espaços para editoras.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 12/11/2017.
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domingo, 29 de outubro de 2017

Eticamente incorretos



Eles não são apenas politicamente incorretos, são também intelectualmente desonestos, eticamente deploráveis.

Meses atrás, fui abordado por um certo Matheus Ruas, diretor e roteirista da produtora Fly, que me disse estar "produzindo um especial sobre história do Brasil" para o History Channel. Queria colher meu depoimento sobre temas relacionados aos livros que escrevi.

Solícito com repórteres e documentaristas que me procuram, disse que poderia recebê-lo dali a alguns dias, em minha casa, para conceder-lhe a entrevista. Após uma troca de e-mails, combinamos a data. Mal podia imaginar que, com isso, estava caindo em sórdida arapuca.

Recebi Matheus na sala de casa. Sem me dar conta, abria gentilmente a porta para uma das situações mais constrangedoras de minha trajetória pessoal e profissional. Mas, isso, só constataria meses depois.

Naquele momento, apenas estranhei a forma com que o entrevistador me pediu para responder às questões: "Nosso público-alvo é alguém com a inteligência do Homer Simpson", explicitou, referindo-se ao personagem abobalhado de desenho animado, símbolo da idiotia. "Responda como se estivesse falando para ele", pediu-me.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 29/10/2017.
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domingo, 15 de outubro de 2017

Abominável mundo novo



A cena me deixou terrificado. Há poucos dias, visitei uma escola paulistana de ensino fundamental, em um bairro de classe média da cidade. Cheguei à hora do intervalo e deparei-me com um quadro que parecia retirado de algum episódio de "Black Mirror", a série televisiva que explora os aspectos mais sinistros do impacto da tecnologia sobre o mundo contemporâneo.

Espalhados pelo pátio, recostados nas paredes, sentados ao chão, divididos em pequenos grupos, praticamente todos os alunos mantinham os olhos presos às telinhas dos respectivos celulares. Eram dezenas de crianças e pré-adolescentes. De ombros arqueados, quase nenhum olhava diretamente para o outro. Boa parte deles utilizava fones de ouvidos.

Muitos movimentavam os polegares freneticamente, digitando algo nos minúsculos teclados virtuais, enquanto caminhavam às cegas, sem olhar para a frente. Outros, imóveis, nucas curvadas, retinas fixas nos aparelhinhos, mantinham o semblante vazio, uma expressão de ausência e torpor.

Estavam fisicamente juntos, mas separados por uma barreira invisível. Naquelas mentes e corpos em formação, a criatividade, a energia e o fulgor tão típicos à idade pareciam tragados pela entropia de um assustador buraco negro. A imagem me provocou tamanho abalo que, nos dias posteriores, arrisquei-me a investigar um pouco mais o fenômeno.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 15/10/2017.
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domingo, 1 de outubro de 2017

"Onde se queimam livros, acabam-se queimando pessoas"



Sou fascinado pelo incontornável clichê: a fotografia do escritor em primeiro plano, a estante coalhada de livros ao fundo, o fetiche das lombadas atraindo-me o olhar como um convite à curiosidade e ao prazer. Tento identificá-las, apreciando a imagem por minutos, detendo-me em velhas capas conhecidas, adivinhando outras tantas que nunca tive em mãos.

Por idêntico motivo, ao entrar pela primeira vez em uma residência qualquer, passeio a vista pelo ambiente, exploro o local em busca de volumes empilhados à toa ou dispostos em fileiras contíguas sobre as prateleiras. Invejo os rituais de uma possível organização, deixo-me seduzir pelo caos da eventual desordem.

Durante a visita, se tiver oportunidade, roço a ponta dos dedos pelo costado dos tomos mais ao alcance, acaricio o dorso das encadernações e brochuras. Leio títulos, distingo autores, descubro temas, constato minhas ignorâncias. "Eu, que imaginava o Paraíso/ tendo uma biblioteca como modelo", propõem, aliás, os versos do "Poema dos Dons", de Jorge Luis Borges.

A escritora Marguerite Yourcenar, por sua vez, afirmava que a melhor maneira de se conhecer alguém é observando seus livros. Um homem, afinal, é aquilo que lê. Os desavisados não devem, porém, confundir tal constatação com a ideia de que lemos só aquilo que nos conforta e anima. Livros não são escritos para consolar certezas. Na verdade, mostram-se muito mais úteis quando conseguem semear a dúvida, desestabilizar credos, vergalhar convicções.

Por isso mesmo, livros sempre foram considerados perigosos pelos regimes de força, pelas mentes autoritárias e cheias de verdades, pelos inquisidores da vida alheia. Nos antigos ordálios da Antiguidade e da Idade Média, escritos considerados perniciosos eram atirados ao fogo e submetidos ao "juízo de Deus".

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 01/10/2017.
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domingo, 17 de setembro de 2017

"Queermuseu" confirma cenário de obscurantismo



Não houve incitação à pedofilia, incentivo à zoofilia. O que houve foi histeria, alimentada por doses inacreditáveis de preconceito, desinformação, moralismo, ignorância e má-fé. O que houve, também, foi a mais nítida demonstração de pusilanimidade por parte do Santander Cultural, que se rendeu ao barulho e aos faniquitos da turba e, por meio de nota xucra, endossou o atestado de retrocesso coletivo.

O cancelamento da exposição "Queermuseu", em Porto Alegre, passará à história como mais um episódio a confirmar o atual cenário de obscurantismo no país. O Santander, que dizia apoiar a diversidade, dobrou-se à intolerância. O marketing pretensamente arejado não resistiu à tática do grito.

Eram obras em geral já conhecidas, algumas delas circulando em galerias e museus há dezenas de anos, incluindo trabalhos de Volpi, Portinari, Leonilson, Flávio de Carvalho e Lygia Clark. Postas em conjunto pela curadoria para ilustrar a presença da diversidade sexual nas artes nacionais, foram tratadas como objeto de escarcéu.

Difícil apontar o mais constrangedor em toda a celeuma: ativistas jovens escandalizados diante de imagens sexuais, a mais tosca carolice manobrando o instinto de manada que tomou conta das redes ou um centro cultural emitir nota ao público argumentando que a arte "perde seu propósito" quando não gera "reflexão positiva".

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 17/09/2017.
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domingo, 3 de setembro de 2017

O príncipe da escuridão



Passou um tanto quanto batido por parte da imprensa brasileira o recente lançamento, via Netflix, de um documentário perturbador: "Get Me Roger Stone". O filme reconstrói a trajetória de um dos mais sórdidos operadores do vale-tudo em que se transformou a política contemporânea.

Apelidado pelos adversários de Príncipe da Escuridão, cognome do qual ele próprio se vangloria, o lobista e estrategista Roger Stone é tido por observadores da imprensa americana como um dos principais responsáveis pela ascensão de Donald Trump à Casa Branca.

Adepto da pós-verdade, semeador de intrigas, vaidoso de suas habilidades para exercer o cinismo em altas doses, Stone se define como um "agente provocador". Aos que o acusam de falta de ética e de abusar dos golpes baixos, contrapõe: "Aqueles que dizem que não tenho princípios são perdedores amargurados".

Com peitoral e braços bombados em sessões de musculação, envergando figurinos extravagantes e sapatos lustrosos, ele é um prosélito das próprias regras de conduta, consubstanciadas em uma série de sentenças que batizou pomposamente de "Stone's Rules". Entre elas, uma de suas favoritas: "É melhor ser infame do que nunca ser famoso".

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 03/09/2017.
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domingo, 20 de agosto de 2017

Contra o fanatismo



São apenas 136 páginas, o que pode fazer com que o pequeno volume passe despercebido, em meio à gôndola da livraria, ao olhar mais desatento. Colocada na prateleira, ladeada por outros lançamentos, a publicação também chama pouca atenção devido à lombada fina, de apenas um centímetro de largura.
A despeito disso, trata-se de um grande livro. Grande e necessário, deve-se realçar.

No momento em que assistimos, estarrecidos, às cenas de ódio racial em Charlottesville; no instante em que testemunhamos, envergonhados, um imigrante sírio vendedor de esfirras ser hostilizado por um brasileiro armado de pau em Copacabana; em um tempo no qual se vociferam, sem pudores, agressões e preconceitos nas redes sociais e nas caixas de comentários da internet; a leitura de "Mais de uma Luz: Fanatismo, Fé e Convivência no Século 21", de Amós Oz, torna-se imprescindível.

São três breves ensaios, escritos por um dos mais brilhantes e influentes escritores contemporâneos. No primeiro deles, Oz enfileira uma série de instigantes reflexões a respeito da intolerância tão presente em nossos dias. "O fanático nunca entra em um debate. Se ele considera que algo é ruim, seu dever é liquidar imediatamente aquela abominação", escreve o autor. "Todos os tipos de fanáticos tendem a viver num mundo em preto e branco. Num faroeste simplista de mocinhos contra bandidos. O fanático é na verdade um homem que só sabe contar até 1."

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 20/08/2017.
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domingo, 6 de agosto de 2017

Liberdade para Rafael Braga



No início do século 20, o delegado Francisco Cardoso se vangloriava de ser o maior inimigo dos "vagabundos" do bairro carioca do Estácio, berço do moderno samba urbano. Com ele, não havia conversa. Baseado na letra do Código Penal então em vigor, despachava para o xilindró todos os que não tivessem "profissão, ofício ou qualquer mister, não possuindo meios de subsistência e domicílio certo". Quem fosse visto batendo perna na rua era enquadrado na chamada "Lei da Vadiagem".

Promulgada em 1890, dois anos após a abolição, a lei apontava para alvo prioritário: ex-escravos ou descendentes de cativos que, por força da desigualdade, não haviam encontrado lugar na nova lógica do mercado de trabalho. O suspeito, geralmente pobre e preto, era apanhado pela gola e conduzido debaixo de vara à delegacia. Os próprios policiais encarregados da captura atuavam como testemunhas de acusação.

A versão dos meganhas ganhava estatuto de prova irrefutável. Eventuais testemunhas de defesa eram ouvidas por mera formalidade. O inquérito subia para a Justiça e os magistrados invariavelmente desprezavam quaisquer depoimentos que contrariassem a narrativa dos policiais, alegando que as declarações a favor do réu visavam apenas safá-lo do alcance da lei.

Entre as vítimas do delegado Cardoso, contava-se bom número de bambas do Estácio. Negros, em sua maioria. Os arquivos policiais do princípio do século passado, hoje sob a guarda do Arquivo Nacional, estão atulhados de inquéritos assinados por delegados e juízes que olhavam para os primeiros sambistas –pretos e miseráveis– como criminosos em potencial.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 06/08/2017.
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domingo, 23 de julho de 2017

Breves considerações sobre a não-ficção


É comum leitores me abordarem, presencialmente, por e-mail ou mesmo por comentários em redes sociais, pedindo "dicas" de como escrever um livro de não ficção. Em geral, fico embaraçado, sem ter o que responder.

Quando insistem, gaguejo, mudo de assunto, eventualmente me faço de surdo, no máximo solto duas ou três platitudes. Temo, por vezes, parecer arrogante, mal-educado ou mesquinho, receio aparentar estar escondendo o ouro por algum suposto tipo de avareza profissional.

Não se trata disso. Apenas acredito que não existam fórmulas prontas, receitas pré-fabricadas, esquemas infalíveis para se arquitetar uma narrativa biográfica, por exemplo.

Como jornalista, costumo dizer que meu método de trabalho é essencialmente o do repórter. Escrever livros de não ficção, para mim, é exercer a reportagem em sua plenitude, alforriado do duplo grilhão que incide sobre a prática do jornalismo cotidiano: o sufoco do tempo e a coerção do espaço.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 23/07/2017.
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domingo, 9 de julho de 2017

A TV tradicional está com os dias contados











Peguei-me indagando, à minha filha de oito anos, em que horário e em qual emissora vai ao ar determinado desenho animado, a que havíamos assistido juntos, dias antes, e que me surpreendera pela estética um tanto quanto psicodélica e pelo desconcertante nonsense da narrativa. Achara aquilo estranhamente engraçado e desejava conferir novos episódios. Ela olhou-me intrigada, como se não houvesse entendido o próprio sentido da pergunta. "Como assim, em que horário vai ao ar, pai? E, como assim, em qual emissora?", devolveu-me.

Caí em mim. Para minhas duas filhas menores, a televisão representa algo absolutamente diferente daquilo que, um dia, representou para as crianças de minha geração. Nascidas na era das transmissões em "streaming" e dos serviços "on demand", elas não compreendem a lógica jurássica de o espectador ter de se submeter, passivamente, às grades de programação impostas pelos canais X, Y ou Z.

Seletivas, montam o próprio cardápio de filmes, vídeos, séries, desenhos e clipes musicais, a partir de variadas fontes, para assisti-los na hora em que bem desejarem, dentro dos limites de seu tempo livre. E fazem isso recorrendo às mais diversas plataformas, seja na tela grande do aparelho da sala de estar ou nas telinhas dos tablets e celulares. Para minhas meninas, o formato engessado das emissoras tradicionais de TV e mesmo dos canais das operadoras por assinatura não fazem o mínimo sentido.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 09/07/2017.
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domingo, 25 de junho de 2017

Enquanto outro tempo não vem



É desolador. Como se não bastassem as crises moral, política e econômica que nos assolam e nos azucrinam há tanto tempo – e todas elas sem sinal de bom termo à vista –, parece também vivermos em um período de curto-circuito das sensibilidades, um certo apagão cultural, algum deficit coletivo de inteligência, uma incapacidade geral de interpretação de textos.

O Ministério da Educação, com apoio de pais desavisados e políticos oportunistas, mandou recolher das estantes das escolas públicas do país uma obra de literatura infantil inspirada nos gêneros narrativos populares, sob a acusação escalafobética de que ela seria "inadequada" à leitura das crianças por fazer, supostamente, a apologia do incesto.

A obra literária que caiu no Index Prohibitorum do Ministério da Educação é "Enquanto o Sono Não Vem", de José Mauro Brant, uma sensível e bem urdida seleta de recontos livremente baseados na tradição oral brasileira.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 25/06/2017.
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domingo, 11 de junho de 2017

A ciência cabocla dos profetas da chuva













Ele tem 78 anos e a pele tostada de sol. No registro do cartório, deram-lhe o nome de Francisco Quintino dos Santos. Desde criança, por causa da labuta cotidiana com o gado, todos do lugar o conhecem mesmo como Chico Leiteiro. Muitos dali preferem, contudo, com sincera deferência, tratá-lo pela qualificação de "profeta".

O termo, nesse caso, contrasta com o semblante sereno daquele homem pequenino, de sorriso fácil e candura agreste. Nada nele lembra a imagem estereotipada dos místicos sertanejos e dos antigos videntes das Escrituras, a barba desgrenhada, as longas madeixas sobre os ombros, os olhos esbugalhados voltados para o inefável, a túnica amarrada à cintura por uma corda.

Chico Leiteiro veste-se como qualquer sertanejo de Quixadá, cidade do interior cearense, a 167 quilômetros de Fortaleza: chapéu de palha à cabeça, chinelo de couro nos pés, camiseta branca de algodão, calças de tecido barato. "Desde que eu tinha dez anos de idade, o pessoal já me chamava de profeta", diz. "Ainda era menino quando aprendi, com meu pai, a ler no grande livro da natureza."

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 11/06/2017.
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domingo, 28 de maio de 2017

Tempos estranhos




Cena 1: Um batalhão de soldados aparelhados de fuzis investe contra a multidão, deixando atrás de si um rastro de destruição e brutalidade. As paredes das habitações coletivas são demolidas com violência, embora lá dentro ainda existam moradores que não tiveram para onde ir nem oportunidade de correr. Em meio aos estampidos, entre nuvens de fumaça e poeira, homens, mulheres e até crianças fogem atarantados, sem direção definida. Pela imprensa, o prefeito comemora, minimizando a ocorrência de feridos e desabrigados.

Essa bem que poderia ser uma narrativa do final do século 19. A descrição da derrubada do Cabeça de Porco, por exemplo, o maior cortiço do Rio à época. Um episódio ocorrido no tempo em que questões sociais e de saúde pública eram tratadas pelas autoridades a bala, como caso de polícia. O prefeito carioca de então, Barata Ribeiro, definira aquela ação armada como medida civilizatória, cruzada em nome da ordem e do progresso. Resultado do imbróglio: pessoas em situação de extremo risco, desalojadas à força, ocuparam as encostas dos morros vizinhos, dando origem às primeiras favelas do país.

Infelizmente, custa crer, tal barbárie não faz parte do passado. Não à toa, os tempos verbais do primeiro parágrafo deste texto estão todos no presente. O absurdo da cena deu-se há poucos dias, século 21, no coração da cidade mais rica e desenvolvida do país. A pretexto de exterminar a cracolândia, uma megaoperação posta em prática em São Paulo apenas conseguiu espalhar um problema que já era crônico por outras regiões da cidade. Mais de cem anos antes, um jornal carioca, "O Paiz", indagara a Barata Ribeiro: "A cabeça está decepada, mas o rabo, toda essa cauda de expulsos que trazeis atrás, onde a acomodareis?"

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 28/05/2017.
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domingo, 14 de maio de 2017

Demarcação, já!













Na pequena clareira no meio da selva, minha filha Alice, 7 anos, observava com atenção as palavras e gestos de Irê-miri, o índio tukano que nos servia de guia na trilha pela floresta amazônica.

Minutos antes, a bordo do navio que nos transportava pelas águas caudalosas do rio Negro, Alice apontara para o arco e flecha emoldurados na parede da cabine. Curiosa, indagara: "Pai, como os índios conseguem fazer coisas assim?". Parecia extasiada diante da beleza do artefato. Ao mesmo tempo, nascida na era dos celulares e tablets, mostrava-se intrigada com a perfeição de um instrumento produzido sem ajuda da alta tecnologia.

A certa altura da excursão mata adentro, como se tivesse conhecimento prévio da pergunta de minha filha, Irê-miri estancou o passo. De modo aparentemente aleatório, recolheu alguns gravetos, removeu pequenos cipós das árvores que nos rodeavam e, diante dos olhos cintilantes de Alice, confeccionou um arco e flecha. Mostrou então como o utensílio funcionava, numa breve demonstração de tiro ao alvo. Em seguida, convidou os integrantes do grupo que o acompanhava a fazer o mesmo.

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Texto publicado na Folha de S. Paulo em 14/05/2017.
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domingo, 30 de abril de 2017

A segunda morte de Mário de Andrade



Muita gente fez cara de nojo. Como as autoridades permitiriam tamanho disparate? De quem teria partido a ideia de profanar o palco do Theatro Municipal de São Paulo –templo sagrado da cultura erudita, símbolo dos anseios cosmopolitas da mais alta sociedade paulistana–, permitindo a apresentação de um reles sambista, animador de gafieiras e cabarés do Rio de Janeiro?

Choveram protestos contra a presumida infâmia. José Barbosa da Silva, o Sinhô, coroado Rei do Samba pela imprensa carioca, iria protagonizar, de violão em punho, noitada musical em uma das principais casas de espetáculos do país, construção luxuosíssima, inspirada na Ópera de Paris e erigida com recursos provenientes das algibeiras dos barões do café.

Era maio de 1929. Enquanto a aristocracia e setores da intelectualidade conservadora esbravejavam, o escritor modernista Mário de Andrade, na coluna "Táxi", no "Diário Nacional", sentenciava, com a autoridade de agudo estudioso dos saberes populares: "Sinhô é poeta e músico". 

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Texto publicado na Folha de S. Folha, em 30/4/2017.
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