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Entrevista com gente morta

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Carta do padre aos inquisidores

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Padre Cícero, segundo o Vaticano

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Um gênio da fotografia

Está no ar, em caráter experimental, o blog da biografia "Getúlio".  Desenhado em plataforma Wordpress, o blog traz informações atualizadas, notícias de imprensa, fotos e vídeos relacionados à obra, que será uma trilogia, com edição da Companhia das Letras. O primeiro volume chega às livrarias no começo de 2012. Para acessar o novo blog, vá ao seguinte endereço: http://biografiagetuliovargas.wordpress.com/. Ou clique aqui.

Cinema na terra do Padre Cícero



Estarei nesta terça-feira, 14 de junho, em Juazeiro do Norte, convidado para fazer a palestra de encerramento da programação local do Cine Ceará 2011. Este ano, o festival tem como subsede a cidade em que viveu Padre Cícero, onde está ocorrendo, entre outras atividades, o seminário "Religião e Religiosidade no Cinema".


Abaixo, a programação completa do seminário em Juazeiro, que foi aberto neste domingo por Ariano Suassuna:


12 de junho, domingo

Abertura

Exibição do filme Joaseiro do Padre Cícero, de Adhemar Bezerra de Albuquerque.

Constituição da mesa pelas autoridades civis, religiosas, acadêmicas e os conferencistas convidados.

Aula espetáculo

Convidado: Ariano Suassuna

(Dramaturgo, romancista e poeta. Autor da peça teatral O auto da Compadecida; fundador do Movimento Armorial)

Conferência: "Cinema e Religião"

Conferencista: João José Miranda Vila-Chã, sj

(Filósofo, professor da Pontificia Università Gregoriana-Roma, diretor durante 10 anos da Revista Portuguesa de Filosofia e presidente em exercício da Conférence Mondiale des Institutions Universitaires de Philosophie – COMIUCAP)

Moderador: Mano Granjeiro


13 de junho, segunda-feira

Mesa-Redonda

Filme em debate: O pagador de promessas, de Anselmo Duarte

- Francisco Regis Lopes Ramos

(Historiador, professor da UFC; ex-diretor do Museu do Ceará e atual diretor do Núcleo de Documentação Cultural da UFC)

- Sulamita Vieira

(Socióloga, professora da UFC; autora de O Sertão em movimento: a dinâmica da produção cultural e Velhos sanfoneiros)

Moderador: Luís Celestino de França Júnior


14 de junho, terça-feira

Mesa-Redonda

Filme em debate: Juazeiro, a nova Jerusalém, de Rosemberg Cariry

- Rosemberg Cariry

(Poeta e cineasta, produziu e dirigiu 10 longas-metragens)

- Annette Dumoulin

(Psicóloga, coordenadora da Pastoral da Romaria da Diocese de Crato, autora com Ir. Ana Teresa do livro Padre Cícero por ele mesmo)

Moderador: Renato Dantas

Encerramento

Palestra com Lira Neto

(escritor e jornalista, autor do livro Padre Cícero, poder, fé e guerra no sertão)

A Fome, de Rodolfo Teófilo, reeditada




A Tordesilhas, de São Paulo, chega ao mercado apostando em um catálogo de boa literatura nacional e estrangeira. Entre os primeiros títulos lançados pelo novo selo, está a reedição de "A Fome", do escritor e cientista cearense Rodolfo Teófilo, publicado originalmente em 1890. Escrevi o posfácio para a edição caprichada, a cargo de Joaci Furtado, ex-editor da Globo Livros, que assumiu o leme da Tordesilhas.

Teófilo foi meu primeiro biografado. Em 1998, publiquei "O Poder e a Peste - A vida de Rodolfo Teófilo" (Edições Demócrito Rocha, de Fortaleza). Foi o livro que me abriu caminho para as biografias de Castello, Alencar, Maysa, Padre Cícero e, agora, Getúlio Vargas.

Abaixo, trechos da excelente resenha de "A Fome" escrita pelo jornalista, crítico literário e escritor José Castello, publicada pelo "O Globo":


Antonin Artaud dizia que o problema da literatura não é impedir um homem de passar fome, porque a literatura não pode fazer isso, mas nele despertar ideias cujo poder de convencimento se assemelhe ao da fome. Acreditava Artaud que temos, sim, fome de literatura, e o mais estranho: essa fome não se mata com a literatura. Ler ficções só a torna mais aflitiva e intensa.

Talvez a literatura possa ser pensada como uma máquina de produzir mais fome. Novas fomes.Tiro essas ideias da epígrafe de “A arte da fome”, ensaio que Paul Auster publicou em 1970. O tema de Auster é “Fome”, o inquietante romance que o norueguês Knut Hamsun publicou no inverno de 1890.

Inexplicável sincronia: no mesmo ano de 1890, sob o sol de Fortaleza, o farmacêutico Rodolfo Teófilo lança “A fome”, um dos mais desprezados, mas também mais fortes romances da literatura brasileira. Tem 37 anos de idade. Ao publicar seu livro, Knut Hamsun tem 31. São dois jovens homens atordoados pela realidade e suas exigências. E o que é a realidade, senão a fome de mais realidade?Uma mesma palavra, fome, e duas direções.

O protagonista sem nome de Hamsun vagueia por Kristiana, hoje Oslo, tentando ligar duas coisas, fome e escrita, que não se ligam. Resume Auster: “Se não escrever, não vai poder comer. E se não comer, não vai poder escrever”. Não tem sequer um lápis. Quando consegue um emprego, na carta de apresentação, em vez de datar “1890”, erra e escreve: “1848”. Perde o trabalho, a fome se expande e o devora. Sim: a fome come o homem. Diz:“Começaram a introduzir-se em meu interior manchas apodrecidas, manchas negras que se estendiam cada vez mais”.

Terríveis feridas também se espalham pelo mundo de Manuel de Freitas, o protagonista de “A fome”, o primeiro romance de Rodolfo Teófilo (editora Tordesilhas, organização e notas de Waldemar Rodrigues Pereira Filho e posfácio de Lira Neto). O relato inspira-se na grande seca que devastou o Ceará entre 1877 e 1878, quando mais de 300 mil pessoas, ou morreram de fome, ou fugiram. Farmacêutico engajado, Teófilo envolveu-se, ainda, com a luta abolicionista e, durante a epidemia de varíola dos anos 1900, inventou uma vacina que mereceu registro no Instituto de Manguinhos.

É com o mesmo espírito de combate e raiva que ele escreve “A fome”. Pensava Teófilo que a literatura, se não pode saciar os famintos, pode salvá-los. Adepto da estética naturalista, que ele adaptou aos princípios do regionalismo, concebeu a ficção como uma síntese dos piores aspectos do mundo real; reunião, no entanto, benigna, que em vez de matar, concentra o desespero e o converte em vida. Com o mesmo desejo de salvação, Rodolfo Teófilo foi o inventor da cajuína, bebida derivada do suco do caju e ainda hoj e muito popular no Nordeste, com que pretendia combater o alcoolismo. Ele a via como um substituto benévolo da cachaça — assim como a literatura, incorporando a brutalidade do mundo, a substituía e domava.

Não é fácil ler “A fome”, romance que Teófilo escreveu com o rigor, mas também a crueza de um cientista. Avanço, com grande desconforto, entre cenas dolorosas, em que a fome surge não só como falta, mas como excesso. Não só como ausência que perfura, mas como monstro que devora. A fome, dizia Glauber Rocha, é “nossa originalidade”. Defendia Glauber que dela arrancássemos não só a dor, mas uma estética. A experiência radical da carência, se aniquila e mata, abre espaço para uma ficção densa (sangue derramado), que não é elevação, ou exibição intelectual, mas a cola áspera com que nos grudamos ao real. Com que nós o suportamos.

A fome extrema, em vez de ser um vazio, é um depósito do Mal. Com a seca de 1877, de fazendeiro pródigo Manuel de Freitas, o protagonista, se torna retirante. À deriva pelo sertão, ele atravessa um “deserto cheio” que só a fome consegue produzir. As cenas são arrepiantes: ultrapassam nossa capacidade de digestão. Um bebê mama no seio da mãe morta. Logo depois, um cão delicia-se com as vísceras de seu falecido dono — e Manuel, horrorizado, duplica o horror: ele o mata a machadadas. Morcegos sugam o sangue de uma mulher morta: um a um, Manuel os estrangula. Um esfomeado, ferido no braço, bebe em desespero do próprio sangue. Não saciado, arranca com os dentes nacos do próprio braço, que mastiga com prazer. Deitada sobre uma pedra, na postura de crucificada, uma mulher, ainda viva, tem os intestinos devorado por urubus.

Fome: não a falta, mas transbordamento. No lugar do alimento ausente, um excesso que sufoca.Volto ao relato de Hamsun: “O solo tinha um aspecto de deserto. Árvores desfolhadas enchiam áreas de léguas com uma monotonia de cemitério”. A fome preenche esse deserto com o horror. Dele o escritor se alimenta. Confrontado com a penúria extrema, seu herói resolve “dizer a verdade tal como é”. Com uma frieza de cirurgião, também Knut Hamsun nos joga não na cara do real — porque este nunca se vê —, mas contra os seus espinhos. Na fome, é o sangue que se derrama.

Também a comida intoxica e embriaga. Ouçam o norueguês: “Disse a mim mesmo que se agora voltasse a comer, minha cabeça se transtornaria de novo, a febre se apoderaria de meu cérebro e teria muitas ideias enlouquecidas contra que lutar”. Claro que a fome é inaceitável e vergonhosa. Contudo, não basta comer para matá-la. O personagem de Hamsun quer dinheiro para se alimentar, mas também para conseguir escrever. “Ele perde tudo — até a si mesmo”, observa Auster. Não é por acaso que não tem um nome: “Ele não diz quem é porque não sabe. Seu nome é uma mentira e com esta mentira desaparece a realidade de seu mundo”. O que busca? Algo muito anterior: a fome de ter fome.

Volto ao romance de Rodolfo Teófilo. Trata não só do horror da fome, mas da fome transformada em horror. Não é preciso invocar espectros, psicopatas, ou feiticeiros: o horror está em nós. Com a comida do dia a dia, nós só o controlamos. Lendo “A fome”, ocorre-me que precisamos pensar duas vezes quando, na primeira esquina, com a alma arrepiada pelo desespero, um miserável nos pede comida. Pode ser nosso espelho.

Pé na estrada: Viagem Literária





De 1 a 3 de junho, colocarei o pé na estrada, dentro do projeto Viagem Literária, da Secretaria de Cultura de São Paulo, que promove turnês de escritores pelo interior do estado.

Este mês, junho, o Viagem Literária terá a participação também de Ferreira Gullar, Ronaldo Correia de Brito, Milton Hatoum, Ignácio de Loyola Brandão, Zuenir Ventura, Fernando Gabeira, Luiz Ruffato, Michel Laub, Marcia Tiburi, Menalton Braff, Clóvis Bulcão e Rodrigo Lacerda.


No dia 1, estarei em Pacaembu e Tupi Paulista. No dia 2, em Caiabu e Presidente Venceslau. No dia 3, em Taciba e Anhumas.

Folha: "Figura polifônica de Getúlio
tornará controversa qualquer biografia dele"



(Lira Neto, especial para a Folha)

Em 1950, Rubens Vidal, repórter da extinta "Revista do Globo", desceu em um bimotor na fazenda Santos Reis, no interior do Rio Grande do Sul, com um propósito: pretendia escrever a biografia do ex-ditador que, deposto cinco anos antes, preparava-se para voltar ao Catete consagrado pelo voto popular.

"Sou contra biografias", rechaçou Getúlio. Tratava-se de meia verdade. Ele já abrira parte de seus arquivos para três biógrafos. O resultado foram três panegíricos lançados em pleno Estado Novo.

Getúlio não era contra biografias. Na verdade, era a favor. Mas, como todo biografado, desde que elas falassem bem dele. Dono de uma trajetória controvertida, Getúlio, voluntariamente ou não, forneceria ainda muitas histórias para os pretendentes a biógrafos, fossem apologistas ou detratores. Talvez seja o personagem histórico sobre o qual mais se escreveu no Brasil. A despeito disso, curiosamente, não há uma grande biografia sobre ele.

Quando propus a Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, uma biografia de Getúlio, sabia o tamanho da encrenca em que me metia. Mas o apoio e o entusiasmo de Luiz foram tão animadores que comecei a trabalhar nisso um dia depois de apresentar à editora os originais de "Padre Cícero", meu livro mais recente.

Há um ano, com a ajuda de uma boa equipe de pesquisadores, venho mergulhando em arquivos públicos e privados, de várias partes do país e do exterior. Foram visitadas dezenas de instituições e consultadas até agora cerca de 50 mil páginas de documentos: cartas, processos judiciais, telegramas, despachos, bilhetes, periódicos, relatórios, memorandos e mensagens oficiais.

Há muito mais a pesquisar, escarafunchar, descobrir. Só o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, é um universo.

Como repórter, sempre acreditei na investigação rigorosa, paciente e excitante em fontes primárias, ferramenta básica do jornalismo. Não se faz boa narrativa histórica sem isso, a menos que se pretenda chover no molhado, fazer revisão bibliográfica, pôr em linguagem corrente o que já se escreveu.

Basta dizer que todos os autores que já trataram da juventude de Getúlio, por exemplo, repetiram-se insistentemente, sem avançar muito, quando se referem a dois esqueletos no armário dessa história: Getúlio teria mesmo, aos 14 anos, matado um estudante paulista em Ouro Preto? E, nos anos 20, teria realmente assassinado um índio no interior gaúcho?

As pistas para as respostas estão nos inquéritos policiais e nos processos judiciais que permaneciam, até aqui, aparentemente intocados em arquivos em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. É imperativo gastar sola de sapato, decifrar caligrafias garranchudas, dialogar com documentos cobertos de pó. O grande desafio para qualquer biógrafo é construir, a partir desse amontoado de informações documentais, uma narrativa coesa e atraente.

No caso de uma história polifônica e fascinante como a de Getúlio, trata-se de uma equação ainda mais intrincada: tentar captar o biografado em todas as dimensões, articular a trajetória pública e os caminhos da vida privada, explorar o contexto em que agiu, transformou e, também, foi transformado.

Getúlio soube fabricar uma imagem pública sobre a qual até hoje se discute a partir de posições extremadas. Uma biografia dele, necessariamente, ainda que busque a isenção e o equilíbrio, também deverá ser alvo de controvérsias. "Sou contra biografias", diria, numa hora dessas, o próprio Getúlio.


Texto publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 23 de outubro de 2010.

Zero Hora: "Getúlio continua sendo uma esfinge"




(Por Antônio Luiz Araújo) - Zero Hora (RS).

Biógrafo consagrado de vultos históricos, o escritor e jornalista Lira Neto se dedica há cerca de um ano a um livro sobre a vida de Getúlio Vargas. A obra terá a forma de uma trilogia, com cerca de 500 páginas, em média, por volume. Nascido no Ceará e radicado em São Paulo, Lira diz: "Na Presidência, ninguém foi mais enigmático, contraditório, ambivalente". O escritor se esquiva de revelar a data prevista para o lançamento da obra. Aceitou, no entanto, um pedido de Zero Hora para responder, por e-mail, a perguntas sobre seu trabalho. A seguir, um resumo:

Zero HoraPor que o senhor decidiu biografar Getúlio Vargas?
Lira Neto
– Sempre me surpreendeu o fato de Getúlio ainda não ter sido alvo de uma biografia jornalística, moderna, exaustiva. Vinha flertando com o tema há vários anos. Em 2009, depois de entregar os originais de meu livro mais recente, Padre Cícero – Poder, Fé e Guerra no Sertão, resolvi que era chegada a hora de encarar o desafio. Tem sido fundamental a estrutura, a atenção e o apoio estratégico fornecido pela editora que publicará a obra, a Companhia das Letras.

ZH – Como o senhor define Vargas?
Lira – O melhor biografado é aquele que não pode ser definido com uma única palavra, numa única frase, em um único parágrafo, um único capítulo e, às vezes, nem mesmo em um único livro. No caso de padre Cícero, a pergunta que perpassa as quase 600 páginas da obra é exatamente esta: afinal, quem foi Cícero Romão Batista? Ao final da leitura, se tiver provocado no leitor mais dúvidas do que certezas absolutas, terei cumprido meu papel de biógrafo. Em se tratando de Getúlio, acredito em algo parecido.

ZH – A Era Vargas acabou?
Lira –
Bem ao contrário disso. Para o bem e para o mal, ela parece mais viva do que nunca. Ao longo das décadas, muitas vezes decretou-se o fim da chamada “Era Vargas”: em 1954, às vésperas da morte de Getúlio; em 1964, quando do golpe militar; em 1994, com a posse de Fernando Henrique Cardoso, que inclusive pregou em discurso a necessidade de virar tal “página da história”. Nos últimos anos, e particularmente na eleiçãos presidencial que está sendo travadas, o legado de Getúlio está mais uma vez em questão. Mais vivo e mais polêmico do que nunca.

ZH – Quem, na sua opinião, compreendeu melhor a figura de Vargas entre os historiadores?
Lira
Há inúmeros trabalhos acadêmicos sobre ele. No conjunto, há obras de interpretação interessantes e bem relevantes. Mas ele continua sendo essencialmente uma esfinge.

ZH – Qual é o método para não submergir nas fontes que constituem, hoje, a existência real de seu biografado?
Lira –
O maior erro, e sem dúvida o mais comum, é tentar dividir a vida de Getúlio em vários “Getúlios”: o revolucionário de 30, o ditador do Estado Novo, o populista do segundo governo, e por aí afora. Pode ser mais didático, mas também é mais mecânico, estanque e, portanto, simplista. O mais difícil e o mais excitante é tentar compreender como Getúlio foi capaz de redirecionar os rumos da história brasileira e, ao mesmo tempo, como também se permitiu direcionar e se reinventar a partir das transformações que ele mesmo foi produzindo. Maria Celina D’Araújo, por exemplo, em seus estudos, mostra isso de modo brilhante.

ZH – O senhor biografou o escritor José de Alencar, o padre Cícero e o general e presidente Humberto Castello Branco – cearenses, como o senhor. Como o fato de Vargas ser gaúcho repercute em seu trabalho?
Lira – O fato de ter biografado cearenses não foi, obviamente, uma coincidência. Isso tem relação imediata com o fato de serem personagens que, de um modo ou de outro, fazem parte de meu universo de interesse pessoal desde muito cedo. Mas biografei também a cantora Maysa, que era carioca, criada em São Paulo. Por meio de Maysa, biografei o fim da Era do Rádio e o início do mercado fonográfico, assim como o surgimento da TV e a pré-história da imprensa de celebridades. Getúlio, por sua vez, obviamente, não pertence apenas ao Rio Grande do Sul. Mas também é óbvio que precisei mergulhar fundo na gênese do biografado, procedendo a intensa pesquisa na história gaúcha, tarefa que foi facilitada pela excelência de trabalhos como os de Gunter Axt, Luciano Arrone Abreu, Joseph Love, Sandra Jatahy Pesavento, Maria Antonieta Antonacci, Ricardo Vélez Rodrigues, Eliane Colussi, Mario Maestri, Hélgio Trindade e tantos outros que, independentemente de pontos de vistas e conclusões antagônicas que possam ter, fornecem um painel rico e polifônico do Rio Grande da época. Ao evocar tais nomes assim, de memória, devo ter pecado pela omissão de alguns.

(Zero Hora, 16.10.2010)

Diário do Nordeste: "Decifrando Getúlio"



(Por Natercia Rocha) - Diário do Nordeste (CE).

Depois de cinco biografias - O Poder e a Peste: A Vida de Rodolfo Teófilo (1999), Castello-A Marcha para a Ditadura (2004), O Inimigo do Rei: uma biografia de José de Alencar (2006), Maysa - Só Numa Multidão de Amores (2007) e Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão (2009), o jornalista cearense Lira Neto está preparando seu novo trabalho. Dando continuidade à parceria com a editora Companhia das Letras, o escritor está trabalhando a biografia de um dos mais polêmicos, enigmáticos e controvertidos personagens da história brasileira: Getúlio Vargas.

"Dei início aos trabalhos na semana seguinte depois que entreguei os originais de Padre Cícero para a editora. Naquela ocasião, conversamos a respeito de novos projetos e disse que meu 'sonho de consumo' como escritor era biografar Getúlio Vargas", revela Lira. "Eles toparam na hora. Desde agosto de 2009, ou seja, há pouco mais de um ano, estou mergulhado nesse assunto".

Ainda sem previsão de título para o livro, o autor adianta que a trajetória de vida pessoal e pública de Getúlio Vargas será esquadrinhada em três volumes, cada um com cerca de 500 páginas, a serem lançados com espaçamento de, aproximadamente, um ano entre um e outro. "Não posso adiantar muita coisa, nem de conteúdo, nem de prazos, até porque o cronograma ainda está sendo acertado com a editora. Mas posso dizer que os três volumes darão conta de toda a trajetória de Getúlio Vargas".

Neste primeiro ano de trabalho, a pesquisa que Lira Neto vem desenvolvendo está concentrada na gênese da história do "pai dos pobres". Desde o nascimento, infância e juventude e formação política em São Borja, no Rio Grande do Sul, até sua chegada à presidência da República.

"A longa história de Getúlio Vargas estará condensada em três volumes, mas meu primeiro campo de interesse está focado no momento em que ele entra para a política como deputado estadual, depois deputado federal, governador e ministro do governo Washington Luís", ressalta o escritor.

Documentos inéditos

Apenas na etapa inicial da pesquisa, cinco estados brasileiros já foram percorridos pelo biógrafo em busca de arquivos públicos e privados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. Mas o autor adianta que serão vasculhados, também, arquivos internacionais.

"Esse livro, como todos os outros que escrevi, pretende ser apoiado, essencialmente, em fontes primárias. Não é uma simples pesquisa bibliográfica. Queremos trazer à luz uma série de documentos pouco visitados pela historiografia ou, em grande parte, absolutamente inéditos", destaca.

"Em Minas Gerais, estive em Ouro Preto, local de passagem de Getúlio na pré-adolescência, quando estudou lá. Mas é no Rio Grande do Sul, tanto em São Borja, quanto em Porto Alegre, onde está o grosso da primeira fase da pesquisa, a maior parte dos documentos consultados. No Rio de Janeiro, no Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas, estão os arquivos pessoais dele. E em São Paulo as hemerotecas são muito ricas", enfatiza. "Mas não vou me restringir a arquivos somente brasileiros. Pretendo contemplar, e já comecei a fazer isso, arquivos no exterior, especificamente nos Estados Unidos, Itália e Alemanha".

Enquanto avança na pesquisa, o autor se prepara para receber a estatueta do 52º Prêmio Jabuti, por Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão, que ficou em segundo lugar (em empate com Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory. O primeiro lugar foi para Nem Vem que Não Tem - Vida e Veneno de Wilson Simonal, de Ricardo Alexandre). Outra novidade é que, este ano, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) está com votação aberta para o "Júri Popular", em que internautas elegerão, entre os vencedores de ficção e não-ficção, o "Livro do Ano".

Diário do Nordeste, 15/10/2010

É eleição para presidente ou para sacristão?



"Pretendemos, nesta hora grave para a família brasileira, inscrever a sua defesa em nosso programa político”. Responda rápido: quem disse essa frase? José Serra? Dilma Rousseff? Pois é. Poderia muito bem ter sido um ou outro. Mas foi o autoritário Plínio Salgado, mentor da Ação Integralista Brasileira, movimento inspirado no fascismo italiano de Benito Mussolini.

No histórico manifesto de outubro de 1932, considerado a certidão de nascimento do Integralismo, Plínio dedicou um capítulo inteiro à defesa do binômio “Família e Nação”. Agora, quase 80 anos depois, em pleno século 21, Dilma e Serra fazem uma campanha presidencial rasteira e envelhecida, baseada na mesma ladainha dos caricatos galinhas verdes.

“Dilma vai apoiar a família brasileira", diz o programa do PT, no horário eleitoral da televisão. "Quero defender a família brasileira", exclama por sua vez José Serra. O regozijo por finalmente termos dois candidatos modernos, disputando uma eleição presidencial no Brasil, esfarelou-se. Ambos preferiram enxovalhar as próprias biografias ao reduzirem a contenda a uma futrica moralista.

Tão constrangedor quanto assistir a Dilma Rousseff atrapalhando-se na hora de fazer o sinal da cruz na missa em Aparecida do Norte é ver José Serra beijando crucifixos em público. Convertidos a um cristianismo de ocasião, Dilma e Serra, orientados por seus respectivos marqueteiros, apequenam-se diante de si mesmos e aos olhos do eleitorado. Nem parece que são candidatos à presidência da República. Dão a impressão que estão concorrendo para saber quem vai cuidar da sacristia.

Ao ressuscitar a face mais conservadora do catolicismo em pleno horário eleitoral, Dilma e Serra realmente fazem a política retroagir decênios. Há temas urgentes, que precisariam ser discutidos por aqueles que se propõem a governar o país. Chega a ser vexatória a constatação de que a figura moralmente mais conservadora entre os principais candidatos do primeiro turno, Marina Silva – em quem não votei –, foi quem pautou as discussões mais contemporâneas e relevantes da campanha até aqui.

Agora, no segundo turno, ao mirarem o eleitorado da evangélica Marina, o senhor José Serra e a senhora Dilma Rousseff apropriaram-se exatamente do que havia de mais retrógrado nele, ignorando os aspectos de renovação política que a candidata pelo Partido Verde, bem ou mal, pôs em debate. Para usar a metáfora bíblica, como inclusive parece convir ao maniqueísmo que ora assola o país, postos entre a Luz e a Treva, Serra e Dilma estão apostando, de caso pensado, na Treva.

Pelo twitter, o coordenador de comunicação do PT, deputado André Vargas, expeliu recentemente a seguinte boutade, referindo-se ao adversário José Serra: “O Brasil verdadeiramente cristão não votará em quem introduziu a pílula do dia seguinte, que na pratica estimula milhões de abortos”.

A frase do senhor André Vargas é tão obscurantista quanto o despropósito da campanha tucana, que colou em Dilma Rousseff a pecha de ser a favor da descriminalização do aborto – coisa que deveria estar sendo discutida com maturidade, e de forma desassombrada, por qualquer cidadão preocupado com os índices de mortalidade de mulheres brasileiras que recorrem ao Citotec para interromper uma gravidez indesejada.

Não me espantarei se, dentro de alguns dias, algum marqueteiro a serviço do PT ou do PSDB sugerir à cúpula partidária a organização de manifestações públicas nos mesmos moldes das antigas marchas da família com Deus pela liberdade. Além de exumarem Plínio Salgado, os marqueteiros e coordenadores de comunicação de Dilma e Serra estão evocando os fantasmas de Carlos Lacerda e da velha UDN para nos assombrar.

A diferença é que ninguém precisa mais sair às ruas para levantar bandeiras contra ou a favor do que quer que seja. O mais desconcertante é exatamente isso. A internet, símbolo dos novos tempos de comunicação global e instantânea, é o instrumento escolhido pelos arautos do anacronismo para deflagrar a mais carola de todas as cruzadas eleitorais das últimas décadas.

Saímos do século 20. Mas o século 20, infelizmente, ainda não saiu de dentro de nós.

Texto publicado originalmente no caderno Outlook do Brasil Econômico, em 15 de outubro de 2010.

"Padre Cícero" ganha Prêmio Jabuti de Literatura




Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, publicado pela Companhia das Letras, ficou com o segundo lugar, na categoria biografia, do Prêmio Jabuti de Literatura. A lista dos vencedores foi divulgada hoje, 1 de outubro, pela Câmara Brasileira do Livro. A relação completa, segundo o blog do caderno "Prosa e Verso", do O Globo, é a seguinte:


"Se eu fechar os olhos", "Leite derramado" e "Os espiões" são os vencedores da categoria "Romance".

Os vencedores da categoria "Contos e crônicas" são: "Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras histórias de amor)", "A máquina de revelar destinos não cumpridos", "Paulicéia dilacerada". "Crônicas inéditas" (Manuel Bandeira), terceiro lugar da categoria "Contos e crônicas", vai concorrer na categoria póstuma

Venceram a categoria "Poesia": "Passageira em trânsito", "Sangradas escrituras" e "Lar".

Venceram a categoria "Biografia", na ordem: "Nem vem que não tem: vida e veneno de Wilson Simonal", "Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão" e "Euclides da Cunha: uma odisséia nos trópicos" empataram em segundo e, em terceiro ficou "Bendito, maldito: uma biografia de Plínio Marcos".

A categoria "Reportagem" tem como vencedores "O leitor apaixonado, prazeres a luz do abajur", "Olho por olho: livros secretos da ditadura" e "Conversas de cafetinas".

Os vencedores da categoria "Infantil" são: "Os herdeiros do lobo", "Carvoeirinhos" e "A visita dos dez monstrinhos".

Os vencedores da categoria "Juvenil" são: "Avó dezanove e o segredo soviético", "Marginal: à esquerda" e "Sofia e outros contos".

Os vencedores da categoria "Capa" são: "O resto é ruído: escutando o século XX", "Salas e abismos" e "Os espiões".

Em "Teoria e crítica literária" os vencedores na ordem foram: "A clave do poético","O controle do imaginário e a afirmação do romance" e "Cinzas do espólio".

Venceram na categoria "Tradução": em primeiro lugar "O leão e o chacal mergulhador", em segundo, "Canção do venrável" e em terceiro, "Trabalhar cansa".

A segunda categoria apurada foi "Arquitetura e urbanismo, fotografia, comunicação e artes". Os vencedores, na ordem, foram "Athos Bulcão", a coleção "Brasiliana Itaú", e "Ética, jornalismo e nova mídia".

Os vencedores em "Projeto gráfico" são, na ordem: "Igreja e convento de São Francisco da Bahia", a edição de colecionador de "Alice no país das maravilhas" e "Rino Lins, uma gráfica de fonteira".

O primeiro lugar da categoria "Ilustração" é "Já já: a história de uma árvore apressada". Em segundo lugar, estão empatados "O lobo" e "Marginal : esquerda". Também empatados em terceiro: "O tamanho da gente" e "O passarinho que não queria só cantar".

Na categoria "Ciências exatas, tecnologia e informática" venceram: "Obra científica de Mario Schomberg", "Linguagens formais, teoria, modelagem e implementação" e "Química verde".

Os vencedores de "Educação, psicologia e psicanálise" são: "O tempo e o cão", "Caderno sobre o mal" e "Brasil arcaico, escola nova: ciência, técnica e utopia nos anos".

Vencedores da categoria "Didático e paradidático": "Uma história da cultura afrobrasileira", "Coleção gira mundo" e "Almanaque de sentidos".

Venmceram na categoria "Economia, administração e negócios": "Trabalho flexível empregos precários?", "Os anos de chumbo" e "Biocombustíveis, energia da controvérsia".

Venceram a categoria "Direito": "A constituição na vida dos povos", "Direito das companhias", "Curso de direito tributário: constituição e código tributário nacional".

Venceram a categoria "Ciências humanas": "Viver em risco", "A luta pela anistia" e "Um enigma chamado Brasil".

Venceram a categoria "Ciências naturais e da saúde": "Clínica médica", "Manual de diagnóstico e tratamento para residentes de cirurgia" e "Medicina laboratorial para o clínico".

Venceram a categoria "Tradução de obra literária do espanhol para o português": "Purgatório", "Três tristes tigres", "Cem anos de solidão".


(Fonte: Prosa Online)

 

2009 ·Lira Neto by TNB