terça-feira, 25 de novembro de 2014

Duas leituras, duas interpretações


De um lado, o tucano Alberto Goldman, no site do PSDB. De outro, Ricardo Kotscho, ex-assessor de Lula, no blog que mantém no R7. 
Ambos terminaram de ler o terceiro e último volume da biografia Getúlio. Cada um, a seu modo, e sob perspectiva específica, compara a crise de 1954 com os cenários contemporâneos da vida política nacional. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Em nome de Vlado; ditadura, nunca mais


O Fórum das Letras, que se encerrou ontem em Ouro Preto, me trouxe uma série de emoções, reflexões e alegrias simultâneas. Um desses momentos especiais ocorreu exatamente quando tive a honra de dividir um painel do Ciclo de Jornalismo com três mestres do ofício: Audálio Dantas, Ricardo Kotscho e Paulo Markun.

Sou um pouco mais novo que eles e, além disso, ingressei na profissão muito tarde, por volta dos 30 anos de idade. Por esse motivo, bem antes de me tornar também repórter, já tinha Audálio, Kotscho e Markun como referências essenciais na arte da reportagem.

O fato é que, durante cinco dias, alternei perambulações pelas ruas estreitas e sinuosas da velha Ouro Preto – admirando o casario colonial e mergulhando na quantidade de história que existe ali, pulsando, em cada esquina – com as mesas-redondas e palestras da programação oficial do evento.

Para mim, contudo, um dos instantes mais tocantes do Fórum das Letras foi poder assistir, da plateia, ao painel em que Audálio, Kotscho e Markun, ao lado do cineasta João Batista de Andrade (O homem que virou suco, Doramundo e O país dos tenentes, entre tantos outros), desfiaram suas lembranças sobre Vladimir Herzog, o Vlado, personagem com quem conviveram e de quem foram amigos.

João Batista emocionou-se ao narrar episódios vividos ao lado de Vlado, morto numa cela do DOI-CODI. Markun, por sua vez, relembrou os dias tormentosos que, naquela mesma época, ele próprio experimentou, junto com a esposa, a também jornalista Dilea Frate, ambos submetidos a terríveis sessões de tortura.

Apesar dos horrores que sofreu, Paulo Markun nunca trilhou o caminho fácil da vitimização e da autopiedade. Diante de um auditório composto essencialmente por universitários, coube a Kotscho informar à jovem audiência que Markun e Dilea, quando presos e torturados, foram obrigados a deixar em casa uma filhinha de apenas seis meses de vida.

Em sua participação, Audálio lamentou que, exatamente naquele mesmo dia em que ele, Markun, Kotscho e João Batista estavam ali, em Ouro Preto, homenageando Vladimir Herzog, uma manifestação na avenida Paulista, em São Paulo, estivesse pedindo a volta da ditadura e dos militares ao poder.

Foi quando Markun ponderou que, graças à democracia, regime pelo qual os quatro componentes do referido painel tanto lutaram, os manifestantes paulistas podiam ir agora às ruas para, por perversa ironia – e por suprema ignorância histórica, acrescento eu –, gritar palavras de ordem e erguer cartazes contra esta mesma ainda tenra e preciosa democracia.

Mais tarde, enquanto todos jantávamos, agora dividindo uma mesa no restaurante simpático sugerido por Guiomar de Grammont – a incansável e gentil idealizadora do Fórum das Letras –, fiquei por um minuto olhando para aqueles quatro cavalheiros que, juntos, representam uma parte significativa da história recente do jornalismo e da cultura de nosso país.

A conversa, inevitavelmente, derivou em certo instante para o cenário político contemporâneo. João Batista de Andrade, sabe-se, apoiou Aécio Neves nas últimas eleições presidenciais. Kotscho e Audálio, ao contrário, votaram em Dilma. A despeito das respectivas opções eleitorais, o grupo comungava da mesma civilidade e do mesmo respeito às eventuais divergências.

Em um ponto, particularmente, todos eles eram unânimes. Há que se respeitar a vontade soberana das urnas. Há que se comemorar a possibilidade de hoje, manifestarmos livremente ocasionais discordâncias. Há que se cuidar, com atenção, vigilância e afinco, da nossa democracia, tão duramente conquistada e construída.

Ditadura, nunca mais. Por Vlado. Por nós. Por nossos filhos. Pelo Brasil.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

De volta a Ouro Preto


Bom estar de volta à belíssima e acolhedora Ouro Preto, agora para participar do já tradicional Fórum das Letras, que nesta edição tem como tema geral o mote “Escritas em transe: 50 anos do golpe militar, 30 anos das Diretas-Já”.

O evento reunirá na cidade, durante toda a semana, um time de autores e jornalistas de primeira linha, a exemplo de Audálio Dantas, Eric Nepomuceno, Fabrício Carpinejar, Fernando Morais, Frei Betto, Geneton Moraes Neto, Leonardo Sakamoto, José Castello, Heloísa Starling, Manuel da Costa Pinto, Mário Magalhães, Mário Prata, Paulo Markun e Ricardo Kotscho, entre muitos outros.

Vai ser um prazer encontrar tanta gente boa, rever diletos colegas e velhos amigos.

Para mim, de modo específico, além do fato de me sentir honrado por ter sido convidado para compor uma programação tão seleta, o retorno a Ouro Preto tem outro significado especial.

A cidade foi, há seis anos, um dos meus primeiros destinos logo no início da pesquisa que resultou nos três volumes da biografia do ex-presidente Getúlio Vargas.

Pouco depois de ter ido a São Borja, no Rio Grande do Sul, para conhecer a terra onde nasceu o biografado, vim a Ouro Preto em busca dos rastros históricos de um menino chamado Getúlio, então aluno do Ginásio Mineiro.

Foi no acervo do Museu Casa dos Contos, aliás, que tive acesso à íntegra do inquérito policial a respeito da morte do estudante paulista Carlos de Almeida Prado, o Caíto, morto por uma bala disparada pelo irmão mais velho de Getúlio, Viriato Vargas, em 1897, numa rua de Ouro Preto.

Como vim direto de Belo Horizonte, onde participei ontem do Sempre um Papo, acabei chegando um dia antes da abertura oficial do Fórum das Letras. 

Assim, aproveitei a tarde de folga para bater perna pelas ruas e ladeiras da cidade, com a máquina fotográfica a tiracolo, matando a saudade destes cenários formidáveis, onde cada janela, cada beiral, cada pedra de calçamento, cada igreja que encontramos pelo caminho nos conta uma história recheada de emoções, injustiças, heroísmos, intrigas, gritos de liberdade e traições.